10.8.06

mais uma da série "meus amigos taxistas"

era um dia qualquer da semana e eu peguei uma carona do meu cliente até a av pompéia, fiquei num ponto de táxi na frente do hospital são camilo. entrei no primeiro táxi da fila e expliquei que vinha pro cambuci. o moço me pergunta "a senhora tá bem de saúde, tudo direito?". sim, eu disse, expliquei que fiquei ali na frente do hospital só de carona mesmo. o carro dele era simpático: meio antigo, mas bem limpo e arrumado.

fico com meus pensamentos um pouco, remoendo meu atual problema de stress por conta do meu perfeccionismo excessivo, de trabalho demais, etc. e eu, que não sei ficar pensando quieta, pergunto: o senhor está trabalhando desde que horas? "desde as 4 da manhã, moça" (são 9 e meia da noite), "e só largo lá pras 11 ou meia-noite". eu disse "caramba! até chegar em casa o senhor deve demorar, como o senhor dorme pouco!". ele ri e explica "não, moça, eu moro aqui mesmo, nesse táxi, eu literalmente durmo no ponto!".

peralá. como assim, ele dorme no carro? neste carro que eu estou agora?! olhando melhor, se percebe um certo ar de casa no carro: porta-copos, um despertador "adaptado" no teto do carro ao lado do retrovisor e algumas coisas bem pessoais espalhadas. até um arremedo de abajur tem, mais aqui pro lado que eu estou sentada, atrás. ele me explica que come, toma banho e se ajeita como pode (whatever it means) no boteco ali perto do ponto, o moço liberou o chuveiro pra ele. as roupas ele carrega no porta-malas.

já interessadíssima na história, pergunto: "mas... e sua mulher, família? o senhor tem casa, como é isso?". sentem, que agora é que vem a história.

ele tem seus 55 anos, mais ou menos. foi casado, teve 2 filhos, uma menina e um menino. sua esposa, quando seus filhos tinham 6 anos (o menino) e 1 ano e meio (a menina), decidiu arranjar um emprego "em casa de família" pra ajudá-lo com as despesas, ele era jornaleiro. foi trabalhar na rua lisboa, num apartamento de gente fina. a esposa dele, no fim de um dia de trabalho, enquanto batia papo com a colega e esperava o elevador, abre a porta do dito cujo e entra. acontece que O MESMO não se encontrava no andar e a nossa heroína morreu espatifada no terceiro andar, sendo que ela estava no décimo-segundo. (parênteses aqui para a paula e demais: o mesmo é nosso amigo. se ele estivesse lá, a moça estava viva e essa história não teria acontecido)

depois de conseguir evitar que ele me contasse detalhes minuciosos da posição do corpo da falecida e outros detalhes escabrosos, eu quis saber o que houve. ele ficou com 2 crianças pequenas pra cuidar e trabalhando o dia todo, com não mais que 21 anos. o infeliz tem 6 irmãs, que se recusaram a ajudá-lo a cuidar da menina pequena, dizendo que "criança dá muito trabalho". eu, enxerida: "que vacas...! ops, o senhor me desculpe, sei que é família, mas..." ele não se ofendeu, acho. acabou sendo socorrido pela tia, uma senhora que o ajudou com a menina. o menino foi trabalhar com ele na banca de jornal enquanto não estava na escola.

pouco (pouquíssimo, pelo jeito) tempo depois, diz que uma moça muito bem arrumadinha (sei...) que sempre comprava jornal pro patrão ali com ele todo dia chegou com mala na mão e chorando. resumo: estava grávida e o patrão mandou embora, a pobre não tinha pra onde ir e ai meu deus... ele, bom rapaz que é, acolhe a moça. acolhida a criatura, ele pensa: por que não unir o útil ao agradável? a moça fica aqui, eu a ajudo com o filho que está pra nascer e ela me ajuda com os meus. acordo perfeito! ela gosta da idéia, mas como é moça direita (seeeeeei...) só aceita o acordo se casar, de papel passado. pois eles casam, no cartório com testemunha e tudo o mais. dia seguinte do casamento, quando ele combina de ir pegar a menina pra trazer de volta pra casa e já esquematiza tudo pro menino ficar junto, em casa, a esposa se vira pra ele bem abusada e diz: "e eu tou aqui pra cuidar de filho de outra, é? não senhor, se quiser contrate uma empregada!". bom, pra resumir a história, ele botou a esposa, o barrigão e seus panos de bunda todos na rua e esqueceu do casamento. diz que mais de 20 anos depois ela veio pedir o divórcio e ele até deu, porque ficou com pena (a santa queria casar de novo), desde que não precisasse ver a cara da ingrata. dei até parabéns pra ele, praticamente bati palmas!

bem, a continuação da história é que ele continuou sozinho, os filhos cresceram. a menina já teve dois filhos que ele adora e "ela pede dinheiro só de vez em quando, sabe? eu dou", me conta. o menino, por outro lado, já é um marmanjo de 30 e vive rodeando o pai, pedindo dinheiro, é vagabundo. por isso mesmo ele deu esse jeito de morar no táxi (pelo menos durante a semana: de fim de semana ele vai pra sua casinha em pirituba): desse jeito não tem ninguém querendo morar com ele e nem enchendo o saco. não quis casar mais (não me admira), e quando alguma namorada vem com história de casar ele logo oferece: "vem morar comigo no táxi, princesa!". nenhuma aceitou, até hoje.

zel

9.8.06

Os esquimós têm 24 palavras diferentes para Neve

Os brasileiros têm 422 pra cachaça.

dies iræ

Notas de viagem

— Georgette, como é mesmo aquela história do seu namorado espanhol durante a Segunda Guerra?
É depois do almoço, estão todos recostados nas suas cadeiras, e se voltam para Georgette, que não se faz esperar, e fala. Fala da invasão alemã, da tomada de Paris, da França ocupada, do racionamento, do medo, dos subterfúgios, das maneiras de se sobreviver ileso ou quase em território tomado pelos nazistas, conta tudo com sê porrtugué com forrt sotác de francé — e outras partes em francé legitim —, o que me fez perder muitos detalhes importantes, creio.
Sua história começa em Parrí e desce de trem até os Pirrinê, na divisa com a Espanha, onde morrava o tal namorrád. Seus olhos brilham mais que o normal e vão se enchendo de água enquanto ela se lembra dos detalhes, cantarola a Marselhesa, cita a casa construída em terreno binacional — último lote francês com fundos já em Espanha —, usada para certas clandestinidades, das boas e não tão boas, e de como a casa era usada para a travessia da fronteira, foi nessa casa que...
Toca o telefone.
— Alô? — atende alguém — Oi, querida! Chegou bem? — pausa — Sim, estamos todos aqui. Georgette está nos contando como perdeu o cabaço.

Branco Leone

problema

Eu vendo meu tempo.
E daí eu ganho algum dinheiro
Como ele não é suficiente, eu vendo todo o meu tempo
E daí eu consigo um pouco mais
Mas daí eu não tenho tempo para nada
E me deprimo
ou fico procrastinando os deveres até eles explodirem em cima de mim
Normalmente, eu faço as duas coisas...
Maldita revolução industrial!

deserto

6.8.06

rosa

Começou de forma bem sutil. E não foi assim que nasci, mas ainda na primeira década. Lá pros 8. Tomou conta de tudo. Na adolescência quis renegar. Mania de querer ser grande antes do tempo. Como se tivesse alguma coisa a ver, rá rá. Quanto ficou na moda eu já tinha retomado o gosto. Pois é isso. Ele agora reina absoluto. Começou discretamente, só em algumas roupas. Depois nos sapatos. Uma bolsa. A carteira que a irmã me deu. A pedrinha do colar presente do namorado. Pra finalizar, contagiou o celular. E agora, não me perguntem o porquê, estão me chamando de Sula Miranda no plantão.

sorriso lexotan

3.8.06

Mas como dói

Eu não tenho porta-retratos na parede, na minha mesa nem no desktop do computador, no trabalho. Primeiro porque eu já tenho as imagens dos meus queridos tatuadas onde importa - ou seja, right under my skin -, não acho que a alguém mais interesse que cara eles têm, e depois porque a mesa já tá mesmo atulhada de outras coisas. Além do mais, pra que mesmo é que as pessoas têm porta-retratos no trabalho ? Segundo o Seinfeld (ou o Larry David, vai saber) é pro sujeito não se esquecer de que tem família. Sabe como é, chega o fim do expediente, a pessoa se levanta pensando “agora eu vou encher a cara, sair por aí, pegar umas mulé” (ou dar pruns carinhas, conforme o sexo e a inclinação do(a) trabalhador(a) em questão) e aí, pá, bate o olho nos porta-retratos e imediatamente a ficha cai, o superego acorda e o quem-é diz “uh-oh, não vou poder, olha só, acabei de lembrar que eu sou casado e tem gente me esperando em casa...”. Mas essa é a teoria dele, ou deles. A minha é de que as pessoas mantêm os retratos dos filhinhos inocentes e zoiúdos, da amantíssima esposa, da mãe velhinha, do marido sensacional e dos bichinhos de estimação indefesos, todos ali montando guarda em cima da mesa, encarando firmemente o cidadão, só pra ele não perder as estribeiras a cada vez que ouve uma barbaridade, sofre uma grosseria ou leva um golpe no amor-próprio no horário comercial. É como se as fotos dissessem “Não, papai (ou querido, filhinho etc., cê entendeu), não mete o pé na boca do seu chefe, não chuta a bunda da recepcionista, não dá um rabo-de-arraia no colega, não chama o patrão de babaca, não manda ninguém enfiar o emprego, a vaga na garagem, o contra-cheque lá onde o sol não bate, por favor... você tem que nos sustentar, lembra ?”. E aí me ocorre que talvez seja por isso que eu não tenha parado por mais de dois anos (ou, nos últimos casos, de alguns meses) nos meus últimos empregos : por falta de porta-retratos com chantagem sentimental e despertador de prudência incluídos. Eu continuo satisfeita aqui e continuo não querendo botar as fotos do meu lindo gatinho e da minha gata em cima da mesa, expostos à perscrutação, perguntação e avaliação públicas, mas como nenhum lugar é perfeito, é bem possível que em breve eu também acabe precisando de uns hiperegos desses. Hmmm... será que fica muito estranho se eu emoldurar e colocar em cima da mesa os carnês do plano de saúde, do condomínio, do telefone, da água, da TV a cabo, do provedor de internet... ?

cyn city

17.7.06

Prosa Caotica

Amar é sofrer, eu vou te dizer. "Não se esqueça de trazer uma lagosta pra mim", disse ela bem assim na beira do cais antes de eu partir para um mergulho de onde não sabia se voltaria. Agora aqui, a 45 metros de profundidade, e descendo cada vez mais, fico me perguntando por que não a mandei à merda, sem endereço. Desde criança que tenho dois sonhos: resgatar do fundo do mar a cruz do bispo Sardinha e me apaixonar por uma samurai que pisasse minha garganta até que me faltasse o oxigênio pra eu gozar. Se isso é pecado, me puna. A cruz do bispo eu ainda não achei, mas continuo mergulhando, e fundo, muito fundo. Tão fundo que acabei descobrindo Isabel dentro de uma ostra, escondidinha. Hoje vivemos juntas, só eu pago o aluguel enquanto ela arde na Fogueira Santa de Israel. Amar é sofrer, não preciso dizer mais do que as canções banais: é só uma gota de sangue verbal, apaixonei-me por uma obreira pentecostal.

Prosa Caotica

A Tirania das Bananas

De todos os objetos e pessoas que povoam minha vida, a banana é dos poucos que consegue cercear minha liberdade e impor sua vontade a mim.

Gosto de fazer tudo na hora que eu quero, do jeito que eu quero. Bem coisa de artista excêntrico. Na época em que eu tinha TV, por exemplo, programava o vídeo e deixava tudo gravando. Não vou ser obrigado a ver o programa na hora que a emissora quer: vou ver quando eu quiser.

Mas a janela de oportunidade da banana é muito pequena. Ontem, estava verde e incomível. Amanhã, estará podre e incomível. Ela exige ser consumida naquele dia específico: não importa o que você cozinhou, quem está recebendo, o que tinha planejado, se foi convidado pra almoçar. Tem que ser hoje ou nunca.

(…)

Compro muitas frutas. Maçãs, pêras, ameixas, uvas, abacaxi, grapefruits, goiabas. Todas elas sabem se comportar. Nenhuma tenta dominar minha vida ou meus horários. Sabem seu lugar. As maçãs e pêras ficam na geladeira indefinidamente. Não me pedem nada. Se eu ficar uma semana sem tesão por maçã, elas continuam lá, me esperando submissamente, e estarão deliciosas na outra semana também.

