GRANDE APERTO, O FIM DA FELICIDADE & OUTROS FILMES DEFEITUOSOS
Saio do banheiro e sento-me aqui, diante do computador. Começo a escrever este texto, enquanto a chuva parece atravessar o vidro da janela, além do cinza do dia que se espicha lá fora. Você talvez tenha saído da cozinha, onde desligou o fogo e encheu uma xícara de café, e agora sentou-se diante do seu computador e está lendo este texto no meu blogue. Seus dedos longos desistem da havaiana azul (ou verde?) e pisam os tacos frios, depois dos lábios tocarem a borda quente da louça do café. Há uma mancha no canto de sua boca. Você olha pra janela (há uma janela?) no mesmo momento que também olho, depois de pensar um pouco, e, afinal, colocar uma enfermeira neste texto. Ela cuida dum senhor muito velhinho e gentil que está prestes a morrer, mas tem em mente apenas o filhotinho de beagle, e imagina as estrepolias que o cãozinho faz, sozinho em casa, e sorri. O velhinho também sorri pra ela, feliz por ela ter sorrido pra ele, enquanto neste exato instante o cachorro vira seu prato de leite e você derruba sua xícara e também sorri. Enquanto o café se esparrama por sua escrivaninha, eu também sorrio. A chuva diminui e o dia ganha dimensões mais luminosas por isto. A enfermeira recolhe seus utensílios, despede-se do paciente idoso e atravessa o corredor do hospital. Eu penso para onde ela poderia ir, enquanto você pensa que um filhotinho de beagle talvez diminuísse a sua solidão. Eu hesito em escrever a palavra solidão aqui, pois eu não acredito na solidão. Eu não quero começar a pensar agora, isto certamente
HOTEL HELL
15.3.04
atrapalhará a escritura deste texto e assim nunca saberemos onde a enfermeira pôde chegar, se ela voltou para casa e se sentiu feliz por estar com seu cãozinho e se o velhinho ficou triste por estar só e morreu de madrugada, olhando a chuva tocar na janela do hospital com seus dedos de granizo uma melodia líquida. Eu não quero pensar em outras coisas, mas é inevitável, e penso em Michel. Penso no quanto devo estar chateando-o, com meus atrasos no trabalho. Ouço um grito do Pernalonga, vindo da tevê na sala: a minha filha diz algo impossível ao Pernalonga no exato momento em que o cãozinho lambe uma lágrima no rosto da enfermeira. Os pensamentos todos sobre a sua solidão, a minha solidão, a solidão de minha filha e a solidão de seus pernalongas imaginários atrapalham o desenvolvimento deste texto, que certamente não terá fim. Você levanta-se, para além deste texto, para fora deste blogue, e coloca This Years Love para ouvir. O piano de David Grey e sua voz rascante fazem com você e com o dia algo semelhante ao que o cãozinho faz com a enfermeira. O fato de eu ter começado a pensar e ter interrompido este texto me deixa mais confuso ainda e eu penso em como tenho me sentido confuso, em como tenho me sentido só, mesmo quando acompanhado por uma turma de setenta alunos, e penso que alguma coisa deve estar por acontecer, pois há muito tempo não tinha a consciência de estar só. A enfermeira trança seus dedos no pêlo do cãozinho, minha filha abraça seu cobertor deitada no sofá, você veste suas calças pensando em mim, no cãozinho, David Grey solta um vibrato rouco, Michel desiste de esperar o meu telefonema, o velhinho ruma para sua felicidade escura e o dia começa, em um outro dia, em um outro dia. Em um outro dia.
HOTEL HELL
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Ratapulgo
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15.3.04
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Acho que preciso de internação. Acordei com três músicas bombando ao mesmo tempo na cabeça: um jingle do Eymael + Dercy Gonçalves cantando "mando bala, meto bala, lasco bala" + um jingle do Janio Quadros. Tudo ao mesmo tempo. E olha que não mexo nos meus arquivos sonoros há tempos. Uma camisa-de-força, por favor? Tem de manga curta?
¢AtaRrO vE®De
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Ratapulgo
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15.3.04
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Minha idéia para por a democracia em prática no Brasil é fazer o próximo Big Brother em Brasília. Imagine câmeras plantadas 24 horas por dia no congresso, senado, gabinetes e salas de reunião. Bem mais emocionante que o BBB atual, não. Teria menos caras fortões e mulheres saradas, mas haveria muito mais intrigas e emoção. O Pedro Bial proporia tarefas — fazer reforma agrária, melhorar o sistema de saúde, acabar com a fome, sei lá — e quem fosse vencedor poderia ser o líder temporariamente. E as votações semanais do público eliminariam aqueles que não tivessem bom desempenho.
Acho que assim Lula se esforçaria bem mais para justificar seu título de líder e o Palocci talvez não durasse tanto no cargo.
Chez Nigro's
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Ratapulgo
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15.3.04
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Outro dia esteve aqui um priminho meu, moleque do alto de seus cinco anos de idade. Quando viu minha coleção de vinis na estante, me perguntou:
- Tio, onde você comprou esses CDzões gigantes?
Ai minhas costas.
Pensar Enlouquece. Pense Nisto. - versão 2.0
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Ratapulgo
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15.3.04
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13.3.04
Algo já esperado
- Finalmente apareceu. Eu ia ter perguntar sobre fogos de artifício, mas deixa pra lá.
- Porque, não gosta deles?
- Não. Gosto de coisas de menina. Fogos de artifício me dão medo. Me fazem chorar feito um coelho.
- Coelhos choram?
- Você é sempre tão engraçado?
- Só quando ando com meninas bonitas.
- Ok, não vou estragar seu elogio.
- Está bem assim. Estou fazendo piadas do seu lado. Isso podia ser mais engraçado, você podia ajudar, que tal?
- Fique feliz que não estou estragando tudo. E porque você não está na balada com seus amigos?
- Pessoas felizes me deprimem. Pessoas bêbadas e felizes me dão vontade de cortar os pulsos.
- Você me faz feliz. Isso é deprimente?
- Não. É só uma boa ação. Se eu morrer esta noite e não for pro céu, vou ficar muito puto.
- Ei, vamos pra casa. Está começando a chover.
Às vezes, somente com um evento externo o contador de histórias pode achar o final mais apropriado para o seu conto. Então, tudo que for constante e esperado - como a morte, a chuva e o inverno - pode ser usado como fim. Isso nos lembra que, embora não pareça, é da natureza humana agir contra o inevitável.
Chicken Dog
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DaniCast
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13.3.04
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11.3.04
Hoje e aquele dia
Não faço idéia do porquê, na verdade o melhor é nem tentar relacionar uma coisa às outras porque elas não têm rigorosamente nada a ver, mas depois do almoço de hoje, quando me dei conta do quanto a tarde estava bonita e de que não vai chover de jeito nenhum pelos próximos dias e que, graças a Deus, ninguém querido está prestes a ir embora de lugar algum por agora, nesse exato momento me lembrei daquele dia passado, o dia em que ela chegou lá em casa contando o caso do menino de quem arrancara um dente de leite.
O caso era assim: ela arrancou o dente do menino e pôs o pedacinho branco dentro do bolso da sua camisa de uniforme dizendo que o colocasse debaixo do travesseiro durante a noite e fizesse um pedido. Aí, no dia seguinte, o menino voltou pra escola com o dente exatamente naquele mesmo bolso e disse professora, minha mãe ficou muito brava com a senhora, mandou colocar meu dente de volta no lugar!
Enquanto dizia essa frase assim, em vivo e concreto discurso direto, não parava de gargalhar. Eu, que tinha lá pelos meus sete anos de idade na época mas me lembro de tudo como se fosse hoje, fiquei muito espantada com aquela gargalhada sem fim e, na minha cabeça de menina, vi naquilo tudo ares muito cruéis, brutos, atrozes, maus.
Passei vários dos dias que se seguiram àquele entregue a elucubrações mirabolantes: Será que ela é má? Será que vai ficar arrancando meus dentes assim também a vida toda? Será que as mães dos alunos odeiam tudo o que ela faz? Ai, será que ela é a professora mais malvada da cidade? Foram mil invenções e interrogações alimentando meus temores de menina até que, nessa mesma época, ela começou a me levar pra escola em que dava aulas.
Então conheci o tal menino banguela, brinquei com todos os seus alunos, merendei sopa sentada naquele banco gelado de alvenaria de escola pública. Ela me ofereceu giz pra brincar naquele quadro gigante, me deixou fazer dupla com alunos que estavam sozinhos pra fazer trabalhos, me deixou brincar de elástico com as meninas no recreio. Não sei, pode ser imaginação, mas acho que foi com essas idas à escola dela que os tais temores de menina passaram, porque desde então parei de pensar na possível malvadeza da minha mãe ou em dentes de leite sendo arrancados à revelia de crianças e suas mães.
Bom, é isso. É isso e, por incrível que pareça, hoje não quero chegar a lugar nenhum, pra mim está ótimo ir dormir tendo alcançado apenas esse conjunto de fatos, o que eu queria de verdade era só dizer em algum lugar que foi muito bom ter lembrado disso tudo do nada, muito bom mesmo, então pronto: está dito.
Da Estrangeiridade
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Ratapulgo
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11.3.04
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regras de conduta no ambiente de trabalho (recebi do meu pai, hoje)
NOVAS REGRAS E CONDUTAS DE TRABALHO
INDUMENTÁRIA:
Informamos que o funcionário deverá trabalhar vestido de acordo com o seu Salário. Se o percebermos calçando um tênis Prada de $350 e carregando uma bolsa Gucci de $600, presumiremos que vai bem de finanças e, portanto, não precisa de aumento. Se ele se vestir de forma pobre, será um sinal de que precisa aprender a controlar melhor o seu dinheiro para que possa comprar roupas melhores e, portanto, não precisa de aumento. E se ele se vestir no meio termo, estará perfeito e, portanto, não precisa de aumento.
AUSÊNCIA DEVIDO À ENFERMIDADE:
Não vamos mais aceitar uma carta do médico como prova de enfermidade. Se o funcionário tem condições de ir até o consultório médico, pode vir trabalhar.
CIRURGIA:
As cirurgias são proibidas. Enquanto o funcionário trabalhar nesta empresa, precisará de todos os seus órgãos, portanto, não deve pensar em remover nada. Nós o contratamos inteiro. Remover algo constitui quebra de contrato.
AUSÊNCIAS DEVIDO A MOTIVOS PESSOAIS:
Cada funcionário receberá 104 dias para assuntos pessoais a cada ano. Chamam-se sábado e domingo.
FÉRIAS:
Todos os funcionários deverão entrar em férias nos mesmos dias de cada ano. Os dias de férias são: 01 de janeiro, 07 de setembro e 25 de dezembro.
AUSÊNCIA DEVIDO AO FALECIMENTO DE ENTE QUERIDO:
Esta não é uma justificativa para perder um dia de trabalho. Não há nada que se possa fazer pelos amigos, parentes ou colegas de trabalho falecidos. Todo esforço deverá ser empenhado para que não-funcionários cuidem dos detalhes. Nos casos raros, onde o envolvimento do funcionário é necessário, o enterro deverá ser marcado para o final da tarde. Teremos prazer em permitir que o funcionário trabalhe durante o horário do almoço e, daí, sair uma hora mais cedo, desde que o seu trabalho esteja em dia.
AUSÊNCIA DEVIDO À SUA PRÓPRIA MORTE:
Isto será aceito como desculpa. Entretanto, exigimos pelo menos 15 dias de aviso prévio, visto que cabe ao funcionário treinar o seu substituto.
O USO DO WC:
Os funcionários estão passando tempo demais no toalete. No futuro, seguiremos o sistema de ordem alfabética. Por exemplo, todos os funcionários cujos nomes começam com a letra 'A' irão entre 8:00 e 8:20, aqueles com a letra 'B' entre 8:20 e 8:40, etc. Se não puder ir na hora designada, será preciso esperar a sua vez, no dia seguinte. Em caso de emergência, os funcionários poderão trocar o seu horário com um colega. Ambos os supervisores do funcionário deverão aprovar essa troca, por escrito.
Adicionalmente, agora há um limite estritamente máximo de 3 minutos no box. Acabando esses 3 minutos, um alarme irá tocar, o rolo de papel higiênico será recolhido, a porta do box abrirá e uma foto será tirada. Se for repetente, a foto será fixada no quadro de avisos da empresa sob o título "Infrator Crônico".
