23.10.06

Lendo atingi bom senso

Vontade de ter uma livraria só pra ofender os autores. E o leitor também, claro.

Nada de organização por tema e ordem alfabética. Agruparia livros em estantes assim:

Véio broxa

Morreu virgem

Recebeu bolsa-família

Analfabeto funcional

Ele era mãe

Carecas de bigode

Nem parece peruca

Olavetes de Chevette

Conservadores que dizem cu

Passou a vara em Che

Controla o calendário sem utilizar as mãos

Pega na teta do titio

Tá com pena? Leva pra casa

Cigano Igor já leu

Livros que o Tiririca não gosta

Comi muito

===============================================

Leitor: - Onde eu acho Machado de Assis?

Vendedor: - Na prateleira Carecas de Bigode.

Leitor: - Mas o Machado não era careca!

Vendedor: - Percebo que o sr. não conhece muito Machado de Assis.

Leitor: - Como não?! Já li praticamente tudo dele!

Vendedor: - E não percebeu a calvície? Tsc, tsc...

Leitor: - O sr. está ofendendo um clássico da literatura MUNDIAL!

Vendedor: - Daqui a pouco o senhor vai me dizer que os clássicos não envelhecem.

Leitor: - Mas é isso mesmo: eles nunca envelhecem!

Vendedor: - Envelhecem e ficam carecas. Só um cego pra não perceber a calvície de Machado de Assis.

Leitor: - O Machado tinha cabelo e até topete! Não era careca.

Vendedor: - Tá certo, não era careca. Qual a próxima barbaridade que senhor vai me dizer a respeito do Machado de Assis? Que não tinha bigode?

Leitor: - Bigode tinha. Careca eu não admito!

Vendedor: Tá bom, não vamos mais discutir, o cliente tem sempre razão. Vou mudar o Machado de Assis para a prateleira Nem Parece Peruca, ok?

Colorina

22.10.06

Fernando Rodrigues

O debate do SBT flopou – sejamos francos: foi um nada eleitoral esse debate de ontem à noite no SBT entre Lula e Alckmin. Hoje, as repercussões de cada um dizendo que venceu, que foi melhor, que apresentou mais dados... Baboseira pura.

Como era previsível, o tucano baixou o tom. Lula ficou naquela cantilena de números e números de seu governo. Nenhum dos dois explicou, de maneira convincente, o mais importante: como faria para que o Brasil cresça mais do que os níveis atuais.

E no final? Aquele bando de áulicos dos dois candidatos louvando a iniciativa maravilhosa e democrática do canal de TV que promoveu o encontro... No fundo, o maior ganhador é só a TV, que pode dizer com orgulho que rebocou os dois políticos para seu estúdio.

A maior contribuição do SBT foi oferecer um elemento extra para confirmar a falência do modelo em vigor desse tipo de debate. No primeiro turno, há aquela regra demencial de ter nanicos presentes. A pretexto de produzir democracia, a exigência é mero democratismo sem sentido. No segundo turno, todas as emissoras de TV querem fazer debate com regras complicadas que inviabilizam o verdadeiro embate entre os políticos.

“Candidato, o tema é educação. O sr. tem dois minutos”, diz o (a) moderador (a). Dois minutos para falar de educação?? Em seguida, o candidato fala sobre o que bem entende...

Por que não ter apenas uma única regra? “Candidatos, o srs. têm uma hora e meia para debater sobre o que quiserem. Podem começar. E cada module o seu tempo como quiser”.

Ah, mas daí seria uma carnificina, dirão os adoradores de regras e leis. Hummm, pode ser. Mas ficaria mais fácil saber quem é quem nesse deserto de idéias que se transformou a política. Até porque, falar sobre educação ou infra-estrutura em dois minutos com mais um minuto de tréplica é obviamente uma insanidade.

Fernando Rodrigues

20.10.06

...

eu gosto de gente que faz e de gente que pensa.
se você pensa e não faz, não serve.
se você faz e não pensa, também não.

Todaperplexa

18.10.06

Intervalos da navegação

Entrei na era da mp3. Downloads de graça. (Quantos desavisados não chegarão aqui pelo google por conta dessas palavras mágicas?) Alguém perguntou se a minha consciência não pesava. Por quê? Não pesa. E não é porque o CD está muito caro (e está) ou porque no fim das contas os artistas ganham uma porcentagem muito pequena da venda de CDs (e ganham). Os que me conhecem de outros tempos sabem que meus motivos não seriam jamais tão mundanos assim. Deverão supor que minha consciência está limpa por motivos puramente metafísicos, e estarão redondamente certos. Pois bem, a conveniente metafísica da vez é:

VOCÊ É O QUE VOCÊ COMPARTILHA (PONTO)

Como não haveria um amplo terreno do céu reservado à boa alma que acaba de compartilhar comigo um CD do Miles Davis? E que monstro seria capaz de censurar um dos gestos mais nobres que o século XXI é capaz de testemunhar? Eu respondo! Aquele mesmo canalha que acabou de repassar um e-mail com um texto lindo do Manuel Bandeira que o próprio Bandeira nunca teria a indelicadeza de escrever.

diferença nenhuma

Faça Você Mesmo: Ministério de Notáveis

Ministro da Saúde: Paulo Cintura
Ministro da Defesa: Júnior Baiano
Ministério das Relações Exteriores: Jane Mary Corner

dies iræ

16.10.06

etiqueta de rompimento – edição (quase) mensal

um guia prático de boas maneiras para pessoas que desejam pôr um fim na sua relação amorosa sem perder o decoro.

fim de caso para quem já leu o manual (qualquer um, pode ser o da geladeira. nunca se sabe o que existem nesses livretos, ninguém lê mesmo)

- bom dia.
- bom dia. fique a vontade. deseja beber algo? café, água?
- sim, claro. café.
- diga-me, o que ocorreu para marcar um encontro tão cedo? alguma saudade extraordinária?
- não. trata-se de um assunto delicado.
- sendo assim, prossiga.
- recebi uma proposta e vou me desligar de você...
- hmm...
- e, já conhecendo o seu perfil de negociação, prefiro não arriscar uma contraproposta.
- entendo. não posso oferecer muito e a competição é acirrada. é só você esquecer um aniversário-de-qualquer-coisa que já vem a concorrência prometer não somente lembrar, mas também levar pra jantar.
- está difícil pra todo mundo. tive muita sorte em ficar com você, lembra? aquela sua antiga pretendente era bem mais multidisciplinar...
- isso é verdade, entendia de um tudo... o problema foi ela já querer que eu assinasse uns contratos que lhe davam direito a metade dos lucros... inegociável. mas então apareceu você, recém dispensada de um estágio mal-amado, inexperiente, com vontade de mostrar serviço, não pensei duas vezes.
- isso eu não posso negar, mas meu foco mudou. resolvi arriscar um sonho antigo e fiz os meus contatos. conversamos e ele me ofereceu o dobro do que você me oferece.
- o dobro? acho difícil alguém oferecer mais do que eu já ofereço, mas se você prefere assim... poderia, antes de ir, porém, preencher esse formulário com sua opinião a respeito do meu desempenho, sua avaliação, críticas, sugestões, elogios. é uma forma que estou adotando para o auto-aperfeiçoamento.
- lógico, por que não? foi um prazer, enquanto pôde ser um, estar ao seu lado.
- o prazer foi meu. desejo que encontre muito mais para onde você está indo.
- muita gentileza da sua parte. desejo o mesmo para você!
- ah, outra coisa...
- diga...
- enquanto procuro outra... pode cumprir trinta dias de aviso prévio?

plastic surprise - por karla nazareth

13.10.06

ontem fui a la serena

ontem fui a la serena com as poetas argentinas. vao dizer que só ando com as argentinas. mas sempre me perco das chicas del cono sour, sempre combinamos un mango sour e acabo seguindo mis amigas da terra de thénon e pizarnik. fiquei na praia com gabriela bejerman e romina freschi, molhando os pés no pacífico e escutando as conversas das gaivotas (que bichinhas barulhentas!). e só ontem fui notar como as gaivotas comem mariscos. é assim: esperam as ondas retroceder, pegam os mariscos, voam alto e deixam o bicho cair na areia. assim a concha se quebra e elas comem o interior. mas nao é de primeira, nao, elas tem que deixar cair várias vezes. aí bejerman olhou pra mim e disse: "imagina o que o marisco está pensando agora? puta madre, de nuevo noooooooooooooooooo!" eu disse pra ela escrever um poema sobre o assunto. falando nisso eu vou ali comer uns mariscos no mercado. aqui é o epicentro dos mariscos, como ela diz.

de nuevo siiiiiiiiiiii

8.10.06

diz q. a gente veio do macaco, mas alguns ainda vêm vindo

amigos, um sábio amigo fala q. a estupidez humana divide-se geométrico-democrática/:
1-o imbecil elementar
2-o besta quadrada
3-o anta cúbica
4-o lorpa terminal, q. assim o é pois elevado a 'n'.
este último grau final/ reconhecido na alvissareira premiação.
creiam, o amigo fala 'de cadeira'.

de rodas, posto q. os percorreu um a um.


HIPOPÓTAMO ZENO

7.10.06

"Discutir na internet é igual competir nas olimpíadas especiais, você pode ganhar, mas continua sendo um retardado."

Flamewars Survival Guide

1 - Não eleve o tom da discussão.

2 - Posts agressivos podem ter respostas agressivas, sim. É isso que eles pretendem; é isso que eles merecem. Como Mel Gibson nos ensinou, as guerras podem ser muito divertidas.

3 - Um brogue é a casa de alguém. Mas se esta pessoa abre a janela de sua casa e começa a gritar que todo sãopaulino é viado, por exemplo, ela não pode esperar sinceramente que as paredes não apareçam pichadas no dia seguinte (ou cheias de pó-de-arroz, no caso).

4 - Sarcasmo é bom, ironia melhor, wit is jolly good. Ter argumentos é também recomendável, mas opcional.

5 - Só altere de forma jocosa os nomes de seus contendores se eles se irritarem com isso.

6 - Uma boa discussão está sempre no limite de se discutir mutualmente a profissão das progenitoras mas nunca o faz.

7 - Se uma metáfora infeliz foi usada pelo oponente, não tenha pena. Explore-a, torture-o.

8 - Releia seu texto antes de apertar o "send". Repita o processo. Novamente. Quando você estiver quase se arrependendo aperte o botão.