Só a banana me tiraniza.

Liberal, Libertário, Libertino

PLAYING WITH MY FRIENDS - LU

Cynthia diz:
E você já tá pensando em nomes pro neném ?

Luluzinha diz:
Tava pensando em nomes pra homenagear e entregar os culpados pela gravidez inesperada, né ?

Cynthia diz:
E quais são ?

Luluzinha diz:
Lambrusco ou Valpolicella.

Cyn City - UOL Blog

15.7.06

Hit and run run run

Fui atropelada por um mustang amarelo.
Achei de que depois de velha, nós românticas teríamos aprendido. Mas não. Isso nunca se aprende. Eu vou me apaixonar no asilo pelo bilhete que o velhinho que eu NÃO VI me mandou. É isso aí, é assim que é.
E agora tudo que eu queria era ser os lençóis da cama dele.
E casar com ele de vestido branco com as coxas de fora e cortar as unhas do pé dele e fazer a barba dele com navalha três vezes por semana, só pra ter certeza que ele confia em mim.
E ele nem sabe.
É, eu continuo sendo eu.

adios lounge

A beleza da idéia da reencarnação é que talvez não tenhamos sido brasileiros na outra vida. “Lord que eu fui de Escócias doutra vida”, escreveu Mário de Sá Carneiro. Mas mesmo um guatemalteca já seria bom. Até mesmo uma prostituta de Montmartre que tivesse dado para Toulouse Lautrec e passado sífilis para Maupassant. De modo que da próxima vez que alguém dissesse que você não passa de um brasileiro, você poderia dizer: “Sim, mas na outra vida eu era uma francesa banguela e sifilítica”.

Alexandre Soares Silva

11.7.06

NO MCDONALD'S

— Vem cá, que animal que mata pra fazer bife de soja?
— Hahahaha.
— É... Você tá rindo, mas também não sabe não!

Enviado por Thiago Oliveira.
conversas furtadas

Nenhum jogador é maior que o jogo?

(…)
Boa, Zizou: nos lembrou que só tem cabeça quem um dia sabe perdê-la.

Fakerfakir

UM LITRÃO DE AMOR

Decidi fazer vasectomia, depois de dois filhos no mundo. Não esperava as reações mais desbaratadas entre os próximos. Minha mulher considerou um ato de extremo amor, já que encerrava com ela minha carreira fértil de varão. Abraçou-me com as pernas, emocionada, como se houvesse a pedido novamente em casamento.

(…)

* * *

Estranho é que mantinha provisoriamente a fertilidade. O médico avisou que havia chance de gerar filho (numa hipótese remota, mas estatística) nas primeiras 25 ejaculadas após a operação. O risco é que sobrasse Fabricinhos no saco. Concluídas as vinte e cinco, teria que levar uma amostra do esperma para a análise e receber a sentença final. Comprei um quadro-negro e botei na parede do quarto no lugar do "O beijo", de Klimt, guardado debaixo da cama.

* * *

Péssima idéia. E eu sou homem de contar trepadas? Estava destinado a registrar cada desempenho com um toque do giz. Porém, me afligiu uma dúvida e a transparência do relacionamento dificultou o raciocínio. As punhetas, o que faria com elas? Marcaria também no quadro? Passei a roubar minhas próprias gozadas e a esposa inventou de apagar algumas dizendo que estava me apressando e que não sabia ser honesto nem durante o sexo. Não ia dizer que homem casado também se masturba... Arrumei um controle paralelo nos papeizinhos amarelos, somando as transas reais e as fictícias.

* * *

O triste é que alguns pacientes entendem errado o aviso das vinte e cinco golfadas. Ao invés do potinho de laboratório com a vigésima sexta ejaculação, um deles apareceu no consultório com um litrão de coca-cola e entregou ao doutor, alegando que tinha sido difícil coletar tanta porra. Durante dois meses, gozava dentro da garrafa. Quase se apaixonou por ela, quase morreu no gargalo.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

5.7.06

Brasil versus França

Bom, a seleção brasileira de futebol levou uma bela ensaboada dos comedores de baguete. Já os brasileiros aqui no Brasil, amontoados em volta dos televisores, engoliram a seco, já pressentindo o humor argentino que se seguirá durante a semana. Até aí tudo bem, é assim que a máquina funciona. Toma lá, dá cá.

Lembro muito da copa do México de 1986, quando ganhei uma camisa canarinho, de algodão, amarela dos punhos e golas verdes. Estampado o nome Sócrates nas costas. Fui com meu pai em uma lojinha chimfrim comprar. Era uma camiseta que eu adorava. Quase mágica, por sinal.

A seleção tinha passado para as oitavas e o pai do Milton, amigo dos meus pais, convidaram os amigos mais próximos para assistir o jogo Brasil e França na mansão dele. Seria uma festança daquelas de não se esquecer mais: churrasco, muita bebida e uma televisão gigantesca de umas 27 polegadas.

O Brasil perdeu nos penales. Para a França.

A festa acabou, aquele clima legal verde-e-amarelo ufanista sucumbiu, os homens esbravejavam e as mulheres choravam. Adolescentes rasgaram suas camistas da seleção, Tacaram fogo na churrasqueira, queimaram bandeirinhas, bandeirolas e flâmulas nacionais, queimaram as camisetas rasgadas, praguejavam. O finado Telê Santana era o homem mais odiado no momento, por trazer tamanha vergonha nacional.

E eu ali no meio, sem entender nada.

Aí veio um adolescente ruivo cheio de espinhas, filho de um ricão e ordenou: "Tira a camiseta moleque!" Porra, o desgraçado arrancou minha camiseta de algodão novinha que eu gostava tanto e tacou na fogueira ufanista que flamejava uma fumaça fedorenta e preta.

Percebi naquele momento o quanto esse nacionalismo volátil brasileiro é pueril e fétido.

E até hoje a coisa desanda para a mesma merda.

ÓPIO - DIÁRIO ELETRÔNICO ENTORPECENTE

O ato de se vestir

Antes de qualquer coisa os homens precisam entender um conceito básico: roupa para mulher é ornamento. A gente não usa roupa para se proteger do frio ou para cobrir as partes pudendas. Mulher se veste, salvo raras exceções, para ficar mais bonita.

O grande problema é que nós somos exigentes, auto-críticas e temperamentais em relação ao vestuário. Não adianta tentar entender porque uma saia estava caindo superbem na semana passada e hoje ela deixa a bunda da sua parceira do tamanho do Maracanã. Essas coisas acontecem, as roupas e os espelhos tendem a ter comportamentos diferentes dependendo das condições de temperatura e pressão pelas quais passa uma mocinha.

A relação das mulheres com a suas roupas é quase um dogma: existe, mas não dá para explicar. Para evitar a chatice de esperar, leia um bom livro, ligue a TV, navegue na Internet, mas nunca, nunca pergunte o porquê da demora. É um sinal de compreensão e respeito. Inclusive porque a resposta a essa questão é simples: ela demora por você.

Mulheres com Legendas

Bom dia?

(…)
Um "bom dia", de verdade, soa quase como um "eu te amo".

Alea Jacta Est

4.7.06

SEM MAIS NEM MENOS.

Não, a vida não nos explica nada. Ela faz o que bem entende, inventa moda, faz firula, sai de lado, nos deixa com uma mão na frente e outra atrás, sem lenço e sem documento, sem eira nem beira e é isso. Nem bispo tem pra reclamar. Não tem manual de instruções, não deixa consultar os universitários, não obedece as universais leis da física, não tem intervalo, prorrogação, pênaltis, replay, não tem tapetão. A vida chega e pum, apresenta a conta, demanda atitude, não quer nem saber se o pato é macho e exige o ovo, não ouve embromação, não aceita desculpa. A vida não nos dá garantia nenhuma de que é isso mesmo, agora sim, agora vai, acertei, certificado ISO 14000. Não. A vida não é um teste que a gente passa e pronto, tá habilitado, nem um grande problema a ser resolvido. É um quebra-cabeças mutante onde mudam as peças, muda o desenho, muda você e muda o tabuleiro. A vida é foda.

Megeras Magérrimas

2.7.06

Instantâneo

Ele descansa sua cabeça no colo dela. Enquanto os dedos suaves que ele conhece de longa data deslizam por seus cabelos, tenta pensar em como introduzir seu assunto, que não é outro senão o rompimento. Mas não consegue raciocionar, a sua mente parece prestar uma atenção obsessiva no barulho da água que corre tranqüila e melíflua a uns dez metros dali. Decerto foge do que precisa ser feito. Ele sabe disso, mas não consegue ganhar a briga. Então é isso, vai deixando a cabeça ali, identificando pensamentos periféricos sobre ser aquela leve pressão nas têmporas sentida pela última vez, volta ao barulho do riacho, os lábios sempre fechados. E ele sofre nas bordas do momento em que quem vai sofrer é ela.

é por aqui que vai pra lá?

(…)

Thierry Henry foi à escola de oito às cinco e parece que isso lhe fez muito bem.

(…)

CrissMyAss

29.6.06

Design by Capitu, a oblíqua

Fico sabendo na sexta que no sábado um amigo antigo do gatim ia se casar e a encarregada de achar o presente era, claro, yours truly. Bão, levando em consideração que:
1- eu nunca vi a noiva mais gringa;
2- não vemos o noivo há anos e eu mesma não o conheço tão bem;
3- o casal de lá mora na Suécia, pra onde deve voltar em breve;
4- o casal de cá não anda especialmente endinheirado;
5- o presente tinha que ser pro casal (ou seja, pra casa), comprado na última hora e não podia ser muito pesado (nem na bagagem deles nem no nosso cheque especial),
convenhamos que eu me vi sem muita margem de manobra. Mesmo sabendo que eles moram na terra da ikea, me mandei pra Tok & Stok em busca de algo que não nos fizesse passar vergonha nem (muita) raiva neles. Não foi fácil. Quando finalmente cheguei ao meu short-list, liguei pro marido desnaturado em busca de apoio :
- Lindo, sou eu. Tô procurando o presente de casamento do Martinho e tá difícil.
- Aquele kit de fazer caipirinha que você tinha falado não tem mais ?
- Só tem um, que tá compondo um ambiente, e quando é assim a menina diz que eles não vendem. E ainda que vendessem, é muito pesado, tem um copo enorme de vidro grossão, pesa mais de quilo. E é frágil.
- E aí?
- Então tô entre uns enfeites simples mas legaizinhos, coisas que eles não vão achar lá: umas esculturinhas de ferro de uma designer brasileira ou um jogo de 3 tigelinhas bem rústico, mas bem bacana. É bonitinho mesmo, parece indiano, ou indígena, sei lá. É indie, de qualquer forma...
- É leve?
- É, sim. Não sei bem do que é feito, mas parece chifre...
- Chifre?
- É.
- Pro presente de casamento?
Fui de esculturinhas. Ferro neles. Melhor assim. Mesmo que a ascendência da moça seja viking, e que ela possa considerar as guampas como coisa viril e honrosa, melhor respeitar a brasilidade nagô do noivo... e os nossos dentes. Nada de chifre.

cyn city

28.6.06

EMPREGO

Não gosto de literatura, odeio escrever, nunca vou ao cinema -- não sei como tudo isso se juntou. No começo de 82 fui fazer uns biscates em Buenos Aires e li nos classificados que procuravam alguém para auxiliar um velho. Achei gozado o que pediam no anúncio: "Dá-se preferência a quem não goste de filmes." Fui ver. Parece que em Buenos Aires são poucos os que não apreciam perder tempo no escuro do cinema. Cheguei lá; a mulher dele -- que no começo pensei ser a secretária -- , uma japonesa, me recebeu. Fui levado à sala dele. Idoso mesmo, uns oitenta e tantos, por aí. E cego. Achei gozado um cego numa sala cheia de livros. A japonesa confirmou meu desapego pelo cinema ("Desprezo", insisti) e me explicou: eu iria receber para ler livros técnicos sobre os fundamentos do cinema -- enquadramento, planos, fotografia. Depois de aprender o necessário, iria acompanhar o velho a uma antiga sala de cinema no bairro de Palermo. Minha tarefa era, portanto, ir descrevendo as fitas para ele, utilizando os jargões que guardaria do aprendizado. No começo foi complicado, mas logo me acostumei. "Travelling até uma casa amarela", eu dizia. "Corta para plano médio de uma moça de olhos grandes, grandes e cor de caramelo fervido. Fade." E o velho de olhar grudado na tela, como se enxergasse. Pareciam até brilhar, aqueles globos brancos. Lembro que o único atrito aconteceu na vez em que acabei me entusiasmando com uma cena e fiz sem querer um comentário sobre o cenário -- então o velho me cortou, a voz mais rouca do que de costume: "Quero seus olhos. Não sua opinião." No mais, tudo correu na mais perfeita normalidade. Depois o estado de saúde dele foi piorando, as sessões acabaram e em quatro ou cinco semanas eu deixava Buenos Aires, com um bom dinheiro no bolso. Meses depois recebi um bilhete da japonesa, dizendo que ele havia morrido e deixado uma carta de agradecimento para mim -- que seguia em anexo. Mas era uma longa carta, e eu já disse que não tenho paciência para isso de literatura. Joguei a carta fora sem ler e segui minha vida.

