5.7.05

lençóis de âncora

Fui dormir outro dia, dia de lençóis limpos, e eu adoro dia de lençóis limpos. Parece que durmo melhor, e eu não sou de dormir lá muito bem. Eu amo dormir, fato, mas meu sono é sempre meio perturbado. Já pensei em várias explicações, meus sonhos não são sempre bons, sempre acho que há algo de aprendizado que posso tirar deles, algo pra aplicar na vida real, enfim. Nunca gostei da hora de dormir. Bem, voltando, lençóis limpos, fui deitar na outra noite, estava frio. Puxei os lençóis de florzinhas azuis e me cobri quase até a cabeça. Daí senti um cheiro familiar. Cheiro de outros lençóis. Senti saudades dos outros lençóis, mas não há nada que possa fazer. Só continuar a sentir o cheiro dos outros lençóis, da casa de outra pessoa, não a minha. Aceitar que não são os meus lençóis. Mas pra mim, sempre serão. E agora, toda noite que eu vou dormir, sinto esse cheiro, e imagino estar perto daquela pessoa com os tais lençóis de âncora.

o muro da dedé

30.6.05

Grandes Vultos dos Anos 70 -06


(ganhar a guerra fria com Reagan no comando é que nem ganhar Copa do Mundo com Zagallo de técnico)


Filthy McNasty

24.6.05

sara

se sara sarar d. saramp.
sara será sereia
p.is sara nã. é feia
emb.ra nã. seja um anj.
merece um s.l. de banj.

chacalog

22.6.05

fumaça de hortelã

O homem tem um plano ambicioso: inventar um cigarro inócuo, sem tabaco, sem nicotina. "Este não mata", multiplicam outdoors; um autêntico benfeitor da humanidade, ora se não. Ainda hoje ele pode ser visto perambulando, muito compenetrado, fumando matinhos sem nome em quintais alheios. "Minhas pesquisas", é tudo o que diz quando perguntado, virando o rosto antes que se lhe notem o cansaço nas pálpebras.

1 leitor Online

...

o que passou pela cabeça do violinista
em que a morte acentuou a palidez ao
despenhar-se com sua cabeleira negra &
seu stradivarius no grande desastre
aéreo de ontem




mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

também temos café e cigarros

12.6.05

O Estraga Prazeres

- Uau! Que noite...
- Dormiu mal?
- Hum? Não... imagina. Tive um sonho erótico da melhor qualidade... E com o Casagrande... Dá pra acreditar?
- O jogador??
- É! O corintiano... Que coisa que é aquele menino. Nunca tinha reparado... Quem diria?
- Eeei, acorda! Foi um sonho. Eu estou aqui!
- Bobagem mozinho... Vai ter ciúme de sonho?
- ...
- E que sonho! E que noite! Salve o corinthians...
- É... deve ter sido uma noite e tanto mesmo. Uma noite "Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha"!
- Estraga prazeres...


Licor de Marula com Flocos de Milho Acuçarados

11.6.05

De repente

Bateu uma vontade de engasgar ao ouvir "Vento no Litoral". Uma vontade de sentir o coração disparar sem mais nem mais ante a visão de alguma garota imberbe tamaqueando pelas calçadas duma cidade litorânea. De olhar para o mundo à minha volta e morrer de insegurança pelo que ele pensava de mim. De sorrir ante a mínima expressão de espirituosidade. De apagar a luz e botar Waiting for the night, do Depeche Mode, ou Niagara, do Inspiral Carpets, no meio da noite da casa vazia. No máximo volume. Com um travesseiro na cara. De escrever e desenhar um diário. De hesitar ante a pergunta sobre o que eu seria quando crescesse. De ler Ana Karenina recostado no meu travesseiro de solteiro, torcendo pra ninguém lembrar que eu existia pelas horas seguintes. Deu, de repente, uma nostalgia.

Que passa logo, porque a vida insiste.

é por aqui que vai prá lá?

surto fashion descontrol é você, vendo que não tem uma meia que combine com a produção do dia, não pensar duas vezes antes de esgaçar a soquete rosa 27 a 32 da filha no seu pezinho 38 (torcendo para aquele "Barbie" enooorme no tornozelo ficar devidamente escondido pela barra do jeans) .

kaleidoscópio

Manhã de segunda-feira. Chuva.

Se estivéssemos em 1982, eu acordaria sem preocupações e ficaria brincando até a hora da escola. Em 1983, inventaria programas e entrevistas e passaria a manhã inteira fazendo gravações com meus irmãos no meu super-gravador-portátil. Em 1984, a manhã seria pequena para ler todos os livros que eu teria trazido da casa do meu avô no domingo.

Em 1985, perderia minutos preciosos de sono chorando na frente de um copo de nescau que eu não queria beber. Em 1986, calçaria um tênis de cor "proibida" pelas regras da escola e planejaria a estratégia para entrar sem ser vista pelo inspetor, como se esta fosse a maior transgressão do universo. Em 1987, correria para o espelho para verificar se o cabelo estava num "dia bom" e passaria lápis azul no olho, porque o ridículo não tem limite nem idade.

Em 1988, daria graças a deus por voltar a estudar à tarde, ficaria lendo, ouvindo música e a chuva seria uma desculpa para não ir ao mercadinho comprar um ingrediente de última hora pro almoço. Em 1989, inventaria histórias para não fazer aula de educação física. Em 1990, amaldiçoaria o despertador e testaria a cada dia sair de casa um minuto mais tarde e andar mais rápido.

Em 1991, teria vinte minutos entre o despertar e o início da primeira aula, e bateria todos os recordes de velocidade conhecidos. Em 1992, pensaria, "mas não levanto da cama com chuva pra ir à aula nem que me paguem". Em 1993, dormiria até a hora do almoço.

De 1994 até 1997, levantaria com cada vez mais esforço e iria me arrastando pro trabalho enquanto tentaria lembrar dos detalhes do fim-de-semana e juraria que nunca mais iria beber.

Em 1998, nem cogitaria levantar cedo pra atravessar a poça com chuva. Em 1999, pensaria se já não era hora, afinal, de comprar um guarda-chuva. Em 2000, não teria tempo de pensar em nada enquanto saía de casa correndo, acumulando trabalhos e sempre atrasada.

Em 2001, sairia para trabalhar com prazer enquanto faria contas e mais contas, descobrindo que montar uma casa não é brincadeira. Em 2002, descobriria que trabalho nem sempre é prazer. Em 2003, não precisaria acordar depois de passar a noite em claro fazendo contas e mais contas e descobrindo que manter uma casa também não é brincadeira (mas é um prazer). Em 2004, voltaria a fazer planos e acordaria com um sorriso no rosto.

Em 2005, acordaria com um telefonema do meu chefe e perguntaria porque, afinal, não podemos ficar em 1982 para sempre.


bocozices

Nomes amaldiçoados

Talvez o pior legado da música sertaneja não seja as histórias de cornos chorosos, mullets e vozes estridentes, mas algo muito pior.
Sempre que sou apresentado a alguém chamado Leandro ou Leonardo não consigo saber, cinco minutos depois, qual o nome certo dessa pessoa.

cris dias

Contei para o Pan que as mulheres que posam para a Playboy têm fitas adesivas puxando as dobrinhas a mais e computadores que apagam as celulites e as marquinhas. Para que meu filho não passe a vida inteira em busca de uma mulher perfeita.

Os diários de Marina W.

Edredon

A gente sente mais frio quando está sozinho.

Blowg

Come as you are

[generalizações mode on]

Todo argentino é arrogante. Toda mulher dirige mal. Todo homem é safado. Todo homossexual dá gritinhos. Toda menina usa rosa. Todo cearense tem cabeça chata. Todo baiano é preguiçoso. Todo gaúcho é machista. Todo paraense é ladrão. Toda maçã verde e dura é ácida. A mulher amazonense é fácil. Todo índio fala usando os verbos no infinitivo e gostar de beber cachaça de branco. Todo advogado é inescrupuloso. Toda loira é burra. Preto quando não suja na entrada, suja na saída. Chocolate dá espinha. Parnasianos são vazios. Românticos são irreais. Publicitários são o Roberto Justus. Peito duro é silicone. Macho que é macho não chora, não abraça, cospe no chão e coça o saco. Meninas educadas falam baixo, sentam de perna fechada, batem as pestanas e usam calcinha de algodão. Todo libriano é distraído. Todo morador de periferia ouve som alto na porta de casa. Um menino de 8-10 anos, de bermuda, chinelo, magrinho e moreno tem grandes possibilidades de te assaltar. É preciso "ser alguém" na vida. Todo abacaxi é amarelo e cheiroso. Toda mulher gosta de receber rosas. Franceses não tomam banho, são xenófobos porém bons de cama. Ingleses são pontuais e levemente tristes. Todo evangélico anda com a Bíblia debaixo do braço. Toda evangélica tem dois metros de cabelo. Funcionários públicos passam o dia tomando cafezinho. Mulher bonita é mulher jovem, magra, com a pele firme e o cabelo reluzente, sem um fiozinho apontando pra cima.Sobrancelhas finas e pernas depiladas. Livros bons foram escritos há, pelo menos, quarenta anos. Sexo são duas pessoas entre quatro paredes. Em silêncio, pra não incomodar os vizinhos. Blogueiros são super-cali-fragi-listic-expiali-doce.Roqueiros usam tatuagens e camisas pretas. Costumam ser satanistas e depressivos, também. Pessoas que entendem de música clássica são chatas e cansativas, além de darem sono. Professores são pessoas que não sabem fazer as coisas, portanto resolveram ensinar. Estudantes de Filosofia fumam maconha. Estudantes de Pedagogia são mulheres. Estudantes de Administração não sabiam qual curso escolher. Políticos são corruptos, e a gente escolhe o menos pior. No meu tempo é que era bom. Essa geração está perdida. As mulheres se casam sempre antes dos trinta (se não viraram freiras) e mesmo que não queiram.

[generalizações mode off]

As aventuras da menina prodígio

2.6.05

A SIMPLICIDADE

Vivemos em voz baixa, recriminando nossos atos, censurando. Quem não se flagrou falando sozinho, a praguejar uma idéia? Quem não teve a mania de se piorar, para gerar pena e complacência? Quem não se exagerou para recuperar a solidão? Apagamos a simplicidade, o sol assanhado lavando a calçada, os pássaros ajudando as árvores a tirar a camisa, os cachorros com o olhar familiar de mendigos, as pequenas delícias de fazer parte do mistério. Não podemos ter vivido tão errado, tão torto, a ponto de não deixar nada. Não acredito em páginas brancas. Alguma coisa está por baixo. Alguma coisa poderá ser lida com o relevo da claridade. Que minha mulher possa se lembrar dos momentos em que não prestava atenção à alegria para ser a alegria. Que ela possa achar graça, sem a minha ajuda, quando procuro desajeitado as contas na gaveta. Que possa se emocionar de preguiça quando levanto de noite para ver se fechei a casa. Que possa se render quando deito no chão de igual para igual com os filhos a brincar de bolinha do banheiro ao quarto. Que a rotina não seja tudo igual, e sim uma maneira silenciosa de ser diferente por dentro. Que não critique a mãe quando ela recordar da minha infância em público e acrescente um detalhe às lembranças. Que ponha semente no chão, não no lixo, a esperar que uma delas venha a me surpreender com a minha altura. Que possa tocar no assunto com volúpia. Se eu fui afetado, ambicioso e irresponsável, que a ternura me devolva o equilíbrio e peça desculpas distraído, beijando a mão do vento. Que meus amigos tenham confiança em mim e fiquem com vontade de beber mais e conviver mais quando meu nome aparecer na conversa. Que tenha sido um leitor dedicado quando amante, com os olhos fechados pela pressão dos lábios. Que algo que tenha dito de carinho venha aparecer ao lado de um palavrão. Que encontre cartas e cartões em meio aos livros e leia como se fosse a primeira vez que estou os recebendo. Que não seja tolerado, que não seja útil, que seja necessário mais do que sou. Que não volte com conversa abatida de que nada dá certo. Que seja corajoso a dizer o que pensava do que a não dizer o que pensava. Que tenha uma religião, mesmo que seja uma coleção de selos, e acredite que o mundo é um complô de Deus para me proteger. Que tenha companhia no trem, a abafar o apito da porta. Que possa viver desapegado do nome e da condição do nome, como um boi que não se envergonha da terra. Que possa aquecer a cama antes da minha mulher entrar. Que possa aquecer meu corpo antes de minha mulher entrar. Que possa aquecer o que já estava esquecido em mim.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

1.6.05

Periclitante Périplo Paulista

Quando comentei com meu pai que estava indo me encontrar com uma mulher casada, ele disse apenas:

Mulher casada tem gosto de chumbo.