A HORA DO ALMOÇO:
Os magros têm 30 minutos para o almoço, porque precisam comer mais para parecerem saudáveis. As pessoas de tamanho normal têm 15 minutos para comer uma refeição balanceada que sustente o seu corpo mediano. Os gordos têm 5 minutos, porque é tudo que precisam para tomar um "Slim Fast" e um remédio de regime.
Muito obrigado pela sua fidelidade à nossa empresa.
Estamos aqui para proporcionar uma experiência empregatícia positiva. Portanto, toda dúvida, comentário, preocupação, reclamação, frustração, irritação, agravo, insinuação, alegação, acusação, observação, consternação e "input" deverá ser dirigida para qualquer outro lugar.
Tenham uma boa semana.
A Gerência
perolada
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Ratapulgo
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11.3.04
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10.3.04
Ele evita fotos. Evita fotos porque ela está muito longe, sempre esteve longe. E olhar uma foto, além da dor de ver a foto, tem a dor da nostalgia do tempo em que via as fotos sem medo, do tempo em que não calculava as tristezas e as euforias que lhe agitavam o espírito. Toma hoje mais cuidado. Mas resultados não parecem ter surgido muito claros.
Quanto a cartas, evita-as um pouco, foge menos. Que elas torturam muito pouco de cada vez, não dói na mesma hora e só se descobre que se foi ferido conforme o tempo haja passado. Descansam na estante, umas sobre as outras e também espalhadas. Às vezes muitas páginas, em que aparece comedida a expressão, mas latentes as idéias indizíveis, como latentes as idéias indizíveis nas outras onde se multiplicam as páginas e se oferece o coração em palavras muitas e de reflexões.
E as tais sensações que não se dizem o encobrem de tantos ditos, de tanto que dizem, e tanto que dizem, e de tanta ansiedade em que o afogam por serem suas falas sem palavras, que ele deseja uma palavra – mas não há quem a diga. Quem a diria está distante, prisioneira do ar, presa na fotografia, escrava do oceano, refém dos caprichos geográficos, latente quanto a idéias indizíveis e amorosa nas palavras. E esta palavra é possível que não seja palavra, pode ser discurso, pode ser aceno, olhar ou convite: contemplemos este mar entre terras; que não saibamos haver terras, mas apenas terra; que estejamos no mesmo lado, e que tudo seja agora dizível neste lado, libertos agora do papel das fotografias, do papel das palavras.
E assim conseguiremos, entre tantas outras coisas, a felicidade de respirar.
O Mercador de Seda
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DaniCast
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10.3.04
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Minha vida no sertão
Pense nisso. Um calor de 40 graus à sombra. Você sai do trabalho, daquele ar-condicionado polar e vai almoçar na rua. Meio-dia. Seus miolos cozinham, seus sapatos derretem. Para piorar, ainda trabalho no local mais quente de toda a cidade. Nem vontade de comer você tem, tudo que você deseja é uma água bem gelada. Pena que não dá para jogar na cabeça. E aí fica nesse entra e sai, gelado, fervendo. Quando está em casa fica tomando um banho atrás do outro. Basta experimentar uma camisa para inutilizá-la. Fica parado de frente para o ventilador sem vontade de se mexer. De noite, a cama é uma frigideira. Você rola, rola e não consegue dormir. A água nem gela na geladeira porque você não pára de beber. E o termômetro da cozinha lá... bombando!
Compro chateau de inverno no Senegal.
Pirão sem Dono
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DaniCast
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10.3.04
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Sem nunca abandonar o humor, traço de toda a sua obra, Prata falou ao Elas por Elas:
(...)
Qual a maior diferença entre homens e mulheres?
A única diferença é que os homens existem há séculos. E a mulher há apenas uns 50 anos. Mas veja só o que elas já fizeram em meio século!!!
Você acredita que há uma natueza feminina (e outra masculina)? Ou tudo é uma questão de cultura?
A verdade é que nenhum deles presta. Nem os homens, nem as mulheres. Se pelo menos uma das facções funcionasse, convencia a outra e o mundo seria maravilhoso. O problema é que as mulheres e os homens desconfiam. Por isso que existem os advogados. Os advogados são a prova de que não se pode confiar em ninguém.
Hoje é o Dia da Mulher. Você acha essa data necessária?
Não. Nivela a mulher a contador, indio, secretária, sogro... Ou seja, este negócio de "dia de alguma coisa" foi inventado para agradar as minorias...Todo "dia de alguma coisa" é pior que aniversário, em que as pessoas se obrigam a nos dar e a gente a receber e dizer "não precisava". Aliás, tem coisa pior ainda: Natal e carnaval. Acho que os dois deveriam ser iguais a copa do mundo: só de quatro em quatro anos.
Elas por Elas
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Ratapulgo
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10.3.04
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O DIA EM QUE O TEMPO PAROU PRA UMA MIJADINHA.
Então vinham pela Belém-Brasília, num Gol 99, o Tempo, o Açodamento, a Experiência e, ao volante, o Serviço. Reparando que o Tempo tava com a bexiga cheia e suando frio (tinham entornado um montão de cerveja), o Açodamento palpitou:
-- O Tempo tá apertado...
O Serviço estacionou num posto pro Tempo fazer xixi. E ele começou a demorar, demorar. No carro, o Açodamento, inquieto, pôs a cabeça fora da janela, fixando o olhar no banheiro do posto, e depois de um esticado silêncio comentou:
-- Olhaí, acho que o Tempo acabou.
A Experiência, mãe de todas as Paciências (é, com o Tempo ela veio dando à luz uma prole considerável, embora ele não assumisse a parternidade), sabendo que o mijão gostava de dar umas sacudidelas pra não molhar a cueca, obtemperou:
-- Calma. Acabou nada. Sempre sobra um pouquinho. Cuca fresca.
O Açodamento, pai da Impaciência (é, com a Experiência ele acabou sendo pai, embora ela preferisse deixar a guarda da menina com ele), cutucou o Serviço, fazendo gestos (é, o Serviço era surdo-mudo) pra que o outro desse logo a partida e largassem o mijão ali. A Experiência:
-- Nanananinha. Não adianta pressionar: sem Tempo o Serviço não sai.
O açodamento, quase chorando, jogou a cabeça pra trás e se recostou na poltrona:
-- Ah, se o Tempo voltasse...
E a Experiência, descascando uma banana:
-- Não adianta se lamuriar agora, baby. Fica frio.
O que aconteceu foi que o Tempo, com o xixi preso, acabou estourando a bexiga. Ouvindo o barulho (não me perguntem como), o Açodamento, histérico, virou-se pros outros e:
-- Tão vendo? Tão vendo! O Tempo estourou! A culpa vai ser nossa!
Nisso vinha vindo um Cliente em sua moto de Polícia Rodoviária. O Açodamento, já em pânico, reparou que o Serviço era quem mais tinha jeito de bocó ali e, virando-se pra ex-amante -- com o fim de livrar a cara de ambos -- sussurrou:
-- E aí? Entregamos o Serviço pro Cliente?!?
A Experiência, sem se intimidar:
-- Peraí que eu dou um jeito.
Saiu do carro, ajeitou a cinta-liga, abriu um pouquinho o decote e foi falar com o Cliente.
Neste instante acordei.
Eu cochilava no departamento de arte da agência, enquanto o pessoal da criação e do atendimento batia boca sobre uma campanha que tava atrasadíssima. Não sei se aquilo se misturou ao meu sonho, mas tomei a decisão imperiosa – corri pro banheiro.
Moral da história: Propaganda chega em tudo que é lugar. Inclusive no sono de redator preguiçoso.
Ao Mirante, Nelson!
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Ratapulgo
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10.3.04
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9.3.04
Clotilde
OK, devo confessar: eu tenho uma ressaca de estimação. A danada se chama Clotilde e é uma minúscula mulher-das-cavernas, que fica agarrada aos meus cabelos, esmigalhando tijolos nas minhas têmporas enquanto chuta minha nuca. Qualquer deslize, qualquer tacinha a mais de Bailey’s com gelo, qualquer jarrinha de tequila com soda e limão... batata!. Dia seguinte eu já levanto da cama com a Clô grudada na minha cabeça.
Os médicos mandam a gente se hidratar, comer coisinhas leves com pouco tempero e ter juízo da próxima vez.
Minha mãe me diz que o bom pra ressaca é um copão de suco de tomate com vodka logo ao acordar, ou cerveja preta batida com ovo no café da manhã. Mas quando foi que a minha mãe já me deu um bom conselho nesta vida? A teoria assombrosa dela é a seguinte: se a ressaca só aparece quando ficamos sóbrios, devemos continuar bêbados. O mundo está perdido.
Deixo minha mãe e seus elefantes cor-de-rosa pra lá, e sigo o que os médicos dizem.
Não sei vocês, mas numa hora dessas, com Clotilde babando nas minhas orelhas, eu não posso nem pensar em receitas elaboradas, formas untadas, ingredientes rebuscados, cheiro de comida condimentada e, que Deus me perdoe, cozinha bagunçada. Eu quero uma comidinha leve, fácil de engolir e que não agrida o meu já conturbado estômago. Ah, e que, de preferência, eu já possa deixar pronta na noite anterior à esbórnia. Hum, e, claro, que eu consiga fazer de óculos escuros.
Até o Osso
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DaniCast
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9.3.04
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Ontem eu vi a neve!
Eu vi a neve, vi a neve se formando, senti ela caindo na palma da minha mão em meio a chuva que também caía. Não era neve pura, era neve misturada com lágrimas do céu. Uma neve mestiça. A minha primeira neve. Coloquei a mão para fora do carro e o vento que cortava entrou, a água caindo junto com a neve que beijava a minha pequena mão.
Minhas mãos são finas, pequenas, minha finada avó paterna dizia que minhas mãos serviam para ser mãos de costureira. Por isso nunca cheguei a ser uma virtuose no piano. Os dedos eram curtos demais para os efeitos de Le Lac du Comme.
Rascunhos de Alice
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DaniCast
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9.3.04
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O coração sabe quando o dia não há de ser o melhor dos mundos. Ele avisa no corpo quente ao acordar, quase febril, precisando de banho para refrescar-se. Avisa nos batimentos mais acelerados, na falta de sono já tão cedo para quem foi dormir às cinco da manhã. O coração sabe, sabe tudo.
O meu, bem que me avisou. Fui me deitar às cinco, almocei às cinco, doze horas depois, com compra e troca de torneiras no intervalo. Perdi a manhã, perdi a tarde, não fiz os meus deveres de casa trabalhistas. Me angustiei, chorei muito. Lágrimas salgadas. Lágrimas nunca são amargas, lágrimas são água e sal.
Dois fundos tão diferentes na minha vida. O da bolsa, difícil de encontrar, tanta coisa guardo dentro dela. O do coração, sempre à mostra como janelas sem janelas e portas sem portas para fechá-las. Exposto, na superfície, esse meu coração nada superficial.
Eu sofro, choro lágrimas salgadas e nem mesmo sei por que elas são salgadas, água e sal.
Somos choro, somos soro.
Telhado de Vidro
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DaniCast
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9.3.04
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Vou comendo os dias aos bocados, mastigando as horas, deixando os minutos presos entre os dentes. Uns começam suco de laranja e terminam mocotó; outros, cheiram a amêndoa como veneno e depois escorrem sorvete de menta. Há os algodão doce, bomba de creme, açafrão e curry. Ultimamente meus dias sugerem um gosto de quase certeza, uma memória da língua perdida entre uma lambida e um beijo, sabor fugidio e incerto. Minha boca pede o gosto de dias que se foram e eu a encho de pimenta.
Não Discuto
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DaniCast
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9.3.04
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Olhei para a estante e dei de cara com a “Crítica da Razão Pura” de Kant. Me deu uma vontade incontrolável de ler. Felizmente, ao lado estava a coleção do “Samurai X”, meu conforto e abrigo nas horas em que a tentação é forte.
Letra Morta
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DaniCast
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9.3.04
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Então é dia 9 de fevereiro de 2004 e Monsieur Honoré de Balzac apareceu em meu sonho lembrando que, em breve, farei parte do seleto grupo das trintonas que não dispensam cremes anti-rugas, loções milagrosas para manter a firmeza do corpinho e uma taça de bom vinho.
Antes de firmar o tal compromisso irrevogável com o Balzac, tenho ainda um ano para olhar-me no espelho e dizer: ainda estou na casa dos 20! Um ano também para adiar qualquer possível crise existencial, por mais tola que seja. E responder: "não, ainda não ganhei meu primeiro milhão de reais" (quem sabe eu ganhe na mega-sena antes disso).