9 - Esqueça os erros de português e de digitação do adversário. Gramaticismos são a melhor forma de provar que você não tem argumentos.

10 - Sim, é possível dar um ippon simplesmente torcendo o mindinho. Atenha-se a um pequeno ponto que você tem razão e o oponente não tenha e vá determinado até o final. Exija uma resposta direta. Ele jogará diversos outros argumentos em sua direção, mas não se desconcentre, você pode retomar as discussões tangenciais mais tarde. Continue torcendo o dedinho.

11 - Cimente uma placa de bronze na parte interna do seu crânio com a inscrição: "por mais idiotas que os oponentes sejam você é muito pior pois está discutindo com eles." Tenha claro isso antes de entrar em qualquer debate. Você não está solucionando os problemas do mundo, está apenas os alimentando.

12 - Um corolário da Lei anterior: Tenha claro que na discussão você jamais irá convencer o oponente. Veja bem: ele é uma pessoa que acredita que a desregulamentação do mercado vai resolver o buraco da camada de ozônio; é com gente assim que você está lidando. Sua esperança reside em que um jovem leitor decida-se pelo seu lado (que é sempre o lado da Luz, da Razão e da Sabedoria) ao ver os argumentos de seu oponente solenemente pulverizados.

13 - Chiliques, faniquitos e fricotes são sinais óbvios que você já ganhou a discussão. Não os aponte, no entanto; não só não é educado como provocará mais chiliques, faniquitos e fricotes.

14 - Nunca reclame de ter um comentário deletado de uma caixa de comentários. Ela não é sua. Quer democracia? Discuta lá no seu brogue.

15 - Divirta-se. Se sua neurose não permite que você se divirta em uma discussão de internet, procure um analista ou arranje uma namorada; ou namore seu analista, sei lá.

16 - Em dúvida, crie confusão. Frases enigmáticas, vagamente relacionadas ao assunto, terminando com uma piscadela ;) são ótimas cortinas de fumaça para fugir definitivamente de uma discussão.

17 - Last but not least, the Golden Rule:
Shoot all the sitting ducks, shoot the nests, shoot the eggs. That's the real hunt!

O Sinistro

Cemiteriedade

O Pessoal lá do cemitério, está meio encanado com a gente desde que começou a reforma do túmulo do meu avô.
O primeiro que começou a reforma faleceu e deixou a gente na mão, então tivemos que contratar outro. Quando foi pra fazer a exumação do corpo, o outro foi mordido por escorpião e agora que um terceiro assumiu, foi internado ontem, chegou louco no cemitério e precisou ser levado pro hospital de camisa de força.
Diz meu pai que hoje, quando ele chegou no cemitério, levando as plaquinhas de cobre pra colocar no túmulo, os coveiros se esconderam com medo de serem contrados por ele.
O administrador do cemitério disse pro meu pai, que era melhor contratar um inimigo pra terminar o serviço, assim já fazia dois trabalhos de uma vez.
As plaquinhas voltaram, ninguém quis colocar e meu pai disse que também não vai colocar não e perguntou se a empregada não quer ir lá fazer o serviço, ela disse que vai mandar o ex-marido:
- Pelo menos ele não fica com aquela vaca!

Fata, De Pindamonhangaba para o mundo.

conversas furtadas

DOIS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS

— Hoje em dia eu não uso dinheiro pra nada.
— Ah, me dá seu dinheiro então que eu faço bom uso dele!
— Não, seu besta! Eu só uso cartão. Só uso o débito, por que crédito é furada. Débito é igual dinheiro.
— Eu não. Eu só gosto de negociar com dinheiro na mão.
— Rapaz, imagina quando cê for comprar um carro ou uma casa, como é que você vai colocar o dinheiro todo na mão? Que mão gigante, hein!

Enviado por Duubhglas Juarezzz.

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FILA NA FACULDADE

— Mas você aguenta mais bebida do que a sua amiga.
— Cê fala isso só por que eu sou gordinha.
— Nada a ver! Eu num posso achar que seu rim é grande, não?

Enviado por Duubhglas Juarezzz.

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BOTECO EM JUÍNA (MT)

— É estrupo ou estupro?
— Estupro é quando um estranho come à força uma mulher. Estrupo é quando o marido come a esposa sem ela querer.

Enviado por Paulão.

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CHAPADOS NA FACULDADE DE BIOLOGIA

— Cara, cê não tá falndo coisa com coisa!
— É?
— É.
— Vô pensar sobre isso. Vô pensar sobre isso...

Enviado por Paulão.

conversas furtadas

dog day afternoon [ou] gangue de nove marginais armados até os dentes com fuzis invade fábrica de jóias de limeira, fazem mais de 40 reféns e matam um

(…)

O Júnior não se ligava em política. Ele era bem mais bonito que eu, tinha um magnetismo interessante. Eu perdi o contato com ele, até que fui trabalhar em Limeira em 1993. Um dia cheguei à rodoviária da cidade e lá estava o Júnior com um carrinho cheio de listas telefônicas.

"O que você está fazendo da vida, Júnior?"
"Peguei esse bico de entregar listas telefônicas!"

Fiquei com um pouco de pena de ver um cara com potencial, um bom vendedor, ali com aqueles livros amarelos e um uniformezinho velho da Telesp. Pensei que ele talvez pudesse me invejar. Não tinha nada que pudesse gerar inveja em alguém, mas eu tinha focado minha vida profissional em TV e estava obtendo algum sucesso. Eu sempre soube que ele ia se dar bem, ele tinha simplesmente a cara de quem ia se dar bem.

Novamente fiquei um tempo sem encontrá-lo. Quando aconteceu foi em uma visita de Paulo Maluf à Limeira. Aí fiquei sabendo que meu amigo Júnior tinha se filiado no PPS do turcão e fiquei um pouco decepcionado. Maluf era candidato ao governo e apostei com o Júnior que ele não levava. Aposamos um almoço num rodízio. Eu ganhei. O Júnior nunca me pagou.

Fui fazer uma eleição municipal para o PT de Piracicaba e sempre que cruzava com Júnior, ele me zoava. Zoava a pobreza e a ignorância dos petistas e de como o PT nunca chegaria ao poder.

Na próxima eleição, trabalhei para o PL em Limeira. Ele encarou como uma virada-de-casaca minha, não entendia o lance profissional da minha atividade, diretor/redator dos programas do horário eleitoral. Nesse mesmo pleito, em 2000, Júnior saiu candidato a vereador. Ele havia se casado com a filha de um empresário do ramo de jóias e achava que podia representar o setor. Tentei dissuadi-lo. Ele pareceu firme, decidido, confiante que ia levar. Teve 71 votos.

Por essa época, ele teve uma filha. Lembro de vê-lo andando pela cidade com carrões, sempre bem vestido, sempre perfumado. Decididamente, um cara bonito.

Logo depois, em novo evento, de novo com Maluf e asseclas, ele me informou que estava se separando, que ia montar uma pequena empresa de jóias e queria tocar a vida, curtir a vida. Ele entrou no Orkut, me adicionou, montou um fotolog que eu sempre espiava, belas mulheres, locais bonitos. "O Júnior se deu bem, eu sabia!"

Ontem, cinco e meia da tarde, uma gangue entra em uma fábrica de jóias daqui. A polícia é acionada e é recebida com balas. Um PM morre no local. Dentro, com a gangue, quarenta e quatro reféns. Seis da tarde, entra no ar o programa A Hora da Verdade, sensacionalista-policial, o programa é comandado por Geraldo Luís, repórter que serviu de inspiração para o meu Geraldo Assis, de Sexo Anal.

Não temos nem dez minutos de programa, toca o telefone e é um ds sequestradores querendo negociar, ao vivo, com Geraldo a saída com vida deles e dos reféns. Nunca soube de nada igual na TV brasileira. Ficamos uma hora e meia ao vivo com os sequestradores falando de dentro da fábrica. Mulheres grávidas e algumas pessoas foram liberadas. O programa terminou e as equipes foram até o local. Depois de muita negociação, os marginais se entregaram e saíram em meio aos reféns, às duas e cinco da manhã, no melhor estilo "O Plano Perfeito", filme do Spike Lee.

Mas "O Plano Perfeito" é um filme americano e os americanos são mais inteligentes.

Hoje, chego na TV e vou ver as imagens. Vejo com cuidado a primeira dupla que foi liberada: uma grávida e um jovem bonito. Sim, era o Júnior. Até então ele estava dentro da fábrica, onde tinha negócios, quando a gangue chegou. Porém, fiquei sabendo na sequência, foram encontradas com ele três barras de ouro, escondidas nas meias e na cueca.

Ele saiu como refém liberado de um crime em andamento com três quilos de ouro escondido.

Por quê?

Teria sido oportunista? Aproveitou a confusão para faturar algum?

Talvez não. Uma hipótese é que ele tenha dado o serviço para a gangue e, quando tudo deu errado, ele ficou incumbido de sair com o ouro para contratar um advogado.

Talvez não tenha nenhuma participação em nada e o ouro era dele mesmo, frio, sem nota, sem documento. "Esse ouro é meu, ia tantar vender para a empresa".

Lugar errado, hora errada - ou não - meu amigo Júnior foi enquandrado em latrocínio, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e cárcere privado. Difícil ele escapar de trinta anos de cana.

(…)


Biajoni

6.10.06

Da vida e da morte:

Um senhor de cinquenta e seis anos, meu mentor sem querer, meu amigo sem saber, diz-me que perdeu todas as suas amizades. Razões? Irremediáveis. Irreparáveis. Pior de tudo: perenes. Todos os seus amigos morreram ao longo do último ano. Um a um. Ele: cá anda. Na merda, mas cá anda. Estudando, rindo, comendo, sobrevivendo. Faz colecção de selos e possui uma inteligência rara. Tem todas as doenças de uma velhice precoce e mal se consegue mexer. Diz umas piadas, conta umas anedotas, fala de números complexos e ri-se como uma criança. Simpático, triste, afável, é impossível não sentir um mínimo de compaixão. Quem olhar com atenção percebe que falhou a vida, os sonhos. Falhou, mas alcançou a resignação, conseguiu a felicidade. Uma felicidade escassa, débil, talvez efémera, mas suficiente. Pelo menos, por agora. Já a minha avó não me parece ter atingido esse reconforto. Na semana passada, passei lá por casa e vi uma mulher deitada, doente e desanimada. Sem sorriso, sem humor e sem esperança. Com o cabelo por pintar. A minha avó, para quem não sabe, para quem não viu, para quem não me conhece, foi o meu grande amor. É o meu grande amor. Hoje, sei que não será para sempre. Ela, não o amor. O meu pessimismo talvez esteja a adivinhar-lhe o fim demasiado cedo. Demasiado depressa. A verdade é que não faço a mais pequena ideia de como continuar a viver depois dela. Se é que haverá mesmo um depois. Mas a vida continua. Ouvi dizer.