Blog de Bolso

17.6.06

Sobre o Menino do Rio...

Depois de almoçar com uma amiga, fui andar na praia: calça jeans dobrada até o joelho, camisetão, câmera fotográfica enrolada em uma canga, chinelo comprado no dia anterior. Queria pôr os pés na areia, sentir um pouco de água salgada deslizando entre os dedos, ficar um pouco em silêncio. Estiquei a canga, me desprendi dos chinelos, fotografei muito do céu carioca. A praia estava vazia, um fim de tarde com brisa gelada. Eu ando friorenta... Foi a primeira vez que senti frio na minha cidade dos sonhos. Não gosto de frio, mas, lá, até dele eu gosto.
Um garoto parou de bicicleta perto de mim. Pediu que eu cuidasse dela para que ele entrasse no mar. Eu disse que sim, e continuei olhando para o horizonte através das minhas lentes. Não sei quanto tempo ele passou no mar porque me distraí completamente com meus pensamentos. Só me dei conta da sua presença quando, já próximo da bicicleta...

- Tá com cara de apaixonada, hein?
- Anh?
- Você... Olhando assim para o nada e com esse sorriso incontrolável nos lábios. Isso é cara de amor. Olhos de paixão.

Sorri amarelo para o menino e...

(…)

continua no Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Da teologia anacoreta

Acabo de ver na televisão uma rapariga que aos dezoito anos fez uma tatuagem no rabo em nome do Senhor. Era crente, diz ela. E diz bem, o Senhor sempre escreveu direito por linhas tortas. Agora, quer remover a tatuagem. Parece que subitamente descobriu que era ateia. Se dúvidas houvessem, neste pequeno episódio está demonstrada toda a superioridade moral do cristianismo, sobre as filosofias bacocas de ateus e pagãos. Não fosse o Senhor e sabe Deus o que teria sido daquele rabo. Não passaria na televisão nacional e, de certeza, não habitaria o meu imaginário durante as próximas noites. Mas Deus vai mais longe. Aparentemente é pouco provável que se consiga remover as sagradas escrituras das nádegas daquela jovem. Problemas técnicos, dizem uns. Mão do Criador, digo eu. Nos próximos anos, em cada queca, em cada bronzeado, em cada dólar ganho à custa do talento daquele corpo nas praias de Miami, estarão as palavras de Deus tatuadas naquele rabo. A converter pagãos e a abençoar beatos. É o purgatório em forma afrodisíaca. É a revolução católica que realmente interessa. É certo que ainda há um longo caminho a percorrer. É necessário munir as nossas paróquias de mulatas e trazer freiras bonitas para a ribalta. Se nos dias que correm há pecado capital na igreja católica, então é o facto de estar a perder as prostitutas brasileiras ilegais para a Igreja Universal do Reino de Deus. Solução? Admitir o sexo oral como forma de penitência. Mas atenção, nada de seguir o exemplo dos protestantes. Um brochezito de vez em quando tudo bem, mas sempre dissimulado e no segredo do confessionário. Porque o sexo, meus amigos, acompanhado de uma boa dose de ascetismo e uma consciência devidamente pesada, ainda é a melhor forma de expiação dos nossos pecados.

Diário de Tiago Galvão

16.6.06

A Fine Romance

A moça casada não consegue esconder a expressão de tédio mas tenta explicar ao marido pugnaz o que exatamente as mulé querem dizer com “romance”. Arrazoa que o frisson de todo começo de relacionamento está vinculado às emoções da sedução, e generaliza dizendo que toda mulher gosta de e precisa ser seduzida, e que o fato de que os homens suponham, depois de casar, que basta ir baixando ou subindo a mão roupa adentro em direção ao hinterland feminil é uma tremenda prova de rudeza ou insensibilidade. O marido pugnaz retruca que, se ele realmente precisasse refazer todo o percurso da sedução a cada vez que, er, procura a patroa no afã de encontrar a mais íntima expressão física do profundo vínculo emocional que os une, não teria casado, cazzo.

A moça entediada faz aquele muxoxo de irritação resignada que as mulheres aparentemente treinam todos os dias ao espelho, como se não valesse a pena o esforço de tentar explicar essas obviedades ao brutamontes, mas o marido não desiste, e contra-ataca dizendo que, em suma, então, o que as mulé querem é que os caras sejam cafajestes. As mulheres da mesa negam, mas ele acrescenta que, na prática, elas esperam que o cara finja, que faça toda a mise en scène da sedução mesmo que não haja sentimento nenhum envolvido, da parte dele –ou seja, que ele continue fazendo em casado o que quase todos os homens fizeram um dia em solteiros, e minta sem a menor vergonha sempre que quiser comer alguém -e, pior, a mesma alguém.

As mulheres da mesa ensaiam uma vaia ao marido pugnaz, enquanto pelo menos duas delas se atropelam para dizer que não, elas não querem que o cara finja: querem que ele sinta vontade genuína de seduzi-las de novo a cada dia. Agora cabe aos homens trocar olhares de irônica resignação. A conversa morre aos poucos, e de repente, em meio a um dos silêncios imprevisíveis que de vez em quando surgem em lugares públicos, o cochicho entre a esposa entediada e a vizinha dela à mesa se torna claramente audível: “E qual é o problema de fingir, aliás? A gente finge o tempo todo e eles nem percebem”. Todo mundo ri, menos o marido pugnaz, que olha feio para a mulher. Ele levanta o copo: “Melhor brindar ao quinto aniversário do nosso casamento, porque não sei se vai haver um sexto”. Uma vez mais, todo mundo ri. Menos a mulher.

Filthy McNasty

O Código da Nove - versão 2

Foi encontrado na manhã do dia 27, o corpo do jogador Ronaldo Nazário, nu em seu quarto de hotel em Dortmund, poucas horas antes da partida com a Itália válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo, com os braços e as pernas esticados, em forma do homem vitruviano, e tendo o logotipo da Nike desenhado com seu próprio sangue em seu ventre.

A primeira delas foi uma minúscula cinta de silício presa a seu pé esquerdo. Outra pista foi a aliança que o jogador usava em sua mão direita. Dentro dela estava gravada a seguinte mensagem "Fernanda - xxxx-6393 - Eu gosto é de mulher". Uma outra pista foi o logotipo da Nike desenhado em seu ventre arredondado. Em sua mão esquerda, a polícia encontrou um beque. No criado mudo havia 7 caixas de pizza, todas vazias. A última evidência deixada pelo jogador foi encontrada pelos investigadores alemães com luz negra, onde lia-se escrito, ao lado do corpo "Oh, besta dos infernos // Full House da Nike //P.S. Encontre Parreira ".

Diretores da Nike informaram por sua assessoria de imprensa que pretendem processar Ronaldo por quebra de contrato.

(…)

:: At War With The Mystics ::

Supervisão

Hoje foi o dia da supervisão aqui em casa.
Dia da supervisão é o dia em que a minha avó cisma que alguma coisa está perdida, então ela quer ter certeza que não está. Ela nem está precisando, mas ela quer. As coisas acontecem assim:
- Débora, eu quero a blusinha que a sua bisavó bordou pro seu pai quando ele nasceu.
Provavelmente a última vez que essa blusinha foi vista, foi em meados de 1945.
- Não sei que blusinha é essa não.
- Mas traga aqui que eu digo se é ou não
Então eu passo tempo e mais tempo procurando a bendita blusinha de 1945 e ai de mim se não a encontro, parece até gincana escolar, fase avançada.
- Mas pra que a senhora quer?
- Não te interessa.
2 horas depois, quando a casa toda está mobilizada com a situação em busca da peça, vó chorando porque ninguém guarda as coisas dela direito, empregada que deixa de lavar roupa, pai que acorda, eu que deixo meu trabalho, todos na busca, finalmente a gente encontra e leva pra ela.
- É essa aqui?
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...é, deixa eu ver.
- Pronto?
- Pronto, agora pode guardar de novo.

De Pindamonhangaba para o mundo

15.6.06

O Ronaldo está com febre amarela.

cAtaRrO vE®De

13.6.06

A GAIOLA E AS FLORES

Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular. Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados.
(…)

.:. Fabricio Carpinejar .:.

12.6.06

conversas furtadas

MENINAS NA PORTA DO COLÉGIO

— Pô, olha só, eu tou lendo esse livro, O Código DaVinci, mas pô... Tou sem a menor paciência de ler... Tipo assim, só cheguei na metade.
— É? Esse livro fala de quê?
— De Jesus, e Maria Madalena, tipo... Que eles tiveram um caso, sabe...
— ...
— Aí, tipo assim, o cara que descobriu tudo... Mataram ele...
— ...
— Pô, como é que é o nome dele mesmo? Ah, lembrei: o Silas!
— Eu só sei que esse livro é grossão...

Enviado por Cryss MyAss.


EM UMA FERRAGEM

— Meu chuveiro queimou. Esta é a resistência.
— Ah! A senhora tem a resistência, então quer o chuveiro?

Enviado por Jussara.


CRIANÇA PRODÍGIO

— Que bebê mais fofo! Tá com quantos meses?
— Seis... Mas faz sete mês que vem!

Enviado por Cesar Dias.

conversas furtadas

11.6.06

DIÁLOGOS BOBOS DE INSPIRAÇÃO ANIMAL

Essa é antiga, mas é boa :

- E aí, So, sua gatinha tá melhor ?
- Tá, sim. Eu levei no veterinário mês passado e ele disse que eu não precisava me preocupar com aqueles caroços na barriga dela, que não tinha nada de tumor, era só bola de pêlo.
- Ah, que bom, então. E aí ? Expeliu ?
- Ontem. Dois machinhos e três fêmeas.


Cyn City

AGENDA

– Fala, dona Letícia.
– Doutor Breno, o senhor Lamberto tá aqui.
– Lamberto, Lamberto…
– Seu amigo. Estudou com o senhor no terceiro colegial. Lamberto. Apelido Caveira. Irmão do Farofa, que namorou sua prima. Dizendo que dia desses vocês se encontraram no shopping.
– Olha, dona Letícia, eu não tenho tempo pra… ahn. Ah, tá. Lembrei; vi ele no shopping, sim. Olha. Diz que eu tou muito ocupado, fala que…
– Ele diz que veio tomar o café.
– Como?!?
– Ele diz que o senhor falou pra ele vir tomar um cafezinho na firma qualquer dia desses, e ele veio.
– …
– Doutor Breno?
– Dona Letícia, fala que eu tou ocupado!
– Pois é. O seu Lamberto também tá. Disse que tem outros compromissos. Que não pode se atrasar. E que quanto antes vocês puderem tomar o café, melhor.
– Ah, é, dona Letícia? Meeeesmo? Ele disse isso, é? Que coisa. E o que mais que ele quer, hem?
– Quer o dele descafeinado. Por conta da gastrite.
– …
– Doutor Breno?
– Ahn. Escuta. Fala pra ele voltar outra hora. Inventa qualquer coisa.
– Ué. Tá. Iiiiiiiiiiih, doutor Breno, eu já ia esquecendo. Que cabeça a minha. Deixaram também um recado urgente aqui pro senhor.
– Recado urgente? De quem?
– Do Edevaldo. É pro senhor ligar pra ele.
– Edevaldo?
– É. Da limpeza.
– Da limp… E por que é que eu teria que ligar pro funcionário da limpeza, dona Letícia?
– Ele quer saber o resultado do balanço semestral da firma.
– …
– Doutor Breno?
– Er… Dá pra me explicar que piada é essa?
– Aquela reunião que o senhor fez semana passada, com todo mundo da empresa, lembra? Quando o senhor disse que aqui dentro não tem isso de patrão e empregado, que é tudo transparente, que todo mundo joga no mesmo time. Então. O Edevaldo quer saber o resultado do balanço semestral da empresa. E se puder ser pra hoje…
– Como?!?
– É que ele vai tomar umas com os amigos à noite lá no bar do, como é mesmo o nome, gente?, eu ando tão esquecida; acho que é bar do Tarzan. Pois é, aí ficou de falar do balanço contábil pra eles. Ah, quer saber também se isso de mesmo time quer dizer que o senhor torce pro São Caetano.
– …
– Doutor Breno?
– Me faz um favor, dona Letícia. Vem até aqui na minha sala. Agora.
– Olha, doutor Breno. Não vai dar. Acabou de chegar aqui uma pessoa muito importante, que precisa falar com o senhor.
– Ah, sei. E quem seria, dona Letícia? O Cafuringa, vigia do estacionamento?
– Não. O Ministro do Planejamento.
– Hã?
– É. O Doutor Paulo Bernardo Silva. Tá aqui querendo ouvir o que o senhor ia fazer.
– O que eu ia…
– É, fazer. Ele tá meio nervoso. Diz que o senhor falou em alto e bom som num coquetel aí que se o senhor fosse o Governo dava um aumento pros aposentados e pensionistas do INSS e calava a boca da oposição. Pois ele tá aqui querendo saber como é que o senhor ia fazer isso sem comprometer a previsão do Orçamento pra 2006.
– …
– Doutor Breno?
– Er. Ele quer entrar… agora?
– Imediatamente. Diz que o Congresso vota hoje à tarde o projeto de aumento de 16% e ele não tem tempo a perder. E tem mais.
– Ahn. O quê, dona Letícia?
– Seu Lamberto. O Caveira.
– O que que tem?
– Ele quer saber que hora então ele volta pra tomar o café. Diz que a agenda dele tá lotadíssima pra hoje.