Eu iria me lembrar disso mais tarde.

(…)

Periclitante Périplo Paulista em Liberal, libertário, libertino

30.5.05

MOCCA CHOCOLATA YAYA (Segundo Ato)

Na biblioteca do solar dos Soares Silva, Alexandre está entediado numa poltrona. Veste roupão e chinelos de couro. Na sua frente, em outra poltrona, Voz na Minha Cabeça lê "O Declínio da Civilização Ocidental".

Alexandre levanta e começa a andar pela biblioteca pensativamente. De súbito vê um busto de Cícero na estante e não consegue conter um esgar de desgosto.


Alexandre - Com solenidade declaro que a Antigüidade toda me entedia. Chego a pensar que foi de propósito.

Vnmc - Não, não, que é isso.

Alexandre - Ah, foi sim. Os filósofos pré-socráticos inventavam toda semana um novo elemento do qual o universo supostamente é feito (saliva, pedregulhos, muco, resina de pinheiro) só pra me fazer dormir. Tenho certeza. Cícero fazia discursos de quatro horas sobre o uso de tacapes nas Guerras, sei lá eu, da Panônia, só pra me entediar. No meio do discurso ele se interrompia (até posso vê-lo) pra piscar pra os senadores, que riam dizendo entre si, todos com a cara do Charles Laughton, “Ré ré ré, está chato mesmo. O Alexandre vai dormir". Inventaram as declinações por pura maldade... (campainha toca) Quem bate?

Vnmc – Ninguém bate, foi a campainha. E quem pergunta “quem bate” na vida real, meu Deus?

Alexandre – Sim, sim, a campainha. Tenho andado distraído por causa de informações chocantes que li numa revista científica. Por exemplo, você sabia que é possível quebrar o pinto? Ah, não atenda.

Vnmc – Tenho que atender, para não continuar ouvindo o seu monólogo.

Abre a porta. Mulher da Seicho-no-Iê aparece com folhetos na mão.

Mdsni – Bom dia. Será que vocês têm cinco minutos?

Vnmc – Ele tem, ele tem. Entra...

Alexandre – Eu achava que tinha, mas subitamente me sinto como se estivesse muito ocupado. Tarefas esquecidas oprimem minha mente. (aperta a cabeça, dando sinais de grande dor) Tenho que assistir a RAI hoje para aprender italiano. Oh, meu Deus...

Mdsni – Eu realmente não queria atrapalhar, só queria mostrar estes livrinhos pra vocês...

Alexandre (interrompendo) – São da Antigüidade?

Mdsni – Não.

Alexandre – Discursos de Cícero?

Mdsni – Não. Eu só queria mostrar este livrinho, “Luz da Vida, Esperança no Coração”, que pode passar muita coisa de positiva para vocês...

Alexandre – Uma vez me passaram uma coisa positiva, minha cara, e demorei dois anos para me curar. Mas me deixe ver. (pega o livrinho) Ugly-looking little bugger. Tem certeza que não é um discurso de Cícero? Ah, sabe, eu leria, mas prometi a mim mesmo que nunca mais leria livros impressos em páginas verde muco.

Vnmc (para Mdsni) – Pode deixar, eu compro. Vai ser um prazer ler o livro em voz alta pra ele nas longas noites de inverno.

Mdsni – Obrigada, mas é de graça. Posso perguntar se vocês têm alguma crença?

Alexandre – Ah, muitas. Nossa, como eu sou crédulo.

Vnmc – É sim. O que quer que você diga, ele acredita. Experimenta.

Mdsni – O senhor acredita na Vida?

Alexandre – Se eu acredito na Vida? Eu adoro a Vida! Sou fanático pela Vida! É melhor do que Buffy! Todos os dias puxo aquela poltrona ali para aquela janela, está vendo?, e fico vendo a Vida lá embaixo. Vem ver, vem ver. (arrasta mulher para a janela)

Mdsni – É bonito. Não tem muito acontecendo, né?

Alexandre – É verdade, a Vida é um pouco monótona. Sem contar que as pessoas no ponto de ônibus são feias. Putz, olha a gordinha.

Mdsni – Mas o que eu quero dizer é, vocês acreditam na Energia Vital? Na força do Pensamento Positivo?

Alexandre (subitamente absorto, para Vnmc, ignorando Mdsni) – Mas como eu ia dizendo, é terrível, dá pra quebrar o pinto como se fosse um osso.

Vnmc – Podemos tentar.

Alexandre (para Mdsni) – A senhora sabia que é possível quebrar o pinto como se fosse um osso? Se estiver duro, é claro. Sabe quando a mulher está por cima e ela se joga pra trás? Ah, minha boa mulher, trate bem o pinto do seu marido, é o conselho que lhe dou. Uma vez que um homem quebra o pinto, perde toda a confiança. Para o resto da vida ele vai fazer sexo bem devagarinho, eternamente com medo de ouvir um estalo.

Mdsni – Eu sou viúva.

Alexandre – Claro que é, minha boa mulher, claro que é. Droga, chegou a hora de ligar na RAI. Será terrívelmente indelicado se eu ligar a tevê na RAI? Mas é sempre indelicado ligar a tevê na RAI.

Vnmc – Diz pra ela a expressão mais linda da língua italiana.

Alexandre (ligando a tevê) – Cinque e quarantacinque. Não é lindo? Cinque e quarantacinque. É melhor do que toda a Divina Comédia. Olha, um programa de auditório.

Mdsni – Acho que tenho que ir indo.

Alexandre – Não, não, eu mudo. Eu ponho na HBO e a gente vê um documentário com gente feia fazendo sexo. Mas eu ia dizendo: cinque e quarantacinque é não só a expressão mais linda da língua italiana, mas também a mais linda de todas as línguas. Ah, da próxima vez que for à Itália, vou todos os dias ficar parado no meio da Piazza di Spagna esperando que alguém me pergunte as horas.

Vnmc – Muito chic. Mas e se forem sete da noite?

Alexandre – Direi que são cinque e quarantacinque. Sempre direi que são cinque e quarantacinque. (olha a tevê) Ei, esses são mais feios do que de costume.

Mdsni – Tenho mesmo que...

Vnmc pega um busto de Papa Doc Duvalier em cima da lareira e, depois de alguma hesitação, esmaga cabeça de Mdsni.

(…)

todos os três atos em em Alexandre Soares Silva

25.5.05

A última vez a gente nunca lembra

O reencontro tinha sido agradável, apesar das mágoas. Depois veio a confusão do divóricio, as brigas, os primeiros três anos morando juntos, as noites aproveitadas em casa, em meio à mudança e às obras. Tudo melhorava, sem dúvida, mas ela não quis aceitar seu convite para a viagem de lua-de-mel. Sabia que depois viria o casamento, o noivado, aquele namoro interminável, o primeiro encontro. Com tanta felicidade, seria muito doloroso se desconhecerem por completo.

Pseudoliteratura, quase-crônicas, e outras pretensões

A viagem de Théo

A religião é um construto humano, que procura substituir a realidade cognoscível pelos anseios do praticante. E como toda invenção humana, não costuma dar muito certo.

Fruto de nossa ignorância infinita, a religião desconversa e usa as lantejoulas de tradição para impressionar os simplórios. O que deveria impressionar muito pouco, já que os Neanderthais também tinham religião, mas não sobrou nenhum pra contar a história.

E apesar de experimentalmente errônea, a religião segue por aí, rebolando e difundindo seu manto de opressão, sob promessas de libertação ou de uma vida futura de prazeres ou serenidade. Ou seja, é mais ou menos como o direito, a medicina, a matemática ou a câmara dos vereadores da minha cidade.

Mas como todas essas superstições são muito mais mortais que a religião, o melhor é ficarmos com ela mesmo. Até porque, quando morre, pelo menos a gente vai pro céu.

dies iræ/a>

20.5.05

A Vingança dos Sítios

Ufólogo, segundo consta, é um especialista na observação do céu, só que incapaz de enxergar um palmo adiante. São a espécie mais inofensiva de visionários. Eu, que não entendo nada de alienígenas nem do futuro, não pude deixar de notar que o Anakin está vestido de adolescente afegã num cartaz grandão aqui perto.

(…)

dies iræ

DIÁLOGOS DE SEMÁFORO

– Moço, leva aí um pouquinho de minha verba de gabinete.
– Não, não posso.
– Ah, vai, moço. E não fecha o vidro do carro, não. Por favor!
– Escuta, deputado, eu prefiro ensinar a fazer uma peixada do que ser cooptado por peixe graúdo, entendeu?
– Mas, moço, veja bem. Eu podia estar gastando em outra coisa. Eu podia estar contratando parentes. Eu podia estar aliciando votos pra base governista. Mas eu estou aqui, só pedindo pro senhor pegar um pouco de minha verba de gabinete. Olha aí. Dois mil reais. Dois e quinhentos. Três mil, pronto! Vai. Pega aí, pra ajudar.
– Ajudar como, deputado?
– Ah, moço. Pegou muito mal a aprovação do último aumento da verba. Até minha filha, que faz pós-graduação de economia na PUC, diz que os colegas ficam jogando moedinhas no chão quando ela passa. Uma vergonha. Pega um pouco aí, vai. Pra pelo menos eu poder olhar minha família de cabeça erguida! Pega aí, moço, pra ajudar em casa!
– Hum. Não sei.
– Seguinte, moço. Quatro mil reais. Pronto. Mais duas vagas no avião da comitiva presidencial! Três! Três vagas!
– Certo. Pra ajudar, então. Mas olha: não acostuma, viu? Amanhã vou passar nesse semáforo aqui e não quero ver o senhor de novo. Certo?
– Sem problemas, moço. Amanhã é quinta – o senhor não vai me ver aqui, nem no Congresso nem em lugar nenhum de Brasília. Valeu!

*********

– Psiu. A porta do seu carro está aberta.
– Imagina, ó musa. Pra você está aberta a porta do meu carro e a do meu coração. Aliás, pra você eu abro, escancaro, dou meu coração em oferenda no altar do auto-sacrifício passional.
– Er… o sinal vai abrir.
– Sim, princesa. Assim como minha alma se abre pra receber você em júbilo, como uma noiva diáfana com as melenas cobertas por flores de laranjeira e aclamada por um coro de querubins.
– Olhaí, o sinal ficou verde.
– Sim, verde como os campos floridos que serão palco de nossa inenarrável cerimônia de conjugação espiritual, qual Teseu e Hipólita numa noite de verão, minha musa. Ouço, ouço agora as buzinas como escuto, com os ouvidos da alma, os sinos bimbalhando, as campânulas anunciando nosso conluio. Vejo pelo retrovisor o motorista de trás emulando em voz alta o tonitruar da bigorna de Vulcano, onde são forjados os relâmpagos que prenunciam a chuva que renova a terra e faz germinar a semente de nosso amor. Vejo a longa fila de carros atrás de nós como um séquito a acentuar o espírito de congraçamento e confraternização. Isso, amada, parta, corra, vá à frente e já prepare nosso recanto, a senda de nosso aconchego, pra que quando eu chegar você já esteja paramentada com o branco da pureza da entrega. Vejo, ó musa, o policial de trânsito que se aproxima como a autoridade cerimonial que irá lavrar nossa união; ele traz o bloco de multa como quem porta o livro sagrado da consumação do… Veja só, é uma policial – como eu não percebi? A austeridade do cargo embotando a graça e o encanto naturais. Boa tarde, policial. Céus: já falaram que seus olhos têm a cor das tamareiras do Peloponeso, e que seus lábios são dois gomos carmim de volúpia e concupiscência? Já?

*******

– Escuta, esse teu adesivo aí. É verdade?
– Qual adesivo?
– Pregado aí atrás, no seu carro: “Sou Deus, graças aos católicos”.
– Ah, claro. O tal negócio. Eles acabaram me comprometendo sem querer, com aqueles adesivos “Dirigido por mim, guiado por Deus”. Houve dupla interpretação por parte do departamento de trânsito. Queriam que eu tirasse carteira, ou iriam proibir os tais adesivos. Então, quando consegui a habilitação – bombei uma vez, sabe; vivia com o pé na tábua – , resolvi comprar esse Uno Mille. E coloquei o adesivo aí, pra evitar dúvidas.
– Pois é. Esse Detran é fogo.
– Sem dúvida. Ah, abriu. Até mais.
– Até. Ah, e cuidado com aquela pista dupla ali, depois da curva.
– O que tem ela?
– Fazem blitz direto, lá.
– Certo, certo.

Ao Mirante, Nelson!

INVENTÁRIO INUSITADO DE MOMENTOS MAIS ROMÂNTICOS EVER

Deitados na cama, muitos beijinhos, abracinhos, cheirinhos e festinhas depois:

- Tu és perfeita, perfeita, perfeita...
- Tu também. Principalmente teus 4,5º de miopia.