Diário de Tiago Galvão

Não se come uma mulher, ela é que se devora.

Fabricio Carpinejar

5.10.06

No balcão da companhia aérea

- Bom dia, senhora, posso ajudá-la?
- Pasárgada, one way.

A Caverna da Ogra

Desamparados do mundo, uni-vos.

Meu amigo Rogério me falou esses dias que pretendia criar o movimento dos sem remédio. Sem remédio, veja bem, não são pessoas necessariamente sem conserto, mas gente pela qual não há (mais) nada a fazer. Para os casos-limite, ou existe medicação desenvolvida e testada, com resultados comprovados, posologia, acompanhamento, tempo de administração, efeitos colaterais, sintomas esperados, aprovação do Ministério da Saúde, ou ação judicial, ou providência administrativa, ou seguro, ou procedimento, ou solução. Para o restante, para todo o resto, para mim inclusivemente, não tem. Raciocinem comigo: se você tem síndrome do pânico, tem remédio; se você tem medo, não tem. Se você tem depressão, tem remédio; se você está triste, não tem. Se você tem DDA, tem remédio; se você é estabanado, não. Se você tem transtorno obsessivo compulsivo tem remédio; se você é um chato de galocha, não. Se você tem obesidade mórbida, tem remédio e cirurgia; se você tem uns pneuzinhos sobrando, não. Se você é anoréxica tem remédio; se é magra de ruim, não. Se você tem infecção intestinal tem remédio; se você tem diarréia nervosa, não. Se você não tem peitos, pode colocar silicone; se você tem peitos de fábrica e precisa de um sutiã sem enchimento que proporcione uma sustentação razoável, não seja especial para lactante nem se pareça com os sutiãs da sua avó, n.º 44 ou maior, não tem. Se você é assaltado à mão armada, vai na delegacia e presta queixa; se elegem o Maluf, não tem nada a fazer. Se alguém cruza o sinal vermelho e destrói o seu carro, você aciona o seguro; se o motoboy erra o cálculo e arranca o retrovisor, não dá nem o valor da franquia. Se você precisar de uma cirurgia, entra em licença saúde; se estiver com o saco cheio de tudo, azar o seu. Se protestam um título no seu nome e você não deve, você processa judicialmente e pede indenização; se o flanelinha cobra déreau o estacionamento na rua, você paga e não chia. Se o seu chefe lhe assedia sexualmente, você denuncia; se ele inventa uma piadinha cretina todo santo dia, você agüenta no osso. Se lhe quebram o maxilar com um soco, é crime; se lhe partem o coração, não.


Mme. Mean

4.10.06

Daily Lit

Ando lendo uns livros pelo Daily Lit, que é um serviço que manda livros pra você por email, trecho por trecho. A vantagem é que se você tem preguiça de ler na tela, bom, os trechos que eles mandam são curtos, não dá preguiça de ler.

E fiquei pensando em montar um serviço parecido - só que eu mandaria os livros todos errados sem dizer nada. A pessoa pediria pra receber "Emma", por exemplo, e receberia a minha versão de "Emma". Para o resto da vida ela acharia que Jane Austen incluiu uma cena de tetada no livro.

-Adorei a cena da tetada.
-Hein?
-Emma Woodhouse é uma lésbica que sai dando tetada em todo mundo. Daí um dia ela encontra a Harriet na estrada e as duas começam a brigar de tetada. Harriet quebra um braço e tal.
-Não tem isso no filme.

Um dia a pessoa leria o livro de papel e ficaria desapontada porque não encontra a cena da tetada.

-Cortaram tudo essa bosta.

Não que "Emma" fique melhor com a cena da tetada - é um dos meus livros preferidos do jeito que está. Mas talvez eu colocasse uma cena da tetada em "Dracula". Não sei exatamente onde. Talvez Mina Harker desse uma tetada no Conde? E gostaria de colocar - não sei bem o motivo - marcianos em um romance realista do tipo "As Vinhas da Ira". Faltam marcianos em "As Vinhas da Ira", certamente. Ou você está dizendo que não há espaço para marcianos em "As Vinhas da Ira"?

Estou convicto que a maior parte dos livros melhoraria muito com a presença de marcianos ou com uma bem colocada cena de tetada no meio, mas faltando isso também pode ser:

1) Dálmatas fumando charuto.
2) Combustão espontânea.
3) Traumatismo peniano.
4) Um mestre de Kung Fu.

"O Pai Goriot", "A Cartuxa de Parma" e "Oliver Twist" se beneficiariam de (1); quase qualquer livro se beneficiaria de (2), mas sobretudo "O Primo Basílio"; se Ahab sofresse de (3) em "Moby Dick", todos ficaríamos felizes (o mesmo valendo para Thoreau em "Walden"); e meu Deus, fico feliz só de pensar na aparição súbita de (4) em "Germinal", "Naná" e "A Besta Humana".

Nada, no entanto, me daria tanto prazer quanto a aparição de um Mestre de Kung Fu em "Guerra e Paz", ensinando Kutuzov a lutar no Estilo do Macaco Bêbado. É assim que Kutuzov expulsaria Napoleão de Moscou. Sim, isso e os macacos vampiros.

Alexandre Soares Silva

3.10.06

Onde está David Hussein?

Indo de Jaguariúna em direção ao sul de Minas, ou rumo a Ribeirão Preto e Franca, o motorista vai topar com várias praças de pedágio. Apesar do asfalto conservado, da sinalização impecável e de todos os serviços disponíveis ao usuário, a viagem meio que empaca.Ou é decepada pela cancela que se ergue ao comando da mocinha do guichê – depois de efetuado o pagamento, é claro. Uma guilhotina que corta para o alto.

A “Rodovias” ( concessionária desse trecho) poderia poupar as mocinhas dos guichês do constrangimento de nos desejar "boa viagem".Tenho pena das mocinhas dos guichês,ânsias de vômito e tesão - nessa ordem.

Todavia não me interessa,aqui, discutir tarifas & serviços. Quero elogiar a iniciativa da "Rodovias" de imprimir, junto ao recibo de pedágio, fotos, nomes e idades de crianças e adolescentes desaparecidos.Uma idéia magnífica.

Fazia muito tempo que eu não pegava uma estrada (dirigindo) ... e imagino que outras praças de pedágio devam ter adotado o mesmo sistema da “Rodovias”. Isso, de certa forma e apesar das altas tarifas,é reconfortante para aqueles que,como eu, tiveram seus parentes desaparecidos.

Faz três anos que perdi minha filhinha.

O curioso é que, somente na semana passada, me inteirei (ou dei o devido crédito) a este sistema de buscas.Eu mesmo, há três anos (quando perdi Sicília) me encontrava em situação semelhante. Quase desaparecido. A diferença é que eu ligava para casa duas vezes por ano, no aniversário de minha mãe e no aniversário da garota, dez dias depois. À época – confesso, com muito pesar - não acompanhei as buscas e também não me interessei em procurar ninguém, mesmo porque eu mesmo não sabia onde me encontrava.

Lembro vagamente de clínicas psiquiátricas, engradados de cerveja abandonados e ratazanas castanhas ... e até me recordo que vivi alguns meses na companhia de Hare Krishnas,o lugar ... se não me engano... era a praia do Santinho-SC,1998.

O que vale é que junto ao recibo do pedágio me deram uma foto de David Hussein ali de Lucena: desaparecido em 2001. Dois anos depois de Sicília, que semana passada completaria 4 anos?

Nem as datas nem a idade atual do garoto coincidem com os dados confusos que fervem em minha memória... mas tenho quase certeza que topei com este David no réveillon de 1998 para 1999, lá na praia do Santinho.Foi o meu Réveillon com Krishna.

O garoto era um devoto (aprendiz) que não se atrevia a olhar nos olhos de Kesava, chefão dos hare hare. Lembro que ele dançava ao redor de uma fogueira, repartia melancias com os demais e, meio que abobado, rezava para as estrelas e discos voadores. Isso, confesso,me incomodava/incomoda um bocado.

Acho que é melhor não descrever a noite de primeiro de janeiro de 1999... quando curraram o garoto... também não quero falar em defumadores,incensos e vidas passadas.

(cont)

Mirisola heroi devolvido

25.9.06

TPM

Alimento o cérebro com migalhas, enquanto o coração passa fome.

Lugar pra se falar sobre tudo e sobre o nada.

Utilidade pública

Seus amigos intelectualóides citam autores que você não leu? Quer aprender a ser pernóstico como eles? Está cansado de ler longas orelhas de livros pra fingir que é erudito?

Seus problemas acabaram! Nós do Botequim Socialista Inc. criamos para o seu conforto os micro-resumos de clássicos da literatura, filosofia e política. Quem precisa da Wikipedia ou do Google? Feche esse livro e vá ver TV!

Micro-resumos pra quem não gosta de ler

Bocaccio - Decameron
Dez jovens se reúnem num palacete pra fugir da peste. Todo mundo fala muito, mas ninguém come ninguém!

Chordelos de Laclos - As Relações Perigosas
Conde safado seduz mocinha com ajuda de condessa mais safada ainda. Depois descobre que estava cansado da safadeza, mas aí Inês é morta. Fim.

Saramago - Ensaio sobre a Cegueira
Epidemia de cegueira mostra a verdadeira face do ser humano. Como só uma moça não ficou cega, ela foi a única que viu. Fim.

Clarice Lispector - O Livro dos Prazeres
Mulher passa a história inteira na maior piração pra decidir se dá ou não.

Salinger - O Apanhador no Campo de Centeio
Sou um adolescente incompreendido, vou fugir por uns dias para ver se chamo a atenção de alguém. Fim.

Platão - Apologia de Sócrates
"Só sei que nada sei, e vocês, manés, sabem menos ainda!" Fim.