Será um longo ano em que vou maturar idéias e planos. Pensarei seriamente em sair de casa e ter um aquário. Talvez eu acabe de escrever meu livro. Pode ser que eu me matricule numa academia de ginástica para adentrar o rol das trintonas com corpinho de vinte. Existe também a possibilidade, ainda que remota, de me aventurar no que se chama, em jargão jurídico, "união estável", com a condição de ter cachorrinhos de estimação. Vou decidir se terei filhos ou não. Vou plantar uma árvore. Lerei A Montanha Mágica de Thomas Mann, porque Ulysses vou ler aos quarenta. Talvez eu leia Dublinenses ou Retrato do Artista quando Jovem como aquecimento.
Vou aprender a dançar tango. Dedicarei mais tempo à cozinha de invenções suzihonguianas. Primeiro item do menu: espaguete ao molho "curry" com iscas de filé. Beberei menos, mas vou me embriagar mesmo assim (não me perguntem como, eu não conto, é segredo). Quero começar a lutar box - para tanto vou comprar um saco de pancadas e nele colar a fotografia dos meus desafetos.
Ouvirei mais música, mais conversas ao pé do ouvido, mais risadas de minha sobrinha, mais histórias de meus amigos, mais piadas de japonês e mais silêncios de fim de tarde. Tomarei mais yakult (viu Mlle. Helô? Certo, Monsieur Matusca?) e comerei mais barrinhas de cereais e menos caixas de bis. Talvez não coma mais chocolates. Tentarei dormir menos, também.
Talvez opere minha miopia numa das inúmeras tentativas minhas de enxergar o mundo de uma forma DIFERENTE. Cantarei mais no chuveiro, fumarei menos no trabalho. Será um ano em que perceberei mais ainda a existência dos meus braços e ombros, da coluna e das costas, dos pés e tudo o mais que tanto reclamam minha atenção e doem em dias frios. Mas fica aqui registrada uma meta: irei vencer, a qualquer custo, todas as crises de depressão e mania que ameaçarem estragar um dia sequer dos meus vinte e nove anos.
Tudo vai ser diferente
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DaniCast
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9.3.04
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Dia Internacional da Soninha
Betty Pimentinha virou Pat em novas dublagens. Preferiria Patty, que é hambúrguer. Parei de tentar compreender o mundo no dia em que caiu a obturação de meu siso enquanto o escovava.
Hoje é dia, e sempre que é dia de alguma coisa, o melhor é não falar sobre isso. Alguém falará por você, e se ninguém falar, talvez o melhor seja ficar quieto.
Uma das razões por que entrei pra Física foi ter lido uma agenda do colégio e descoberto que não havia dia do físico. Saí quando vi um projeto de lei para instituí-lo. Tem gente que não se dá o respeito.
dies iræ
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Ratapulgo
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9.3.04
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Ela me ligou de Montevidéu para dizer que havia se casado. Eu estava no último parágrafo e de repente não sabia mais o que fazer. Eu não conheço Montevidéu. Ou por que tudo acabou dando lá. Puxei meus óculos do rosto e mergulhei num silêncio pesado e sufocante. Pendurada na linha, ela ficou esperando uma palavra que fosse. Não me lembrou de que já estava morta desde o primeiro capítulo.
Prosa Caotica
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Ratapulgo
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9.3.04
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Corujice
Arthur, filho de minha amiga-irmã Adryana e meu afilhado:
- Mãe, tá vendo Guga jogar "xapato", tá? - apontando pra tv.
- Hã?
- Guga jogar "xapato". Tá vendo, tá?
- Aaah, tênis. Tô vendo sim, filho.
- Tênis não, "xapato".
Dois anos e meio de autêntica fofura, inteligência, lindeza e galhardia.
Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!
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Ratapulgo
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9.3.04
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Criancinhas amestradas.
Que desarme a lona e atire a primeira pedra o pai ou a mãe que nunca fez este número, sucesso garantido no Grand Circo Familiar:
Senhoras e senhores, respeitável público, apresento-lhes a incrível Criancinha Amestrada!
O espetáculo começa cedo, logo que o pequeno astro aprende o primeiro truque. Pode ser dar um sorriso quando a mamãe pede, abanar as mãozinhas, repetir um barulhinho que o papai faz com a boca, bater palminhas para a vovó. Se sabe responder a algum comando, então está no ponto para ir para o picadeiro! E assim que o público chega, eis os amestradores.... oops, os pais orgulhosos a exibir o sensacional número para as visitas.
À medida em que o tempo passa, os truquezinhos vão-se sofisticando: sabe cantar o refrão do útimo sucesso das rádios, aprendeu o primeiro passinho no ballet, decorou o bordão da novela, consegue imitar um animal. Cada crianca tem seus truques e todas elas, pais ansiosos para exibi-los (afinal de contas é quase irresistível mostrar ao mundo o quanto somos fodas por gerar uma criatura tão talentosa!).
Fulaninha, conta até dez em inglês pra titia ver, conta!
Bem cedo também as crianças aprendem o doce sabor dos aplausos. E, junto com os truques ensinados, aprendem como é fácil agradar uma platéia quando se faz, na hora solicitada, exatamente aquilo que os outros esperam que se faça.
Difícil é a gente desaprender isso quando cresce.
: : Ju (criança muito bem amestrada e agora crescida, e esta incurável mania de ver uma ponta de tristeza atrás do sorriso dos palhaços): :
:: Mothern ::
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Ratapulgo
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9.3.04
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MANUAL DO PENINHA
Putz, alguém aí leu "O Globo há 50 anos" de ontem? A matéria que eles destacaram é tão surreal que parece piada. Uma obra-prima do jornalismo. Reproduzo-a abaixo para quem não teve a oportunidade de ler. É meio grande mas vale a pena.
****
"FUTEBOL DE LUTO COM A MORTE DE DJALMA (O Globo, em 03/03/1954)
Djalma Bezerra dos Santos, o veterano ás do futebol, que defendera, por tanto tempo, as cores do Vasco da Gama e, por último, integrava a equipe do Bangu, foi vítima de trágico e fatal acidente, resultado de um ato de imprudência. Foi uma das ocorrências mais dolorosas do carnaval.
Na tarde de segunda-feira, o player participara do baile dos casados na sede da Associação dos Empregados no Comércio. Estava na companhia de Ivone Santos e de sua irmã, Dulce. Em meio às danças, alguém pisara no pé de Dulce. Interpretando o gesto como proposital, protestou. Houve discussão que degenerou em verdadeiro conflito. O footballer teve que enfrentar, numa luta desigual, cerca de 20 indivíduos, todos eles amigos do que pisara a pessoa que estava em sua companhia. Na luta Djalma sofrera um ferimento extenso no frontal, do lado direito, recebendo, no HPS, três pontos.
Socorrido, Djalma voltou ao Centro para participar dos folguedos de rua. Estava muito animado, inteiramente entregue à folia. Cerca das 22h, a sra. Dulce, a do pé pisado, sugeriu a Djalma que fossem à sua residência. Deveria trocar de roupa para um baile a que pretendia ir. No entanto, quando lá chegaram, a fechadura não funcionava. Por sugestão de uma vizinha, Djalma tentou entrar no apartamento da amiga, no segundo andar, descendo agarrado a uma corda de persiana de um apartamento do terceiro andar. No entanto, o cordel não suportou o peso do seu corpo, partiu-se, e o player foi cair, de pé, na marquise. Mas, grande azar, Djalma se desequilibrou e caiu na rua, batendo com a cabeça no meio-fio. Foi levado para o hospital, mas não resistiu, morrendo ontem às 13h30m."
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Não é sensacional? O que os jornais de hoje em dia ganharam em "informação" perderam em diversão.
Repolhópolis
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Ratapulgo
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Viva a mulher!
Hoje é dia internacional da mulher. Enternecido pela data e tudo que ela significa, vou, eu também, prestar minha singela homenagem. Para tanto, nada melhor do que reeditar este post, que tem tudo a ver com a condição da mulher atual e que tem um significado muito profundo mesmo, quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Fábulas Consagradas - O sapo Egberto
Era uma vez, uma lagoa onde funcionava a Orquestra Experimental de Repertório Minimalista (OERM), regida pelo popular Maestro Budweiser. Uma meia hora depois do por-do-sol os músicos apareciam de seus cafofos e começava o som que fazia o maior sucesso entre as libélulas, os guaxinims e as mulas-sem-cabeça "cabeça", que não curtiam o som popular das cigarras ou regionalista demais dos grilos. Estes, ficavam nos entornos da lagoa dizendo:
- Só.
- Sublime.
- Brilhante.
- Só.
Acontece que o sapo Egberto, um mezzo-barítono mezzo-calabresa, passeava um dia pela clareira do bode estressado atrás de umas mosquinhas muito gostosinhas e crocantes que por ali havia, quando de repente não mais que de repente ouviu uma dupla de grilos mandando ver num "Melô do cri cri ci". Ele ficou ali ouvindo e acabou curtindo o som.
Naquela noite, tentou dar uma empostação mais grílica ao seu som, para escândalo do resto da orquestra. O Maestro, vermelho de raiva, interrompeu o ensaio e o mandou embora. Triste, ele se retirou e caminhou dezoito dias até achar outra lagoa, onde uma pequena banda fazia um som completamente grilo, coisa de lôco! Ele foi todo feliz e saltitante para a lagoa, dando uns cricricris bem agudos, mas antes de conseguir mergulhar na água, uma cobra apareceu e o comeu.
Moral da história: Não tente ser o que você não é, porque poderá acabar se tornando aquilo que não seria.
É por aqui que vai pra lá?
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Ratapulgo
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8.3.04
Esses filmes para homens do sexo masculino que a Globo passa de domingo à noite, fala sério, são uma bosta.
¡Drops da Fal!
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DaniCast
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A Dama de vermelho
Quando entrei no quarto da Clínica Psiquiátrica Pinel, tomei um susto. O Getúlio, mesmo sob efeito de sedativos, parecia transtornado. Olhou para mim desconfiado com um sorriso que mais parecia um espasmo. O Getúlio trabalhava no meu táxi à noite. Das 6 da tarde às 6 da manhã, direto, sem falhar um dia sequer. Até que fez aquela maldita corrida: Era madrugada, ele não sabe precisar a hora. Disse que estava meio cochilando, com a porta do táxi aberta. Quando deu por si ela já estava sentada no banco de trás. Usava um vestido longo, vermelho, de um tecido brilhante, como se viesse de um baile. Trazia um crisântemo branco na mão. Seu rosto era alvo, emoldurado pelo cabelo moreno escorrido. A maquiagem pesada escondia os olhos negros com olheiras. Ela disse onde queria ir: Oscar Pereira. Só isso, mais nada. Tinha uma voz grave, estranha, com um tipo de reverber, quase masculina.
O Getúlio disse que ligou o taxímetro e arrancou João Pessoa abaixo. Logo, notou que a mulher soluçava. Era um choro quieto, contido. Um grunhido quase inaudível, enquanto cheirava a flor. Aliás, o cheiro também era estranho: um cheiro forte, como se o táxi estivesse cheio de crisântemos. Já na altura da Azenha, como o choro não parava, o Gegê resolveu desligar o rádio onde Bruno e Marrone lamentavam uma ida paixão. Não adiantou. Pelo retrovisor via as lágrimas negras de rímel escorrendo pela face pálida da mulher.
Quando subiam a Av. Oscar Pereira, entre os cemitérios, notou que o choro cessou. Resolveu, então, olhar para trás e conversar com a mulher. Mas já não havia ninguém no táxi além dele e de um crisântemo branco sobre o assento traseiro.
Pobre Gegê, a medicação continua pesada. Sem previsão de alta.
Taxitramas
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DaniCast
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Ele me liga e sua voz não sai... sei quem é pela respiração. Depois de uma longa pausa, do outro lado da linha, um 'Oi' desanimado. O lugar é fechado demais, escuro demais, parece chover forte lá fora. Estou com as pernas bambas e preciso de um lugar para sentar. Estou num vazio completo e a única opção é o chão... mas tudo está tão úmido e empoeirado que resolvo ficar de pé. Ele me faz esperar muito e eu não consigo dizer uma palavra sequer. Depois de algum tempo ele fala, com uma voz que não é a dele, rouca e grave, pontuando depois de cada palavra; que quer muito me dizer que eu "nunca julgue, não compare ou pergunte por quê".