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A moça com as pernas e os braços em volta do corpo do moço, diz:

- Ó, sou um koala.
- Hummm, eu também.
- Não, tu é grande demais pra ser koala.
- É?
- Sim, demais.
- Eu sou o quê?
- Um urso pardo.
- Se tu continuares me chamando de gordo, vais virar urso panda em vez de koala.

Megeras Magérrimas

15.5.05

RPGistas & Afins: Os Novos Intocáveis

Vejam bem: meu problema não é nem com RPG. RPG me parece ser relativamente interessante, aciona o cérebro, estimula a criatividade, etc etc. Mas o problema é que conheço as pessoas que praticam RPG.
E vem daí minha grande dúvida: por que praticamente só os losers dos losers se dedicam a isso?
Vejam o caso do cara que veio falar comigo. Sua lista de interesses inclui: coleção de selos, moedas e cards, joguinhos de estratégia e simulação no computador, RPG, AD&D, mangá e anime. Meu deus, parece o verdadeiro paradigma do loser típico. Será que esse homem desenvolve alguma atividade que não seja patética?
Star Trek, Senhor dos Anéis, ficção científica de modo geral, RPG, mangá, anime, não há nada intrinsecamente errado com nada disso. Eu, por exemplo, adoro Star Trek e Senhor dos Anéis, e não tenho vergonha disso. Tenho vergonha é das outras pessoas que também gostam.
Com raras e honrosas exceções, 31 anos de observação empírica me demonstraram que a maioria das pessoas atraídas por essas atividades são inapeláveis losers e nerds. Perdedores, tímidos, inarticulados, fracos, sem quaisquer habilidades sociais. Aquele tipo de gente que mora com a mãe até os 40 anos, usam óculos fundo de garrafa e uma caneta no bolso da camisa, e trazem sempre a boca meio aberta, quando não o nariz escorrendo. O ponto mais baixo da involução humana.
E volto à minha dúvida inicial: por que atividades a princípio saudáveis e interessantes atraem hordas desse tipo de gente?
Minha teoria antropológica é a seguinte: consciente ou inconscientemente, essas pessoas desistiram. Olharam em volta, viram um mundo povoado de gente bonita, inteligente, articulada e decidiram que simplesmente não tinham como competir. E criaram para si uma nova casta de (literalmente) intocáveis, se congregando em porões para discutir quem foi o melhor capitão da Enterprise, e se perdendo por horas e horas em mundos imaginários onde, ao contrário do nosso, eles podem agir e interagir, quem sabe até ser heróis e bandidos, magos e guerreiros.
Assim bem por alto, bem filosofia de botequim mesmo, eu diria que quanto mais imaginativa a atividade, mais ela vai atrair àquelas pessoas insatisfeitas com a realidade atual. Quem não consegue nada na Terra, sempre pode tentar ser alguém na Terra-Média ou na Federação Unida dos Planetas.

Liberal Libertário Libertino

Soja

Arrependo-me de muitas coisas. Arrepender-se é um ato muito saudável e demonstra auto-crítica, por isso não confie em gente que só diz que se arrepende do que não fez. Essa gente exibe a presunção de nunca ter cometido alguma tolice, o que obviamente é uma mentira, afinal, todo mundo faz besteira. Para comprovar isso, é só olhar seu último almoço. Aposto que você comeu um monte de bobagem, é melhor começar a se arrepender. Eu, por exemplo, já comi carne de soja.
***
Soja não foi feita para ser leite, nem para ser carne, nem para ser comida. Quando eu fui ao interior de Goiás, conheci um menininho franzino chamado Francisco. Ele brincava feliz em meio aos pés de soja, de vez em quando pegando um grãozinho de soja e usando-o como bolinha de gude, ou jogando-o no riacho para vê-lo quicar. Perguntei-lhe se ele sabia que aquele grãozinho com o qual brincava feliz podia virar leite e, pior, carne. Ele me respondeu negativamente e, com os olhos grandes cheios de lágrimas, indagou: "Se isso é leite, o que é que sai das tetas da Marilda?" Eu não soube responder, fiquei meio encabulado. Francisco, então, argutamente, disse a mim: "Ora, mas isso não é nem comida! Quanto mais leite! Não podemos comer essa coisa que só serve para diversão, que só serve para eu brincar com os grãos! E não pode ser leite algo que não sai das tetas da Marilda! Não pode ser carne algo que não é animal! A cada vez que você comer um grão de soja, ferirá a minha alma. Não coma soja, isso não é da natureza. Dica de goiano."

manipulação

Razão

A reportagem recomenda que, se seu filho quiser uma calça de 1600 reais, você deve dar e depois descontá-la da mesada dele em “parcelas consideráveis”.
Eu recomendo que, se seu filho quiser uma calça jeans de 1600 reais, você dê uma bronca-esculhambativa nele, bote o moleque pra trabalhar de balconista ganhando 400 reais por mês e ainda bote de castigo a criatura. Eu também recomendo que, se você comprar uma calça de 1600 reais para ele (ou para você), que você se interne, porque você pirou.
Como diria umas das personagens do Érico Verissimo que eu mais amo, o Liroca, esse mundo velho está de patas para o ar.
...
Quando a cunhada da Ana soube o quanto ela tava pagando por cada sessão de terapia disse: "por metade do preço, eu deixo vc falar duas horas!!! e ainda te dou toda a razão!"

Drops da Fal

12.5.05

O outro bicho

Glorinha às vezes sente culpa por estar com ele, pensando no outro que se foi. Projeta as virtudes, procura semelhanças e, exatamente pelas tantas afinidades, ela o tem consigo.
Diziam que isso lhe faria bem, que era essa mesmo sua função, dar guarida, acompanhar, dar carinho, aplacar a carência. Não que discorde, mas ela não se sente totalmente confortável com isso.
Com prazer, compra a comidinha, as roupinhas, paga o banho, os cuidados especiais. Escolheu a raça que mais juntava os atributos do amor que se foi.
Chega a ser engraçado encontrar semelhanças entre homem e cachorro, mas sua carência é tanta que o usa, descaradamente, para superar a dor da perda.
Ela o vê em casa. Faz um carinho e ele, a seu modo, retribui. Ela sorri, tenta supor que ele também. Mas, em verdade, ele está deitado, olhando ao vazio. Talvez dormindo, ele sempre dorme.
Não importa.
Glorinha, mesmo culpada, sabe que lhe fez muito bem ter trazido para casa esse cara, porque não agüentava mais sofrer pela perda de seu amado cãozinho.

Cachorrada no Bico de Pena

10.5.05

Ontem à noite entrei numa padoca do Bixiga e sentei perto da chapa. Gosto de curtir o trabalho do chapeiro, alguns são mestres, quase malabaristas. Do outro lado, um balconista conversa com uma garota que veio comprar pão. Ela vai embora, ele ri alto e conta pra todo mundo: ela disse que eu sou enrolado que nem caramujo! E repete várias vezes, todo contente: que nem caramujo! Depois vem perguntar baixinho pro chapeiro:

- O que é caramujo?

catarro verde

A literatura e as escalas de grandeza

Tera é uma adaptação originária do grego tetra-, que, como sabemos desde 1994, é um prefixo que significa "quatro", como em "tetracampeão", "tetraciclina" ou "tetralegal". Tera é um multiplicador, por exemplo, um teragrama equivale a um trilhão de gramas. (Não confundir com "tetragrama", que significa uma palavra com quatro letras.) Donde podemos concluir que um teraconto são um trilhão de contos.

Giga, também uma adaptação do grego gígas, deu origem a "gigante". Assim, um gigagrama equivale a um bilhão de gramas. Logo, um gigaconto são um bilhão de contos.

Mega, do grego megal(o)-, significa "grande", como em "megacéfalo". Pois bem, um megagrama equivale a um milhão de gramas. Assim, um megaconto é uma unidade equivalente a um milhão de contos.

Quilo, vem do grego khílioi. Todos sabem que um quilograma equivale a mil gramas. No entanto, pouca gente se dá conta de que um quiloconto vale mil contos.

Mili, forma derivada do francês millième, não do latim millesimus (há controvérsias desde Sêneca), significando "milésimo". Assim, um miligrama, claro, equivale à milésima parte do grama. O miliconto, portanto, é a milésima parte de um conto.

Micro, do grego mikrós, significando "pequeno", "curto", "pouco" ou "pouco importante". Um micrograma é a milionésima parte do grama. Logo, um microconto é um conto dividido por 1 milhão. Correto?

Nano, outra vez do grego nánnos (é impressionante!), significa "excessiva pequenez", derivando para "anão". Um nanograma é a bilionésima parte de um grama. Então temos que um nanoconto equivale à bilionésima parte do conto.

Pico, do italiano piccolo (ah, enfim o império romano), significando "pequeno". Um picograma é um trilionésimo de um grama. Assim, um picoconto é um conto dividido por 1 trilhão.

Já o conto, a unidade lingüística que nos interessa aqui, vem do latim computus, significando "cálculo", "cômputo", "conta", a que o povo daria posteriormente a acepção de "narrar", vindo de "computare": enumerar os detalhes de um acontecimento, relatar etc. Nada se determinou a respeito do tamanho exato de um conto, se deve equivaler a mil escudos, um milhão de réis, 50 rasos de sal ou 20 meadas de linho. Sabe-se apenas que o conto deve ser uma narrativa breve ou concisa. Seja com milhares de tetragramas ou com um bilionésimo de picograma.

Assim, de posse desta elucidativa tabela, querido autor, escolha o tamanho desejado de sua literatura e mãos à obra. Para finalizar, desejo registrar aqui meus agradecimentos à minha Tabela de Unidades de Pesos e Medidas, sem a qual este esboço da tese acadêmica que ora preparo, intitulada "A Literatura a Metro", teria sido impossível. Título, aliás, inspirado numa afirmação de Júlio César anotada em seu De Bello Gallico. Diz lá o intrépido general romano que, ao ser indagado sobre o que achava das filosofices de seu arquiinimigo, o arenguista profissional Cícero, ele teria dito: " -- Ave, aquilo tudo é literatura pra mais de metro."


Prosa Caótica

6.5.05

e também

o grande mentiroso, pra quem você pedia as horas e ele explicava a origem do conceito de relógio, a evolução do mecanismo ao longo da história, as implicações metafísicas do controle do tempo, tudo com fartas citações e devaneios. quem sabe quando já não precisasse mais, quando já houvesse atrasado, quando já não mais importasse - e depois de muita enrolaçã - você ficasse sabendo as horas, meia hora (no mínimo) depois de quando você precisava saber. usura não era pecado porque não se podia vender o tempo, porque o tempo a deus pertencia? então. ele não concorda com isso.

modo furtivo

5.5.05

Típica piada infame do Iaio, meu irmão: ele e Thaty iam começar a assistir "Sobre meninos e lobos" quando ela pergunta "o filme é sobre o quê"?

Ele responde: "meninos e lobos".



Par Elis

Licor de Marula com Flocos de Milho A?ucarados

- É pra morar ou trabalhar?
- Trabalhar...
- Que tipo de empresa? Faz muito barulho?
- Não, não... É só para o escritório. E quanto o senhor quer no aluguel?
- Quero mil, mas posso fazer por novecentos se não mexer na estrutura do imóvel... E também porque eu preciso alugar rápido. Não posso ficar com a casa fechada muito tempo... Essas casas me dão tantas dores de cabeça que só de não ter mais que pagar impostos já é um alívio... Tem uma moça que pediu pra eu reservar a casa pra ela, mas eu não vou. Imagina você que ela quer colocar carpete nessa sala e pintar... De jeito nenhum! Eu cuido bem das minhas casas, só contrato profissionais qualificados para as reformas, sou engenheiro formado, construí cada um dos meus cinco imóveis. Imagina, se vou deixar alguém reformar o que eu construí? De jeito nenhum!
- Mas eu precisaria mexer só um pouquinho nesse...
- Alugo pra você porque sei que do jeito que está, está bom. E porque eu estou cansado dessa vida, sabe? Passo os dias esperando que isso acabe logo...
- Anh? Mas... o senhor...
- Casei, tive quatro filhos doutores, trabalhei duro a vida toda e, hoje em dia, nem meus netos eu vejo direito... Minha neta mais velha fez quinze anos a semana passada e não ligou nem pra saber como eu estava...
- Mas por que não ligou o se...?
- Minha mulher foi embora no ano passado. Disse que eu sou muito chato. Onde já se viu? Quarenta anos depois ela diz que eu sou muito chato! Por que ela não viu isso antes de casar!? Será possível que alguém precisa de quarenta anos pra descobrir que alguém é chato?
- Entend...
- E agora vem essa menina querendo reformar o que eu construí... De jeito nenhum! Nas minhas casas ninguém mexe. Essa gente tem coragem pra gastar duzentos reais em uma garrafa de vinho no fim de semana, mas não tem coragem de pagar um profissional decente para arrumar a casa que usufrui... Você acha que eu não gostaria de ter tomado bons vinhos na vida também? É claro que eu gostaria! E olha que eu fiz tudo na hora que eu achei que tinha que fazer... Fui um jovem estudioso, me formei na melhor universidade, fiz a vida antes dos trinta, quando chegou a hora de casar procurei uma mulher boa pra casar e casei. Tive quatro filhos doutores, construí minhas casas para ter sossego e aposentadoria e, mesmo assim, perdi o tempo de tudo... Errei o tempo das coisas! Foi isso que eu fiz.
- Imagina... o senhor ainda tem tempo... Pode aproveitar a aposentadoria para viajar, passear, tomar os vinhos bons, se...
- Tudo na vida tem um tempo certo e as pessoas pontuais, como eu, são as que mais perdem a hora. Perdi o tempo das coisas... Quando eu podia viajar eu trabalhei, quando podia ter brincado com meus filhos mandei eles estudarem, quando minha mulher me pedia atenção eu achava que era reclamação... Não deu tempo para o vinho, para o riso... Vida sexual boa eu nunca tive. Quando podia ter sexo não fiz, quando achei que teria, casei e o casamento parece até que só existe pra estragar o sexo e afastar o casal. Nem ir ao banheiro em paz eu posso mais... Essa droga de problema pra urinar, as costas que não me deixam dormir, trezentos reais de remédios por mês, novecentos e cinqüenta de assistência médica, duzentos de seguro, cento de vinte de IPTU de cada uma das casas... Ainda bem que tenho minhas casas de aluguel... E eu passo a noite inteira rezando pra morrer, rezando para que deus realmente exista e me leve embora daqui...