Ao Mirante, Nelson!

9.6.06

MALDIÇÃO

“COM DORES PARIRÁS TEXTOS ACADÊMICOS ROCOCÓS! POUCOS LERÃO.” “Por que você escreve tudo em maiúsculas?...” “ ‘VOCÊ’ ?!!! CÃO INFIEL! ‘VOCÊ’ ?!!!!!!” “Vós é muito complicado”. VÓS SOIS! IGNORANTE”. “Quero dizer, o uso do pronome ‘vós’... O Senhor não é mesmo onisciente, é?” “SENHOR ESTÁ BOM. FALA ‘SENHOR’... LERÁS TESES ACADÊMICAS, DISSERTAÇÕES, MONOGRAFIAS INTERMINÁVEIS EM TEUS FINAIS DE SEMANA!” “...” “CALUDA! ALUNOS NÃO DEIXARÃO QUE ASSISTAS À NOVELA DAS 8. TERÁS DE DAR AULAS SOBRE MAX WEBER, LER TEXTOS DE BRUNO LATOUR, DERRIDA, DELEUZE". "Mea culpa, mea maxima culpa..." "O SALÁRIO SERÁ RIDÍCULO. AS MULHERES TE ACHARÃO CAGALHÃO E CONFUSO!”. “Majestade!” “FICARÁS CARECA! LENTAMENTE... PARA QUE EU POSSA GOZAR DO PRAZER DE TE VER RIDICULAMENTE TENTAR VÁRIOS PRODUTOS CONTRA QUEDA DE CABELO. MAS NEM TÃO RÁPIDO ASSIM QUE AS PESSOAS NÃO PERCEBAM A PRÓPRIA MORTALIDADE ATRAVÉS DE TUA CABEÇA”. “Mas por que eu?!!! Por que Vossa Excelência não fodeu a vida de Chico Buarque de Holanda?! Tom Jobim?! Esses cachaceiros todos... Gente desregrada e ruim! Excelência, por que me desamparaste?” “SÓ PELA SACANAGEM. E DIGO MAIS: SABES POR QUE ODEIAS TANTO WOODY ALLEN?” “...” “AGUARDA UM POUCO... É DIFÍCIL... ACERTAR O TECLADO... RINDO DESSE JEITO. AI, JESUS! ME ACODE”...

Segunda Mão

5.6.06

O Homem que disse Venâncio

Um dos motivos por que fico revisando textos no Franz Café, é para poder ouvir a conversa dos outros. Nesse dia a conversa da mesa ao lado se dava entre um ator experiente e a jovem atriz. Ele beirava os 125. Ela tinha cem anos a menos. O velho era todo cheio das verdades. Começou a falar sobre sensibilidade, coisa de artista.

Voltei ao texto. Estava procurando a parte onde tinha parado. A frase era:

"O nome dela pode ser Laís Venâncio". E nesse instante o velho disse:

- Meu vizinho, o Venâncio, por exemplo.

No exato instante em que eu li "Venâncio" - no meu texto - , o velho falou "Venâncio"!

Larguei o texto e olhei pra cara do velho. Algo aconteceria. Era um sinal. As pessoas começariam a cantar, o velho se transformaria num espírito, alguém me entregaria um envelope lacrado, alguma coisa. Passei o resto do dia esperando alguma coisa.

Estava há dois quarteirões de casa quando um carro passou por uma poça d'água e me encharcou. Do outro lado da rua, Nora, a costureira espanhola, gritou meu nome.

Finalzinho mixuruca...

começou o Diario da Odalisca

26.5.06

Meu nome é Trabalho. E meu segundo nome é Atrasado.

¡Drops da Fal!

25.5.06

Meme

O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada. O tempo apenas tira o incurável do centro das atenções.

BULA BULA

23.5.06

A PELEJA DE NHONHÔ DAN BROWN COM O CORONÉ LEONARDO

Eis que então chegou ao céu
Aquele autor tão vendido
Exclamando “What the hell?
Terei realmente morrido?”
Aí viu se aproximando
O cabra de barba branca
Que por São Pedro ele tomou
E foi logo afinando:
“Me fodi, comme il fault,
É hoje que o céu me desanca”

Começou a matutar
Uma argumentação
Do tipo “Me deixa entrar
O que eu fiz foi só ficção!”
Mas aí o excomungado
Culpado por seu acinte
Viu que o recepcionista
Não era o santo citado
O erro saltava à vista:
Era o coroné da Vinci!

E ali no portão celeste
Leonardo mandou ver:
“Mano Brown, o que fizeste?
Olha com quem tu foi mexer!”
E o morto, incontinenti
Disse, ainda cheio de si:
“Pela minha auto-estima
Me diga imediatamente
Já que estamos aqui em cima:
Do que foi que eu morri?”

Leonardo, enfarado
Disse então: “Não sabes não?
Desde que foste publicado
Vendeste que nem sabão
Com tanta grana na conta
E o sucesso comercial
Encheste o cu de dinheiro
E o diagnóstico aponta:
Fodeste o intestino inteiro
Por obstrução anal!”

Nhonhô Brown disse: “Well,
Fiquei sem eira nem beira:
Vim parar logo no céu
Onde querem minha caveira
Se eu soubesse que ia dar bosta
Não fazia o bestseller
Fui mexer com um vespeiro
Que católico nenhum gosta
Devia sacar ligeiro:
Fui mais cego que a Hellen Keller!”

Mas coroné Leonardo
Que gostava de um mal-feito
Disse: “Alivio teu fardo
Nisso eu até que eu dou um jeito
Tu mexeste com a Igreja
Que de doido tá assim
Da Opus Dei fizeste pouco:
Um hospício, ora veja,
Que além de reunir louco
Ainda é a base do Alckmin!”

E o ralho prosseguiu:
“Vilipendiaste minha obra
Em nome do metal vil
Ali de arte nada sobra:
Foste venal, amiúde,
Fazendo um tal nonsense
Uma história tão maluca
Que serviu pra Hollywood
Vender como um suspense
Com o Tom Hanks de peruca!

Mas gostei de tua leréia
Posso até te reencarnar
Pois me ocorre uma idéia
E acho que tu vais gostar
Pra isso, te dou abrigo
E até cedo o mote:
Que tal um livro novo
Sacaneando meu inimigo
Que me esculhambava ao povo:
Michelangelo Buonarroti?!?”

E assim Nhonhô Dan Brown
Voltou ao mundo dos viventes
Fez um livro que era o tal
História sem precedentes
Narrando que a escultura
De Davi, desde o começo
Nada tinha a ver com glória
Trazia outra leitura
Era outra a história:
“Golias, eu não te esqueço!”

Ao Mirante, Nelson!

19.5.06

Se existe coisa que eu não gosto e acho intolerável são as queixas retroativas. Tipo: "E naquele dia que você...", "E quando vc falou...", "Eu no ano passado que você me disse...".
Pra mim é: "Isso que você está dizendo...". "Isto não é verdade", "Você está sendo injusto".
Tipo reclame agora ou cale-se para sempre.

Marina W

Diálogo

- É até irônico, ele gosta é muito de mim.
- Gays gostam é muito de tu.
- É...
- Eu sou uma exceção, claro.
- Mas como assim, tu não gosta de mim? :(
- Grr.
- ^^

Clarices

16.5.06

nessa hora de crise de segurança publica que sp passa eu culpo meus pais.
se eu tivesse nascido com super poderes nada disso teria acontecido!

AIDNALOTENIFLA: ODNOP O ODNUM ED SANREP ORP RA!

Tudo sob controle

Pausa para um comentário off-topic:

Eu sai de casa hoje de manhã e fiquei preocupado. Eram 5 da manhã, precisava chegar bem cedo na agência. Pego um táxi. Dentro do carro, parado no semáforo, vejo um ônibus atravessar a avenida, vazio, parecia dirigido por um fantasma. De repente, um estouro e o ônibus se incendeia.

Passo em frente a um banco, bombeiros já indo embora. O taxista me diz que o banco foi atacado com coquetéis molotov. Tudo isso perto de casa, fico mais preocupado.

Por um momento pensei que tivesse dormido em São Paulo e acordado em Bagdá. Mas aí chego no trabalho e leio no jornal: "governador diz que está tudo 'sob controle'". Ah, que ótimo, estou no Brasil mesmo.

Brainstorm #9

15.5.06

Os computadores e a Internet segundo os usuários "normais"

OS COMPUTADORES

- Não existe "processador de texto" ou "planilha". Existem Word e Excel, respectivamente. Não existe PC sem esses dois programas.

- Todos os computadores do mundo rodam Windows. O nome Windows significa "todos os softwares", de uma maneira geral e abrangente. Você não faz idéia do que significa "sistema operacional", menos ainda que possa existir no mundo mais de um desses. (Exceção: se você é mais velho, pode se lembrar da linha de comando do DOS.)

(…)

- Os teclados têm uma tecnologia mágica que faz as teclas mudarem de lugar sozinhas quando ninguém está vendo, por isso você sempre tem que olhar para o teclado atentamente enquanto digita, mesmo após uma década de digitação constante.

- Computadores perguntam "Você tem certeza...?" o tempo todo porque eles foram feitos para idiotas. Como você é inteligente, pode clicar sempre no botão "OK" sem ler a mensagem e economizar tempo.

(…)

- Existem duas maneiras de usar senhas:
1. Use a mesma senha para tudo. Deve ser algo bem fácil de adivinhar; por exemplo, o nome do seu time de futebol. Melhor ainda, anote a senha num papel e grude-o no monitor.
2. Quando o PC pedir uma senha nova, digite qualquer coisa e esqueça imediatamente. Faça o mesmo para todos os serviços e sistemas que acessar.

(…)

- Memória pode significar "uma" HD ou aquelas plaquinhas verdes cheias de chips. Você jamais vai se preocupar em saber qual é a diferença entre as duas coisas. Se o seu computador é lento demais para rodar o seu Photoshop pirata, todo mundo diz que é só colocar mais memória. Então, você manda comprar e instalar "uma" HD maior. Inexplicavelmente, a lentidão continua.

(…)

- O seu mouse gruda na mesa e não quer deslizar, de tanta gosma nojenta acumulada embaixo dele; mas você jamais, nunca, never ever terá a percepção de que ele pode precisar de uma limpeza externa para funcionar melhor. Idem para o teclado forrado de fios de cabelo e migalhas de biscoitos e com as teclas cobertas de mais gosma nojenta.

(…)

- Se precisar receber alguma coisa desenhada, como "uma" logo de um cliente, peça sempre "em Corel". Afinal, programa de desenho só existe um, e o nome dele é CorelDraw, certo? "PDF", o que é isso? Você não faz idéia, portanto não deve ser importante.

- Escolher fontes pra quê? Todo mundo usa Arial, é tão conveniente, serve pra qualquer coisa e está bem no topo do menu.

(…)

- Quer ler um texto da Internet com mais de duas telas de comprimento? Mande imprimir na impressora da empresa. E esqueça os prints na impressora para sempre.

A INTERNET

- Internet Explorer é outro nome para "A Internet". Quando você fala em "acessar a Internet", quer dizer "abrir o IE". Não compreende o conceito de browser, não sabe a diferença entre Web e os outros serviços de Internet e desconhece totalmente que existem outros browsers que competem com o IE.