Acontecível
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DaniCast
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Ah, as delícias de morar sozinha.
Eu já morei em diversas e curiosas circunstâncias, já morei em repúblicas, com quatro, seis e até dez pessoas, já morei em família (éramos seis, sem trocadilhos), já morei com marido - sim, tenho o interessante estado civil de divorciada e esta figura quase literária chamada "ex-marido", um estado civil, cá entre nós, muito mais interessante do que dizer "sou solteira". Não sei por que a sociedade torce o nariz se uma mulher é solteira, fica parecendo coisa de encalhada, "ninguém quis essa aí, deve ser uma megera" - mas enfim, eu nunca, nunca, tinha morado completamente e totalmente sozinha. Como eu já mencionei assim, ligeiramente, a minha situação financeira está grave e não quer sarar, está pior que coração partido pós-romance-russo, mas ainda assim...
Ah, as delícias de morar sozinha.
Acabei agora pouco de lavar a louça, uma tarefa simples e trivial. Só que quando se vive sozinho, só você suja louça e você só lava a sua louça. É fabulosamente egocêntrico, quase um nirvana. E não existem aquelas cansativas discussões que me acompanharam a vida toda, "de quem é a vez de lavar a louça?", "não, não sou eu hoje", "oh não! Não acredito! Deixaram a frigideira engordurada na minha vez??? Eu não vou lavar isso!", "mas o que é que você faz? Toma café o dia todo com uma xícara diferente de cada vez???"
É claro que eu recomendo veementemente a quem nunca morou em república que viva a experiência ao menos uma vez. Especialmente quem não tem irmãos. É uma experiência edificante, constrói caráter. Ensina a ter tolerância com o próximo, mesmo que o mais próximo seja um estudante crônico de Filosofia, - "poxa, tenho dez anos antes de ser jubilado pra terminar o curso" - tenha comido inteira a torta de maçã que a sua mãe mandou pra você, - "estava muito boa, e ela ainda mandou com um bilhetinho super-legal, o bilhete tá colado na porta da geladeira" - e tenha hábitos que te enlouquecem, como por exemplo, escutar os seus CDs e colocá-los todos trocados nas caixas, sumir com o livro que você estava lendo, comer todos os biscoitos de chocolate que você comprou e que estavam no armário, usar todo o seu shampoo, lavar roupa sem ler as instruções da máquina - ou do sabão em pó, ou ainda, sem verificar que calcinhas vermelhas soltam tinta sim e deixam todas as camisetas de algodão rosadas. "Acidentes acontecem, fazer o quê?"
Se você tiver condições e coragem, more sozinho. Você vai poder ficar na internet batendo papo no messenger sem culpa, assistir somente o que quer na TV - sem precisar ficar repetindo pela milésima vez que não quer ver anime, não, pelo amor de deus - comer o que quiser a hora que quiser - sem precisar lembrar a ninguém, também pela milionésima vez, que não suporta nem o cheiro de calabresa com cebola, por favor! - dormir na sala, usar o telefone quando quiser e com quem quiser - "não é aquele seu amigo de novo, é? Você vai demorar aí?" - e outras pequenas liberdades que deveriam constar na constituição brasileira como direitos inalienáveis do cidadão.
O ser humano não foi feito para viver em sociedade não, isso é uma falácia, acredite em mim.
MadTeaParty
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Jan
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8.3.04
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Mensagem da Diretoria
Olá. Eu sou a DaniCast, mas podem me chamar de Dani, sou uma mulherzinha insuportável e a partir de hoje vocês todos estão ferrados porque eu também leio blogs, seleciono os escolhidos e posto aqui. Favor enviar mimos e tentativas de suborno lá em casa.
Reclamações sobre fisiologismo não serão aceitas.
Have a nice day.
Voltamos agora à programação normal.
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DaniCast
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7.3.04
A garota das coisas
Meus pais discutem na sala, e eu vou para o meu quarto. A garota do quarto. Por falta de pessoas, essas paredes me amam. E eu retribuo, é claro, como não? Passo os dias fazendo companhia, carinho, dançando e cantando pra elas. Assinalo os filmes que quero ver no guia da Tv e assistimos todos juntos, como uma família feliz. Eu, as paredes, as portas, o travesseiro, o edredon, as almofadas, a bagunça. Somos perfeitos. Ninguém briga, ninguém discute, ninguém faz cara feia e se eu quiser é só pegar, abraçar, beijar, tá logo ali, pra mim, e todo o resto já me contêm, inteira. Ninguém pede sexo, satisfação. Ninguém me destrói com meia dúzia de palavras, ninguém fala. Ninguém vai embora, ninguém morre, só eu.
Fabulosa e Inútil
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DaniCast
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7.3.04
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Fala que eu te escuto
Na fila do banco, um cara logo à minha frente dispôs de uma hora e meia para discorrer detalhadamente sobre todos os aspectos da miséria humana - num tom DATENAL, ou seja, alto e bem amparado por gestos largos e truculentos. Sorte minha que não fui eu, pelo menos não diretamente, quem ele alugou como ouvinte. Mas, na prática, umas cinquenta pessoas ouviram atentamente ao que o cara dizia. Senti pelos olhares e expressões que alguns se convenceram de alguma verdade escarrada pelo cidadão, e pensei comigo se o que basta pra se convencer alguém de qualquer coisa é só um pouco de fôlego.
Tombadilho
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DaniCast
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7.3.04
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Eu presto atenção no que eles dizem...
Mas eles não dizem nada.
Palavras sem sentido. Silêncios vazios e avassaladores. Um medo quase palpável.
Medo.
Vergonha do medo. Tristeza pelo medo. Angústia no medo.
Medo que corrói ideais, sonhos e objetivos.
Medo que destrói uma base construída de entusiasmo, alegria e coragem.
Vontade de desistir. De entregar os pontos. De jogar tudo prô alto e, ir atrás de meus sonhos, por mais que eles representem riscos que jamais me atrevi a correr.
Mas esse medo, que persegue e maltrata, impede que atitudes - que nos desviem um milímetro sequer do rumo que tomaram nossas vidinhas confortáveis - sejam concretizadas.
A vontade de mudar existe e sempre existirá.
Mas, o medo e essa covardia, que nos é mais humana que a própria vida, nos faz mudar cada vez menos.
Ele está ali, parado a porta; e aqui também, sentado a meu lado, me observando atentamente.
Ele está lá fora e, ao mesmo tempo, dentro de cada um de nós.
Falemos baixo, por favor. Talvez ele não perceba o que estou planejando...
Se necessário, peço que, por gentileza, o distraiam.
Vou ali fazer minha vida valer a pena e já volto.
Requintes de Crueldade
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DaniCast
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Tarsila... do Amaral
É a mais nova moradora da República "Ô LALA - FALTOU LUZ MAS ERA DIA"
Veio da Pérsia diretamente para Curitiba. É albina, tem o focinho achatado e sustenta uma estranha atração por toalhas e manchas no chão.
Por enquanto só mia e tem medo dos nossos pés.
Descendente de imigrantes alemães, é filha de Marcela do Amaral e neta de Michelle Fuchs.
Amada por todos que a vêem, tem um futuro não muito promissor. Será uma fumante inveterada (passiva ou ativamente falando), esnobe e mimada.
Com uma gata dessas, quem precisa de homens?
Admirável Blog Novo
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DaniCast
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7.3.04
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Me passaram a mão na bunda e eu não comi ninguém
Então a gente estava lá no bar e um veinho vinha passando. Ele disse pra Tati:
- Vou até ali mas já volto.
Eu ouvi aquilo e falei pra Tati:
- Nossa, fala a verdade, você tá super ansiosa pela volta dele.
E logo depois ele voltou mesmo, ficou encarando a gente e eu comecei a rir, mas depois que ele passou a Tati disse:
- Não ri não, que o véio passou a mão na minha bunda e isso não tem graça nenhuma.
hahahahah aí que eu ri mesmo. Que veinho sem vergonha. E ela:
- Coitado, nem fiquei com raiva. Tô com pena dele. Deve fazer uns 50 anos que ele não passa a mão em bunda nenhuma.
hahaahahaha Pior foi que depois ele voltou, parou bem na minha frente, encostou em mim e eu tive que virar de lado, e ele disse:
- Vocês estão bravas?
Pô, sei lá, eu ria e a Tati tentava permanecer impassível, nem riu nem disse nada.
E ele foi embora, finalmente.
Sampa demais na Ilha de Siris
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Ratapulgo
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Frase do dia
Eu mereço.
Fui fazer as unhas (uma dama sempre esta de unhas feitas), aproveitei para eliminar alguns pelos da panturrilha, e minha manicure falou:
manicure: Tati vc precisa parar de sentar com as pernas cruzadas.
Tati: Como assim vc diz? Eu sou uma dama, vivo de saias e damas jamais sentantam-se de pernas abertas.
manicure: Ou issso ou vc nunca vai consertar esses encravados na panturrilha
Tati: Bem se é assim, de hoje em diante eu estarei sempre de pernas e braços abertos e, se me questionarem por isso, eu justifico dizendo que minha manicure mandou.
Poucos e bons leitores: Caso me vejam de pernas abertas, por favor entendam, é quase uma recomendação médica.
veleidade - UOL Blog
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Ratapulgo
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7.3.04
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e com a minha mania de guardar TUDO, mas TUDO MESMO, de magoas a comprovantes do cartao de credito, joguei fora hoje 17 cartoes. Tipo, uns 5 de plano de saude, 4 ClubeFolha, 4 carteirinhas de estudante, Sindpd, Sesc, etc.
pode parecer bagunca, mas sou tao organizada que me perco na minha propria organizacao.
No fundo eu sou uma aberracao.
A day in a life
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Ratapulgo
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7.3.04
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Passei no supermercado e já tem ovo de Páscoa. De novo, essa merda? Não podiam ser tipo bienais ou trienais, esses troços? Uma variadinha no eterno calendário? Um Natal caindo em junho, Carnaval em dezembro, panetone em Finados – que por sua vez teria sua data sorteada na tômbola? Ou na tumba? Falar nisso, vou tomar banho. Outra merda que não pressupõe solução, você tem que repetir todo santo dia. Penélopes, todos nós. Tecendo essas porras todas.
¢AtaRrO vE®De
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Ratapulgo
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Livros imaginários, livros quase imaginários e livros que deveriam existir
No capítulo inicial de "Se um Viajante Numa Noite de Inverno", o personagem-narrador de Italo Calvino entra em uma livraria e tergiversa, dentre outras coisas, a respeito de:
- Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido;
- Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente;
- Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade Do Preço;
- Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada;
- Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim.
Há um espectro imenso de especulações que poderiam ser feitas em torno destas e de tantas outras classificações feitas por Calvino, mas neste texto discorrerei a respeito de uma espécie não catalogada pelo escritor italiano: a dos Livros Cujos Títulos Soam Tão Improváveis Que Você Mal Acreditaria Que Realmente Existem Caso Não Tivesse Se Deparado Com Eles.
O primeiro exemplo que me vem à mente é de um volume de contos espírita, que encontrei há alguns anos num desses balcões de saldo de balanço da Bienal do Livro: "A Vida Como Ela Continua Sendo Depois da Morte", que teria sido psicografado do espírito de Nélson Rodrigues em pessoa (ou alma, sei lá eu). Se eu não tivesse segurado esse livro em minhas próprias mãos, provavelmente acharia que se tratava de uma piada infame.
Outro achado foi ter encontrado o (...)
continua em Pensar Enlouquece. Pense Nisto.
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Ratapulgo
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5.3.04
E antes que suas palavras voltassem a significar alguma coisa, você sentada em frente a mim como a exegese dos meus sonhos, perdi-me em seus olhos ao cair no vórtice negro e letal de suas retinas. Então não existíamos mais, minha mão esquerda tentava tocar seus pensamentos, havia lírios, incenso e ímpeto derramados por figuras celestes. E nos beijamos.
Pequenos Dias Longos
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DaniCast
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Sala de espera
Você também já ficou assim? Se sentindo na sala de espera da vida?
A vida ainda por começar.
Os sonhos para realizar.
Para sonhar.
Vai vir alguém lá de dentro, da vida, te puxar a mão e te trazer pra dentro dela. "Agora é a sua vez". E vai se abrir uma porta e você vai ver uma luz, e as cores e você vai dizer pra si mesmo "aaah, então isso é que é viver".