Goethe - Os Sofrimentos do Jovem Werther
Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor! Adeus!

Émile Zola - Germinal
Mineiro só se fode. Fim.

Adolf Hitler - Mein Kampf
Minha vida de emo.

Maria José Dupré - Éramos Seis
Cinco, quatro, três, dois, um!

Karl Marx - O Capital
Existe a burguesia, essa malvadona. Existe o proletariado, explorado pela burguesia malvadona. Fim.

Nietzsche - Ecce Homo
Filósofo maluco diz que é o fodão. Fim.

Obras completas de Charles Bukowski
Malucão bebe todas, come um monte de mulé e vive entrando em cana. Fim.

Dostoievski - Os Irmãos Karamazov
Quero que meu irmão se dane! Fim.

Gogol - O Inspetor Geral
O sr. sabe com quem está falando?

Maquiavel - O Príncipe
"Magnífico Lourenço de Médicis, eu conheço o esquema, me arranja um emprego aí vai!"

Velho do Farol

Aforismo Nº3 - Pode-se tudo que é possível.

(…)

VIDEOCLIPE – FLASHBACK EM TOM SÉPIA, CENAS COM BASTANTE CORTES. LOC.OFF

1) Atenas, ano 314 a.C. Teofrasto, com 48 anos, foi nomeado dono da escola onde Aristóteles lecionara até então, antes de se refugiar em Cálcis. Muitos foram os que julgaram que Teofrasto não podia dirigir a escola, pois estava lá havia menos tempo que outros discípulos. Conversavam seu descontentamento no pátio da escola, sempre na ausência de Teofrasto. Este sabia da oposição que havia dentre os demais, mas nunca trouxe o assunto a público. Apesar das queixas, ninguém nunca sugeriu ou fez nada para substituir Teofrasto na direção, e ele presidiu à escola peripatética por 35 anos.

2) Calígula havia escapado aos assassinatos de vários de seus familiares e foi aceito no governo de Tibério, seu tio-avô (que ordenara os crimes). Quando o imperador morreu, em 37, o testamento designava Calígula como herdeiro, em conjunto com Tibério Gemelo, neto do falecido. Dois dias depois da morte do tio-avô, fez com que o senado romano anulasse o testamento e proclamou-se imperador sem parceiros, mandando assassinar Gemelo pouco tempo depois. Cassius, um de seus guardas, que assassinou Gemelo, e a quem Calígula sempre ridicularizava, o assassinou 4 anos depois. Todas as ações aqui relatadas eram proibidas por lei.

3) Milan Kundera escreveu vários romances utilizando a cidade de Praga, em 1968, invadida pelos russos, como cenário, e tenho certeza que o sábio homem me entende. Os checos podem dizer o que for, que as botas dos russos eram cafonas, que o nome Nikita Kruschev é de menininha, que os motoristas dos tanques, que sitiaram a cidade de Praga, são barbeiros, tudo, menos que a Rússia não podia fazer aquilo. Mas é claro que podia. Podia até que fosse impedida.

4) Em 2005, meu pai me disse que eu não podia pedir demissão, depois de trabalhar por 5 anos em uma empresa em que me tornara chefe do departamento, para ir mochilar no Chile. Pelos relatos de Novembro e Dezembro do mesmo ano, vocês podem atestar o equívoco de papai.

Whaddafuck

24.9.06

Abaixo da Superfície

Estou no meio de uma reforma. Uma reforma que eu adiei alguns anos e que, enfim, começou a surgir por trás do quebra-quebra. Para não correr o risco de ver o tamanho da bagunça, pedi ajuda profissional. Alguém que me entregasse aqueles destruídos cômodos com os devidos retoques, curativos, pintura nova e, se possível, uma decoração que não deixasse lembranças dos estragos causados pelo tempo.
Fiz o possível para não ver nada. Fechei os olhos. Ouvia os barulhos, desviava dos pedreiros e abria a porta somente durante a madrugada. Acendia todas as luzes, procurava defeitos, reclamava sozinha da demora. Um dia, no fim de um dia, acordei de mau humor e decidi pedir que acabassem logo com aquilo. Eu queria acordar em outro lugar...

- Cadê o pedreiro?
- Já foi. Disse que precisava sair com urgência e que não tinha caçamba pra retirada do entulho. Você vai ter que dar um jeito de tirar o lixo de lá durante a noite se quiser que eles continuem o trabalho amanhã de manhã.


Olhei para aqueles sacos espalhados e pensei em jogá-los em caçambas alheias. Já era madrugada, ninguém perceberia. Madrugadas fazem cair as máscaras... Tentei erguer um dos sacos de entulho e achei pesado demais para uma noite de lua e vento gelado. Vesti um casaco e fechei a porta. Sai dali antes que a poeira me causasse algum tipo de alergia. Voltei para a cama e apertei os olhos...


- Que barulheira é essa?
- O pedreiro!
- Que horas são?
- Onze da manhã.
- E ele só chegou agora?
- Só. Ele quer conversar com você.
- Diz pra esperar vinte minutos.
- Ele disse que está com pressa.
- Diga que eu estou com sono.
- Você precisa começar a me pagar pelos recados que manda.
- Você já recebe até para me dar bronca.

Quarenta minutos depois...

- Boa tarde!
- Oh, dona... Tarde. A senhora me desculpe...
- Só um minuto... Quem é o senhor?
- Ah, me perdoe. Eu sou o pai do Cristóvão.
- E o que aconteceu com o Cristóvão?
- Ele pediu que viesse eu porque ele está muito enrolado com outra obra e...
- Mas o senhor sabe arrumar esse piso?
- Fui eu que ensinei o trabalho pro meu filho, dona! Tô velho, mas sei o que fazer. Só tô um pouco cansado... Por isso atrasei.
- E o senhor me chamou para?
- É que eu vou ter que sair mais cedo porque minha mulher tá com câncer no corpo todo, sabe? Ela tinha um tumor há uns cinco anos e a senhora sabe como é a ignorância do povo, né? Na época ela não quis tratar e rasgou o tumor por conta e risco na cozinha lá de casa. Agora tá que não agüenta nem andar... O médico desenganou. E eu tenho que carregá-la nas costas de tão fraca que a pobre ficou. Grandona ela... Maior que eu! Mais alta que a senhora. Minhas costas tão que tão arrebentadas sabe, dona? Ainda errei o caminho, desci numa avenidona lá pra baixo e subi esses morros todos a pé até encontrar o endereço da senhora. Nem sei mais o que fazer da vida... Mas a senhora num se preocupe não porque até o fim do dia eu acerto esse piso todo. Já enfiei aquela bagunceira em sacos de lixo e deixei na calçada. É torcer pro lixeiro levar.
- Carregou aquilo tudo sozinho?
- O que são dez sacos de entulho pra quem carrega um fardo como o meu na vida, dona?
- Não é melhor o senhor ir pra casa cuidar da esposa? Eu falo com o Cristóvão depois.
- Não, não! Pra mim é uma alegria trabalhar porque é quando eu esqueço da vida. Duro mesmo é ir pra casa ou pro hospital e ver a minha preta naquele estado... Eu só queria mesmo pedir desculpas pra senhora pelo atraso.


Voltei para o quarto depois de tomar um café com o pai do Cristóvão. Fechei a porta, avisei que não queria atender o telefone e me joguei na cama de barriga para o alto. Fiquei um tempo olhando a cortina e as frestas de luz que entravam pela janela e dançavam refletidas na parede. Meus lençóis gelados e as fronhas de percal distraindo meu desconforto. O som distante da minha braço-direito-esquerdo cantarolando na cozinha se intercalava com o som da marreta quebrando o piso.
O que será de mim se, um dia, eu precisar carregar sozinha os meus sacos de entulho? O que será de mim se, um dia, os dias se tornarem mais sombrios do que as minhas madrugadas chorosas por coisa nenhuma? O que será de mim o dia que eu tiver que encarar os meus males ao invés de rasgá-los como faz a mãe do Cristóvão? O que será das minhas costas se for preciso carregar alguém maior que elas? O que será da minha arrogância se, um dia, eu depender da sua bondade? O que será de mim o dia que reformas não bastarem pra esconder meus alicerces? O que será de mim se eu tiver que confessar que não sou forte?

AlêFélix - Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

22.9.06

a geladeira não é minha.

A geladeira é do meu primo.

Comprei a máquina de lavar, ele comprou a geladeira. Foi um acordo. A gente tirou no par-ou-ímpar. E quem tirasse a máquina, tinha que comprar um ferro de passar também. E foi assim.

Sendo a geladeira dele, achei que não devia vetar aquela maravilhosa idéia de abrigar em "nossa" geladeira, mais precisamente em "nosso" congelador, a comida do amigo sem casa que surgiu. Amigo dele, entenda. Que veio de Recife pra cá. Também. E tava morando nesse apartamento que tinha uma grande geladeira.

O pai do tal menino veio de Recife pra cá. E se deparou com a ausência de comida na casa do filho, e percebeu que o menino tinha perdido peso, tava meio pálido, meio doentinho mesmo, foi bem aí depois dessas constatações todas que o velho foi e agarrou o filho pelo braço arrastando-o assim até o supermercado, onde comprou Todo o Estoque de Comida Congelada que lá havia (sadia e perdigão, esse tipo de comida congelada).

E foi embora e o menino ficou com toda a comida congelada do universo em casa.

Mas teve que se mudar alguns dias depois, veja só que peça o destino pregou em todos nós.

Sim, eu disse em todos nós. Mesmo nós, nós que sequer sabíamos que essa pessoa existia. Nós, que tentávamos viver nossas vidas em paz. Nós.

E.

O menino foi e se mudou prum flat.

Que só tinha um único frigobar. Pra toda aquela comida.

Compreenderam então o que aconteceu, né? Toda A Comida Congelada Do Universo. No congelador mais proximo de você. Porque amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração assim falava a canção.

Mas seu eu pego, mas se eu PEGO Milton Nascimento na virada da esquina.

So here we are. Sem congelador.

O tempo vai passando. E vai passando. As páginas da folhinha voam. Faz frio. Faz calor. Faz frio de novo. Vem chegando a primavera. O menino prometeu que viria aqui nos fins de semana. Pra comer, né. E não veio uma vez sequer. E as pessoas não querem comer a comida do menino. Porque vai que depois faz falta, né? Ó, acho melhor tu ligar pra ele. Porque tem 3 caixas de hambúrguer vencendo na sexta-feira. Três. Ou ele vem e come tudo, ou a gente vai ter que fazer uma... ahm... uma hamburgada?