- Nem toque na barra de endereço do browser. Seu procedimento para entrar num site qualquer é digitar um pedaço do nome dele na busca do MSN que aparece como home page toda vez que você abre "a Internet" (isto é, a cada nova janela do IE). Repita o processo toda vez que precisar voltar ao site. Esse método serve até mesmo para entrar em serviços de busca. Por exemplo, para ir para o Google você busca por "google" no MSN Search.

- Você jamais usa a Internet para entretenimento, exceto nos casos do MSN Messenger e do orkut. Você nunca se interessa em explorar a rede para aprender alguma coisa nova. Absolutamente todos os links que clica são piadas e bizarrices enviadas pelos colegas de trabalho e amigos.

(…)

- Toda mensagem humanitária deve ser repassada, mesmo que não haja nenhuma data, fato ou link para uma página da "internet" com mais esclarecimentos, provando que não é uma pegadinha. Todo anúncio de vírus deve ser repassado, mesmo que não tenha confirmação das empresas de antivírus. Todo abaixo-assinado via email é presumivelmente coletado magicamente por um abnegado compilador desconhecido sem endereço para retorno. É perfeitamente normal os abaixo-assinados pedirem endereço completo, CPF e telefone. Mails de bancos já vêm com campos para colocar o número da conta e a senha de acesso, que modernidade! Esquemas geniais para ganhar fortunas sem fazer nenhum esforço, como é que todo mundo não participa??

(…)

- Bill Gates inventou o computador. A Internet também foi idéia dele. Louvado seja.

- Em listas de discussões e fóruns, nunca edite as mensagens e deixe acumular os textos de todos os dezoito remetentes anteriores. Nunca se sabe se alguém vai precisar referenciar as palavras originais que você respondeu de maneira tão perfeita e sábia. Mas no caso de iniciar um assunto novo, vale o oposto: o conteúdo da sua mensagem deve ter no máximo metade do tamanho do seu sig - aquele lixo todo enfeitado que você coloca automaticamente ao final de todo e cada email, contendo uma citação mal traduzida, a configuração completa do seu computador, cinco endereços de email alternativos, o telefone do seu cachorro, o nome do seu time de futebol e um GIF animado de um personagem de gibi.

(…)

- Se você tem blog, limite-se a comentar as notícias do dia, falar dos posts de outros blogs, xingar políticos, escrever indiretas para desafetos que nem lêem o seu site, demonstrar como é cool, contar em minúcias a vida entediante do seu animal de estimação e colocar aquele link bizarro que um amigo passou. Quando sobrar tempo, poste pedindo desculpas por não escrever muito, pois falta tempo. Choramingue que seu layout está feio e quem sabe uma boa alma não desenha um novo só para você.

(…)

- O site mais importante de toda a Internet é o orkut. Você nem desconfia que há muitos anos outros sites já ofereciam fóruns de discussão ("comunidades") e álbuns de fotos onde cabem mais de 12 imagens.

(…)

- Registre-se em 280 comunidades de assuntos totalmente irrelevantes, só para demonstrar que tem senso de humor, e jamais contribua em nenhuma delas, mas participe assiduamente dos joguinhos patéticos como "você masturbaria ou não a pessoa acima".

Alguns extratos de Mario AV - Different Thinker Lista completa no link.

Versão reciclada do dehumanizer.

14.5.06

Conversas de mãe

Conversas de mãe 1

A mãe se vira e diz:
- Seu cabelo está ótimo filha! Com um brilho. Um caimento. O que você anda fazendo?
- Não lavo faz quatro dias.
Um minuto de silêncio.
- Minha filha, lava esse cabelo!

Conversas de mãe 2

- E aí minha filha, alguma novidade?
- Mãe, você me perguntou isso ontem.
- Então, de ontem para hoje não aconteceu nada na sua vida?
- Não, tudo na mesma.
Um minuto de silêncio.
- Ah, assim que é bom filha. Afinal, podia ser alguma novidade ruim!

02 Neurônio

12.5.06

EUTANÁSIA DE FOLHETIM

Desliga esses equipamentos, sim. Não só autorizo como ordeno. A única coisa que quero de você é que desligue esses equipamentos na hora certa e depois esqueça tudo. Não preocupa com remorso – ele não vai acontecer, te garanto. E quando eu não existir mais tudo tem de desaparecer junto: os papéis na mesa com minhas anotações, minhas coisas, até mesmo aquela antiga foto no porta-retrato, lembra?: o casal, à frente do letreiro do hotel Termidor, sorrisos tão jovens quanto tristes. Ela, bela demais, e que nunca amou quem quis. Ele, que só esquecia a melancolia quando ouvia My Foolish Heart com o Billy Eckstine, veja só. Pois agora tudo vai se arranjar. A incapacidade para o amor está nos genes: cá estou eu para comprovar. Mas vou fugir da breguice do sangue na banheira, da comicidade tosca de miolos estourados na parede, do kitsch das pílulas. Você, que não retribui minha paixão, que sempre insiste na condição de aluna apaixonada só pelo brilhantíssimo professor, pelo gênio da Física Quântica, e nunca pelo homem; você que com sua indiferença me faz querer deixar de existir – justamente você é quem vai desligar os equipamentos dessa máquina. Primeiro eu entro nela e me transporto (já calculei tudo: dia, hora, lugar) para 1961, para a frente do Hotel Termidor, para ver chegar aquele jovem, belo e triste casal em lua-de-mel, e já na entrada vou me apresentar, vou convidar os dois para um martíni no bar do hotel, por fim vou dizer para não fazerem aquilo, de procriar sem paixão. Vou insistir para que tenham é compaixão de si mesmos, vou sugerir que um dia – ah, um dia – cada um vai achar o amor de sua vida, e sei que eles entenderão. Olhando no meu olho eles vão entender que eu sei o que digo. Ela chorará, num amargo alívio, e mostrará que mesmo chorando é tão bela. Ele concordará em ir comigo num passeio pela estrada, para continuarmos a encher a cara ouvindo música no rádio do carro. Eu, claro, não mais serei. Você só tem que prometer isso: desligar os equipamentos da máquina depois que eu chegar lá, para evitar que eu caia na tentação de desistir e voltar para você. Só assim essa máquina nunca terá existido, todo este laboratório também – e você, por conta deste ato de misericórdia, jamais terá sabido de mim. É o que me concedo: morte sem cadáver. Mas embalada por My Foolish Heart, com o Billy Eckstine, num auto-rádio em alguma dimensão de todo esse emaranhado quântico aí. E então? Promete?

Ao Mirante, Nelson!

11.5.06

FRAGMENTOS DE UM BARRACO AMOROSO

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.
Sim, o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”
Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente, SANGUE, SANGUE, SANGUE!!!
Sem reticências...
Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.
O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!
O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.
Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.
Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.
O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.
(…)

O Carapuceiro

9.5.06

Ainda sobre Corinthians x River (parte 3)

Quando a polícia sentou o pau em quem nunca pensou em apanhar, lá na cadeira laranja, eu fiz o caminho contrário novamente e voltei para a arquibancada amarela, onde tudo estava mais controlado. Encontrei o Pulguinha chorando, enquanto um outro rapaz, também chorando, o alertava sobre um associado gravemente ferido na enfermaria. Fui com ele até lá e o cenário era de guerra: um menino praticamente sem nariz, pessoas fraturadas, desfiguradas por causa de bomba, de pancada, de tiro de borracha. Policiais e torcedores, um deitado do lado do outro.

Saí de lá embasbacada, com uma tremenda vontade de vomitar e uma sensação de que tinha tomado uma garrafa de vodca sem passar pela garganta. Deixei o estádio pela porta principal, exatamente por onde tinha entrado. Do meu lado esquerdo, toda a cavalaria da Tropa de Choque com suas espadas enferrujadas. Do meu lado direito, chuva de tiro de borracha. E bomba. Bomba por toda a praça até a Avenida Pacaembu. Não passei nem pela esquerda, nem pela direita. Fui pelo meio até encontrar a primeira escadaria do Pacaembu.

Subi ouvindo uma menina dizer que nunca mais ia ao estádio, muito menos assistiria a jogos do Corinthians para não dar ibope. Eu ainda nem tinha me dado conta de que o Corinthians estava eliminado da Libertadores. Andei até a rua onde o irmão da Alê parou o carro, achei o Corsinha branco, sentei e comecei a tremer. Nessa hora, nenhum amigo estava junto porque tínhamos nos perdido. Absolutamente todo mundo se perdeu de todo mundo. Luquinhas também teria se perdido, assim como dezenas de crianças choravam sem os pais no meio de toda aquela confusão.

Quando me dei conta de tudo o que tinha acontecido, comecei a chorar também e só fui parar na sexta-feira de noite. Não era a eliminação do Corinthians, nem o medo de nunca mais ver meu filho por causa de um jogo de futebol. Não era só isso. Era uma frustração, uma derrota pessoal de quem tem a pretensão de mudar algo que está errado por meio do futebol e não sai do lugar. De quem não deu nem dois passos a frente, mesmo com todo o esforço.

(…)

Blog do Juca

Ah, sim, a nossa maturidade...

- Já superamos o chão! - disse o chefe da caravana, quando percebeu que todos flutuavam a alguns centímetros do gramado.
E festejaram juntos, e caminharam juntos sem deixar pegadas rumo ao desfiladeiro mais próximo.
Não lamento informar que morreram todos na queda, sem nem a dignidade de haverem chegado até o fundo.

Diferença Nenhuma

5.5.06

Eu.

Deprimida. Pra variar. Tomei boleta, fui pra cama às 7. Meia-noite e pouco acordo, Alexandre no travesseiro do lado, lendo, quietinho. Chegou, jantou na panela e veio pra cama mudo, o santo. Conversamos um pouquinho, ligo a tv pra voltar a dormir com barulhinho. Tá lá um moço. No programa dum gorducho bigodudo de cara simpática (não me peça nomes, eu tava drogada e deprimida, não necessariamente nessa ordem)
O Gorducho:
- Qual era o nome da virgem francesa que morreu queimada na Idade Média?
E o moço:
- Medusa.
Voltei a dormir menos culpada da minha depressão, das boletas, da vida. Não sou só eu que tou perdida.

¡Drops da Fal!

Almirante, sem medo de ser polêmico:

“Quem não gosta de tomar medidas
extremas é o alfaiate do Long Dong Silver.”

Ao Mirante, Nelson!

2.5.06

MOCCA CHOCOLATA YAYA (Parte Final)

Nas cenas anteriores, Voz na Minha Cabeça, por tédio camusiano or something, matou Mulher da Seicho-no-Iê. Com a chegada de convidados para jantar, entre eles o Inspetor McAndrews, Alexandre e Vnmc são obrigados a fingir que o cadáver da Mulher da Seicho-no-Iê é um pufe.

Quando por último encontramos nossos personagens eles estavam indo para a mesa de jantar. Agora estão ao redor dela, condenados pela artificialidade implacável do teatro brasileiro a ficar em pé, quase sem falas. Alexandre olha absorto para uma samambaia.

(…)

Vnmc – O que fazemos com o cadáver?
Alexandre – Que cadáver?
Vnmc – O da mulher da Seicho-no-Iê na outra sala, não vai dizer que já esqueceu...
Alexandre – Ah, a mulher da Seicho-no-Iê! Uma Cazuza de sua época!
Vnmc – Mas o que fazemos?
Alexandre – Vou dizer que vou pegar uma garrafa de vinho na adega e me livro dela, enqanto você distrai os convidados com os seus comentários negativos e debilitantes.
Vnmc – Mas como vai se livrar dela? Não vai colocar na comida que nem fez com o Telê Santana?
Alexandre – Não, fique sossegada.
Vnmc – Por favor, hein?
Alexandre – Que é isso.

Sentam-se.

Vnmc (baixo, para Alexandre) – Não vai pegar a garrafa?
Alexandre – Hein?
Vnmc – A garrafa. Na adega.
Alexandre – Mas está aí na mesa.

Vnmc chuta Alexandre por baixo da mesa.

Alexandre – Ah é. (levanta) (Para todos) Vou pegar uma garrafa! (pisca) Na adega! (pisca)

Alexandre sai.