Mas calma. Você só estava de olhos fechados. Agora você abriu os olhos. E ainda está lá, sentado no escuro, na sala de espera da vida.
Alice Chebel
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DaniCast
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Como se alguém amasse no escuro
Há uma coisa muito importante na vida. A imaginação. A imagem que se tem das coisas que fazem parte de nós. Há uma coisa ainda mais estranha: as pessoas. As pessoas que não conhecemos por imagem. Pessoas longínquas que nos chegam por sentimentos. Emoções. Pessoas que põem as palavras à frente de tudo. Dizem palavras para descobrirem o caminho que podem percorrer. Palavras como cães para prever o perigo da revelação. Porque há o medo de alguém se perder do outro numa questão de falsidade. Mentir por palavras é tão natural como errar uma palavra. Mentir é um esforço de aperfeiçoar a própria vida. A mentira é um erro construtivo. A imagem que se tem de alguém é uma complicação emocional. Falo de imagem verbal definida por palavras experimentais dentro dum corpo invisível. Um corpo de palavras num excesso de ausência. As palavras são estruturas de relações emocionais. Alguém longe de nós não é som nem imagem, mas apenas uma ideia de ser protegida pelas suas palavras. Posso adiantar esta imagem: como se alguém amasse no escuro e fosse tão sincero no amor que não sente.
Escrita Ibérica
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DaniCast
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O verdadeiro inferno é viver no paraíso e, por falta de meios, não poder desfrutar de suas benesses infinitas. Como um Borges, cego na biblioteca, assim era o martírio de Eu.
Falam dos jejuadores que, depois de um certo período de privação, deixam de sentir fome. Não funcionava assim com ele: Eu nunca deixava de sentir desejo.
segundo Blogauti
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DaniCast
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5.3.04
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Tanque ao Sol
Havia ali um ouvido, moldado na areia. Dele pulularam sepulturas de coisas que ainda não foram completamente obliteradas, e assim se fizeram caminhos que davam para o mar e de costas para mim. Supus a pele opaca de tanta surra, mas era descuido mesmo, puro. As mãos só viam o que queriam, os sentidos faziam mais e mais linhas por ali, embora se perdesse nos destinos. Sem crença em sorte, mas em escolha. Me escolhe? Me escolhe de novo, por favor não, por amor? Ontem eu pensei nesse favor de amar e descobri que a paga veio em triplo e meu saldo estava negativo e que não adiantava curvar-se em abraçar joelhos e chorar que toda lágrima não havia mar para encher copo. Fui lavar roupa, para gastar o corpo e a idéia.
Salomé Descalça
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DaniCast
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5.3.04
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"A moça de Londres"
Sei que ela só andava de preto: longas e pesadas saias com blusas que faziam com que seus membros brancos sobressaíssem mais. Tinha o cabelo liso e comprido, da cor de mel escuro, que emoldurava um rosto oval e pálido. Ela passava lápis nos olhos e ficava com um ar misterioso, embora permanentemente mau-humorado. Os lábios eram cheios e, talvez, juntamente com o formato oval do rosto, eram os detalhes físicos que eu mais gosto nela. Ela morava em alguma cidadezinha do interior da Inglaterra, com uma tia. Seu mau-humor aumentava quando era obrigada a vir de Londres - onde estudava música em um Conservatório - para passar alguns dias. Me lembro da atmosfera soturna e antiquada da casa, os móveis velhíssimos e escuros, com ar de terem mais de duzentos anos. Havia um imenso relógio - acho que chamaríamos de "carrilhão" - para o qual havia uma chavinha minúscula, que servia para dar corda nele. Sei que ela planejou o assassinato da tia por questões de ciúmes (mais do que por ganância). Uma briga envolvendo um irmão ou um primo. Mas não sei se ela conseguiu matar a tia. Será que ela se chamava "Nancy"?
Opiário
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DaniCast
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5.3.04
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Karl Marx III
Um amigo meu começou a ler a biografia de Karl Marx e está adorando. Ele mata aulas de biologia e inglês para ler o livro na biblioteca. Acho isso válido. Mas lembrem-se dos livros de história do ensino médio. Sempre que você encontrar a passagem: "Fulaninho foi para Tal Lugar, foi então que conheceu as idéias de Marx.", se segue uma revolução que termina morte de muitas pessoas, socialismo e ditadura com repressão.
Se isso acontecer no Brasil daqui a uns anos, saibam que eu tentei evitar.
Polegar Opositor
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DaniCast
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5.3.04
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À Uma Amiga...
Por muitas vezes, fazemos da vida um jogo, onde o vencedor é sempre aquele que mantém a cabeça erguida e que não volta atrás nas suas decisões. Mas esse vencedor é também aquele que volta pra casa sozinho e aí o orgulho desaparece e baixa uma tristeza imensa.
Não quero dizer com isso que sempre devemos abrir mão das nossas convicções, porém em determinadas situações, vale a pena baixar as armas e hastear a bandeira branca. Alguns amores merecem isso.
Então, se você tem alguém com que queira falar desesperadamente, ligue, procure, mas faça alguma coisa.
Antes que seja tarde demais.
Ponto Gemini
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DaniCast
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5.3.04
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"Quando a Nasa iniciou o lançamento de astronautas, descobriram que as canetas não funcionariam com gravidade zero. Para resolver este enorme problema, contrataram a Andersen Consulting, hoje Accenture. Empregaram uma década e 12 milhões de dólares. Conseguiram desenvolver uma caneta que escrevesse com gravidade zero, de ponta cabeça, debaixo d'água, em praticamente qualquer superfície incluindo cristal e em variações de temperatura desde abaixo de zero até mais de 300 graus Celsius.
Os russos usaram um lápis....."
amarar
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Jan
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5.3.04
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Provérbios?
Toda vez que eu vou consultar o Dicionário Aurélio na Internet eu me deparo com uma frase do Autor do Dicionário que me incomoda e me causa estranheza, das duas uma, ou a frase não tem nenhum sentido ou sou eu que não consigo entendê-la. Bem, a frase é a seguinte:
"Definir uma palavra é capturar uma borboleta no ar"
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Isso tem algum sentido? Que cátzo tem a ver uma palavra com uma borboleta?. Até eu posso criar dúzias de frases sem sentido, como por exemplo:
"Viver sem Medo é como acariciar um camelo de polainas coloridas"
ou
"O maior espetáculo da vida é ver um Russo banguelo tentando abrir uma ostra"
Díficil mesmo é criar frases que tenham sentido e que posteriormente sejam consideradas provérbios, ou ditos populares caso a autoria se perca através do tempo. As pessoas deveriam pensar antes de tentar criar algum provérbio, na grande maioria das vezes o resultado é um monte de palavras desconexas mas que tem o aval de outras pessoas que nada entenderam mas que não discordam para não se passarem por burras.
Na verdade eu nem sei o motivo de estar escrevendo isso, mas eu tinha que dizer que aquela frase lá em cima realmente me incomoda.
Ninguém se Basta
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DaniCast
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5.3.04
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Quando eu era criança acreditava que os peixes vinham do céu. Eles vêm. Mas eu acreditava que eles caíam, assim fisicamente, pela ação da gravidade. Daí que em dias de chuva eu juntava minhas mãos em concha para tentar pegar algum deles.
Hoje pela manhã, enquanto chovia, fui até a janela e tentei fazer isso mais uma vez, só que não reconheci minhas mãos.
O conhecimento e a cultura turvam determinados lirismos. A criança morreu. Mas era uma criança tão interessante e eu gostava tanto dela.
Henry Wotton
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5.3.04
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Outro dia, uma aluna minha da primeira série começou a falar trocando os "esses" pelo "xis". Eu me lembrei imediatamente de boa parte dos internautas brasileiros, que escrevem "axxim". Credo. Será esse o nível da nossa Internet? O de crianças de primeira série?
Estação Lugar Nenhum
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DaniCast
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5.3.04
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Calmaria
Marina partiu de casa na madrugada que mal luzia à procura de Dorival, que ela perdera há anos.
Ruas conhecidas, bairros inusitados; prédios, casas, quiosques. Meses. Anos.
Dorival, percebendo que Marina se desmanchara nos dias a fio, saiu à procura da memória de seu rosto e perfume.
Hospitais, asilos, delegacias, meses, anos.
Dorival sem força e o banco da praça num breve intervalo quase silencioso.
Marina sem esperança e o banco da praça num intervalo silencioso quase breve.
Só aquele momento de sobremesa vazia.
Só aquela luz intensa do meio-dia cegando as sombras.
Dorival olha Marina, que lhe retribui o olhar de farta estranheza.
A praça está florida nessa época do ano, mas as estações não são eternas, e o dia continua sua caminhada fantasma.
Marina e Dorival sabem desse tempo hirto e continuam, assombrados, a busca pelo outro.
As flores não se movem, não há vento.
Entre Outras Mil
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DaniCast
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5.3.04
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Vou dar um pulo no Rio de Janeiro neste fim de semana, para tratar de negócios importantíssimos.
Estarei hospedado no Copacabana Palace, provavelmente na beira da piscina, tomando água de côco e com protetor solar no nariz e nas maçãs do rosto.
Para falar comigo, liguem para minha secretária.
Porque se é pra ser um pobre miserável, que seja com classe.
Crediário
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DaniCast
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5.3.04
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No ponto de ônibus
No ponto de ônibus todos devem olhar para o mesmo lado. Quem olhar para o lado oposto não deve olhar nos olhos das pessoas. Evite contato visual, essa é a regra. Mas hoje um cara quis ser diferente.
Ele ficava exatamente na linha visual de todos, e olhava nos olhos de todos. Dava pra perceber o quão inquietas as pessoas ficavam. Alguns se mexiam, mudavam de posição, fuçavam na carteira pra desviar o olhar, mas o homem não arredava pé. Continuava olhando na direção errada. Somente ele.
Esse ato poderia ser caracterizado como resistência, ir contra a maré, contracultura. Enquanto isso, o tempo médio de espera por um ônibus se multiplicava por três. Alguns se perguntavam qual era o problema desse homem. Até que uns ali, outros aqui, começaram a conversar. Logo estavam todos conversando. Unidos. Um assunto em comum - fora a espera pelo ônibus.
Se o homem fosse embora as pessoas continuariam conversando? Se ele virasse e esperasse o ônibus os outros conversariam com ele? Se ele continuasse olhando, o que as pessoas fariam? Não sei dizer, meu ônibus chegou e fui embora.
ChickenDog
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DaniCast
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Ira divina
Estava na rua ontem, por volta de quatro da tarde. Em cinco minutos o céu ficou negro e um dilúvio desabou, alagando a cidade. O vento derrubou árvores e do céu caíram pedras de gelo do tamanho do dedão do meu pé.
Isso não é normal. Deus não gosta de São Paulo.
Canjicas
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DaniCast
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5.3.04
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O mentiroso deveras
O mentiroso deveras tinha um poder de persuasão perfeito. Conseguia ludibriar até o padre cético e a tia que relinchava. Construía mentiras complexas quase heterotéticas. Emendava mentiras em mentiras e verdades em mentiras em verdades. Fazia interlocutor lembrar mentiras antigas!
O mentiroso deveras estava começando a confundir seu passado desgraçado.
Esquecera a verdade, não lembrava se aquele atropelamento acontecera ou se apenas torcera o pé quando pequenino.
Ópio
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DaniCast
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5.3.04
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4.3.04
Preso, porém honrado
Um dos problemas básicos da sociedade é a idéia de que não fazer o mal seja equivalente a ser bonzinho. Não é vantagem nenhuma não ter sido preso. Aliás, não ter sido preso pode ser indício de mau-caratismo.
Prisão por desacato à autoridade. Quem nunca recebeu, bom sujeito não é. A mais fácil; e se houvesse um levantamento sobre o número de vozes de prisão por desacato por cada policial, verificar-se-ia que em mor parte dos casos se trata de abuso, encheção do polícia.
Prisão por estelionato. Então você nunca tentou vender o viaduto do chá nem a porta do céu... vai por mim: o sujeito que compra merece. O estelionatário é o quem abre os olhos do próximo para a maldade que permeia as relações humanas, deveria ser condecorado.