Então o roomie ligou.

E a novidade é: o menino foi simbora pra Recife.

Pra sempre.

Do tipo não vai voltar mais. Não vai voltar nunca mais.

Já faz duas semanas. E eu nem precisei perguntar o motivo.

E esse viadinho escroto nem pra avisar? Eu me privando de coca light com gelo durante todos esses meses? Screw you guys.

Mas e agora?


Em que microondas as pessoas "cozinharão" essas tais Tirinhas de Carne ao Molho de Vinho com Purê de Batatas e Vagem? E o Filé de Frango com Gratinado de Brócolis, Cenouras e Arroz Primavera? E os pedaços de bode? O que eu vou fazer com esse bode, meudeus. É um bode de verdade, o bicho. Num é o meu bode espiritual, não. O pai do menino mandou matar um bode, esquertejou o coitado, colocou nuns sacos plásticos e trouxe pra São Paulo.

Todo-um-BOOODE!

Hein, hein?

(…)
the only living girl in gumercindo village

A Mansão Foster Para Amigos Imaginários

Uma e meia da manhã, liga o cliente:
- Fal, te acordei?
- Acordou (as pessoas não esperam essa resposta, ela querem que vc diga "Nããããão, eu tava praticando sapateado")
- Er... hum... ai.... desculpa, é que eu não consegui dormir pensando no trabalho.
- Sei, e vc não quer que eu durma tb.
- Rárárá, Fal, vc sempre divertida... em que parte vc está?
- Mais ou menos na metade.
- Mas assim, em qual parte especificmente?
- Vc quer mesmo que eu levante daqui pra ir ver número de página?
- Não Fal (fungada sentida) deixa pra lá. Esquece.

Na manhã seguinte, liga a caléga:
- Oi Fal, acabo de falar com o Zé Luís e, menina, ele tá super triste, disse que vc foi super grossa com ele.

Vítimas. Estou cercada delas. Eu mereço.

*

- Repete, Fumiga, que eu não entendi.
- Tá, amor, é assim: a gente vai dormir hoje, acorda às 3 e meia da manhã e vai fazer farra com a Maliu no Extra.
- Ah, foi isso que eu ouvi. Achei que tava tendo alucinações auditivas.
- Pô, vai ser tão legal!
- Sei. Vc e sua mãe, soltas no Extra antes do dia amanhecer?
- É.
- Mas é o que, tipo, vcs vão lá nessa hora pq....
- Pq ela tá com dificuldade de dormir e eu não durmo mesmo muito e é um passeio, um programão!!
- Programão!?
- Ai, Alê, como vc é chato, parece que eu sou casada com meu bisavô.
- Rá, se teu bisavô fosse casado com vc, ele te dava uma coça de cinta, Fumiga. E outra na tua mãe. Programa a Telefônica pra chamar a gente, senão a gente não acorda.
- EBAAAAAAAAAAA.
- Tonta.

*

Quando, desesperada, resmungo que não tenho um sapato decente pra calçar, ele revira os olhos. Quando, histérica, brado que não tenho nada pra vestir, ele diz "Ah, Fumiga, pelo amor de deus". Enfim. A lua-de-mel acabou. Esse homem não me entende.

¡Drops da Fal!

E O MP3 CANTA : PSYCHO KILLER, QU'EST-CE QUE C'EST ?

O que será que tem na cabeça um sujeito que, em pleno engarrafamento da hora do rush, depois de esperar por cinco longos segundos, resolve que o melhor a fazer é enfiar a mão na buzina e esquecê-la por lá ? Será que ele acha que todo mundo tá lá parado por pura distração ? Será que ele realmente acredita que tudo o que centenas de carros precisam pra se mover é de um gênio da raça que some o insulto à injúria, o calor e o desconforto ao barulho mais chato do mundo ? Ou será que isso é uma doença, talvez a mesma que acomete os energúmenos que crêem firmemente que, se eles socarem repetidamente e com força suficiente o botão do elevador, ele vai magicamente se materializar no andar pretendido, ou pelo menos se reprogramar sozinho para funcionar no triplo da velocidade ? Será que quem age assim é o mesmo tipo de pessoa que ao ligar por engano no seu telefone – normalmente num domingo bem cedo, na hora do almoço ou quando você está bem no meio de um agradável torneio de nude jiu-jitsu com seu companheiro de cama – continua insistindo que “esse número aí é o da Cleidinha sim, foi ela mesma quem me deu” mesmo depois que você já falou três vezes que a Cleidinha não mora aí, você nunca a viu mais gorda e que, pelamor, ele desligue porque você também tá querendo dar ? E por que será que esse tipo de atitude não é passível de pena de morte em nenhum lugar do universo, ou pelo menos não costuma ser aceito como atenuante muito-muito atenuante no caso de alguma hipotética gordinha neurótica com enxaqueca feroz e estômago instável há uma semana perder o autocontrole e enfiar um canivete de mola cinqüenta e oito vezes no pescoço do infeliz ? Eu acho que devia. Mas bom, sei lá, isso é só uma opinião. Totalmente desinteressada.

Cyn City

21.9.06

NO CROSS, NO (WEIGHT) LOSS

Aí, depois de anos sem fazer nada disso e de meses ameaçando começar e não cumprindo por falta de ânimo, grana, tempo, grana, estacionamento ou grana, finalmente comecei a fazer exercício. Desisti da hidroginástica, ou hidrobike (que imaginei que detestaria menos do que outras modalidades, já que não iria me sentir suar, estando dentro d’água) porque nunca tem lugar pra estacionar na porta da academia de natação/hidro etc. que eu queria freqüentar. E sim, fica perto, pertíssimo da agência, e se eu tivesse vergonha na cara dava perfeitamente bem pra ir a pé, mas depois que eu fui assaltada com revólver na cara há dois anos, venho ficando progressivamente mais medrosa e covarde a cada dia que passa. Fora isso tem a preguiça, que além de grande, é enorme. E ah, peraê, se eu quisesse andar, ia fazer esteira ou caminhada logo, né não ? Bão, aí uma colega falou de uma outra academia que tem aqui perto e ela tá fazendo aula lá e putz, se ela tem sessentinha e dá conta, é bem possível que minha frágil e flácida pessoa vinte anos mais nova que isso também consiga, né ? Além do mais, gostei dos principais pontos de venda do boteco : primeiro, a academia é só pra mulher, eliminando reduzindo drasticamente a possibilidade de paqueras, o que diminui significativamente o contingente de babaquinhas caçadoras de emoções e monopolizadoras de aparelhos; não havendo homens, não há desfile de roupitchas, nem de peruas maquiadíssimas, e felizmente também de nenhuma sílfide escultural, pra passar raiva e inveja em nosotras, las viejitas fofas; não sei se por causa do corpo discente predominantemente rechonchudo, não há espelhos a não ser no banheiro, o que nos livra de descobrir, numa olhadela casual, que aquela bunda de hipopótamo que você tinha vislumbrado ali à direita no leg press é nenhuma outra que não a sua própria; a rotina de exercícios é feita em meia hora, incluindo aquecimento e alongamento, e as séries são feitas em circuito, sem pausa entre os aparelhos; é tudo totalmente individual, portanto não tem como colocarem você pra fazer algum exercício junto com alguma mulé suada que você nunca viu e poderia perfeitamente bem continuar sem ver e, mais importante ainda, sem TOCAR, pelo resto da sua vida. E o principal : tem estacionamento na porta, com segurança/manobrista educadíssimo. Então fui lá testar o terreno. E a mocinha-bonequinha-gerundista que me atendeu foi tão gentil e fofa que eu nem consigo falar mal dela, por mais que ela tenha me contado, com ar compenetrado e terminologia simplificada, pra tia burra aqui entender, coisas sobre fisiologia e exercícios e saúde e o caraglio d’oro que eu já tava careca de saber – e algumas até de praticar - quando ela ainda nem era um ovinho de codorna no prato do seu jovem papai. Aí me pesaram, me mediram (aparentemente, já encolhi um centímetro ou dois), me fizeram tirar todos os meus anéis e pulseira e relógio e segurar um aparelhinho que passa corrente elétrica pelo corpo da gente e diz o percentual (percentual ? porcentual ? anyone ?) de gordura no corpo do vivente. A corrente elétrica em si é fraquinha e totalmente imperceptível, mas o choque que eu levei ao ouvir a bonitinha dizer que eu tô com mais ou menos 37% de gordura corporal foi de arrepiar até cabelo encravado em cotovelo com psoríase (não, num tenho isso não, é só jeito de dizer, oras. Pêlo encravado em pele supergrossa, entendeu ? Então.). Minha pobre mente corroída pela NTAP galopante, e que além disso sempre foi péssima em matemática e demais ciências exatas, já começou a fazer as contas à sua maneira prejudicada e a decretar que se eu sou formada por 33,3% de água e 37,5% de gordura, praticamente uma ameba, os 29,2% restantes devem ser os ossos pra sustentar meu enorme peso, e portanto eu não tenho um músculo no corpo e, obviamente, nem vísceras. Sabe aquela história de “fazer das tripas coração” ? Comigo não. Eu não tenho coração, babies, sou um bacon vivo, um torresminho ambulante, um vidrinho de Hellwomann’s com pimenta – mas sem o vidro. E foi isso que me convenceu a assinar o termo de compromisso liberando o povo lá de qualquer ônus caso eu caia morta no meio do salão. É que se eu não tenho coração, nem, obviamente, cérebro (da ausência dessa víscera eu já suspeitava há um tempinho), é praticamente impossível que eu venha a sofrer um infarto ou um derrame, mesmo com toda aquela música baiana no último volume, todas as professorinhas adolescentes animadíssimas e gritantes, a vozinha de robô que diz “Mude. De Estação. Agora.” de 30 em 30 segundos e a desoladora paisagem - feminina pra onde quer que se olhe, ugh – ao redor. Mas vamo nessa, né ? Esporte é vida, esporte é saúde, esporte é... um saco. Mas eu não posso mais fugir.