E eu só queria alugar o raio da casa do homem... Voltei pra casa chorando, desliguei o celular e abri uma garrafa de vinho.


Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

3.5.05

O problema é que este blog entrou no ritmo do resto da minha vida. Quer dizer: só funciona sob pressão! Sem falar que tudo é motivo pra me dispersar.

Agora mesmo eu tava vindo escrever aqui alguma coisa que lembrei, aí resolvi beber água antes, quando abri a geladeira vi a torta de coco que sobrou do aniversário do meu irmão, peguei um garfo pra comer só um pedacinho, mas é impossível, abri o armário pra pegar um pratinho, então vi o caminho de formigas na parede, fui seguindo a linha pra ver de onde elas vinham, molhei um pano e fui passando no caminho - adoro fazer isso! - quando passei pelo lixo, amarrei o saco e fui lá fora jogar, na volta vi o pote do bolo em cima da pia, deixei o prato pra lá e resolvi comer no pote mesmo, trouxe tudo pra sala, sentei aqui e... o que era mesmo que eu ia escrever?

E esqueci de beber água.

bocozices

2.5.05

o diário de um careca-semi-gordo

Ontem fui pedalar e hoje minha bunda dói por conta daquele selim fêla-da-puta.
Estes dias estava olhando um 3X4 de quando eu era criança, bem criança mesmo, talvez três ou quatro ou cinco anos. Nunca sei direito quantos anos tem uma criança, às vezes olho e penso que tem uns dois anos e os pais dizem que tem seis meses! Sem noção de bebês...
Bom, mas aí olhava a minha foto e estava ali pensando se eu queria ser eu hoje, sabe? Eu perguntei, perguntei, mas o eu ali do 3X4 não respondeu, continuou com aquela cara me olhando. Às vezes acho que não, às vezes acho que sou até mais, que sou genial, que sou tudo o que uma criança queria ser. Hahahaha... Sei lá. Quando tinha uns nove, dez anos tenho certeza que não ia querer ser um cara com mais de vinte e cinco anos e que sente dor na bunda quando anda de bicicleta.
A vida dá tantas voltas, né?

o som nosso de cada dia

Some girls...

...te desafiam para um braço de ferro, te olham nos olhos, sorriem, mal conseguem cerrar o punho em torno do teu punho, fazem uma sucessão de caretas dignas de Conan, o Bárbaro, e, quando você ri, relaxa e permite que vençam, te socam com mãozinhas brancas e dizem que você não deveria ter deixado;

...te encaram do banco à frente no ônibus com uma nuca indignada e eloqüente que afirma “eu sei exatamente o que você está pensando, rapá”, mesmo que você (ainda) não saiba, porque está seriamente concentrado no que Lothar von Falkenhausen tem a dizer sobre o fim da era do bronze na China;

...te ligam e –em tom professoral- explicam veementemente um problema, enquanto você tenta em vão interromper o discurso e explicar que, yo, minha senhora, creio que a senhora sem querer acabou ligando pro ramal errado;

...te questionam com ar dubitativo e cético quanto à organização das suas estantes, e tamborilam as unhas curtas, de esmalte impecável, contra o MDF das prateleiras, procurando traços de poeira e claramente pensando “humpf, homens”;

...te recebem em trajes menores no horário combinado e sorriem com um olho maquiado e o outro não, avisando que tem uísque embaixo da pia e um jogo de basquete na TNT (e você nem pergunta se vão demorar pra se arrumar porque já sabe a resposta);

...te escrevem um e-mail quilométrico em resposta às três linhas que você enviou propondo um almoço e, depois de discorrer sobre o monofisismo, a cláusula filioque, a persistência dos Caimitas (think Bible, not Dorival), esquecem de responder ao convite;

...te elogiam pela elegância da gravata mas mudam imediatamente de opinião quando perguntam onde você comprou e você explica que ganhou de alguém;

...break your heart as you knew they would, yet you can’t help but admire their style.

Filthy McNasty

Almanaque das profissões (I): médico

Existem dois tipos de médicos: os que cobram antes, e os que nunca param de cobrar. E há também os da rede pública, que não cobram, mas são impedidos pelo juramento de Hipócrates de aparecerem pra trabalhar.

Medicina, étimo originário do judas medicina, que significa "não fui eu" ou "a fina arte de te torturar", mas isso depende da hora do dia. Uma profissão universal, e justamente porque todo mundo saiba um pouco, à beira da falência, em decadência franca e total.

Não só a medicina perde anualmente milhares de profissionais para ocupações genéricas e afins -- ortopedia, empurroterapia, cirurgia psíquica --, como a alopatia, o seu catolicismo, vê anualmente milhões de clientes se dirigirem para ramos igualmente inúteis, porém menos mortais, da cura -- homeopatia, apicultura, florais de Bach.

A medicina é, portanto, não só uma profissão que veste mal, mas também paga mal, pode te forçar a servir na Amazônia, dá cadeia em casa de erro, e dor de cabeça pra passar no vestibular. Mas pelo menos você só começa a trabalhar depois dos trinta...

Ficha do Personagem
Requerimentos: Destreza=12, Carisma <6, um estetoscópio, três jalecos
HD: d8 + plano unimed; Thaco: eu tô em cima, eu tô embaixo
Saving Throws: priest (+1 vs. poison, -3 vs. death spell)

dies iræ

IDÉIAS E MARTINI

Idéia não pode ser paparicada, estragada, só porque foi tida. Idéia tem que ser jogada ao relento, com dez reais no bolso, para se virar sozinha. Morte aos parideiros que se jactam, com a volúpia – uh – fazendo o olho boiar: “Tive uma idéia!”. A estes devemos devolver um olhar de nonchalance e resmungar: “Pois eu não tenho idéias, não deixo a ninguém o legado do meu miserê ” – só para ver como fica a cara do parideiro de idéias. Idéia tem que ser negligenciada por um longo período, para não crescer achando que é gente. Devemos ter notícia da idéia só de tempos em tempos, para ver se, sei lá, precisamos enviar uma ordem de pagamento. A um amigo que se lembra e diz, imaginando agradar, “Ei, vi sua idéia anteontem!”, devemos murmurar um “Sei” mais seco que o martini do Rick’s Cafe Americain. É bom ficarmos sabendo que nossa idéia, no mês passado, foi confrontada num beco por uma gangue de imigrantes portorriquenhos ou de skinheads. É bom sabermos que ela apanhou – idéia precisa apanhar – e urge que camuflemos o discreto orgulho pelo fato dela também ter dado uma porradinha aqui e um chute ali. Morte a quem anda com foto da idéia na carteira. Longa vida ao ladrão de idéias, que na primeira esquina as assalta sem clemência: “É para edificar o caráter delas”, dirá ele à polícia, e a polícia precisará acreditar. Se soubermos que a idéia não resistiu à penúria e saiu assaltando também, reajamos com a indiferença de quem acabou de ficar a par de um detalhe estatístico. Se recebermos um telefonema às dez da noite informando que nossa idéia gerou outra idéia, devemos bater o fone e não sem antes dizer “Não é problema meu”. E torcer para que a idéia seja minimamente sensata e siga nosso exemplo. Mas não torcer muito, pois não se torce por idéias. Um dia, então, baterão à sua porta e você a princípio não vai reconhecê-la. Vai ver no semblante dela o background de quem apanhou, foi distorcido, mal aproveitado, explorado, mal inserido no contexto – mas o melhor: não cedeu à facilidade de posar de vítima. Aí, naquela fisionomia calejada e um tanto austera você de repente vai vislumbrar o seu semblante. Então cuidado: chame-a para entrar, pergunte o que ela toma e muita, muita atenção – não vá pôr tudo a perder agora, seu velho sentimental – para, no preparo das bebidas, virar o rosto na hora certa e evitar mostrar o lampejinho no olhar, o lampejinho aceso pela lembrança de quando você a acalentou assim que ela foi tida. Fique esperto: só depois disso é que você vai virar de novo o rosto e, sim, perguntar se ela prefere o martini dela com azeitona.

Ao Mirante, Nelson!

28.4.05

A arte de não ter opinião

Hoje em dia, a maioria das pessoas costuma ter opinião sobre todos os assuntos - e repreendem quem não tem. Deveria ser ao contrário. Não ter opinião é uma arte, talvez um dom divino. Outro dia, li por aí que a Hebe Camargo é uma formadora de opinião. Se a Hebe é formadora de opinião, ter opinião definitivamente não pode ser algo bom.
Eu evito ter opinião sobre qualquer coisa para não arranjar encrenca. Isso irrita algumas pessoas - pessoas que têm opinião sobre tudo, claro -, e elas me repreendem. Eu apenas concordo. Discordar nunca é bom. Quando alguém pergunta minha opinião sobre qualquer assunto, sou direto, falo na lata.

— Você não acha que o George W. Bush é um filho da puta?
— Vou muito bem, obrigado por perguntar.

— O que você acha do governo Lula?
— Deixe-me ver... são cinco horas!

— Meu cabelo está bom?
— Acho que minha mãe está me chamando...

¡Ay, caramba!

- Moça, aquela senhora em pé é gestante?
Olhei, analisei (discreta, como só eu). Ela tinha uma pancinha, mas não dava pra saber se era de gravidez.
- Não sei, eu disse.
E fiquei na dúvida. Antes ficar na dúvida do que ofender a moça.
Alguns minutos depois:
- Moça, pergunta se ela quer sentar aqui.
Eu, perguntar? Nem morta! Será que é gestante? Cutuquei.
- Ei, ela está te chamando.
- Quer se sentar aqui?
- Não, não, obrigada.
É... não era. Situação constrangedora. Se fosse eu no lugar dela, teria segurado a pança com as duas mãos e me dirigido lentamente ao banco, como que protegendo meu bebê/tecido adiposo. Sentar-me-ia e a olharia com ternura, agradecendo, com cara de mãe.
Ofendida, porém sentada.

Admirável Blog Novo, em versão internacional.

27.4.05

Hospitalidade

Minha mãe uma vez ficou ofendida com um coleguinha da minha irmã que foi dormir lá em casa e levou sua própria roupa de cama e de banho. Ligou para a mãe dele e soltou os cachorros: pra onde ela pensava que estava mandando o filhinho dela? Pra uma estrebaria? Estava insinuando o quê? Que na casa dela não tinha toalha?

Já a mãe de uma amiga minha sempre fazia a filha levar sua própria roupa de cama e banho quando se hospedava na casa dos outros. Imagina, minha filha, senão eles vão pensar que você acha que a casa deles é um hotel!

Em outros tempos, soltaríamos ambas as mães na lama. A que ficasse de pé, estaria certa. Eram tempos mais divertidos.