Major Fonsequinha – Por que ele piscou?
Inspetor McAndrews – Evidentemente não foi pegar uma garrafa na adega.
Major Fonsequinha – O que foi fazer então?
Inspetor McAndrews – Não tenho a menor idéia.
Vnmc – Ele tem vergonha de dizer, mas ele tem problemas de incontinência urinária.
Major Fonsequinha – Mas por que piscou então?
Vnmc – Uma espécie de reforço dramático. Ele estudou com Lee Strasberg no Actor´s Studio.
Convidado 1 – How exquisite!...
Convidada 2 – Molto sexy!...
Convidada 3 – Mais oui!...
Vnmc – Sim, sim, vocês têm que falar alguma coisa. Major, está gostando da salada de maionese?
Major Fonsequinha – Estou, mas o que é isto? Meu Deus, tem uma carteira nela.
Inspetor McAndrews – Não é uma alcaparra?
Major Fonsequinha – Acho que eu sei a diferença entre uma carteira e uma alcaparra.
Inspetor McAndrews (sentido) – Bom, aparentemente só eu não sei. Desculpe, Sua Majestade (faz uma vênia).
Major Fonsequinha – Vejamos o que diz a carteira de identidade.
Vnmc – Ah! É minha, Major! Se puder passar...
Major (lendo em voz alta) – Telê Sant...
Vnmc (levantando de um pulo e pegando a carteira das mãos do major) – É minha, com licença.
Major – Seu nome é Telê Santana?
Vnmc – Santini. “Voz na Minha Cabeça” é apenas o meu nome artístico. (estica a mão para um prato) Ah, um agasalho da Nike na salada de pepino. Vou tirar isto aqui discretamente e vocês fingem que não viram.

(…)

Alexandre Soares Silva

28.4.06

O Orkut será pago

Por favor, reserve alguns minutos do seu precioso tempo e leia esta mensagem IMPORTANTÍSSIMA.

Seguinte: o Orkut vai passar a ser pago. Nós, cidadãos pertencentes a um país com alta capacidade de indignação diante de causas irrelevantes, precisamos fazer algo urgentemente! Por isso mande imediatamente um e-mail com esta mensagem para 25 pessoas de sua lista, e um Orkut atualizado (seja lá o que quer que isso signifique) aparecerá em sua tela! Depois, envie esta baboseira para mais 25 pessoas, porque o Google, interessado em aumentar sua base de cadastrados, presenteará você com um celular da Nokia e uma viagem para a Disneylândia, e fará ainda uma doação de 100 mil dólares à Fundação das Macacas Bulímicas que Dançam Macarena Compulsivamente no Zoológico de Xiririca da Serra!

ADVERTÊNCIA: Herbert Steira, 42, ignorou esta mensagem e morreu de indigestão após ter comido três hambúrgueres do McDonald's feitos com carne de minhoca. Juninho Billy, 27, também a desprezou, foi seduzido pela prima do concunhado da vizinha do seu melhor amigo e acordou no dia seguinte numa banheira cheia de gelo, encontrando ao seu lado um bilhete informando que um rim e metade dos seus neurônios haviam sido roubados.

Já Bete Tuda, 34, passou um dia inteiro no Orkut fazendo comentários na comunidade "Eu Acredito no Zé Dirceu e na Velhinha de Taubaté" e deixou seu filho contrair leptospirose ao tomar Fanta Citrus em uma lata contaminada com urina de ratos. Last, but not least: Indignada da Silva, 19, encaminhou um e-mail indignado aos seus amigos no Orkut desmentindo este boato, queixando-se da "ignorância de certas pessoas que crêem em tudo que lêem na Internet e abarrotam caixas postais alheias com correntes idiotas", e encerrou seu desabafo solicitando a todos que repassassem adiante o seu esclarecimento...

Pensar Enlouquece. Pense Nisso.

27.4.06

E de Eráclito

"É impossível pisar no mesmo rio duas vezes. Talvez num lago congelado."

I de Istória

"Nenhum Homem é uma ilha, isolado em si próprio. Geralmente é um arquipélago.

A morte de qualquer pessoa te diminui, porque tu és de esquerda e te sentes envolvido, cativado, quase que enrabado pela Humanidade.

Portanto, nunca perguntes por quem os sinos dobram: pergunte se é casamento ou velório. Se dá pra filar bolo, ou se só vai rolar café." (John Long Donne)

dies iræ

25.4.06

revelações pré-copa do mundo

sempre que leio o nome da seleção de Sérvia e Montenegro, só me vem à cabeça aqueles adesivos de carros com nomes de pessoas que se amam, tipo "Séforah e Gleydson". E o carro que imagino quase sempre é um Chevette.

Silenzio, No Hay Banda

Estudos antropológicos no cinema

Minha idéia de entrevista na entrada da sessão:

1) O senhor sabe que filme está indo assistir? O filme, sabe de que diretor é? Ah, o senhor acha que isso não tem importância? OK, próxima questão...

2) O senhor gostaria de um megafone para que as outras pessoas ouvissem as suas opiniões com mais clareza? Aceita? Ok. Ah, o senhor quer mais um para os seus amigos? Eu verei o que posso fazer, senhor.

3) O senhor se sentiria mais relaxado se, antes da sessão, o cinema oferecesse um espaço para que se brincasse numa piscina com bolinhas de plástico? Sei, o senhor também acha que um pouco de Trash 80s combina com o ambiente? Sim, e pirulito DipiliQ também? Senhor, pare de dançar por um momento, só até o final da entrevista. Entendi, o senhor diz que quer mais é ser feliz. Senhor... Senhor...

E na saída:

4) Qual foi a graça da cena em que o ator mostrou o pênis? Ah, sei, o senhor achou engraçado que eu falei pênis? Seria mais sério se a legenda tivesse escrito pinto? Ah, pinto também faz você rir? Entendi, e se fosse piroca? OK, desculpe causar um ataque de riso, pulemos para a próxima questão...

5) Explique-me a emoção que causa aplausos em certos momentos do filme. Ah, é porque ele citava o David Lynch? OK, não estou pedindo para que o senhor aplauda agora, só quero saber a sensação que te causa. Ah, sei, a vontade de aplaudir é irresistível, O cara é muito bom. É isso? Entendi, O cara é foda. Senhor, preciso que pare de aplaudir para que eu consiga te ouvir. Prossigamos...

6) Para encerrar, reparamos que algumas pessoas ficaram incomodadas com os toques de alguns celulares. O senhor acha que ajudaria se cada pessoa na platéia tivesse um controle remoto para pausar o filme, atender o telefone, e depois retomá-lo? Ahn? O senhor quer perguntar pra Lili o que ela acha? Está bem. Ela gostou da idéia? Obrigado pelas respostas, esperamos em breve melhorar sua experiência no cinema. Tchau.

:: At War With The Mystics ::

23.4.06

Sexo de meia e brigadeiro de panela:

o inverno chega cedo em Curitiba.

Vizionarios

22.4.06

Como manda a cartilha

Não ouço vozes, não vejo espíritos, não tenho a menor lembrança de outras vidas. Nunca fiz uma viagem astral, nunca tive sonhos premonitórios, nunca o menor vestígio de duendes, fadas, elementais. Não faço idéia de qual é meu anjo, animal totem, signo ascendente. Não me lembro de ter visto algum relógio marcar 11:11. No meu céu nenhuma luz se move, no meu mar, nem Iemanjá nem Poseidon, nenhuma cobra na coluna vertebral. Os gatos simplesmente me ignoram, as pombas brancas fogem assustadas. O abismo nunca olhou de volta, o arrogante. Nem acordei com uma flor azul nas mãos.

Que tipo de idiota aprende tudo assim tão certo?!
Definitivamente, amigos, também meu reino não é deste mundo.

mas talvez não faça mesmo diferenca nenhuma...

O Par

(…)

Andar na rua é uma aventura só comparável às de Tolkien. Com tantos e tão bons pares, que todos os dias encontro pelo caminho, cheguei à única conclusão possível: Deus é Gay. Só assim se compreende que existam em média seis pares para cada homem e os cavalheiros sejam despachados para o reino dos céus mais depressa do que as senhoras. Se Deus fosse verdadeiramente heterossexual guardava a Scarlett Johansson só para ele. Chocados? Não fiquem. Há pior. Muito pior. Deus é tarado. Qualquer pessoa que tenha visto dois dedos de pornografia sabe isso. Porquê? Porque ele vê tudo. Vocês agarram a maminha da vossa mulher. Ele vê. Vocês tocam uma na casa de banho. Ele está sentado no penico. Vocês espreitam a saia da secretária. Ele é o vento que sopra. Alguém desce ao rés-do-chão. Ele agacha-se. Vêem pornografia. Ele está ao vosso lado. Deus é um voyeur. Pensem nisso da próxima vez que estiverem a planear fazer mais dois ou três catraios. Ginecologista? Pediatra? Qual quê. O que é preciso é ir já a correr ao psicólogo. E já agora, dêem um saltinho na igreja para rezar uma dezena de Ave marias. No mínimo. E nunca se esqueçam: nada de pensamentos obscenos. Porque ELE sabe.

(…)

Diário de Tiago Galvão

Sombras

Há um despropósito tão grande em todas as coisas. E Mário disse, "é engraçadíssimo." Tudo em um cômico profundo. E essa gente toda se levando tão a sério, e discutindo Proust e versos tocantes de poetas brasileiros menores, e vendo força e beleza em uma palavra, singela palavra, isolada palavra. Agonia. Gritos. Oras! Despropósitos tão grandes. Música tocando como se não tocasse. Indiferenças. Desfalar de um que tentou compreender coisas demais muito mais do que deveria ou poderia. Quem está mais certo? Por que se importar. O passado aconteceu e estará acontecido também amanhã, e um pouquinho mais ainda daqui um ano. O passado desvirtua tudo. Somos sombras, sempre sombras, e sombras buscam a luz porque na escuridão elas deixam de existir. Sombras rastejam. Generalizações e outros erros rebaixando o futuro a um mundo de sombras, cada vez mais porque as pessoas desacreditam nos efeitos do tempo e as pessoas se esquecem que o presente não é nada demais senão o que está para se fazer passado, e o passado um monstro gigantesco com uma boca enorme a devorar tudo que encontra pela frente.

Forsit

HOMENS PERFEITOS NÃO SÃO HOMENS

"Ai, não tem homem no mundo", "Ai, eles não são românticos", "Ai, ele não abaixa a tampa da privada", "Ai, ele só pensa em futebol"... Pare, querida! Antes que seja tarde demais.
São raras as mulheres que gostam e respeitam a natureza masculina sem tentar transformá-la. As lésbicas são as únicas que admitem (mesmo que inconscientemente) que mulheres são criadas para gostar de mulheres e não para gostarem de homens. Elas se poupam da tarefa insana de mudar os homens e não ficam empatando o jogo como muitas mulheres que tentam, a qualquer custo, acabar com o que ainda existe de masculinidade neste planeta.
Que a verdade seja dita: hoje em dia, um homem que preencha todos os requisitos do homem perfeito não é um homem; é uma mulher.

(…)

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Da série Republicação a Pedido - A VERDADE

Sabe aquelas eternas dúvidas sobre se o Bofe está a fins ou não está a fins? Aquela coisa que dá vontade de ir à cartomante, jogar tarô, comprar bola de cristal? Aquilo de ligar pras amigas às quinze pra meia noite para pedir um auxílio na interpretação da resposta dele da mensagem que você recebeu pelo celular? Tudo isso é coisa do passado.

Nós, as Megeras Magérrimas, vamos ajudar a superar esse dilema do ele está ou não a fins.

1) Minha filha, se você abalou Bangu, abalou de cara. Ele não vai ter sido meio morno da primeira vez que vocês ficaram juntos, meia boca da segunda, para dois meses mais tarde ele descobrir que você é a mulé dos sonhos. Se não bagunçou o coreto de chinfra, never more. Próximo!

2) Ele disse que depois te liga? Se não ligar no máximo três dias depois, não liga mais e se ligar, é porque não achou nada melhor para fazer (ou comer). Homem que ficou realmente interessado, vai querer marcar território e LOGO, antes que algum gavião apareça e leve sua princesinha embora.

3) Ele disse que depois ELE te liga? Então não ligue. Ou ele está dizendo que ELE vai pensar no assunto, ou está dizendo que ELE dá as cartas. Se você quiser ligar, tudo bem, mas aí não dá para saber do real interesse do rapaz e é possível que ele entre numas de “já que você insiste...” Tudo bem, se pra você isso pouco importa, o negócio é aproveitar e fim.

4) Se ele disse para VOCÊ ligar e você estiver a fins, ligue. Ele tomou essa atitude porque não ficou convicto de que você está interessada. Ligue e pronto.

5) Se ele não ligou não é porque você deu, nem porque você não deu. É porque não rolou o clima certo. Pelo menos pra ele. Desencane, parta para outra, chame a senha seguinte. Nada pior que uma mulher correndo atrás de bofe desinteressado, mandando mensagenzinha besta pro celular, arrumando desculpa para ligar, numa coisa encalhada pelamordedeus-me-chama-pra-sair. Assim como a gente ODEIA bofe uó pegajoso, que fica na cara que está tentando chamar atenção mandando mensagenzinha besta, e-mailzinho triste, ligando com desculpazinha esfarrapada, eles também percebem essas manobras idiotas. Se manca.