Cyn City

5.9.06

O stand-up da montanha

O judeu, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e aproximou-se a platéia, e ele pôs-se a fazer seu stand-up, dando início a uma tradição étnico-vocacional que iria durar uns bons dois mil anos ou mais:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, esses seres geniais – até porque restam pouco de nós hoje, hm?” E eis que um dos discípulos bateu os pratos da bateria, e eis que a platéia riu. E o judeu prosseguiu:

“Bem-aventurados os que choram, porque pagar seis shekels no mercado por um cabrito para o Pessach não tem base. Por Javé, há que se pechinchar!”

“Bem-aventurados os mansos, principalmente os que chegam em casa e pegam a mulher na cama com um centurião romano: dar uma de bravinho numa hora dessas é passar pelo fio da espada, na certa.”

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque permanecerão com a silhueta que pediram a Javé, ao invés de engordar comendo ou bebendo bobagem”.

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque coronária entupida é o fim”.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados por termos inomináveis pelo lobby da indústria bélica mas poderão posar de esquerda chique.”

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque haverá um tempo em que será totalmente in ser presidiário, e ainda por cima controlar uma rebelião sem sequer sair da prisão”.

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e disserem todo o mal contra vós por minha causa, pois podereis retrucar ‘ei, eu vi o primeiro stand-up dele e já percebi que não tinha a menor graça!’ “

E a todas estas se ria muito a multidão, e o judeu continuava:

“Vós sois o sal da terra; os sírios são a massa; os egípcios a calabresa; os bretões a cebola e os gregos as azeitonas: cuidai que os romanos estão aí a inventar um novo prato para patentear e comercializar no futuro.”

“Vós sois a luz do mundo – então virai um pouco para lá, pois nada pior na hora de fazer um stand-up do que o facho do holofote na cara.”

“Não pensai que vim destruir a lei ou o que disseram os profetas: os escribas semi-analfabetos já cuidam disso.”

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sequer olhar para uma mulher para a cobiçar deverá pensar antes nas juntas de bois, nos côvados de terra, nas vinhas e nas oliveiras que a esposa levará depois do divórcio – e então aquietará seu cajado.”

“Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o fora. Se tua mão direita é motivo de escândalo, corta-a e a lança longe de ti. Mas pára com os escândalos por aí, ou esta auto-flagelação reduzir-te-á a um bizarro homem-tronco”.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que a qualquer um que vos bater na face direita – sinalizando pois um desafio para duelar – optai pelo velho olho por olho e dente por dente mesmo, que é mais prudente acabar cego e banguela do que perecer em um duelo ridículo”.

“Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vosso próximo, odiai vosso inimigo e contai com um bom advogado”.

“Olhai as aves do céu, que não semeiam, nem guardam provisões, pois já têm quem faça isso por elas. Olhai os lírios do campo, que não trabalham nem fiam, pois sabem que há quem proverá tudo para eles. Ou seja, acabais de ouvir a primeira metáfora para a mãe judia”.

E mais e mais a multidão se ria, e a cada bem-aventurança do judeu o discípulo batia os pratos, e cada vez mais a platéia se animava. Eis então que o judeu foi chamado a um canto por um homem, que lhe apresentou um cartão, disse ser um agente e pediu ao judeu para procurá-lo na segunda-feira. Entretanto ele advertiu: “Só cuidai para evitar piadas com a mulher de Herodes. O stand-up que te antecedeu, o Batista, incorreu nesta imprudência e pediram a cabeça dele.” E o judeu cochichou ao agente: “Tu sabes que stand-up é mesmo um martírio. Quando não são pessoas influentes se incomodando com o que dizemos, é a crítica nos crucificando”. E eis que o judeu guardou o cartão do agente e voltou à montanha; e assim prosseguiu, dizendo à multidão:

“Quereis agora ouvir a piada do bom samaritano ou a anedota do filho pródigo?”

E a todas estas a multidão se deleitando, pois via que rir era bom.

Ao Mirante, Nelson

28.8.06

Eu quero que Plutão se foda.


catarro verde

20.8.06

Lições de vida

Livros que ensinam que as pessoas devem amar mais a si mesmas para ter uma vida mais longa são os livros mais perniciosos que existem, pois quem lê esse tipo de livro é idiota e, afinal, a quem interessa idiotas amando mais a si mesmos e vivendo cada vez mais e mais? Quem deseja narcisistas cretinos praticamente imortais?


o sinistro

11.8.06

Chaves

“Sabe por que não dá mais pra ficar com você? Porque você nunca usou a chave que eu te dei. Você sempre chega, interfona e, mesmo que eu esteja avisada pelo interfone, você ainda assim toca a campainha. Toda vez. E nunca nem pensou em me surpreender um dia, me esperar em casa sem avisar, passar aqui e deixar uma lembrancinha besta dessas que gente que gosta deixa. Aí, quando eu uso a chave que você me deu para entrar no teu apartamento sem bater, me sinto culpada. E não adianta dizer que é porque lá não tem porteiro. A verdade é que eu quero entrar na sua casa e na sua vida, e você não quer entrar na minha. E trata de deixar a chave em cima da mesa quando for embora”, ela disse, batendo a porta do banheiro.

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“Um mês, e ela ainda não me deu a chave do apartamento dela. Um mês. Quando você dá a chave do seu apartamento pra namorada, o único jeito de retribuir é que ela te dê a chave do apartamento dela, caceta. É aquela famosa história do ‘eu te amo’: quem diz eu te amo não quer ouvir ‘eu também’, e muito menos, sei lá, ‘ah, que bom’. Tem presentes, declarações, que só se pode retribuir de um jeito, um único jeito, e quando a retribuição não vem, isso quer dizer alguma coisa, alguma coisa muito mais séria do que o gesto original queria dizer: se dar uma chave é um murmúrio, não retribuir com uma chave é um grito. E é por isso que hoje à noite eu vou pedir minha chave de volta, e ela que se foda”, ele pensou, enquanto se barbeava.

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Na gaveta de baixo da mesinha de cabeceira, por sob cartões postais em que os amigos e parentes se gabavam de viagens que ele mesmo nunca faria, guardava chaves em desuso, de casas, gavetas, carros, cofres, o detrito de duas décadas de portas que por um motivo ou outro se haviam fechado definitivamente para ele, e, em meio às lembranças, a chave pequenina, dourada, que um dia recebera embrulhada para presente pendurada em um chaveiro enfeitado por um personagem de desenho animado que, segundo a responsável pelo presente, era “a cara dele”. Enquanto acrescentava uma nova chave à coleção de portas que não mais se abririam, ele tilintou o chaveiro que ainda levava no bolso passados mais de 10 anos, e pela primeira vez pensou em jogar no lixo a desbotada efígie de Hardy Har-Har.

Filthy McNasty

10.8.06

De mãos dadas

A realidade é uma puta de rua. Não foi difícil encontrá-la: ela me abordou na primeira esquina. E aí, vamos? Vamos. Fui com a realidade ao quarto 15 de um hotelzinho sujo do centro da cidade. E então, o que vai ser?, ela perguntou ao chegarmos. Nada, eu disse, eu quero dormir de mãos dadas. Ela demorou a entender. Você não quer foder comigo?, perguntou, irônica. E eu disse não, não quero, eu só quero dormir de mãos dadas. Aí ela desatou a chorar, coitadinha. E o pior é que a realidade não tem consolo. Mas pelo menos naquela noite eu não paguei por ela.

diferença nenhuma

mais uma da série "meus amigos taxistas"

era um dia qualquer da semana e eu peguei uma carona do meu cliente até a av pompéia, fiquei num ponto de táxi na frente do hospital são camilo. entrei no primeiro táxi da fila e expliquei que vinha pro cambuci. o moço me pergunta "a senhora tá bem de saúde, tudo direito?". sim, eu disse, expliquei que fiquei ali na frente do hospital só de carona mesmo. o carro dele era simpático: meio antigo, mas bem limpo e arrumado.

fico com meus pensamentos um pouco, remoendo meu atual problema de stress por conta do meu perfeccionismo excessivo, de trabalho demais, etc. e eu, que não sei ficar pensando quieta, pergunto: o senhor está trabalhando desde que horas? "desde as 4 da manhã, moça" (são 9 e meia da noite), "e só largo lá pras 11 ou meia-noite". eu disse "caramba! até chegar em casa o senhor deve demorar, como o senhor dorme pouco!". ele ri e explica "não, moça, eu moro aqui mesmo, nesse táxi, eu literalmente durmo no ponto!".

peralá. como assim, ele dorme no carro? neste carro que eu estou agora?! olhando melhor, se percebe um certo ar de casa no carro: porta-copos, um despertador "adaptado" no teto do carro ao lado do retrovisor e algumas coisas bem pessoais espalhadas. até um arremedo de abajur tem, mais aqui pro lado que eu estou sentada, atrás. ele me explica que come, toma banho e se ajeita como pode (whatever it means) no boteco ali perto do ponto, o moço liberou o chuveiro pra ele. as roupas ele carrega no porta-malas.

já interessadíssima na história, pergunto: "mas... e sua mulher, família? o senhor tem casa, como é isso?". sentem, que agora é que vem a história.

ele tem seus 55 anos, mais ou menos. foi casado, teve 2 filhos, uma menina e um menino. sua esposa, quando seus filhos tinham 6 anos (o menino) e 1 ano e meio (a menina), decidiu arranjar um emprego "em casa de família" pra ajudá-lo com as despesas, ele era jornaleiro. foi trabalhar na rua lisboa, num apartamento de gente fina. a esposa dele, no fim de um dia de trabalho, enquanto batia papo com a colega e esperava o elevador, abre a porta do dito cujo e entra. acontece que O MESMO não se encontrava no andar e a nossa heroína morreu espatifada no terceiro andar, sendo que ela estava no décimo-segundo. (parênteses aqui para a paula e demais: o mesmo é nosso amigo. se ele estivesse lá, a moça estava viva e essa história não teria acontecido)

depois de conseguir evitar que ele me contasse detalhes minuciosos da posição do corpo da falecida e outros detalhes escabrosos, eu quis saber o que houve. ele ficou com 2 crianças pequenas pra cuidar e trabalhando o dia todo, com não mais que 21 anos. o infeliz tem 6 irmãs, que se recusaram a ajudá-lo a cuidar da menina pequena, dizendo que "criança dá muito trabalho". eu, enxerida: "que vacas...! ops, o senhor me desculpe, sei que é família, mas..." ele não se ofendeu, acho. acabou sendo socorrido pela tia, uma senhora que o ajudou com a menina. o menino foi trabalhar com ele na banca de jornal enquanto não estava na escola.