Liberal Libertário Libertino

Em relação à máxima “ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”,
tudo o que conseguiu na vida, até então, foi masturbar-se,
cuspir uns caroços de melancia que brotaram ao acaso
e mandar e-mails de vez em quando...

um blogue sem qualidades

Sobre o ato de blogar

Tempo é relativo, que o digam aqueles que estão habituados à leitura constante de blogues. Se um blogueiro fica dois ou três dias sem atualizar a página, sempre surgirá algum internauta a comentar: "cadê você?".
Em geral, posts são marcados por uma linguagem informal, descompromissada, não raro pontuada por erros de grafia que denunciam a urgência com que o internauta escreve seu texto, como rascunhos que já nascem com caráter definitivo. Do comando do cérebro ao ato dos dedos digitando no teclado, palavras borbotam e - clic! - desembocam direto para a tela.
E no entanto, há blogueiros que, sem idéias prodigiosas o suficiente para justificar um novo post, limitam-se a escrever: "estou sem idéias, portanto fiquem com este teste (ou link, ou charge, ou letra de música)". Ou seja, postam como que se sentissem compelidos a publicar pelo menos uma coisa, por mais irrelevante que seja, simplesmente para não permitir que as teias de aranha virtuais ocupem seu blog pelo enorme intervalo de... um dia.
Repare: toda vez que um novo texto é publicado, os anteriores deixam de receber novos comentários. Na blogosfera, mais do que nunca prevalece a cultura do imediato: o post está morto, viva o novo post! Em nome da velocidade no carregamento do site, não mais que dez artigos são publicados na página inicial, enquanto os anteriores são empurrados para o quartinho dos fundos. Pergunto: quantos gatos pingados possuem o hábito recorrente de vasculhar os arquivos de um blog?
É preciso ainda falar de textos longos. Quantas vezes você já não se deparou com algum post mais alongado que, metalinguisticamente, pedia desculpas ao leitor com alguma frase do tipo "se você teve paciência para chegar até aqui...". E isso para não falar dos comentários off topic, ao melhor estilo não-tive-tempo-para-ler-seu-texto-só-escrevi-pra-dizer-oi-adoro-o-seu-blog-visite-o-meu! O fato é inequívoco: ler textos na tela é cansativo e é difícil resistir à compulsão de "folheá-los" na diagonal.
Em meio a tanta urgência e fugacidade há que se reiterar, pois, alguns dos melhores aspectos positivos do meio "blog": o fomento de debates em tempo real, o estímulo à comunicação de idéias, a democratização da publicação de conteúdo na Web, e, principalmente, a liberdade de expressão.
Não posso deixar de lamentar, contudo, os efeitos colaterais surgidos em meio à urgência de novos posts. Ao contrário de textos impressos em celulose, transportáveis para qualquer local e lidos quando bem entender, o prazo de validade de um post vale pelo tempo em que é exibido na home-page. Depois, torna-se jornal virtual a embrulhar peixes cibernéticos precocemente envelhecidos, folheado por uma massa restrita de leitores.

Pensar enlouquece. Pense Nisto.

Dicas práticas para quem usa elevador

Por mais que pareça o contrário, o elevador é um complexo meio de transporte.
Alguns pensam que é só apertar ou um botão e tudo se resolve. Não, não, não.
Muitos de nós, todos os dias, presenciamos cenas patéticas envolvendo elevadores; outros tantos, é claro, são os que as cometem.
Assim, as dicas abaixo são para aqueles que ainda estão em fase de aprendizado quanto ao uso dessa coisa complicadíssima.
Apertar o Botão Várias Vezes
É difícil convencer panacas, mas entendam que NÃO ADIANTA NADA APERTAR O BOTÃO VÁRIAS VEZES. Isso não acelera o elevador. Não passa de boato a história de haver um dispositivo de aceleração que é acionado quando se aperta o botão 300 vezes em um segundo, tal o antigo jogo de fliperama “Decathlon”. O mesmo se aplica quanto aos botões internos do elevador.
Física I: Entrar e Sair
Por mais que você queira entrar, É PRECISO ANTES DE TUDO ESPERAR QUEM VAI SAIR. Só depois disso você entra. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, e é claro que essa lei vale para o corpo humano.
Física II: Posicionamento Interno
Suponhamos um edifício de 20 andares e você descerá no 19. É de bom tom, e de razoável inteligência, tentar se posicionar NO FUNDO do elevador. Salvo quando isso é realmente impossível, dada a lotação, é um tremendo atestado de imbecilidade a pessoa que vai descer nos últimos andares permanecer pertinho da porta. O mesmo vale para quem vai descer nos primeiros andares: nada de ficar lá no fundão e depois falar “cençaqueuvôdescê”.
Botões “Sobe” e “Desce”
Alguns elevadores são dotados de dois botões nos andares. Pouca gente sabe usar esse dispositivo, embora bem simples. Você vai descer? Aperte o botão para descer. Você vai subir? Aperte o outro. Se o elevador está no quarto andar, você no oitavo, e você pretende ir para o térreo, NÃO É PARA APERTAR PARA SUBIR, só porque o elevador está em andar inferior. Sim, ele vai “subir” até você, mas VOCÊ VAI DESCER, então aperte o botão para descer.
Câmeras Filmadoras
Com o “boom” de filmadoras instaladas em elevadores, os agentes de segurança se decepcionaram com os flagrantes. Em vez de apanhar ávidos casais, simplesmente observam pessoas espremendo cravos e espinhas, ou então fazendo caretas olhando para o espelho. Não passe esse tipo de vergonha!
Mantenha a Noção nos Papos
Qualquer que seja o assunto, é de péssimo tom mantê-lo no elevador. Por se tratar de um ambiente fechado, no qual geralmente pessoas se apertam, o ideal é TENTAR FECHAR A MATRAQUINHA POR PELO MENOS ALGUNS MINUTOS, evitando-se a poluição sonora. Assuntos de extrema urgência, obviamente, são exceção à regra. De todo modo, alguns outros temas podem muito bem esperar um pouco, dos quais são exemplos: hemorróidas, diarréia, vômitos etc.
Evitando “Papos Clássicos de Elevador”
Quando o elevador não está muito cheio, algumas pessoas infelizmente partem para os chamados “papos de elevador”. Em vez de demonstrar simpatia, isso faz com que o interlocutor, em geral, ganhe úlceras de tanta raiva. Vamos evitar esse tipo de coisa! Chega de “falsa simpatia”! Exemplos de assuntinhos que causam raiva:
- Observações climáticas;
- Comentários futebolísticos;
- Anedotas em geral.
Evite Assuntos Longos
Caso você seja o tipo de pessoa que não se emenda, pelo menos evite assuntos muito longos. O tempo que se passa num elevador, salvo quando ele quebra, é muito inferior ao levado em uma viagem de ônibus de São Paulo a Mossoró. Assim, uma história muito longa não deve ser iniciada, porque o interlocutor obviamente vai ficar curiosos, e não haverá temo hábil para nem mesmo passar da introdução.
Flatulência
Não peide no elevador. Por mais que você tenha incontinência gasosa, por mais que sua barriga dê aquela pontada forte, por mais que seu sistema digestivo clame pela liberação de gases, NÃO SOLTE ROJÃO NO ELEVADOR! E a norma não vale apenas para elevadores lotados. Segundo análises do dia-a-dia, um peido do brabo, mesmo em elevador vazio, continua ativo por umas três horas. Há casos e casos de gente que pega o elevador fedido, e, mesmo não sendo autor do traque, ainda por cima é olhado com ódio pelos que entram depois. Estuda-se a implantação de Pena de Morte nesses casos (e também para quem segura a porta).
Assovio: Nem Sabendo É Legal
Não é todo mundo que sabe assoviar. Algumas pessoas emitem sons completamente desafinados, que prendem a atenção dos ouvintes não pela qualidade, mas pelo desafio de se descobrir que raio de música é aquela. O assovio, no elevador, é uma coisa chata até para quem sabe fazer. Imagine então quando alguém da “turma do chiado” resolve expor sua falta de musicalidade.
Saiba Usar a Escada
Uma forma de se demonstrar sabedoria, quanto ao uso do elevador, é exatamente NÃO USÁ-LO em algumas ocasiões. Você vai descer um, dois ou talvez três andares? Use a escada! Vai subir um andar, ou quem sabe dois? Use a escada também, caraca! Corre à boca-pequena que Deus castiga com tromboses agudas, além de outras mazelas, aqueles que usam o elevador para percursos ridículos.

Dicas do Gravataí Merengue

Hoje olhei minha cara no espelho e não era eu. Estou sem dormir há três noites. Dói tudo, o coração também. E me sinto doente terminal. No fim do feriadão já não estava bem e fiquei quase oito horas esperando um ônibus, na rodoviária mais escrota que já conheci. Viajei a madruga toda acordado. Desci no metrô de São Paulo e pensei que estivesse em Tóquio. Não me lembro de ter andado para embarcar. Tava no meio da multidão e ela embarca em bloco, uma coisa só, que se movimenta e passa pela porta, uns grudados nos outros. Uma espécie de levitação coletiva. Na troca de trens foi pior. Só uma parte da multidão conseguiu entrar, e eu fiquei na borda da plataforma, muito além da faixa amarela, o trem voando perto da minha orelha. Meus joelhos já estavam estourados quando vi a escada rolante na mesma situação. Quebrada. Saí da estação levando a mochila direto pro trampo, não podia atrasar. Estranharam a minha cara quando cheguei. Voltei pra casa 10 da noite, a luz cortada, não lembrei de comprar vela, caí na cama de tênis e roupa na ilusão de que iria dormir. E dormi. Meia hora. Alguns litros de café me mantêm agora num estado lusco-fusco, não tenho certeza de muita coisa. As pessoas continuam estranhando a minha cara no trampo. Tenho que tomar remédio ou já tomei? Não estou reclamando, só fazendo um registro, é assim que se diz? Amanhã vai ser outro dia.

A vida é bela no catarro verde

25.4.05

O mês certo para nascer

O orkut me chamou a atenção para algo interessante. Muita gente, mas muita gente mesmo, nasceu no mês de abril. Só na minha lista tem, nesse momento, 15 pessoas aniversariando nos próximos 10 dias. Tentei fazer cálculos simples para tentar entender esse fenômeno, somando 9 meses às datas críticas. Dia dos namorados, Ano Novo, Carnaval e até o Natal e a Páscoa, onde as pessoas costumam comer muitos Perus e Ovos, não foram esquecidos. Infelizmente eu não achei nenhuma data que encaixasse perfeitamente na ordem dos 9 meses, que compreende a segunda metade de julho até agosto, mais ou menos.
O que me chamou a atenção é que nesse período costuma-se tirar férias de meio de ano, aquelas férias de 15 dias que quando a parada começa a ficar boa, o "feriadão" já acabou. Nesse período de férias de meio de ano, que difere monetariamente do período das férias de início/fim de ano por causa de detalhes como o 13º e bonificações (se você for um senador, acrescentar 14º e 15º) - o que, resumidamente, deixa todo mundo duro - , é quando rola a parada!

De férias, tomando Cintra no sofá, passando "Cocoon" na Globo e "Três Ninjas Contra-Atacam" no SBT e sem nenhum puto no bolso, o que fazer?! Opa, tive uma idéia!
- Querida, tá um saco isso aqui hein.
- É...
- Que que você acha da gente...
- Da gente o quê?
- Da gente... Bem... Cê sabe... (fica balançando a cabeça de forma gingada, dando sorrisinhos marotos e piscando o olho, a fim de fazer com que a parceira perceba que ele quer fazer o que os animais fazem no Discovery Channel)
- Fala logo! Tô ficando nervosa.
- Bem... Da gente fazer aquela coisa que eu sempre gosto de fazer mas você detesta.
- Visitar a sua mãe?
- Como?
- Visitar a sua mãe?!
- Não! Não! Você não captou!
- Então o que, bem?
- Uma trepada, uma foda, uma socada, molhar o biscoito, afogar o ganso, fazer neném, uma chuchada, uma carcada, uma pistolada, uma chanfrada, dar uma pirocada, chamar no saco, te traçar, agasalhar o croquete, enconder a cobra, te dar uma enrabada, passar o ferro, enterrar a mandioca, dar uma fubecada, uma escovadinha, molhar o pavio, enfurnar o robalo, passar a tramela, chamar na chincha, fazer...
- Tá, já entendi! Mas quem disse que eu não gosto disso?!
- Ué! Você gosta?
- Não!
- ...
- Mas melhor isso do que ir pra casa da sua mãe.

Assim eu nasci, como muitos outros, no mês de abril.

Photochopp

Bolsas

Eu detesto usar bolsa. Uso porque detesto mais ainda carregar coisas na mão. Taco tudo dentro da bolsa, penduro a dita cuja a tiracolo (de preferência) e vou embora, quase feliz por não ter nada impedindo minhas mãos, só um estorvo necessário a tiracolo que não me impede de nada. Essa é a lógica da bolsa, pra mim.
Então lança-se a moda das bolsas minúsculas com micro-alças. Bolsas que você não consegue pendurar. Bolsas que você tem que carregar na mão.
Se é pra carregar a bolsa na mão, não é mais fácil carregar a carteira que é menor?
A moda é estranha ou sou eu?

calaboca que eu tô falando!