Indução de menores ao vício, receptação, perturbação da ordem e tantas outras formas de resistência civil, pacífica, que deveriam ser enxergadas sob diferente prisma.
dies iræ
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Ratapulgo
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4.3.04
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Eu coleciono santinhos. Estes que a pessoa faz o milheiro para agradecer a graça alcançada. É certo que não há quem não possua um retratinho de Santo Expedito na carteira, para aquelas causas urgentes e/ou impossíveis que acontecem na média umas 3 vezes por dia. Santo Expedito é pop. Um superstar dos problemas de difícil solução (como trânsito engarrafado que faz a gente se atrasar pra reunião importante, telefone que não toca etc), cuja invocação nunca é tardia. Na foto ele está pisando num corvo que grita cras (amanhã!), numa mão segura uma cruz onde está escrita a palavra hodie (hoje!) e na outra mão segura uma folha; ele está, literalmente, com as mãos e os pés ocupados. Santo Expedito está sempre atolado com nossos problemas, mas não deixa pra amanhã, ele tira da frente. Como diz Pedro Bial, ele é o nosso herói. Os santos foram pessoas incríveis, que em algum momento se destacaram na sociedade por refutar a sociedade e abraçar uma causa misteriosa e desconhecida, na qual eles botavam muita fé. E assim, de marginais e excluídos na sociedade, eles passaram a heróis fora dela. Como São Calisto, que foi escravo, errou, pecou, foi preso, solto, preso de novo, se regenerou e virou papa. Ou Maria Madalena, pecadora por devoção, mudou de idéia ao ser salva de um apedrejamento. Podia ser você. Ou, considerando-se minha vida sexual pregressa, eu. Eles são nós amanhã. Quando finalmente Deus nos der um sinal que comprove sua existência e justifique nosso abandono da sociedade. Ganhasse você as chagas de Cristo depois de uma temporada no meio de um mato sem cachorro e cheio de lobos, tal qual São Francisco, se convertia ou não se convertia? Eu, no ato. E olha que eu já pedi muito sinal pra Deus. Tipo: - Se ele ligar agora eu juro que rezo dois terços e dou comida aos pobres. Ok, a promessa é meio vaga: quantos pobres? O que você quer dizer com comida? Eu nunca especifico muito bem minhas promessas. Até porque meu coração é puro e sincero, e eu gostaria de alimentar muitos pobres. Mas se eu disser quantos, Deus pode achar pouco. Por outro lado se eu disser que vou alimentar muitos, estaria blefando, usando da minha sinceridade para alcançar meu objetivo; quem garante que eu vou ter tempo para alimentar tantos pobres? E se eu vou ter dinheiro pra fazer tanto sanduíche de pão com salsicha? E se Deus souber que quando eu disse “alimentar” eu pensei pão com salsicha e achar que eu sou munheca, uma vez que se o pedido se concretizar eu vou botar a mão numa grana preta, mesmo que a Sena acumulada saia pra mais de um apostador? Por isso eu deixo no ar. Talvez por isso eu nunca tenha recebido um sinal: eu não tenho sido clara o suficiente. É a única explicação, pois se até São Tomé, que ousou perguntar o porquê de acreditarmos no que nunca vimos, recebeu não um, mas vários sinais. Uma vez eu perguntei: -Deus, se eu não fui clara o suficiente, me dê um sinal. Neste exato momento a luz do banheiro queimou (muitas vezes somos surpreendidos pela fé nos mais improváveis cômodos de nossas residências). Mas eu não encarei isto como propriamente um sinal; ela já havia piscado em outra ocasião, quando eu disse ao espelho que se fosse preciso eu faria um pacto com o diabo para acabar com meus culotes e com a celulite.Acredito que tenha sido o vapor de água o causador do incidente. Enquanto esperamos um sinal que justifique abdicar de confortos como água encanada, luz elétrica e sauna a vapor seguida de exfoliação e massagem com óleos aromáticos no spa do Hotel Emiliano, os santos, estes desbravadores crédulos, vão fazendo a ponte entre Deus e a humanidade. Afinal de contas, graças ao sacrifício da fé eles conquistaram a amizade de Deus. E por terem desenvolvido um excelente trabalho junto ao público, receberam também sua admiração profissional. Eles ocupam a posição de intercessores junto ao senhor e seu filho. Funciona mais ou menos assim, há três guichês: uma para os pedidos que hão de se realizar com a graça de Deus nosso senhor, outro para os desejos a serem atendidos para a honra e a glória de Jesus, e aqueles confiados ao divino Espírito Santo. Os santos entram com o pedido em um destes guichês, e advogam em nosso favor caso o processo emperre. Quase como era o processo de visto para os Estados Unidos antigamente. Os santos são nossos despachantes espirituais. É por isso que eu sou fã e coleciono. Aliás, estou atrás de um São Cirilo. E quem estiver precisando de uma da raríssima Santa Filomena, que promove paz interior e sossega o coração atribulado, me avise. Eu tenho pra troca.
papagaiada
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Jan
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4.3.04
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- posso falar uma coisa? nمo é cantada nمo.
- claro.
- você parece a madonna.
- mas em que fase?
porque tudo na vida depende da fase da madonna.
e eu nunca, mas nunca imaginei, que alguém ia achar que eu pareço a madonna.
sinceramente.
Acredite... ou não
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Jan
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4.3.04
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Tem coisas que só acontecem comigo...
Na primeira vez que olhei pra cara de um dos meus instrutores da auto-escola eu vi que ele tinha pinta de... err ... "lover boy". Cada braço que é uma coxa minha, gel no cabelo, óculos Hunk, roupa colada, todo uniformizado de prostituto mesmo. Só que eu - Nani e Mel, agora vcs vão ficar orgulhosas de mim - controlei minha "Joselitisse" e não abri minha boca.
A primeira aula com ele foi bacana. Eu irônica, ele risonho. Ria que parecia relinchar a cada piada que eu fazia. Imaginei que talvéz não fosse gel no cabelo, talvéz fosse o cérebro em pasta incolor e inodora que sai pelos poros cada vez que ele faz força e se espreme para pensar. Como me irritam as pessoas que acham que o belo é essencialmente o que se pode ver...
Bom, sei que na primeira aula não aconteceu nenhum tipo de intimidade - aqui, leia-se intimidade como "ficar a vontade para se falar qualquer coisa", tarados. Minha pinta de rabugenta geralmente mantém as pessoas longe em primeira instância. Em primeira instância. Porque eu tenho um num-sei-quê que leva rapidamente as pessoas a agirem como se me conhecessem a milênios, e é aí que a encrenca sempre começa, porque eu abro as portas, nego entra e põe os pés no sofá, depois acha ruim quando dez anos depois eu reclamo - com essa sutileza de mamute que deus me deu. Enfim...
Hoje ele começou a me elogiar, disse que eu parecia muito mais nova do que realmente sou, cutucou meu piercing, e eu só olhando torto. Quem me conhece, mesmo que pouco, sabe que a tática do elogio para mim tem efeito contrário. Às mulheres comuns, os elogios, a mim, as criticas, por gentileza. Essa arapuca não funciona com a patinha aqui.
Numa certa altura a coisa ficou meio entediante, porque o serviço dele era basicamente me fazer desaprender a dirigir errado. Explico: sou daquelas que tem vicios de quem aprendeu a dirigir "de menor na vila", como não tirar o pé da embreagem, não ligar a seta para estacionar, apoiar o braço na janela e etc.
Foi aí que papo vai, papo vem, e eis que ele começa a me contar sobre o outro emprego dele. Como chamar essa profissão, éhh, "sexador explícito" num teatro da rua Aurora. Sim. O mancebo faz sexo para dezenas de onanistas e afins num teatro mofento da rua Aurora. Ah, e faz programas também, se as garotas (e demais) aí quiserem o telefone, eu providencio.
Corta para a cena nas imediações da marginal Pinheiros. Eu dirigindo pra onde eu queria, ele sentindo-se na mesa do bar, me falando todo o portifólio dele, quanto tempo ele leva e como ele faz para uma mulher (como diz ele) "chegar lá". Falou sobre a barba, sobre o cabelo e sobre o bigode. No começo eu pensei que ele estava tirando sarro da minha cara, mas as histórias tinham detalhes de romance policial.
Me veio o ímpeto de perguntar se eu tinha cara de recalcada sexual pra ele fazer tanta propaganda do quanto ele satisfaz as senhoras insatisfeitas. Mas não abri o bico para não virar personagem no entusiasmado monólogo dele.
Tempo vai, tempo vem... Pense numa mulher ouvindo isso uma hora e meia. E sem mais nem essa ele se vira e me diz, abre aspas, o cara que conquistar esse seu coraçãozinho é o cara de mais sorte no mundo, fecha aspas. Pronto. Deveria eu puxar o freio de mão, berrar "Me possuuuuuuua! Me possuuuuaaaaaa!" e depois deixar uma notinha de 50 na cueca boxer dele?
Essa dança do acasalamento torta já subestima demais minha inteligência, que já não é grande. Isso já é covardia.
Eu mereço.
Madame Limbo
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Jan
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4.3.04
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Kiai
- E aí, cara?
- Hã?
- Não está me reconhecendo? Sou eu, o deltóide...
- Ah...
- Como vai esta força?!
- Bem...
- O que tem feito?! Lembra das coxas? Cruzei com elas estes dias...
- Coxas?
- É, as coxas... Ei, ei, olha só quem está chegando... Lembra dela?!
- Quem?
- A panturilha! Olha ali...
(...)
Hoje, às seis e meia da matina e depois de dez anos, eu voltei a treinar Karatê. E digo: dói. Mesmo sem nenhum corpo-a-corpo, dói tudo. Ai. Mas foda-se o corpo: de novo, após muito tempo, a alma está nova em folha. Oss.
MegaZona
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Ratapulgo
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4.3.04
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Sorriso amarelo
Ladrão obriga vítima a sorrir durante assalto
Abraços e sorrisos... Parecia qualquer coisa menos um assalto em andamento. Quem presenciou a cena deve ter pensado que aqueles três homens que caminhavam juntos eram grandes amigos que há muito não se viam. No entanto, era a primeira vez que eles se encontravam.
Sebastião Cleverson da Silva (30) estava caminhando pelo bairro Quilombo, próximo ao restaurante Choppão, tranqüilamente. De repente, dois homens se aproximam, de braços abertos. Sebastião, até titubeou, imaginando de onde conhecia os desconhecidos. Ele não os conhecia e talvez até preferiria nem tê-los conhecido.
Os dois homens deram um longo abraço em Sebastião, que até estava constrangido com tamanha fraternidade. Durante o abraço, um dos homens disse que aquilo tratava-se de um assalto e mandou Sebastião ficar sorrindo. Dito e feito.
Sebastião riu de orelha a orelha. Em seguida, os dois ladrões obrigaram a vítima a caminhar com eles até um lugar sem muito movimento. Lá, limparam os bolsos de Sebastião, que ficou sem R$ 300 e sem o telefone celular.
Positivo e Operante
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Ratapulgo
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4.3.04
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3.3.04
Alto Teor de ironia
el justiceiro tcha-tcha-tcha
e sabado, quando botei minha linda saia pra dancar tcha-tcha-tcha me deparo com a bateria do Pavilhao 9 tocando na minha rua, porque eu moro na periferia sim, e dai?
e cito 4 pessoas que conheco e moram num raio de 200 metros da minha casa e estao presas. Finesse total.
e as 3 mocas de tamancas enormes e maquiagem exuberante nem chamaram um pouco de atencao, quase nada mesmo
Tomei absinto (vulgo alcool Zulu, que fiquei arrotando a noite inteira) e fui pro Rey Castro, bar cubano em frente ao Dublin, do lado do Corleonne da semana passada, e achei lindo os tiozinhos dancando, a musica maravilhosa, as camisetas verdes e quando estava pensando qual seria a sequencia, se primeiro a Erdinger, depois mojito, depois uma tequila e um dri martini, porque sou fina, ou o mojito antes, porque a minha intencao era sair de quatro e vomitando, e pensando em fazer um blog de criticas de lugares, minhas amigas quiseram ir embora, e ble! fui.
Fomos pro Armazem da Vila, pela terceira vez no ano, e me emburrei logo de cara. Lotado de nordicos pescadores de bacalhau, pelos menos minha vodka era tao enorme que quase gorfei.
E so' pra variar um pouco, quis bater em 3 caras, por muito pouco nao tirei minha sandalia e arremessei na cara deles, e e' certo mesmo, viu? Deus nao da' asas a cobra. Se eu fosse como minha amiga e tivesse 1,85m e ainda usasse salto, eu ia sair distribuindo sopapos em baixinhos folgados e qualquer outro da renca de babacas da Vila Olympia, aqueles que chegam: e ai gostosa? some daqui. Sua piranha vagabunda. Ue', ha 5 segundos eu nao era gostosa?