pouco (pouquíssimo, pelo jeito) tempo depois, diz que uma moça muito bem arrumadinha (sei...) que sempre comprava jornal pro patrão ali com ele todo dia chegou com mala na mão e chorando. resumo: estava grávida e o patrão mandou embora, a pobre não tinha pra onde ir e ai meu deus... ele, bom rapaz que é, acolhe a moça. acolhida a criatura, ele pensa: por que não unir o útil ao agradável? a moça fica aqui, eu a ajudo com o filho que está pra nascer e ela me ajuda com os meus. acordo perfeito! ela gosta da idéia, mas como é moça direita (seeeeeei...) só aceita o acordo se casar, de papel passado. pois eles casam, no cartório com testemunha e tudo o mais. dia seguinte do casamento, quando ele combina de ir pegar a menina pra trazer de volta pra casa e já esquematiza tudo pro menino ficar junto, em casa, a esposa se vira pra ele bem abusada e diz: "e eu tou aqui pra cuidar de filho de outra, é? não senhor, se quiser contrate uma empregada!". bom, pra resumir a história, ele botou a esposa, o barrigão e seus panos de bunda todos na rua e esqueceu do casamento. diz que mais de 20 anos depois ela veio pedir o divórcio e ele até deu, porque ficou com pena (a santa queria casar de novo), desde que não precisasse ver a cara da ingrata. dei até parabéns pra ele, praticamente bati palmas!

bem, a continuação da história é que ele continuou sozinho, os filhos cresceram. a menina já teve dois filhos que ele adora e "ela pede dinheiro só de vez em quando, sabe? eu dou", me conta. o menino, por outro lado, já é um marmanjo de 30 e vive rodeando o pai, pedindo dinheiro, é vagabundo. por isso mesmo ele deu esse jeito de morar no táxi (pelo menos durante a semana: de fim de semana ele vai pra sua casinha em pirituba): desse jeito não tem ninguém querendo morar com ele e nem enchendo o saco. não quis casar mais (não me admira), e quando alguma namorada vem com história de casar ele logo oferece: "vem morar comigo no táxi, princesa!". nenhuma aceitou, até hoje.

zel

9.8.06

Os esquimós têm 24 palavras diferentes para Neve

Os brasileiros têm 422 pra cachaça.

dies iræ

Notas de viagem

— Georgette, como é mesmo aquela história do seu namorado espanhol durante a Segunda Guerra?
É depois do almoço, estão todos recostados nas suas cadeiras, e se voltam para Georgette, que não se faz esperar, e fala. Fala da invasão alemã, da tomada de Paris, da França ocupada, do racionamento, do medo, dos subterfúgios, das maneiras de se sobreviver ileso ou quase em território tomado pelos nazistas, conta tudo com sê porrtugué com forrt sotác de francé — e outras partes em francé legitim —, o que me fez perder muitos detalhes importantes, creio.
Sua história começa em Parrí e desce de trem até os Pirrinê, na divisa com a Espanha, onde morrava o tal namorrád. Seus olhos brilham mais que o normal e vão se enchendo de água enquanto ela se lembra dos detalhes, cantarola a Marselhesa, cita a casa construída em terreno binacional — último lote francês com fundos já em Espanha —, usada para certas clandestinidades, das boas e não tão boas, e de como a casa era usada para a travessia da fronteira, foi nessa casa que...
Toca o telefone.
— Alô? — atende alguém — Oi, querida! Chegou bem? — pausa — Sim, estamos todos aqui. Georgette está nos contando como perdeu o cabaço.

Branco Leone

problema

Eu vendo meu tempo.
E daí eu ganho algum dinheiro
Como ele não é suficiente, eu vendo todo o meu tempo
E daí eu consigo um pouco mais
Mas daí eu não tenho tempo para nada
E me deprimo
ou fico procrastinando os deveres até eles explodirem em cima de mim
Normalmente, eu faço as duas coisas...
Maldita revolução industrial!

deserto

6.8.06

rosa

Começou de forma bem sutil. E não foi assim que nasci, mas ainda na primeira década. Lá pros 8. Tomou conta de tudo. Na adolescência quis renegar. Mania de querer ser grande antes do tempo. Como se tivesse alguma coisa a ver, rá rá. Quanto ficou na moda eu já tinha retomado o gosto. Pois é isso. Ele agora reina absoluto. Começou discretamente, só em algumas roupas. Depois nos sapatos. Uma bolsa. A carteira que a irmã me deu. A pedrinha do colar presente do namorado. Pra finalizar, contagiou o celular. E agora, não me perguntem o porquê, estão me chamando de Sula Miranda no plantão.

sorriso lexotan

3.8.06

Mas como dói

Eu não tenho porta-retratos na parede, na minha mesa nem no desktop do computador, no trabalho. Primeiro porque eu já tenho as imagens dos meus queridos tatuadas onde importa - ou seja, right under my skin -, não acho que a alguém mais interesse que cara eles têm, e depois porque a mesa já tá mesmo atulhada de outras coisas. Além do mais, pra que mesmo é que as pessoas têm porta-retratos no trabalho ? Segundo o Seinfeld (ou o Larry David, vai saber) é pro sujeito não se esquecer de que tem família. Sabe como é, chega o fim do expediente, a pessoa se levanta pensando “agora eu vou encher a cara, sair por aí, pegar umas mulé” (ou dar pruns carinhas, conforme o sexo e a inclinação do(a) trabalhador(a) em questão) e aí, pá, bate o olho nos porta-retratos e imediatamente a ficha cai, o superego acorda e o quem-é diz “uh-oh, não vou poder, olha só, acabei de lembrar que eu sou casado e tem gente me esperando em casa...”. Mas essa é a teoria dele, ou deles. A minha é de que as pessoas mantêm os retratos dos filhinhos inocentes e zoiúdos, da amantíssima esposa, da mãe velhinha, do marido sensacional e dos bichinhos de estimação indefesos, todos ali montando guarda em cima da mesa, encarando firmemente o cidadão, só pra ele não perder as estribeiras a cada vez que ouve uma barbaridade, sofre uma grosseria ou leva um golpe no amor-próprio no horário comercial. É como se as fotos dissessem “Não, papai (ou querido, filhinho etc., cê entendeu), não mete o pé na boca do seu chefe, não chuta a bunda da recepcionista, não dá um rabo-de-arraia no colega, não chama o patrão de babaca, não manda ninguém enfiar o emprego, a vaga na garagem, o contra-cheque lá onde o sol não bate, por favor... você tem que nos sustentar, lembra ?”. E aí me ocorre que talvez seja por isso que eu não tenha parado por mais de dois anos (ou, nos últimos casos, de alguns meses) nos meus últimos empregos : por falta de porta-retratos com chantagem sentimental e despertador de prudência incluídos. Eu continuo satisfeita aqui e continuo não querendo botar as fotos do meu lindo gatinho e da minha gata em cima da mesa, expostos à perscrutação, perguntação e avaliação públicas, mas como nenhum lugar é perfeito, é bem possível que em breve eu também acabe precisando de uns hiperegos desses. Hmmm... será que fica muito estranho se eu emoldurar e colocar em cima da mesa os carnês do plano de saúde, do condomínio, do telefone, da água, da TV a cabo, do provedor de internet... ?

cyn city

17.7.06

Prosa Caotica

Amar é sofrer, eu vou te dizer. "Não se esqueça de trazer uma lagosta pra mim", disse ela bem assim na beira do cais antes de eu partir para um mergulho de onde não sabia se voltaria. Agora aqui, a 45 metros de profundidade, e descendo cada vez mais, fico me perguntando por que não a mandei à merda, sem endereço. Desde criança que tenho dois sonhos: resgatar do fundo do mar a cruz do bispo Sardinha e me apaixonar por uma samurai que pisasse minha garganta até que me faltasse o oxigênio pra eu gozar. Se isso é pecado, me puna. A cruz do bispo eu ainda não achei, mas continuo mergulhando, e fundo, muito fundo. Tão fundo que acabei descobrindo Isabel dentro de uma ostra, escondidinha. Hoje vivemos juntas, só eu pago o aluguel enquanto ela arde na Fogueira Santa de Israel. Amar é sofrer, não preciso dizer mais do que as canções banais: é só uma gota de sangue verbal, apaixonei-me por uma obreira pentecostal.

Prosa Caotica

A Tirania das Bananas

De todos os objetos e pessoas que povoam minha vida, a banana é dos poucos que consegue cercear minha liberdade e impor sua vontade a mim.

Gosto de fazer tudo na hora que eu quero, do jeito que eu quero. Bem coisa de artista excêntrico. Na época em que eu tinha TV, por exemplo, programava o vídeo e deixava tudo gravando. Não vou ser obrigado a ver o programa na hora que a emissora quer: vou ver quando eu quiser.

Mas a janela de oportunidade da banana é muito pequena. Ontem, estava verde e incomível. Amanhã, estará podre e incomível. Ela exige ser consumida naquele dia específico: não importa o que você cozinhou, quem está recebendo, o que tinha planejado, se foi convidado pra almoçar. Tem que ser hoje ou nunca.

(…)

Compro muitas frutas. Maçãs, pêras, ameixas, uvas, abacaxi, grapefruits, goiabas. Todas elas sabem se comportar. Nenhuma tenta dominar minha vida ou meus horários. Sabem seu lugar. As maçãs e pêras ficam na geladeira indefinidamente. Não me pedem nada. Se eu ficar uma semana sem tesão por maçã, elas continuam lá, me esperando submissamente, e estarão deliciosas na outra semana também.

Só a banana me tiraniza.

Liberal, Libertário, Libertino

PLAYING WITH MY FRIENDS - LU

Cynthia diz:
E você já tá pensando em nomes pro neném ?

Luluzinha diz:
Tava pensando em nomes pra homenagear e entregar os culpados pela gravidez inesperada, né ?

Cynthia diz:
E quais são ?

Luluzinha diz:
Lambrusco ou Valpolicella.