6) Se ele estiver realmente interessado, vai deixar bem claro. Se ele for meio que meio, mais pra lá que pra cá, ficar se fazendo, é porque tá te cozinhando até arrumar coisa melhor. Isso de mandar um mail na vida outro na morte, te incluir em lista de piadinha, vez por outra mandar mensagem no teu celular pra saber como você está, é furada, é só pra te manter orbitando no harém de Vossa Excelência. Nenhum homem que está realmente a fins faz isso. Homem a fins convida para jantar, pra ir ao cinema, para sair. Manda o morninho seguir. Dá um vale transporte pro garoto e larga no ponto de ônibus. Dispensa.

7) Se ele ligar e você estiver realmente a fim, tope o programa. Fazer joguinho de cena é de uma imbecilidade atroz. Se ele é do tipo caçador que precisa de resistência e emoção, esconde-esconde, momentos de tensão, que vá fazer safári. Seja sincera, fique feliz, tope e vá linda, bela, cheirosa e capriche no modelão.


OBS.: Aos defensores do vernáculo de plantão, aviso que a expressão "a fins" é de minha própria e intransferível autoria, trata-se de neologismo apoplético e eu assumo total responsabilidade pelo atentado contra a língua pátria.

Megeras Magérrimas

19.4.06

QUINTA (6/4), 16h30, GUAÍBA, PORTO ALEGRE

Eu cheguei às 16h30 na Usina do Gasômetro para ser fotografado pelo jornal Zero Hora. O vento estava morno, fazia o rosto vibrar entre as cordas dos cabelos. Um senhor comentava para três brigadianos a cavalo: - ela diz que a água está quentinha. "A água está quentinha!"

Ela é uma menina bonita, sei apenas isso até agora, que largou na margem o moletom rosa, a bolsa de pano e as sandálias Azaléia e decidiu mergulhar no Rio Guaíba poluído e perigoso para o banho. Foi de jeans e camiseta. A área é pedregosa e cheia de buracos. Ela não estava interessada em riscos. Ficou boiando de costas, perto de um bar flutuante, em que conversava com os freqüentadores. Os passantes começaram a brincar e apontar para a excentricidade do entardecer, como se ela fosse um avião voando rente dos edifícios. Com malícia, alguns queriam ver como ela deixaria a água. Com medo da tragédia, muitos pediam para que ela saísse logo da água.

Um dos brigadianos disse para um grupo de curiosos: "deixa ela lá". Ouvi bem, mas não entendia o que estava acontecendo. As patas dos cavalos separando a grama, girando nas encostas. Os brigadianos não se aproximaram dela, não a coibiram, não gritaram para que voltasse, não avisaram dos riscos. Acharam natural, assim como é natural enrolar papel seda na beira das pedras, assim como é natural jogar sujeira no rio, assim como é natural esperar o pôr-do-sol. A menina bonita era uma banalidade que não merecia repreensão e resgate. Não merecia sequer um telefonema. Não merecia.

O banho durou vinte minutos. Ela de repente esticou a mão esquerda, onde poderia ter uma aliança se pudesse casar um dia. Ela naufragou rapidamente e sumiu na sucção escura. Dois homens pularam na água e rodearam o local da desaparição. Deram braçadas desesperadas, em voltas. Não havia mais ligação da carne dela com a superfície.

Percebendo o tumulto, os brigadianos vieram para socorrer. Mas era tarde. Sempre é tarde para descobrir que é tarde.

Restava a sua bolsa na terra. As anotações do curso de informática que estava fazendo, o celular com a última ligação para sua tia, os documentos e adesivos de adolescente. Até a carteira de identidade era uma cópia xerox da verdadeira identidade, talvez perdida. Seu nome era Tatiana Pereira, 16 anos. Era. A menina bonita que sorria da travessura na espuma voltou de bruços para areia, inchada, triste e dolorida. Diferente. Infelizmente morta. Não irá ao seu próprio aniversário depois da Páscoa.

Toda dia acordarei com a certeza de que poderia ter feito mais do que olhar. Poderia ter sido um pouco mais do que omissão de viver o que me interessa e não se importar com os outros.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

Falar da cor, dos temporais, do céu azul, das flores de abril

- Fal?
- Eu.
- Acordei o Alê?
- Nada acorda o Alê, Ana, vc sabe, ele desmaiou às 9 e meia.
- Que vc tá fazendo?
- Vendo Ronifon e me preparando pra assistir o Jô, pq ele vai entrevistar o Ronifon.
- Ah, que programão.
- Si fudê.
- Rárárá. Vi vc na televisão, falando de blogs.
- Foi.
- Vc não sabe falar de mais nada?
- Não, e nem disso. Eu engano, vc sabe.
- Eu sei.
- Ou tento enganar, o que é pior.
- Eu sei.
- As meninas tão boas?
- Insuportáveis e boas.
- Bom.
- Sua mãe tá bem?
- Agora tá sim.
- Eu li no blog que de domingo pra hoje vc não dormiu vendo filme de mulher que chora no box.
- Verdade.
- Dormir pouco engorda, vc sabe.
- Vai à merda, Ana.
- E hoje, vc tá com sono?
- Não.
- Tem programa?
- Mas criatura, eu não acabo de dizer que vou ver o Ronifon no Jô?
- Ah é.
- Então.
- Eu tou na minha mãe. Tem reunião financeira essa semana e eu tou em São Paulo.
- E só avisa agora, cretina?
- É, ué.
- Sei.
- Comprei uma garrafa de rum.
- Ana, são quase 11 da noite!
- Vc tem limão aí?
- Ana, são quase 11 da noite!
- Tem ou não?
- Tenho.
- Gelo?
- Tenho.
- Seu liquidificador funciona?
- Funciona.
- Vc precisa jogar essa merda fora e comprar um de jarra de vidro que nem o meu.
- Olha aqui, ele funciona, tá?
- Tou indo.

Quando o belo Ronifon entrou no palco estávamos pra lá de bagdá, senhores.
Só lembro vagamente da entrevista e dele cantando de mão no bolso, coisa fofa da titia. E depois eu dormi que foi uma beleza.
Frozen daiquiri.
A bebida dos que não têm religião.
Ou têm, mas esqueceram.
E faz tempo.

¡Drops da Fal!

Ensaio sobre situações rotineiras

Morar em uma cidade como Brasília tem uma vantagem interessante: a rotina informal inconsciente. Por ser uma cidade planejada, tenho poucas opções de rotas, e dessas poucas, a grande maioria é congestionada. Então trafego pela última que me resta.

Aí todo dia quando saio para trabalhar, fico à caça de algumas repetições mnemônicas, involuntárias e contundentes.

Quase sempre encontro pelo trajeto o carro japonês esportivo branco, bi-turbinado e com um engravatado de camisa branca dirigindo, sério; O ônibus velho-verde-escuro com a banda do exército; O ônibus grandão e imponente da policia federal; O fusca-fafá-amarelo, com o adesivo 'POTOTINHA' colado no vidro traseiro; Um carro oficial, com motorista engravatado na boléia e passageiro engravatado lendo jornal no banco traseiro; A mulher louca que parece uma cobra-mal-matada dentro do corsa branco, ao som de Kalypso; O caminhão da Coca-Cola, nas terças e quintas, estacionado na pista ESSCN-SCS atrapalhando o trânsito; O volquis vermelho com a grade modificada, emprestada de uma BMW velha; O tatuzento que tira catôtas do nariz e cola no teto do carro; O velho grisalho e barbudo, engravatado também, que anda com um coupê coreano.

Milhares de pequenos detalhes que transformam minha rotina em um sistema motocontínuo de sobrevivência bestial.

Então sinto-me pressionado a gritar como louco, dentro do carro. A fitar vizinhos de carros no engarrafalento com um olhar lascivo e débil. Soltar gargalhadas insanas, despentear o cabelo como um Einstein-do-serrado e fazer esquisitices claustrofóbicas.

Alguns se assustam, como qualquer pessoa normal se assustaria. Outros, mostram-me a língua, quando lhes mostro a minha para eles. Uns sequer olham para o lado: seria choque cultural demais para um único dia. Outros balangam a cabeça, de um lado para o outro, tal e qual cavalos impacientes: estes, perderam a infância quando ficaram adultos. Para sempre.

E assim sigo o quebrantar da minha rotina em uma cidade rotineira.

Ralph em ÓPIO - DIÁRIO ELETRÔNICO ENTORPECENTE

16.4.06

A ética é como a virgindade: se você bate no peito para dizer que a tem, provavelmente não tem coisa nenhuma ou está doido para perdê-la.

(…)

Idelber adernando à B o m b o r d o

12.4.06

Eu já lhes contei sobre minha tia que é psiquiatra?

Hoje, pela tarde, ela veio visitar mamãe. Passado certo tempo, apareceu no meu quarto,fechou a porta e disse:
- Sua mãe está preocupada com você. Quer conversar?
- Huh..não.
- Quer desabafar?
- Nous.
- Aiai. Você tem feito alguma coisa pra aliviar todo esse estresse?
- Minha diversão social está restrita a um comprimido de Dramim por noite.
Ela me observou com seus grandes olhos azuis(ahn, mmmmaldição que eu não puxei esse lado da família!)e fixou o olhar no único móvel que sobrou do meu quarto.(devido à doença de minha mãe, a mudança está paralisada e eu estou vivendo num estado de semi-acampamento.)
Antes que eu pudesse impedir, ela abriu a gaveta, pegou os comprimidos e jogou pela janela do apartamento.
- Mas.. mas.. isso nem vicia!E agora, como é que fica minha insônia!?!?!
- Isso vai acabar com teu fígado, isso sim. Se quiser um anti-depressivo que preste, toma este aqui, eu tenho uma caixa na bolsa.
- Ah tia, valeu.
- Querida, você nem imagina a merda que me foi esse último mês.
- Opa, quer desafabar? Uma hora é cem reau.
- Cem reais é o preço desse remédio que eu te dei, ingrata!No começo desse mês, eu estava voltando do manicômio às onze horas da noite(esqueci de lhes acrescentar, ela trabalha num manicômio judiciário)e você sabe que eu só ando acima de 100 km/h nessas ruas de noite. Pois bem, quando eu entrei numa avenida, um bêbado de bicicleta cortou a rua na contramão, sapecou no pára-brisa, deu uma cambalhota por cima do capô e caiu estatelado a uns cinco metros do calçamento.
- Amassou o carro?
- Amassou foi o homem todo! Eu desci do carro desesperada, deu um chute nele de leve pra ver se ele acordava, tentei sentir o pulso, e nada! Foi aí que um senhor que estava do outro lado da rua apareceu pra falar comigo!
- Para ajudar?
- Ah, se sesse! Ele veio logo me chamando de assassina, que viu tudo, que eu atropelei de propósito, um horror!
- E aí?
- E aí eu mandei ir se f(piiiii), que fosse pra p(piiii) que o pariu, chamei ele de c(pii)zão, peguei o bêbado, arrastei até o meu carro, soquei no porta-malas e sumi dali.(a tempo, essa tia pesa mais de 100kg e dá porrada até no filho mais velho que tem 1,80m)
- Jogou o corpo no mar?
- Até pensei,mas eu telefonei pro teu tio(que também é médico e estava dando plantão num hospital )e disse que estava levando o bêbado atropelado para lá.
- Aposto que você pensou que, se ele morresse, seria mais fácil colocar como indigente, né.
- Justamente! Quando cheguei lá, comecei a chorar e disse ao seu tio que tinha matado o homem! Foi aí que aconteceu a coisa mais absurda da minha vida: enquanto eu gritava, o bêbado acordou, sentou-se na maca e ficou nos observando discutir. Quando eu falei "ele morreu!", o bêbado respondeu "Morri não, só tava dormindo. Dona, você acabou com a minha bicicleta."
- ...?É boa!
- Daí a gente batou raio-x da cabeça ao pé daquela criatura, eu o hospitalizei, paguei tudo que era medicamento e ele ficou bom em uma semana. Para não haver problema, dei outra bicicleta de presente pra ele.
- Ah, então terminou tudo bem.
- QUE NADA! Ontem mesmo, eu estava dirigindo o mesmo carro, no mesmo horário e na mesma rua e pá, atropelei um ciclista que vinha na contramão! Quando desci pra olhar, adivinha QUEM era?
- Não acredito.
- Eu fiquei com tanto ódio que comecei a chutar o infeliz e a dizer "vai, te mete logo embaixo da roda do meu carro, eu termino o serviço aqui mesmo!", mas o mesmo feladap(piii) que apareceu pra defender o bêbado da primeira vez apareceu DE NOVO e o bêbado conseguiu fugir de mim.
- Tia, acho que você está precisando desse medicamento mais do que eu.