O LIVRO LÊ

Marcel Proust dizia que jamais duas pessoas lêem o mesmo livro. Grande verdade. Quando me perguntam que livro estou lendo, me pergunto que serventia teria essa informação para a pessoa. Quando me pedem para recomendar algum livro, fico mais perplexo e não entendo como isto poderia importar. Um dia desses uma amiga me dizia que alguém indicou um livro tal para ela para tal e tal propósito e por coincidência eu já tinha lido o tal livro. Tive que pensar bastante para entender a razão da indicação, pois para aquela tal coisa, o livro a mim não disse nada. Depois buscando, buscando, lembrei de alguma coisa que talvez fizesse sentido na indicação. Se a mim ela pedisse a mesma coisa, eu jamais indicaria aquele livro. A indicação de um livro por quem respeitamos só nos fará tentar repetir a experiência dele e assim abdicamos da nossa. Um livro é lido e lê ao mesmo tempo. Se todo mundo escrevesse um livro a respeito do livro que leu, muita coisa interessante se veria. E não estou falando da burrice de vários leitores. Estou falando mesmo é da necessidade de cada um enquanto lê um livro.

Pró Tensão

Amém

Dia de domingo, dia de ir à missa e lavar o cachorro. Não necessariamente nessa ordem, claro. Se bem que pra muita gente é dia de ir a missa e dormir, nessa ordem, e no mesmo lugar. Mas, com o padre que reza missa onde vou, isso é praticamente impossível.
Alguns dias antes da Semana Santa ele estava falando sobre o domingo de Páscoa, dia de ramos, romaria, e começou a passar a agenda dos eventos, quando parou pra dar uma explicação:
- É o seguinte, dessa vez não vou fazer romaria de manhã. E não é má vontade não! É porque no ano passado eu marquei a saída às 7:00 hs, deu 7:40 hs, e lá vinha eu e uma freirinha, andando pela rua deserta, eu com meu raminho e ela com uma vela - isso enquanto encenava tudo -, daí veio um vento e apagou a vela. Foi triste...
Hoje ele resolveu dar uma aula de catecismo e ensinar a forma correta de comungar. Primeiro como deve se portar na fila. Ver um padre, de batina e tudo, no meio de uma missa em cima do altar imitando um malandro caminhando não é lá muito comum. Depois veio a pérola da vez:
- Outro dia, eu estava distribuindo as hóstias, quando entrego a um sujeito e digo: "O Corpo de Cristo", e ele me responde: "Ok". Como assim Ok??? Isso é coisa que se diga?? Ókei! - de novo imitando o malandro, nessa hora nem mesmo os coroinhas seguraram as gargalhadas.
Deus me perdoe, mas às vezes acho que esse padre é meio doido, e é justamente por isso que freqüento a paróquia dele.

um ponto no espaço

24.4.05

.R.a.p.i.d.i.n.h.a.s.

Imagine que você tem peitos que cabem apenas em sutiãs 44/46. Agora imagine que você está perto "daqueles dias" (como diria minha avó), e os dois estão completamente inchados, quase migrando pro tamanho 58. Experimente então fazer cara de paisagem para o fato e encarar uma aula de combat, pulando mais que neguinho com urtiga na cueca. Imaginou? É assim que me sinto agora. E se eu fosse uma índia, certamente meu nome seria Peito Doído.

Coloquei meu carro pra lavar no shopping e voltei toda feliz, com ele reluzindo de tão limpinho. Quando cheguei em casa e tentei destravar o cinto de segurança, percebi que o moço-lavador havia quebrado a trava, e acabei ficando presa. Apertei, apertei e nada da disgrama me soltar. Fui obrigada a fazer contorcionismos genitálicos para sair por baixo do cinto. O que é a vida, meu pai. Nessas horas, agradeço a deus por ser quase uma anã.

Sorvete de Casquinho

Uma coleção de posts infelizes

Eu deveria sair hoje a noite, mas estou com um péssimo humor.
Claro que vou sair de qualquer jeito porque, nunca se sabe, é capaz que acidentalmente eu me divirta.

Eu geralmente sou muito tímido para argumentar durante as aulas.
E mesmo quando o que eu estou pensando em adicionar ao debate é seguido continuamente de "Puta Merda! Como vc pode ser tão burro?!", eu geralmente prefiro guardar meus argumentos só pra mim mesmo.
Como hoje, na aula de "Análise do Discurso", quando todos da classe estavam empenhados em descobrir a razão pela qual a maioria dos hipermercados estão mais concentrados em áreas suburbanas ricas do que em áreas urbanas de baixa-renda.
Eles ficaram discutindo por quase uma aula inteira de 50 minutos, e no final, todos deram de ombros porque nenhum deles conseguiu formular uma única simples teoria.
Vcs não têm idéia de como eu quis me levantar, jogar minha cadeira pro outro lado da sala, e gritar: "A razão para os hipermercados estarem localizados nas comunidades mais ricas é PORQUE PESSOAS RICAS TÊM DINHEIRO. Além disso, pessoas ricas têm mais dinheiro que pessoas pobres! E pessoas ricas, QUE A PROPÓSITO TÊM MUITO DINHEIRO, podem gastar mais dinheiro em produtos que não são essenciais para se viver. E não é do interesse dos hipermercados serem localizados nas zonas pobres, porque PESSOAS POBRES TÊM MENOS DINHEIRO QUE PESSOAS RICAS."
Eu pago mensalmente R$600 para ter o privilégio de assistir essas aulas, e não deveria ter sido surpresa alguma que eu tenha recebido as notas mais altas da turma. E vc sabe por que? PORQUE PESSOAS INTELIGENTES TÊM MAIS CONHECIMENTO QUE PESSOAS BURRAS.

my own pretty hate machine

A dona da razão

Antes de ir embora, ela jogou-lhe na cara o que achava dele: era obstinado e obtuso. Ele disse que não era nada disso, de maneira nenhuma, não era. Ela respondeu que tal atitude só confirmava o que ela dissera. Ele replicou que não confirmava coisa nenhuma, que não era nada daquilo.
Ela, irritada, saiu batendo a porta.
Ele, confuso, correu para o dicionário.

Jesus, me chicoteia!

21.4.05

Sobre baratas e tecnologia

Eu já falei que tenho ojeriza a baratas?
Antes de tudo, EXPLICAR-ME-EI: não é mais um daqueles nhenhenhéns típicos "uiuiui nofsa baratas socorro socorro alguém me acudam GENTE ELA VAI ME DEGLUTIR." Não, não. A coisa possui raízes científicas. Desde que me aprofundei nos estudos da zoologia(contudo, hoje quem aparecer com um livro de biologia na minha frente leva tapa, ESTEJAM AVISADOS), aprendi que as baratas transmitem uma gama de doenças(furúnculos, gastroenterites, hepatite e por aí vai), além de carregarem nas patas protozoários, ácaros e sabe-se Deus mais o quê.
Entenderam o motivo da aversão???? BARATA MATA!
Continuando, nesse mmmaldito tempo chuvoso e quente, as baratas organizaram-se e estão realizando orgias&bacanais no terreno baldio daqui do lado do prédio. Como era-se de esperar, às vezes acontece de uma barata desinformada confundir o endereço e vir bater aqui em casa e, ínvariavelmente, vir pedir informações de localização a MIM.(pelo menos, essa é a única explicação do porquê de elas só aparecerem PARA MIM e quando eu estou SOZINHA.)
E aí, como fica?
Ora, eu me nego a trocar idéias com baratas. Elas são nocivas, eu já lhes disse.
- AAAAAAAAAH! BARATA! ELA VOA! ALGUÉM, ALGUÉM!
Daí aparece o Homer Simpson da minha vida: meu pai.
- Cadê, cadê?
- Correu pra trás do móvel.
- Xi, desse tamanho só vai com veneno.
- Que veneno coisa nenhuma, você sempre diz isso, taca veneno na barata, diz que ela vai morrer e ela não morre coisa nenhuma.
- Minha filha, você, como sempre, critica tudo o que eu faço.
- Não é crítica, é constatação.
- Sua mãe está dormindo, coitada, e você fazendo zuada.
- Queria que eu gritasse em código morse?
- E o veneno, cadê?
- E eu sei? Eu não mexo nisso, a última pessoa que pegou nele foi você.
Então ele saiu à procura do dito veneno enquanto a cucaracha ficou fazendo "pófite-pófite" nas paredes da sala. Da cozinha, pude ouvir as reclamações chorosas:
- Bibibibibi tiraram o veneno do lugar bibibibi todo mundo mexe nas minhas coisas nessa casa bibibibibi ninguém me respeita bibibibibi..
Foi então que, com o barulho que ele fazia enquanto revirava tudo à procura do tal inseticida, minha mãe acordou. Ainda com cara de sono, lançou-me um olhar fuzilante de "queporraéssaagora". Apontei para o tal artrópode e olhei em direção à cozinha, onde meu pai soltava impropérios indecifráveis. Ela respirou fundo, tirou a havaina do pé, acertou a barata, matou-a, jogou o cadáver na porta da cozinha e foi dormir de novo.
Uns dez minutos depois, escutei, da cozinha, um grito de glória:
- MMMMMMMMATEI!!!!! TAVA AQUI NA PORTA!!!
Incrível como a tecnologia inseticida complicou coisas antes tão descomplicadas.

Boo Blog

19.4.05

CDV, BOA NOITE

– CDV, boa noite.
– Boa noooooiiite, caríssimo atendente! Como vai essa força? E a fam…
– Menos, senhor, menos. Lembre-se do verdadeiro motivo por que ligou para cá.
– Mmmm. Tem razão. (Pigarro). Eu tenho andado muito… Hã…
– Eufórico. Hebefrênico. Fagueiro. Cheio de iniciativa.
– Issssooo, meu grande atend… Quer dizer. Hm. Exatamente.
– E isso afastou todos os amigos.
– Ahááá, na mosc… hm. Sim, certo. Os amigos sumiram.
– Conte-me como andava sua conduta, até isso acontecer. E antes de mais nada, deixe-me só fazer um alerta.
– Sim?
– Menos.
– Ah, certo. Bem, nas últimas semanas – segundo os poucos amigos que tinham restado até então – minhas atitudes passaram dos limites. Minha sociabilidade ficou comprometida.
– Prossiga.
– Eu chegava às segundas-feiras, no escritório, e dizia bem alto: “Bom dia e boa semana a todos! Não esqueçamos o otimismo, a perseverança, o companheirismo – e tenhamos em mente os valores e a missão dessa empresa!” Todos me olhavam como se eu fosse um aidético com hanseníase. Uma vez cheguei a ler e decorar trechos inteirinhos do Inteligência Emocional e do Quem Mexeu no Meu Queijo? para poder citá-los de cabeça na reunião semanal. Quando terminei a citação, olhei ao redor e reparei que a sala de reuniões estava vazia. Papéis largados, cadeiras viradas. Só tinha sobrado a copeira, que me olhava com os olhos esbugalhados e em pânico, segurando uma bandeja vazia.
– Sei. E em casa?
– Ah, eu acordava antes de todo mundo. Fazia questão de preparar sozinho o café da manhã. Sabe aqueles comerciais de margarina, onde a família inteira se senta à mesa logo no começo do dia, sorridente, sem olhos inchados, os rostos reluzentes? Pois é – mas só eu era assim. Minha mulher acordava e tomava 10 miligramas de Prozac junto com o café, me olhando meio passada. Durante meus discursos edificantes e cheios de metáforas sobre como encarar o dia, às vezes um ou outro filho saía correndo da mesa para vomitar, no banheiro. Ou pior ainda: saía da mesa e voltava à cama, para dormir.
– Prossiga.
– Aos poucos o isolamento começou. No escritório, quando o pessoal saía depois do expediente para tomar uns drinques e eu aparecia no bar pedindo uma Coca Diet, diziam cochichando: “Começou a unhappy hour”. A diretoria chegou a pedir que eu trabalhasse em casa – e ainda dobraria meu salário! Em casa, então, nem conto. Um dia, enquanto minha mulher tomava o Prozac diário, comecei a explicar como a depressão era paralisante, e insisti que ela devia reaver a vontade de lutar, abrir-se para a vida. Até li em voz alta algumas frases do Gotas de Sabedoria. Foi o bastante. Ela pegou as crianças e rumou para a casa da mãe.
– Sei. E desde então o senhor não falou mais com ninguém?
– Não. Se eu ligo e algum amigo atende, ao reconhecer minha voz ele é quem diz “Desculpe, foi engano!” e desliga. Sabe que você foi o primeiro a querer falar comigo no telefone, hoje? A primeira voz amiga, que…
– Menos, senhor, menos. Escute. Não se entregue. Seu caso tem solução. Entre outras coisas, o senhor precisa evitar a todo custo as más influências. Esse tipo de leitura, por exemplo.
– Que tipo?
– Leitura motivacional. Isso só vai motivar uma coisa: que todo mundo continue longe do senhor. Passe a Baudelaire. Camus. Augusto dos Anjos. Ouça algumas óperas, principalmente Leoncavallo. Pare também com essa Coquinha Diet e comece a tomar gin-tônica. Depois fique só com o gin. E assim vai. Está anotando?
– Sim, sim. Mas isso não vai me transformar num…
– Num o quê? Num o quê? Escuta, quem é o atendente aqui?
– Certo, certo.
– Então vá por mim. Faça isso e recupere os amigos. Ou pelo menos um mínimo de circunspecção comportamental.
– Puxa. (Pausa) Nem sei o que dizer. Agora eu entendo. Sim, compreendi. Você trouxe luz à minha solidão. Abriu meus olhos. Me fez…
– Senhor?
– Pois não.
– Menos.