E nao vou mais pra Vila Olympia esse ano, nao mesmo, se nao for acompanhada de algum macho com 1.80 de altura e com sangue esquentando, porque quero ver sangue escorrendo na cara desses filhos da puta.
Com nervos um poucos mais frios, fui passear de Fusca ontem. Fui ate' a frutaria do Jaguare', ver pitboys e suas namoradas acefalas, fui e voltei no estilo, ouvindo coisas: o foda e' voce ouvir o ronco do motor e ja' estar na quarta marcha. Minha amiga sugere: imagine voce chegando na Berrini de Fusca. Show, oculos de sol, chapeu, boa' ou uma echarpe no pescoco, Penelope Chamosa, olha esse quebra vento que luxo!
e estou rindo ate agora, com o pai da minha amiga, que foi leva-la na escola, em meados da decada de 80, um Fusca e umas 15 criancas dentro, na curva a porta abriu e ela caiu, ele bateu a porta e continuou, uma das criancas cutucou e falou: ela caiu, ela caiu, ele voltou de re', botou ela pra dentro do carro e foi pra escola. La' ele deixou ela, ralada, sangrando e com a roupa rasgada, e voltou. Quando chegou encontrou a esposa berrando, porque ja tinham ligado da escola, pra leva-la num medico.
E ele: Mas ela machucou tanto assim?
A day in a life
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Ratapulgo
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3.3.04
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Sex and the city perde feio
E ontem eu fui dar plantão. Troquei o dia com um colega e fui. Obra do destino, já que ocupar a mente era tudo que eu estava precisando. Ok, eu não contava com a insônia filha da mãe que tive. Cochilei por apenas 40 minutos e pensei seriamente em desistir da troca. Mas, como já tinha dado minha palavra, entrei no ônibus e fui.
Chegando ao hospital, em pleno estacionamento, tive a visão do inferno. Um singelo carro prateado paradinho bem na porta. Olho a placa e constato ali a combinação de letras e números que vivia a procurar, tempos atrás, nas ruas da cidade. Não, eu não podia acreditar naquilo. Era demais. Sim, era o carro da minha primeira grande paixão. E, como se trata da sortuda da minha pessoa, um grandessíssimo canalha, na melhor definição do termo. Claro que xinguei o mundo todo e tive ódio das coincidências.
Por que ele tinha também que trabalhar justo ali, naquele hospital no quase fim do mundo?
E mesmo um pouco tensa, comecei meus atendimentos na emergência. A distância (grande) entre os nossos consultórios me dava uma pontinha de esperança que passaria despercebida pelo cidadão. Até que uma auxiliar de outro setor entra no meu consultório...
-Doutora, Dr. Fulano de Tal quer falar com a senhora.
-Hein? - me fazendo de doida lindamente.
-É, Dr. Fulano, o xxxxgista daqui, pediu pra chamar a senhora.
-Ok - me ferrei.
Barriga pra dentro. Solta o cabelo. Putz, logo hoje que vim tão esculhambada. Queria que ele visse como estou bem, que superei tudo. Bati na porta e entrei. Ele não muda mesmo. Mesma expressão. O cabelo tá precisando de um corte, essa roupa não tá combinando com ele, mas continua com o mesmo charme.
-Olá! - sorriso colgate.
-Oi, - tentando ser seca - mandou me chamar?
-Foi. Vi seu carimbo nessa receita e pedi pra ver se era você mesmo.
-Pronto, já viu?
-Vi, malcriada.
-Então, tchau.
-Depois passo lá na frente pra falar melhor contigo.
Fechei a porta e saí me sentindo a mais adolescente de todas as mulheres. Porque ele estendeu a mão e eu apertei. E é óóóbvio que ela estava uma pedra de gelo. E é óóóbvio que ele percebeu e deve estar se achando o rei da cocada preta. A gente não manda nessas coisas, né? Tsc. Continuei minhas consultas e meu celular toca. Piscando no visor um número que eu fiz força pra esquecer e não discar nunca mais na vida.
-Alô?
-Já acabasse?
-Quem é? - eu sou uma atriz.
-Eita, Beta - tinha esquecido como me derretia com o jeito que ele chama meu nome.
-Ah é tu, diz.
-Acabasse?
-O que?
-Os atendimentos.
-Só acabo amanhã, é plantão.
-Bora almoçar fora?
-Eu almoço aqui no hospital.
-Mas hoje você não vai.
-Vou sim. E preciso desligarr porque tô cheia de coisa pra fazer.
-Você era mais legal.
-E você continua o mesmo galinha, tchau.
Hãn?? Eu disse isso? Déa vai se orgulhar quando souber. Após quinze minutos a mesma auxiliar que me levou até ele entrou novamente no meu consultório. Trazia um exame que ele pediu pra eu olhar. Quando abri caiu um papel. Você continua linda e braba. Não, não basta ser canalha, tem que ser insistente, é isso? Ignorei o bilhete, falei qualquer coisa sobre o exame e fui almoçar. Na primeira garfada meu celular toca novamente.
-Diz, criatura.
-E aí, bora?
-Já estou almoçando.
-Nem me esperasse, gatinha?
-Não tinha motivos para.
-Eita que tá chata hoje!
-...
-Eu vi você no shopping um dia desses com um cara... é seu namorado?
-Não é da sua conta, que-ri-do.
-Adoro quando te tiro do sério.
-Tchau.
-Ei, desligue não!
-Estou com fome.
-E eu com saudade.
-Ridículo.
-Antes você não achava isso.
-Claro, antes eu era uma adolescente e você um homem solteiro. Agora anos se passaram e as coisas mudaram completamente.
-Você sempre estraga a brincadeira.
-Ah, agora isso é uma brincadeira?
-...
-Então vou dizer à sua mulher que você adora esse tipo de brincadeira.
-Tchau, Beta.
E como se não bastassem todos os problemas do plantão, mais essa pra me tirar o bom humor.
Bela, linda criatura, bonita. Nem menina, nem mulher...
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Ratapulgo
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3.3.04
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Se tem uma coisa que me dá nos nervos é quando mexem nas minhas coisas.
Meu pai é mestre em fazer isso. Ele simplesmente domina a arte de desordenar as coisas alheias pelas costas. Não posso viajar por 2 dias que quando volto descubro que ele me fez o desfavor de colocar todos os meus livros na estante, às vezes ordenados por autor, todos os cds no porta-cds e todas as cuecas nas gavetas. E ele ainda chama isso de organização.
Dessa vez foi ainda pior.
Mudaram os cheiros do meu quarto. Tem um cheiro estrangeiro pairando no ar. E o pior é que não consigo identificar a origem ou espécie. Não é um cheiro constante, de modo que às vezes ele desaparece e quando acho que me livrei dele, ele volta de supetão e se enfia nas minhas narinas dizendo "ei mané, estou aqui, no seu território". Tampouco é um cheiro ruim, tipo carniça ou peido. É um cheiro qualquer, talvez um cheiro de algo velho, mas não um cheiro ruim. Apenas um cheiro não pertencente ao meu quarto e que anda me incomodando muito. Talvez alguém de fora tenha vindo por algum motivo aqui no meu quarto. Não entendo porque esse pessoal te que ir por ae espalhando seus fedor por onde passam. Não se respeita nem mais o aroma do território alheio.
Arf.
[C A C O F O N I A]
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Ratapulgo
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3.3.04
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furunfando por um país melhor
Às vezes saio de casa apenas para embelezar o mundo. Percebo que contribuo para tornar o Bananão um lugar belo.
Seria importante também levar uns coelhos. Em público, de preferência na frente das crianças.
É coisa de europeu e de americano do norte entrar em escolas atirando em todo mundo. Os alunos vibram, mas perdem oportunidades didáticas.
Eu encheria um caminhão de universitárias politizadas, essas que tiram a roupa por qualquer coisa, e, após demorado banho e tosa, invadiria as escolas para mostrar como é que é.
saudade do presidente Figueiredo
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Ratapulgo
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3.3.04
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. Ai, a juventude .
Fato é que andei mesmo beijando na boca (e ainda ando!), mas num foi nem por isso que andei sumida, foi preguicite aguda mesmo. Falta de assunto também.
E o rapaz tem vinte anos, está trabalhando aqui em Lampião City por uns tempos até a empresa-patroa mandar o coitado pra outra cidade. Certo, até aqui tudo correndo bem, a não ser pelo fato de o rapaz estar querendo se desligar da empresa, arranjar um emprego por aqui, pra que?, pergunta vossa senhoria, pra ficar comigo, na minha companhia, namorando comigo.
Namorando comigo.
Morando comigo.
Esse menino é doido.
Não, é não. É um daqueles personagens de filmes-meg-ryan e assemelhados que a gente assiste e pensa ô, môdeus, pra que eles fazem essas historinhas, só pra encher o desmiolo da gente com besteira? num tá vendo que aqui na vida de verdade um homem vai abandonar tudo pra ficar com a gente? Pois abandona, meninas-moranguinho do meu Brasil. Não percam as esperanças, papai noel existe, fada também.
Aí é assim. A história seria linda e cor-de-rosa e multiplex se não fosse um porém: eu não estou apaixonada pelo mocinho. E como é que eu digo que as coisas não são bem assim, que ele é um rapaz novo, que ainda tem muito que se apaixonar e que a mulher da vida dele não sou eu, é outra que tá esperando por ele no futuro? Posso dizer isso não, que é palhaçada. Também não posso simplesmente ó, num lhe amo não.
Socorro.
Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!
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Ratapulgo
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3.3.04
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2.3.04
sonhos estranhos
Então ó só.
Sonhei que eu tinha 9 elefantes, todos eles na frente da minha casa. Um deles era macho e tinha um topetinho igual ao do Ronaldinho, só que loiro. E eles saíram pelo portão, estavam passeando pela rua, e eu chamei o macho (o nome dele, no sonho, era Luca - veje só), porque sabia que as fêmeas viriam logo atrás. E foi o que aconteceu, todos eles voltando pra casa, bonitinhos.
E no dia seguinte, sonhei que usava um anel enorme, feito de pedra azul, e por dentro tinha um desenho jateado, bem estranho, contendo 7 macacos, pra me protegerem.
Agora, me digam. Uat de fóc isso quer dizer? E não, não joguei no bicho, ainda.
perolada
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Ratapulgo
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2.3.04
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A Tabuletra informa: matador do zoológico continua à solta e população quer ver que bicho dá
O mar não está para peixe no zôo paulista. Um espírito de porco está colocando um poderoso mata-rato na comida dos animais, o que já causou um número elevado de mortes. A polícia já iniciou as diligências mas para a administração do parque, as autoridades andam comendo mosca: “As investigações andam a passo de tartaruga. Enquanto isso, todos os dias temos que atender cidadãos cuspindo marimbondos e exigindo providências. Ainda tivemos que aumentar a vigilância e estouramos o nosso orçamento. Já estamos matando cachorro a grito para não deixar mais nenhum bicho morrer. Até quando teremos que engolir sapo?”.
O delegado de polícia concorda que o ritmo é lento mas defende a posição dos investigadores: “A perícia tem que ser cuidadosa pra não deixar passar nada. É trabalho de formiguinha mesmo”. Para as autoridades uma coisa é certa: não se trata de um principiante. “Este elemento é cobra criada e escorrega feito peixe. Macacos me mordam! Aliás, mordiam”. Como se não bastassem os problemas da polícia no zôo, uma denúncia anônima informou que o próximo alvo do gatuno seria a prefeitura de São Paulo onde existem muitas vítimas em potencial: alem da anta, ali vivem também preguiças, traíras, robalos e papa-propinas.
Durante a semana, as autoridades investigaram alguns ex-funcionários do zôo e chegaram a prender um deles que portava um frasco suspeito. No fim, a polícia deu com os burros n’água. O conteúdo do frasco não era veneno mas apenas água-que-passarinho-não-bebe. “Tive medo de virar bode expiatório desta tragédia” declarou o ex-suspeito quando foi libertado. “Eu louvo a Deus por ter me tirado desse perereco”.
Enquanto isso, em furo de reportagem, a Tabuletra conseguiu contactar o terrível carcará que se identificou com o nome fictício de Lobo e respondeu a algumas perguntas.
A Tabuletra: Por que você está fazendo isso?