(Definitivamente, eu amo minha família.)

BooBlog Um blog inútil para voce passar o tempo útil (ou o contrário)

Apfelsine

gente, eu sou inteligente.
gente, eu sou culta.
gente, eu falo 4 línguas.
gente, eu leio livros difíceis.
gente, eu tenho gosto musical apurado.
gente, eu faço piadas ácidas.
gente, eu sou bem-resolvida.
gente, eu sou linda.
gente, eu sou gostosa.
gente, eu dou pra caralho.
gente, eu arrasto hordas.

gente... gente, onde é que cês tão indo, hein?!

Apfelsine

Abecedário: Gold

Pete Johnson ao piano e Big Joe Turner cantando “Since I Fell for You”, no som do carro às duas da manhã depois de uma longa e frenética noite no escritório. Ao meu lado, Gi, a moça bonita, charmosa e discreta que todos nós gostaríamos de etc., e que eu provavelmente gostaria de mais que etc., comenta: “Uau, que coisa linda”, apontando para o toca-fitas. Eu aceno com a cabeça, concordando, concentrado em não olhar para as pernas dela exibidas pela minissaia e em não começar a cantar junto com a música.

O velho truque da carona-depois-do-sêuvísso, Fudílson? Coisinha mais chulé de se fazer (especialmente se você tem que disputar o posto com mais três caras). Mas a verdade é que ela trabalhava no meu grupo, ou seja, tecnicamente me conhecia melhor do que aos demais, e sua casa ficava de fato no caminho para a minha. (Um dos caminhos, pelo menos.) E quando ela se despediu com um sorriso e um último aceno assim que o portão do edifício se fechou, eu dirigi cantando até em casa, e fui dormir com um sorriso idiota nos lábios, porque mulher que gosta de Big Joe Turner alegra o coração até do mais empedernido entre os cafajestes.

Nos momentos cafajestes da existência, há algo de irresistível nas moças virtuosas. Gi, com a aliança de noivado no dedo e a foto do beau que estava concluindo estudos fora do país enfeitando a mesa, era tanto mais inacessível quanto mais presente. Ao contrário das moças who play hard to get por motivos táticos, ela sempre conseguia deixar muito claro que não estava disponível, e ao mesmo tempo manter o humor, o charme, até o flerte ameno que, na vida dos escrotórios, serve como uma espécie de reconhecimento tácito de que I dig you as a person, ou coisa assim. (Como Gi mesma definia, “aquele olhar de eu-daria-pra-você-mas”.)

Mulheres como a senhorita Gisele são o mais dolorido teste de escrotidão –se o sujeito decide que, what the hell, ela é diliça o suficiente para que ele insista e pelo menos tente vencer pelo cansaço, parabéns: trata-se de um calhorda de sexta categoria. Se –como eu diante dela-, o sujeito decide que, yo, abrir assédio contra uma moça desse tipo é moralmente inaceitável, parabéns: trata-se de um calhorda de sexta categoria do mesmo jeito, porque como explicar todas aquelas outras moças que foram cafajestadas sem que argumento moral algum se interpusesse?

No dia do casamento de Gi com o sujeito por quem ela esperara com tanta paciência, bebi bem mais do que costumo. Na saída do salão, um raio de sol rompeu o bloqueio da inversão térmica paulistana e fez cintilar a aliança na mão com a qual ela acenava em despedida antes de embarcar no carro caprichosamente decorado por todos os caras que, como eu, sentiam estar perdendo, nela, alguma coisa que não conseguiam definir tão bem quanto gostariam: o brilho inatingível daquilo que não nos é destinado. (Dois ou três anos depois, o marido de Gi a trocou por uma argentina a quem salvou de afogamento em aula de windsurf no litoral de SC. Gi descontou fazendo o óbvio com boa parte de seu imenso fã-clube. ‘Twas great fun, mas certo ex-cafajeste que eu conheço saiu um pouquinho decepcionado.)

Filthy McNasty

11.4.06

Fio de Esperança (Não Gostamos de Você)

A grande contribuição de Telê ao futebol foi a invenção de Cafu. Precisa continuar?

(…)

Fantasma do Maracanã

8.4.06

DE PIGRITIA

(…)

A Preguiça é vilipendiada. A Preguiça tem a imagem distorcida. A Preguiça é a prostituta da Babilônia. A Preguiça sempre tem seu significado intrínseco violentado. A Preguiça é o bode expiatório. A Preguiça é apressadamente apontada como o elemento pernicioso do caráter nacional. A Preguiça é invariavelmente responsabilizada pelo desandar do sistema educional. A Preguiça é tida e havida como a culpada por testemunharmos a orgia institucional em Brasília e não fazermos nada. A Preguiça sempre é acusada de ser a vilã do cenário de imobilidade subtropical. E quer saber? A safada gosta.

(…)

Ao Mirante, Nelson!

Come os nossos pais

Não quero lhe falar, Seu Alaôr
Das coisas que eu perdi no bingo
Quero lhe dizer quem eu já comi
E quem me lambeu o umbigo

Viver é melhor de cocar
Caçar, apitar, dirigir canoa
Mas também sei que chinelo Havaiana
É melhor que sandália Samoa

Por isso cuidado, meu bem
O negão está na esquina
Pão-de-centeio
E o sinal está fechado pra nós
Que usamos modess

Pode abaixar o calção
E mostrar a sua virilha, peluda
Pra isso se fez o regaço, o pecado e a sua avó

Você de peruca, eu de samba-canção
Eu como marmelada, você goiabada Cascão
Eu gosto do Ed Wood, você do Zé do Caixão
Eu vejo vir vindo de van os caras do Taleban
E eu sei de tudo da fita do Osama e aquela anã

Já faz tempo eu vi você de burka
Indo pra Franca num busão da Reunidas
E na agonia da hemorróida
A saudade é a parte que dói mais

Walter Jorge é PCB
Na campanha vai montado num jumento
E ainda come torresmo, e ainda come torresmo
E de quebra os nossos pais

(...)

DGR's bioskop

7.4.06

formatar essa vida

Micro quebrado, mãe me acusando de insanidade temporária, milhões de coisas pra resolver, nenhuma vontade de estar aqui, vontade enorme de formatar essa vida e deletar vários programas que vivem dando pau. Eu devia mudar de cidade e começar tudo do zero... Uma cidade menos windows e mais linux.

Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

5.4.06

CONTOS DE PHADA, versão 2.0. - MANOS PIG E A SAUDOSA MALOCA.

Era uma vez três ermão que viviam no morro e, como as condição de higiene não eram das melhor, foram apelidados de Manos Pig. Cada um ergueu um barraco conforme as suas posse. O primeiro construiu de material do lixo recicrável, o segundo arrumou táuba de demoliçã e o terceiro saiu com a carroça do véi Migué pra dá umas banda e voltou c’uns material de construção de primeira, tá ligado? Vai daí que neguim nem bem terminou os cafofo e os dono da boca viero rente tocá os Mano do terreno. Derrubaram a de papelão, derrubaram a de táuba e quando tavam preparando as picareta pra adirrubá a de material, chegou uns brother da favela rival muito faixa dos Manos Pig e encheu eles de pipoco. Toma. Tão lá até hoje e o barraco já tem até puxadim.

CONTOS DE PHADA, versão 2.0. - JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO TRANSGÊNICO

Era uma vez um menino pequeno agricultor chamado João que vivia muito miseravelmente com sua mãe, numa propriedade de 20 hectares. Um dia, ganhou umas sementes de feijão transgênico e plantou no terreno. O pé de feijão cresceu tanto que chegou até as nuvens. Uma galinha que comeu o feijão ficou botando ovos de páscoa sonho de valsa já com embalagem. João então vendeu os ovos a peso de ouro para uma gigante multinacional do chocolate e eles viveram bem ricos felizes para sempre, cultivando produtos orgânicos livres de agrotóxico para consumo próprio.

Muito mais histórias que nossas babás não contavam em Megeras Magérrimas

3.4.06

Abecedário: Adrift

Meu primeiro beijo foi com a prima-menos-bonita da garota de quem eu gostava, aos 13 anos. Ela ficou me olhando com aqueles olhos pidões de cachorrinho de capa de caderno; eu como sempre não sabia direito o que fazer, mas me aproximei; ela tirou o chiclete da boca e ficou com ele na mão, e se colocou na ponta dos pés, oferecendo os lábios; eu a enlacei, fechei os olhos, abri os olhos subrepticiamente para conferir a aproximação, e presto: primeiro beijo. (Sabor tutti frutti. Bleargh.)

Se bem Hardy Har-Har já fosse meu herói, aos 13 eu não era pessimista o suficiente para imaginar que o primeiro beijo viesse a determinar tendências e que eu viveria permanentemente condenado a beijar a prima-menos-bonita-da-mulé de-quem-eu-gostava, e a degustar para sempre variações progressivamente mais caras mas não muito mais saborosas do maldito tutti frutti. However, já dava pra desconfiar que amor e eu, uh oh, not a perfect match.

A mocinha do primeiro beijo se tornou algum tempo depois minha primeira namorada. Os beijos melhoraram, especialmente porque ela começou a jogar o chiclete fora em lugar de segurá-lo na mão. (Come on, a menina lá com o chiclete na mão quer dizer “yo, acaba logo essa beijação que eu tenho um Ploc para mascar”: péssima mensagem para um sujeito que era ainda menos seguro de si aos 13 anos.)

Eu sabia que ela sabia que eu só estava com ela porque a prima não queria saber de mim, e o fato de que ela aceitasse a situação fazia com que eu gostasse dela menos do que poderia ter gostado (porque, as far as teenage romance goes, ela era uma ótima namorada, infinitamente paciente). Mas uma coisa que eu talvez devesse ter descoberto ainda petiz é que os Rolling Stones não estão certos 100% do tempo, e que, quando o sujeito está apaixonado, não adianta muito ele conseguir o que precisa quando não consegue o que deseja.

Espero que a Adriana lembre daquele beijo com o mesmo carinho que eu, e que tenha me perdoado pelo namoro: yo, baby, eu não sabia mesmo o que estava fazendo. (Bom, provavelmente, ela só me beijou porque não conseguiu beijar o cara de quem realmente gostava, anyway.)

Filthy McNasty

1.4.06

Danças

Eu sei que estou fora do Brasil há algum tempo, mas às vezes as notícias de lá me parecem meio surreais.

Tomemos o caso da dança da deputada. Vejamos se eu entendi: um deputado estava sendo acusado de receber dinheiro ilegalmente e foi a julgamento na Câmara. Foi absolvido. Uma deputada, amiga e colega de partido dele, comemorou a absolvição dançando no plenário; foi suspensa e vai sofrer um processo administrativo por quebra de decoro.

Agora, pergunto: se o deputado foi absolvido, é porque supostamente é inocente, ao menos para a Câmara e oficialmente. Nesse caso, a deputada estava dançando para comemorar o fato de um amigo e colega seu, que é oficialmente inocente, ter sido absolvido; nada mais justo. Qual foi a quebra de decoro, então? Dançar no plenário rende processo e suspensão?

(não estou dizendo que o deputado seja inocente; não estou acompanhando muito as notícias, não sei se ele é inocente ou culpado e, na verdade, não me interessa muito; só estou intrigado com a hipocrisia de absolver o deputado e punir quem fica feliz com isso)

Palavras ao Vento

A lei de imprensa serve para proteger os jornalistas

Decerto. Assim como a invenção do dr. Guillotin nos protegeu da forca.
E a lei de Talião beneficiava os dentistas. E a cadeira elétrica foi concebida, em última análise, para extirpar a loucura da sociedade.

Mozart

Frases para a posteridade que pensei no banheiro

Falar pouco é característica de quem pensou muito.

Notas do Dr. Porfirio Caetano das Neves, barbeiro

Subemprego 29: Suporte de maçã

Toda noite eu vestia um maiô de lantejoulas e um par de botas vermelhas, sentava num banquinho e ficava lendo "As Brumas de Avalon", até chegar a minha hora.

- Vai filha!

Fechava o livro, dava três estrelas e aterrizava no meio do picadeiro. Dois homens me levantavam pelos braços e me carregavam, feito estátua, até o alvo. Botavam uma maçã na minha cabeça. Eu soprava um beijinho para o público e fechava os olhos, era um tipo de adeus.

A partir daí eu ia me imaginava com uma lua crescente tatuada na testa, dançando em volta da fogueira e uivando.

Só abria os olhos quando sentia a gosma da maçã escorrendo pelo meu cabelo. Deixava o picadeiro dando piruetas e pensando que precisava, urgentemente, encontrar um jeito de ter mais emoção na minha vida.

||| Índigo - 73 Subempregos |||