Ao Mirante, Nelson!

pobrezinha da américa latina, desde o berço explorada

E ainda chamam os conquistadores de covardes. Não vejo como. Quando meia dúzia de caipiras, armados com pau-de-fogo, dominam um continente inteiro, não são eles os covardes.

"Eles foram ajudados pelas doenças! Fomos dizimados!"

Pois é, até nas doenças a Europa sempre foi mais evoluída que a gente.

E sempre que aparecem uns tontos me pedindo indenização histórica, penso em pagar com aquilo que lhes é historicamente mais caro: um pacote de fumo e alguns espelhinhos.

Dívida... e digo à mesa do bar que lhes demos civilização, e em vez de nos retribuírem com Mozarts, Einsteins, Michelangelos, nos deram apenas Belafonte, Juruna, Basquiat e nomes outros talvez ainda mais ridículos. Quem está em dívida com quem?

É quando querem me bater. O Brasil não está preparado pra esse tipo de humor maléfico. A menos que apareça na televisão, aí todo mundo percebe que é brincadeira -- sobretudo se for no horário eleitoral, que por alguma razão só candidato leva a sério.

dies iræ

12.4.05

O maior mico da minha vida...

Aconteceu já tem um tempo. Uns anos.

Eu precisava ir ao oculista. Consulta de rotina, confirmar o grau para fazer óculos novos. Nada de mais. Como tinha o convênio da empresa da minha mãe, pedi para ela ver entre os colegas dela se alguém tinha alguma indicação.

Dias depois, ela me trouxe um nome e um telefone. Ótimo. Liguei, marquei consulta. Nada de mais.

No dia da consulta, lá vou eu, feliz e contente. Só uma consulta de rotina com um oculista, nada para preocupação. Ou não...

Chegando ao consultório, já começaram os fatos estranhos. Não parecia uma sala de espera normal. As pessoas estavam tristes, cabisbaixas, deprimidas. Extremamente preocupadas. Algumas olhavam para mim com um ar compungido, e eu não entendia porque. "Mas é só uma consulta com o oculista... tanto drama por causa de um problema de visão? Eu, hein...".

Não demorou muito para chegar a minha vez. O médico abriu a porta do consultório e chamou meu nome. Quando me levantei, ele demonstrou surpresa e o mesmo ar de pena do pessoal da sala de espera: "Você veio sozinha??". Balancei a cabeça afirmativamente. "Ora bolas, para que eu ia precisar de companhia em uma visita ao oculista?".

Ele se sentou, suspirou e atirou a pergunta, como se temesse a resposta: "Então, por que você está aqui?". Eu, sem mais rodeios, tirei a última receita com o grau dos óculos antigos da bolsa e coloquei-a sobre a mesa, com a explicação simples e direta: "Bom, é que já faz tempo que eu não confiro o grau, e preciso fazer óculos novos..."

Ele pegou a receita com um ar intrigado. Subitamente, pareceu compreender toda a situação. Olhou para mim como que contendo o riso, provavelmente em uma tentativa – inútil, mas bem-intencionada – de não me deixar constrangida. "Eu acho que você se enganou... eu não sou oculista, sou oncologista".

A palavra ficou ressoando nos meus ouvidos. "Oncologista, oncologista... caramba, o que é que eu estou fazendo aqui??????"

Para quem estiver em dúvida, oncologista é o médico especialista em câncer. E o que é pior, o cara era oncologista cirúrgico. Ou seja, o tipo do médico que só se procura quando tudo o mais já está perdido...

De repente, tudo começou a fazer sentido. O ar pesado da sala de espera, o olhar compungido da secretária, a pena do médico ao me ver entrar sozinha para a consulta. Olhei ao meu redor. Como eu não havia percebido antes? Passei os olhos pelos livros na estante: ‘Câncer na Boca’, ‘Câncer no Estômago’, ‘Câncer na Laringe"... a maca, para que diabos haveria uma maca em um consultório de um oculista??? E aquela máquina esdrúxula para exames oftalmológicos, como eu não tinha percebido que não havia uma ali??

Eu queria sumir. Queria que o chão se abrisse e me engolisse. Comecei a sentir um calor tremendo, imaginei que meu rosto devia estar um pimentão. Acho que nunca me senti tão idiota em toda a minha vida...

"Eu sei por que você se confundiu... é que a lista de oncologistas vem logo em seguida à de oculistas no livrinho do convênio...". Ele tentava justificar o injustificável.

"Vou te recomendar um oculista muito bom, um amigo, o consultório dele é aqui pertinho...". Eu já nem ouvia, só queria me levantar e sumir dali.

Ele me entregou o papel com o endereço do tal oculista. Eu peguei, agradeci, virei as costas. Tentei fazer a cara mais tranquila possível, algo assim como "enganos acontecem... que coisa mais curiosa...", mas é claro que a minha expressão denunciava o quanto eu estava me sentido a criatura mais tapada do universo.

Saí direto, sem olhar para os lados na sala de espera. Eles não sabiam, mas a minha cara de desconcerto certamente denunciaria tamanha estupidez.

Saindo do consultório, inventei de olhar para trás. Maldita hora. Só pra piorar as coisas. Uma placa enorme na porta dizia em letras garrafais: "Dr. Fulano de Tal, oncologista cirúrgico". Por que diabos eu não vi essa placa na entrada? Distraída tudo bem, mas assim já era demais...

Saindo do prédio, sentei na escadaria e fiquei lá, uma meia hora, rindo sozinha. As pessoas passavam e não entendiam nada. Mas eu entendia.

Eu tinha uma mera miopia. E isso era muito, muito bom...

Um mico by Renata

What will survive of us is love

“Ridículo” era uma das tuas palavras prediletas –como qualificativo, admoestação, crítica e premonição, era raro que uma conversa passasse sem que você a empregasse, com aquele teu estranho “r” que não tinha o ronco do RR e nem era suave como o R brando. Quando a gente via anciões de 30 anos se comportando bizarramente, você sempre me olhava e me fazia prometer que não, a gente não seria ridículo daquele jeito quando atingíssemos a vetusta idade daquela gente patética. Ou, me golpeando com o punho que ostentava um dedo médio saltado à maneira de soco inglês (aqueles socos doíam, ô), cê me encarava com severidade prussiana e ordenava “não seja ridículo, menino”.

No limiar da autonomia, a gente encarava o mundo adulto com um fascínio horrorizado –os rituais de acasalamento, a necessidade incontrolável de contar vantagem, o comportamento bizarro em cerimônias, a liberdade material e a ausência de disciplina que, estranhamente, pareciam torná-los tão mais infelizes. Porque a gente lia muito, e aqueles romances “naturalistas” todos em que um narrador explica tintim por tintim, em terceira pessoa, o que se passa nas cabeças, almas e encanamentos dos personagens, a chusma que observávamos parecia estranhamente unidimensional, rude, grotesca, meio pintura rupestre. E porque acreditávamos devotadamente nessa “vida interior” riquíssima que os livros expunham, não era exatamente como antropólogos aos selvagens que observávamos a estranha fauna –havia uma certa repulsa, de nossa parte, um fascínio meio horrorizado. Eles eram todos, para resumir como você resumia, “ridículos”.

Sabe, B., eu agora tenho a idade que eles tinham e –talvez em função da tua ausência- não consigo evitar meus momentos de ridículo. Às vezes, chafurdando nele, fico imaginando se as coisas poderiam concebivelmente ter sido diferentes, caso você tivesse sobrevivido. Mas o dirty little secret que vou te contar aqui, com atraso de quase 20 anos, é que a consciência de que estamos sendo ridículos não evita que o sejamos. A crueldade com que você e eu classificávamos todo mundo era privilégio do nosso isolamento: da janela do apartamento, quase todo mundo parece gordo na piscina. Lá embaixo, baby, você descobre que é um dos caras que ficam segurando a barriga.

Do alto de sua prussiana empáfia, é bem provável que você nem lembre da Dri, aquela namorada magricela que demonstrava amor por mim com cartões desenhados a mão contendo promessas tocantes e ortograficamente pobremáticas de fidelidade e paixão (ou, como escreveria a Dri, “paichão”). Well, ela te odiava, anyway. Dizia que era fácil achar todo mundo ridículo, sendo loira, gostosa e rica. Eu sempre descartei as críticas dela classificando-as sob a rubrica “ciúme”. But she had a point there, didn’t she? Porque em meio à tua profusão de paqueras, namorados, enroscos e casos eu era a constante da tua vida, vai ver que eu me achava loiro, rico e gostoso honorário, nem sei. Fact is, I wasn’t.

Quando saí de casa para uma cintilante carreira de garçom/aspiring musician/bad college undergrad, combinamos aquelas coisas patéticas que os jovens costumam, entre as quais reencontros a cada cinco anos –e porque você seria a melhor arquiteta do mundo e eu um astro-pop-sem-ser-mongo, aproveitamos logo pra marcar esses encontros em Firenze. Sonhar baixo, afinal, é coisa de ridículo. Não sei se acidente de automóvel aos 18 anos mereceria tua palavra predileta, baby, mas meu mundo ficou muito mais pobre e muito mais ridículo sem você. Quando vou a Firenze e passeio pelo Boboli, meus olhos se enchem de lágrimas e meu coração transborda de lembranças tuas. As meninas de 13 anos maquiadas como se fossem piranhas e acendendo um cigarro no outro que ficam na porta da escola ali perto talvez me vejam passar com os olhos vermelhos e comentem “ih, olha que turista ridículo”. Você, no prussiano céu de arquitetura impecável que inevitavelmente deve ter projetado e executado nesses 18 anos de ausência, decerto ouve e rola de rir.

Filthy McNasty

11.4.05

Sobre Blogs:

Há cerca de um ano ouço a mesma coisa: essa coisa da Blog acabou. Dizem que ninguém mais se interessa por isso, que a onda acabou, que não existem mais grupos, festas, que a coisa de linkar, comentar, visitar, fazer festa, tudo isso acabou. Eu, enquanto amante dessa coisa chamada "Blog" resolvi dar o meu grito de luta e defender essa ferramenta tão mal compreendida e tão mal utilizada. O intuíto não é provar que o "Movimento Blog não morreu", mas sim que, a fase inicial se foi, e com ela, o mal uso da ferramenta e toda a ilusão que esta incompreensão carrega. Hoje, os blogs são o que realmente devem ser, ferramentas de publicação individual, e não sites de relacionamento e/o promoção pessoal.

Blogout

Dia de domingo

Porque minha mãe sempre cozinha no domingo tomando uma cervejinha. Aí a comida só fica pronta lá pras 4h da tarde, a gente já roxinho de fome. É estratégia, almoço-janta de uma vez só. E eu, que cismam dizer não saber cozinhar, fico lá só cortando cebola e azeitona e tomate e mais cebola e agora cebolinha e salsinha e mais um pouco de cebola (pra quê tanta cebola, meus olhos chorosos perguntam) e passa o sal com alho também, corta mais tomate agora quadradinho, igual a cenoura, abre as latas de milho e ervilha. Pra no final a gente sair satisfeito, tirar um cochilo e só acordar na hora que a boca pede uma coca-cola e já tá passando o Fantástico na globo.