Lobo: Eu era pedinte ali perto do parque mas ninguém me ajudava. Sempre fui tratado como um cachorro. Todo mundo dava comida aos macacos e não dava nada para mim. Agora é a hora da onça beber água! No próximo verão não vai sobrar nem uma andorinha.
A Tabuletra: Você não tem medo de ser preso?
Lobo: Esse pessoal que está cuidando do caso é tudo cabeça de minhoca. Bagrinho pensando que é tubarão. Nunca mataram um mosquito e agora acham que vão cantar de galo. Vão é pagar muito mico. Não me pegam tão cedo. Podem tirar o cavalinho da chuva.
A Tabuletra: Você não teria um jeito mais produtivo de expressar a sua revolta?
Lobo: Pra começar, detesto quando dizem que sou um desocupado sem nada melhor para fazer. Quando isso acontece, eu viro bicho. Eu faço terrorismo urbano. E posso te dizer: fazer sucesso nesta atividade não é mole não. A gente tem quer matar um leão por dia.
Letra Morta
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Ratapulgo
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2.3.04
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Caindo a ficha
Estou me tocando aos poucos de algumas coisas inusitadas que eu vou ter que fazer para virar ferreiro:
Comprar uma bigorna.
Construir uma forja em casa.
Usar um avental de couro (depois de decidir não comprar mais nada desse material).
Até aí tudo bem, mas o que é o mais surreal é que...
A prática de ferragem inicialmente é feita em patas de cavalos mortos, obtidas em matadouros, ainda acopladas à parte de baixo da perna!
... eca!
(...)
Aprendiz de ferreiro
Hoje foi o início oficial do meu aprendizado como ferreiro.
Acho que levo jeito para a coisa... hoje eu iria só ajudar passando a escova de aço nas patas dos cavalos para aprender a segurar as patas e para começar a acostumar às posições em que se tem que trabalhar, mas meu professor achou que eu estava bem à vontade fazendo o serviço e eu acabei fazendo um monte de coisas a mais, inclusive removendo ferraduras.
Lição do dia... ferradura quente + dedo = OUCH!
Amanhã é que eu vou ver como é que meu corpo vai estar. O trabalho é meio que pesado. :)
Entre Quatro Estações
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Ratapulgo
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2.3.04
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São os vermes que formam o húmus.
Os coqueiros só atraem relâmpagos.
As janelas do quarto estão fechadas mas eu sei que tem alguém me espionando. De dentro. Remoendo a memória. Um Cristo posando para a posteridade de gesso. Um Bel Air ano 57 sobre a mesa. A TV Emerson. A Frigidaire. Sobre os sofás pés de palito, minhas bonecas desmembradas fazem sombra. Meu pai a cabeça, minha mãe os braços, minha irmã as pernas. Eu junto toda a família e lembro de coisas que não me interessam: há dois dias, vejam só, num jantar informal na casa de L.B., a quem só conheço de mesas de bar, um sujeito com um copo de Cuttysark na mão me confidenciou seus temores. Disse que como ex-oficial da inteligência do exército brasileiro, via com preocupação a nossa "situação" em Foz do Iguaçu. Como assim?, eu perguntei, com a minha melhor expressão de espírito livre. Ele virou os olhos para um bonsai sobre a mesa e ali fixou-os por uns trinta segundos, sem me responder nada. Tive tempo de acender um cigarro, dar dois tragos e reabastecer o meu copo. Vejo com preocupação o interesse norte-americano na região de Foz do Iguaçu, ele repetiu. Essa justificativa de haver terroristas na região. Isso é preocupante. Não nos convém. Afeganistão, Iraque, agora o Haiti. Não sei não. Muito preocupante. Não foi Caetano quem disse naquela música:"o Haiti é aqui"? O Havaí, eu corrigi, começando a me coçar. Eu já conhecia essa história. Eu não queria conversar com um milico, não queria admitir a possibilidade de uma invasão. Me lembrei do pau-de-arara e molhei as calças. Deixei o cara falando sozinho e fui pro banheiro. Os tempos mudam mas minha memória é uma esponja. Não sei quando vou superar. Abro as janelas e o lado de dentro não sai.
Prosa Caotica
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Ratapulgo
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2.3.04
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Álbum de recordações
Coisas que caem das prateleiras empoeiradas em cima da minha cabeça
Quando eu tinha entre 7 e 8 anos, meu avô em levou prá pescar. Lembro-me que ele passou horas ensinando-me pacientemente tudo sobre iscas vivas, mortas e artificiais; sobre como se usar corretamente o molinete e a não berrar como uma moça quando um anzol japonês nº15 atravessar o seu dedo indicador.
Alea Jacta Est
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Ratapulgo
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1.3.04
Top 10 Joselito
Ou "as mais chavônicas brincadeiras de mau gosto"
Enviado por Ricardo
1. Pisar no tênis novo pra "batizar"
2. Em baile de formatura, ficar puxando a camisa do amigo pra fora da calça
3. Na aula, queimar a bunda do colega da frente com isqueiro
4. Peteleco na orelha
5. Chamar quando o cara tá de costas e deixar o dedo do lado do rosto, pra quando virar dar no olho
6. Espirrar e limpar a mão no amigo
7. Amarrar o cadarço do tênis um no outro
8. Cama de gato
9. Par ou ímpar arrancando pêlos
10. Roubar o boné e ficar jogando um pro outro
Homem Chavão
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Ratapulgo
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QUARESMA
Cheiro de mijo subindo da calçada grita Quarta-feira de Cinzas, alegria perdida. Esse fedor é a única coisa que fala nas ruas do Centro, o resto é um silêncio de cadáver. Bati a porta de ferro do prédio na saída da Rio Branco e me assustei com o fim de festa nítido no que não era dito nem cantado, na falta de um refrão pra puxar um monte de gente que também faltava. Um silêncio duro, fedido de doer. Um jornalista antigo me contou de um plantão quando o jornal funcionava noutro prédio, um caixotão mais pra perto do cais. Passou uma madrugada toda de carnaval lá sozinho. Olhava a sala sem fundo, por cima das mesas, das baias e das máquinas, poucas lâmpadas acesas, ninguém. Morrer deve ser isso: uma redação vazia e um bloco passando lá fora. Aquela gente toda, cadê?
Que coisa que eu vi no Simpatia é quase amor. Na verdade, fora dele: lá de baixo vi a doentinha da janela, olhando pra gente passando na Vieira Souto. Uma mulher de camisola branca, nem acenar acenava, nem jogar confete. De todo mundo que via a festa passar longe, vigiando do alto - e são sempre muitos - aquela era a única que queria descer, vontade inútil nos olhos vegetativos. Tomara que tenha sido só ressaca da noite anterior, que tenha brincado muito, que tenha saído muito alegre e alguém num bloco tenha parado na sua boca um minuto, cantado um número de telefone pra ela ligar quando curasse o porre. Aquela gente toda, cadê?
Eu não entendo porra nenhuma de carnaval. É uma besteira pra esquecer outras besteiras. Atrás de uma bateria e de um carro de som, é tudo besteira. É isso e mais alguma coisa, que a minha burrice não alcança. Já fico satisfeita de lembrar de cada bloco que acompanhei este ano. Escravos da Mauá, Simpatia é quase amor, Bola Preta, Bip Bip, Bloco de Segunda, Banda de Ipanema, Charanga 3D e Lapa. Fui ainda no Fla Flu de sábado (maracanã no carnaval, meu time ganhando: isso é mais ópio que De Quincey consumiu a vida toda), num baile inusitado, no baile mais respeitável da Orquestra Imperial, na despedida de um tal de Emanuelle que viajou e eu continuo sem saber quem é, assisti a quatro filmes, dei plantão no jornal em dois dias. E mexi num capítulo do livro.
(...)
PROCESSO PERVERTIDO
Decidi entregar na mão deles e ver o que acontece. Não adianta tentar controlar. Se o velho com a boca e os intestinos podres decidir morar na casa, que more. Se a garota decidir dar pra ele, que dê. Se a autora fizer vista grossa, que faça. Assino embaixo depois e ficamos todos livres.
"vida é o mundo"
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MEUS CACHORROS
Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha
Eu tive meus cachorros e fui me desvencilhando das cordas e coleiras, da proximidade. Não criei mais laços com os latidos. Finjo que não tenho mãos para demonstrar afeto. Meus cães eram vivazes, vira-latas, baldios. O primeiro tinha o nome de Xodó e a empregada tratou de deixar o portão aberto de propósito. Nunca mais foi visto. Nem ele muito menos a empregada. O segundo surgiu no dia 7 de setembro e dei o nome de Sete. Eu assistia Moby Dick e chovia canivetes. Apareceu na porta, encolhido, doente e famigerado. Pedia uma vida para dar. Não sei como consegui convencer minha mãe. Criança tem seus truques. Depois de adulto, nossas mentiras assumem cacoetes e são percebidas a distância. Sete morreu ao escapar de meus braços e cruzar a rua. Era o meu aniversário, três anos juntos, seu pêlo castanho combinava com meus cabelos loiros. Ele jogava futebol com laranjas. Andava pelos muros como um gato. Me lambia no rosto quando chorava. Estava colocando uma camisa nele. Claro, que cachorro não gosta de bancar o boneco de pelúcia. Ele se revoltou com a blusa e pulou para fora da calçada. Um carro o fez vento e velocímetro. A culpa me engasgou e virou asma. Eu vi Sete se despedir debaixo das rodas. Seu olhar de pulseira de relógio, o gemido do ponteiro, que qualquer um pode escutar ao aproximar o tempo do ouvido. O gemido longo - início de um uivo - que guardei no pátio, com uma cruz, feita de uma antiga pipa, e a inscrição: "Meu cachorro não sofre do medo do paraíso".
.:. Fabricio Carpinejar .:.
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O jogo dos palavrões
O menino puxou a manga do pai e disse, baixinho:
- Eles estão falando palavrão.
Era a primeira vez que ele levava o filho ao estádio. E a torcida não colaborava. Olhou em volta e viu cerca de dez mil pessoas em pé, insistindo numa hipotética ligação entre o apito, os bandeirinhas e a mãe do juiz. Pegou a mão do filho:
- Augusto... o estádio é o único lugar do mundo onde as pessoas podem falar palavrão. O único. Em qualquer outro lugar, você sabe o que acontece... aquilo que tua mãe te ensinou.
- Fica com a boca suja?
- É. Fica com a boca suja. Menos no estádio.
- Por quê?
- Por quê? Bem, era preciso ter um lugar no mundo onde as mães deixassem a gente falar palavrão, não é?
O menino concordou com a cabeça, satisfeito com a lógica da resposta. Não era de se espantar que o lugar fosse tão grande, e estivesse tão cheio.
O jogo corria nervoso. Houve um breve momento de silêncio, quebrado por um grito estridente:
- Filha da puta!
Era o menino.
- Filha da puta vai tomar no cu filha da puta!
Todos aqueles torcedores bêbados, barrigudos, sem camisa, todos aqueles assaltantes, camelôs, motoboys e taxistas, todos pararam de cuspir e arremessar sacos de urina no campo e olharam horrorizados. Que tipo de pai deixaria uma criança gritar daquele jeito? Que tipo de educação era aquela?
- Augusto! Pára com isso!
- Por quê?
- Por que o quê?
- Você disse que aqui a gente podia falar palavrão.
- Aqui a gente pode falar palavrão. Mas não agora.
- Por quê?
- Como por quê? São as regras. Você tem que ter um motivo pra xingar. Tem que esperar acontecer alguma coisa importante.
E o que era mais importante que o gol do seu time? Os assaltantes, camelôs, motoboys e taxistas se levantaram, unidos por um único urro de alegria. O menino não teve dúvida:
- Puta que pariu filha da puta!
O pai tapou-lhe a boca e olhou em volta com um sorriso de constrangimento... esse menino...
Daí em diante, Augusto teve muitas oportunidades de xingar à vontade: um gol anulado, dois pênaltis não marcados, um cartão vermelho e dezenas de faltas.
Quando o jogo acabou, o menino estava exultante. Nunca se divertira tanto em sua vida. O time perdera por três a um. Quem dera fosse por quatro. Cinco. Seis. O objetivo maior era ou não era xingar? Na portão de saída, não saiu.
- Que foi?
Augusto fez sinal para o pai esperar.
- Que foi, moleque?
O menino virou-se, encarou o estádio e gritou pela última vez, como toda a sua força:
- Filha da puta!
E então saiu, pronto para enfrentar o mundo.
FDR
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