Domingo é sempre igual até no Sanatorium

Eu acabei de andar do início da Rua Clélia (Lapa) até o final da Rua Monte Alegre (Perdizes) embaixo desse sol foda que tá hoje, simplesmente porque o trânsito parou literalmente, a ponto do motorista do ônibus descer e ficar trocando idéia com o pessoal do comércio. Eu tava tão zureta de cansaço que eu quase fui atropelada na Av. Sumaré, porque eu comecei a pirar no povo que tava ali fazendo cooper de short, e eu dentro de uma calça jeans escura fazendo o mesmo trajeto... e nem prestei atenção que eu tava no meio da Avenida.
Eu saí de casa 7:30. São quase 10:30.
DÁ PRA IMAGINAR O TAMANHO DO ÓDIO QUE EU TÔ DESSA CIDADE?
Meu. Eu tô tão emputecida que eu não consigo nem falar palavrão.
A vantagem é que posso ficar sem exercícios para o resto da minha vida, porque não é a primeira vez que eu faço isso.
Agora dá licença que eu vou fumar um cigarro sentada na frente do computador por cerca de 8 horas, porque isso é que é vida, caminhar séculos embaixo do sol, de calça jeans, respirando o ar puro do trânsito de São Paulo, e chegar no trabalho parecendo que nem tomou banho, e ainda passar o dia sem levantar da cadeira olhando pra uma telinha.
Uhu, mas que beleza. Game Over. Don't feed me, please. Tirem a minha sonda agora.

qum se importa?

Minhas acepções sobre São Paulo

São Paulo, ou Paulo de Tarso, que antes se chamava Saulo, foi um homem que matava cristãos, mas se arrependeu quando Cristo apareceu para ele e o cegou. Depois que foi batizado por um discípulo de Jesus chamado Ananias, um dos nomes mais engraçados da Bíblia, voltou a enxergar e passou a espalhar a palavra do Senhor por todo o Império Romano, transformando o cristianismo na maior religião da época. Mas não é desse São Paulo que quero falar, ele não é importante.

São Paulo (a cidade que morei durante toda minha vida desde ontem e segunda maior cidade do Brasil, atrás apenas de Dois Córregos, maior cidade do universo e onde eu vivia até anteontem) é uma cidade barulhenta. Mal pude dormir essa noite. Som de carros, motos, caminhões, sirenes, gente sendo baleada (ah, como gente sendo baleada é barulhenta!) e jazz. Sim, jazz. O cara do quarto ao lado passou a noite ouvindo jazz. Eu teria pedido para ele abaixar o volume do rádio, mas não pude fazê-lo. Eu teria virado para o lado e dormido, ignorando a música, mas também não pude fazê-lo. Adoro jazz.
Em São Paulo, tudo é longe. A USP (onde estudo a partir de amanhã) é longe - apesar eu de poder ver a Cidade Universitária da minha janela -, o parque do Ibirapuera é longe, o estádio do Morumbi é longe, o shopping (qualquer um deles) é longe, a esquina é longe, o andar térreo é longe. Aliás, o andar térreo é muito longe, 15 andares abaixo. Moro no décimo-quinto andar. Duvido que alguém viva num lugar tão alto, excetuando-se os moradores do décimo-sexto andar. O ar é rarefeito aqui. Aviões passam logo abaixo minha janela. Esticando os braços pela janela, posso tocar satélites, foguetes, estações espaciais e até a Lua. A Lua, amiguinhos! Se o monte Everest fosse aqui ao lado, eu poderia vê-lo de cima.
E, por fim, São Paulo está cheio de ladrões. No meu primeiro dia aqui, já me roubaram 16 reais. Foi uma caixa do Cinemark. 16 reais pra assistir a um filme ruim. Um roubo, um roubo!

¡Ay, Caramba!

Dizem que burrice mata

Eu só acho que podia ser mais rápido.

CALABOCA que eu tô falando!

10.4.05

Eulálio Catamiro

Desligou o telefone. Era mais uma daquelas ligações pedindo para usar o nome de seu marido, falecido, em algum tipo de obra pública, lançamento artístico, algo assim.
Ela se lembra de todas.
- Queríamos usar o nome do Eulálio para batizar uma ponte, você se opõe? – indagou um Prefeito.
- Mas é claro que me oponho! – ela respondeu – Já imaginou quanta gente vai se matar pulando daquela ponte? E os acidentes de carro? Não, não... Nada de nome de ponte, o senhor me desculpe.
- Sim, tudo bem, a intenção era boa...
Sempre havia alguma justificativa que deixava o interlocutor praticamente sem resposta. Ou, quando tentava argumentar, recebia a apelação final.
- A obra do novo aeroporto está quase concluída. Aproveitaremos para renomeá-lo, vai se chamar “Aeroporto Internacional Eulálio Catamiro”. Queremos muito sua presença na inauguração – determinou o Governador
- Desculpa, senhor Governador. Sou sua eleitora, mas nem por isso devo concordar com esse batismo. Não quero o nome de meu marido associado a uma obra assim, você há de entender – respondeu.
- Ah, me perdoe, mas não entendo! É uma obra linda, o orgulho do Estado, e com o nome do seu marido! Veja que coisa boa!
- Não vejo por aí. Imagino os acidentes, imagino o pessoal perdendo vôo, ou então atrasado, reclamando “do trânsito absurdo até o Eulálio”. Não quero que alguém enfrente um trânsito absurdo para chegar atrasado ao nome do meu marido.
- Mas e quem vier em visita? E quem tiver contato com esta nossa Terra usando o Eulálio como intermediário? E os nossos conterrâneos que finalmente conhecerão o exterior, também por meio do Eulálio?
- Não, Governador. Não autorizo. Eu sou a esposa, e não quero o nome do meu marido associado a isso. Não há herdeiros, não há ninguém mais vivo que seja familiar de Eulálio Catamiro. Espero que respeite esse meu desejo.
- Tudo bem, tudo bem. Mas saiba que, no futuro, ninguém mais se lembrará dele. Agora, todos estão ainda comovidos, e é a hora certa de batizar. Depois, minha cara, algum outro aí acaba morrendo, e ninguém mais se lembra de Eulálio! Passar bem! – ele desligou o telefone, crente de ter magoado suficientemente a audaciosa cidadã que ousou recusar tal oferta.
Mas a viúva não estava exatamente chorando. Um leve sorriso podia ser notado em seu rosto. Assim como sorri agora, enquanto se lembra de cada recusa.
Não concedeu entrevista alguma, não liberou fotografias, não aceitou que o nome de seu marido fosse usado para qualquer coisa. Seu advogado já tinha um modelo de ação judicial, mas isso só foi preciso em dois casos, fora do Estado.
O único jornalista que se pôs a tratar do tema, curiosamente a elogiou, convidando todas as viúvas, viúvos e órfãos a fazer o mesmo, ou seja, não explorar a posteridade do ente querido, por mais que fosse uma “pessoa pública finada”.
Ela já se referiu a Eulálio como “pessoa pública finada”. Roubou a expressão do jornalista. Só não respondeu ao artigo, agradecendo, porque não quer mexer ainda mais no assunto.
Sabe bem que o Governador tem razão. Com o tempo, o povo esquece, e ninguém mais vai querer batizar qualquer coisa de “Eulálio Catamiro”.
Como sempre, a grande lembrança que lhe vem é a do velório. Lembra-se perfeitamente daquela mulher, no fundo da sala, aquela que não falou com ninguém. Entrou e saiu, fez lá um sinalzinho da cruz, mas foi o bastante.
A mesma mulher com quem flagrara o marido havia vinte e cinco anos. A mesma mulher com quem o marido disse que não teria nada de mais. A mesma mulher que teria se mudado para a África, ou teria morrido de catapora, ou passado por algo assim.
A mesma mulher que aquele filho da puta jamais deixou de ver ou de amar. E que jamais deixou de amá-lo também.
De tanta raiva pela lembrança, jurou – e vem cumprindo o juramento – que todos se esquecerão de Eulálio Catamiro.

bico de pena

- Você, por acaso, viu "O Jogador", do Dostoiévski?
- Sei nem que time é este.

silenzio, no hay banda

Bizarrices da Família

Meu irmão ligou pra minha mãe do Níger (onde está fazendo pesquisa de campo para seu doutorado em Louvain-la-Neuve) para pedir que ela reze por ele porque vai atravessar hoje um rio cheio de hipopótamos.

dadarquia

O dia em que a terra parou

Essa manhã, Roma amanheceu em silencio. Mais de 600 mil pessoas se amontoavam ao redor da Piazza San Pietro para o maior funeral que a Europa já viu, a do Papa João Paulo II. Mais de 200 líderes mundiais estavam presentes. Ao redor do mundo dezenas de milhões de pessoas acompanhavam emocionadas, ao vivo, o funeral do que já está sendo considerado o maior papa da era moderna cristã. Por duas horas, o mundo parou.

Enquanto isso, eu dormia tranqüilo, e tinha sonhos eróticos.

cacofonia

9.4.05

O Rio de Janeiro está uma loucura

Ir ao Rio nunca é uma empreitada tranqüila. As ruas do centro da cidade explodem gente pelos bueiros. O calor derrete o cérebro, forma uma bolha em volta do corpo e você pinga e pinga no meio-fio junto com os aparelhos de ar-condicionado. Ok, a imagem é vagabunda, meu cérebro ainda está pastoso, mas a sensação é essa. Daí, a gente foge do bafo quente direto pra dentro de um táxi geladinho e o motorista, muito solícito, nos presenteia com relatos escabrosos de seu cotidiano no ofício. Você já está com medo porque não mora no Rio, porque fugiu do Rio, porque sabe o que aconteceu com você lá e o que ainda acontece e blablablá, e o motorista lhe conta por exemplo em detalhes como foi quase degolado e baleado por uma dimenor estudante branca e uniformizada que queria roubar-lhe a féria do dia e o carro, o que ela conseguiu. E que o delegado conhecia a mencionada assaltante mirim mas não podia fazer nada porque ela era dimenor etc. e tal. Que uma loura com pinta de executiva, sua cliente habitual nas corridas, era assaltante de políticos ricos e famosos. Que uma carreta acabou de passar por cima de um ônibus que vinha na contramão matando não sei quantos porque você não se lembra. Daí você paga o táxi, sai do geladinho e entra na bolha quente de novo porque marcou com seu amigo na porta do restaurante geladinho que NÃO PERMITE QUE VOCÊ FUME. Você entra porque já se cansou e fica sem fumar. E você e seu amigo ficam putos porque ambos fumam. Mas a saudade é maior e vocês esquecem, começam a conversar e pedem salada pro garçom porque o corpo está quente e vocês não agüentariam comer nada quente. Então o amigo quer saber de você, quer saber da nova cidade em que você mora porque você abandonou o Rio e ele quer saber como você está se virando e se sentindo. Hum-hum, tá legal, você conta. Depois pede pra ele falar do Rio. Ele conta uma fofoca política quente, nem bem uma fofoca mas um rumor à boca pequena dos cariocas, que eu não posso contar aqui e isso é uma merda, mas os cariocas falam de alguém que possivelmente está com câncer e eu abro a boca ããã e fecho. O amigo conta outras coisas mais, de lavagem de dinheiro de uma famosa empresa digamos que do entretenimento e você ããã porque não sabia, mas os cariocas sabem. Os cariocas que vivem lá sabem. Você toma um chope, pede outro, ninguém fuma e um grupo de bailarinos entra no restaurante. Não para bailar. Os bailarinos comem pizza. Você olha pra eles porque há muito tempo não vê bailarinos ao vivo. O amigo conversa, você ouve. Você conversa, o amigo ouve. O Rio é o Bronx, a Broad Street. Mas você não se droga mais. Nem fuma um cigarro. Na saída do restaurante, sob um céu estrelado e quente, vocês fumam enfim e se despedem. Um avião passa bem acima da sua cabeça direto pro Santos Dumont. Você sente vontade de chorar. Estou morrendo de saudade. Você canta. Mas saudades não pagam dívidas. Você entra na bolha fria de outro táxi. Para um pouco mais de mim, tecle zero.

Prosa Caotica

5.4.05

NEWS

Daria pra enterrar logo esse papa e mudar de assunto? Já encheu o saco.

catarro verde

4.4.05

WON'T YOU TAKE ME TO FUNKYTOWN

Antes de ir para Far Far Away, conversas telefônicas da família Cafeína:

- Pronto!
- Oi, pai, sou eu! Estás melhor da gripe?
- Bah, guri, esta gripe me derrubou!
- Tomaste remédio, pai?
- Não, foram só 20 dias. (!!!)
- Mas já estás melhor?
- Ah, agora eu tô bem.
- Que bom. A mãe tá por aí?
- TÔ NA LINHA!!!!

(Na casa dos Cafeína, eles adoram ouvir conversas telefônicas alheias)

- Tchau pai!
- Tchau, meu filho. Beijo pra ti!

- Oi, mãe! Estavas na linha ouvindo? Que feio!
- Ué, eu tenho que ver se não é pra mim, oras!
- Ah...
- Espera um pouco, meu filho. PAI, SAI DA LINHA!
- CLIC!
- Pronto, podes falar. Teu pai fica escutando a conversa dos outros...


cafeína