Cyn City - UOL Blog

15.7.06

Hit and run run run

Fui atropelada por um mustang amarelo.
Achei de que depois de velha, nós românticas teríamos aprendido. Mas não. Isso nunca se aprende. Eu vou me apaixonar no asilo pelo bilhete que o velhinho que eu NÃO VI me mandou. É isso aí, é assim que é.
E agora tudo que eu queria era ser os lençóis da cama dele.
E casar com ele de vestido branco com as coxas de fora e cortar as unhas do pé dele e fazer a barba dele com navalha três vezes por semana, só pra ter certeza que ele confia em mim.
E ele nem sabe.
É, eu continuo sendo eu.

adios lounge

A beleza da idéia da reencarnação é que talvez não tenhamos sido brasileiros na outra vida. “Lord que eu fui de Escócias doutra vida”, escreveu Mário de Sá Carneiro. Mas mesmo um guatemalteca já seria bom. Até mesmo uma prostituta de Montmartre que tivesse dado para Toulouse Lautrec e passado sífilis para Maupassant. De modo que da próxima vez que alguém dissesse que você não passa de um brasileiro, você poderia dizer: “Sim, mas na outra vida eu era uma francesa banguela e sifilítica”.

Alexandre Soares Silva

11.7.06

NO MCDONALD'S

— Vem cá, que animal que mata pra fazer bife de soja?
— Hahahaha.
— É... Você tá rindo, mas também não sabe não!

Enviado por Thiago Oliveira.
conversas furtadas

Nenhum jogador é maior que o jogo?

(…)
Boa, Zizou: nos lembrou que só tem cabeça quem um dia sabe perdê-la.

Fakerfakir

UM LITRÃO DE AMOR

Decidi fazer vasectomia, depois de dois filhos no mundo. Não esperava as reações mais desbaratadas entre os próximos. Minha mulher considerou um ato de extremo amor, já que encerrava com ela minha carreira fértil de varão. Abraçou-me com as pernas, emocionada, como se houvesse a pedido novamente em casamento.

(…)

* * *

Estranho é que mantinha provisoriamente a fertilidade. O médico avisou que havia chance de gerar filho (numa hipótese remota, mas estatística) nas primeiras 25 ejaculadas após a operação. O risco é que sobrasse Fabricinhos no saco. Concluídas as vinte e cinco, teria que levar uma amostra do esperma para a análise e receber a sentença final. Comprei um quadro-negro e botei na parede do quarto no lugar do "O beijo", de Klimt, guardado debaixo da cama.

* * *

Péssima idéia. E eu sou homem de contar trepadas? Estava destinado a registrar cada desempenho com um toque do giz. Porém, me afligiu uma dúvida e a transparência do relacionamento dificultou o raciocínio. As punhetas, o que faria com elas? Marcaria também no quadro? Passei a roubar minhas próprias gozadas e a esposa inventou de apagar algumas dizendo que estava me apressando e que não sabia ser honesto nem durante o sexo. Não ia dizer que homem casado também se masturba... Arrumei um controle paralelo nos papeizinhos amarelos, somando as transas reais e as fictícias.

* * *

O triste é que alguns pacientes entendem errado o aviso das vinte e cinco golfadas. Ao invés do potinho de laboratório com a vigésima sexta ejaculação, um deles apareceu no consultório com um litrão de coca-cola e entregou ao doutor, alegando que tinha sido difícil coletar tanta porra. Durante dois meses, gozava dentro da garrafa. Quase se apaixonou por ela, quase morreu no gargalo.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

5.7.06

Brasil versus França

Bom, a seleção brasileira de futebol levou uma bela ensaboada dos comedores de baguete. Já os brasileiros aqui no Brasil, amontoados em volta dos televisores, engoliram a seco, já pressentindo o humor argentino que se seguirá durante a semana. Até aí tudo bem, é assim que a máquina funciona. Toma lá, dá cá.

Lembro muito da copa do México de 1986, quando ganhei uma camisa canarinho, de algodão, amarela dos punhos e golas verdes. Estampado o nome Sócrates nas costas. Fui com meu pai em uma lojinha chimfrim comprar. Era uma camiseta que eu adorava. Quase mágica, por sinal.

A seleção tinha passado para as oitavas e o pai do Milton, amigo dos meus pais, convidaram os amigos mais próximos para assistir o jogo Brasil e França na mansão dele. Seria uma festança daquelas de não se esquecer mais: churrasco, muita bebida e uma televisão gigantesca de umas 27 polegadas.

O Brasil perdeu nos penales. Para a França.

A festa acabou, aquele clima legal verde-e-amarelo ufanista sucumbiu, os homens esbravejavam e as mulheres choravam. Adolescentes rasgaram suas camistas da seleção, Tacaram fogo na churrasqueira, queimaram bandeirinhas, bandeirolas e flâmulas nacionais, queimaram as camisetas rasgadas, praguejavam. O finado Telê Santana era o homem mais odiado no momento, por trazer tamanha vergonha nacional.

E eu ali no meio, sem entender nada.

Aí veio um adolescente ruivo cheio de espinhas, filho de um ricão e ordenou: "Tira a camiseta moleque!" Porra, o desgraçado arrancou minha camiseta de algodão novinha que eu gostava tanto e tacou na fogueira ufanista que flamejava uma fumaça fedorenta e preta.

Percebi naquele momento o quanto esse nacionalismo volátil brasileiro é pueril e fétido.

E até hoje a coisa desanda para a mesma merda.

ÓPIO - DIÁRIO ELETRÔNICO ENTORPECENTE

O ato de se vestir

Antes de qualquer coisa os homens precisam entender um conceito básico: roupa para mulher é ornamento. A gente não usa roupa para se proteger do frio ou para cobrir as partes pudendas. Mulher se veste, salvo raras exceções, para ficar mais bonita.

O grande problema é que nós somos exigentes, auto-críticas e temperamentais em relação ao vestuário. Não adianta tentar entender porque uma saia estava caindo superbem na semana passada e hoje ela deixa a bunda da sua parceira do tamanho do Maracanã. Essas coisas acontecem, as roupas e os espelhos tendem a ter comportamentos diferentes dependendo das condições de temperatura e pressão pelas quais passa uma mocinha.

A relação das mulheres com a suas roupas é quase um dogma: existe, mas não dá para explicar. Para evitar a chatice de esperar, leia um bom livro, ligue a TV, navegue na Internet, mas nunca, nunca pergunte o porquê da demora. É um sinal de compreensão e respeito. Inclusive porque a resposta a essa questão é simples: ela demora por você.

Mulheres com Legendas

Bom dia?

(…)
Um "bom dia", de verdade, soa quase como um "eu te amo".

Alea Jacta Est

4.7.06

SEM MAIS NEM MENOS.

Não, a vida não nos explica nada. Ela faz o que bem entende, inventa moda, faz firula, sai de lado, nos deixa com uma mão na frente e outra atrás, sem lenço e sem documento, sem eira nem beira e é isso. Nem bispo tem pra reclamar. Não tem manual de instruções, não deixa consultar os universitários, não obedece as universais leis da física, não tem intervalo, prorrogação, pênaltis, replay, não tem tapetão. A vida chega e pum, apresenta a conta, demanda atitude, não quer nem saber se o pato é macho e exige o ovo, não ouve embromação, não aceita desculpa. A vida não nos dá garantia nenhuma de que é isso mesmo, agora sim, agora vai, acertei, certificado ISO 14000. Não. A vida não é um teste que a gente passa e pronto, tá habilitado, nem um grande problema a ser resolvido. É um quebra-cabeças mutante onde mudam as peças, muda o desenho, muda você e muda o tabuleiro. A vida é foda.

Megeras Magérrimas

2.7.06

Instantâneo

Ele descansa sua cabeça no colo dela. Enquanto os dedos suaves que ele conhece de longa data deslizam por seus cabelos, tenta pensar em como introduzir seu assunto, que não é outro senão o rompimento. Mas não consegue raciocionar, a sua mente parece prestar uma atenção obsessiva no barulho da água que corre tranqüila e melíflua a uns dez metros dali. Decerto foge do que precisa ser feito. Ele sabe disso, mas não consegue ganhar a briga. Então é isso, vai deixando a cabeça ali, identificando pensamentos periféricos sobre ser aquela leve pressão nas têmporas sentida pela última vez, volta ao barulho do riacho, os lábios sempre fechados. E ele sofre nas bordas do momento em que quem vai sofrer é ela.

é por aqui que vai pra lá?

(…)

Thierry Henry foi à escola de oito às cinco e parece que isso lhe fez muito bem.

(…)

CrissMyAss

29.6.06

Design by Capitu, a oblíqua

Fico sabendo na sexta que no sábado um amigo antigo do gatim ia se casar e a encarregada de achar o presente era, claro, yours truly. Bão, levando em consideração que:
1- eu nunca vi a noiva mais gringa;
2- não vemos o noivo há anos e eu mesma não o conheço tão bem;
3- o casal de lá mora na Suécia, pra onde deve voltar em breve;
4- o casal de cá não anda especialmente endinheirado;
5- o presente tinha que ser pro casal (ou seja, pra casa), comprado na última hora e não podia ser muito pesado (nem na bagagem deles nem no nosso cheque especial),
convenhamos que eu me vi sem muita margem de manobra. Mesmo sabendo que eles moram na terra da ikea, me mandei pra Tok & Stok em busca de algo que não nos fizesse passar vergonha nem (muita) raiva neles. Não foi fácil. Quando finalmente cheguei ao meu short-list, liguei pro marido desnaturado em busca de apoio :
- Lindo, sou eu. Tô procurando o presente de casamento do Martinho e tá difícil.
- Aquele kit de fazer caipirinha que você tinha falado não tem mais ?
- Só tem um, que tá compondo um ambiente, e quando é assim a menina diz que eles não vendem. E ainda que vendessem, é muito pesado, tem um copo enorme de vidro grossão, pesa mais de quilo. E é frágil.
- E aí?
- Então tô entre uns enfeites simples mas legaizinhos, coisas que eles não vão achar lá: umas esculturinhas de ferro de uma designer brasileira ou um jogo de 3 tigelinhas bem rústico, mas bem bacana. É bonitinho mesmo, parece indiano, ou indígena, sei lá. É indie, de qualquer forma...
- É leve?
- É, sim. Não sei bem do que é feito, mas parece chifre...
- Chifre?
- É.
- Pro presente de casamento?
Fui de esculturinhas. Ferro neles. Melhor assim. Mesmo que a ascendência da moça seja viking, e que ela possa considerar as guampas como coisa viril e honrosa, melhor respeitar a brasilidade nagô do noivo... e os nossos dentes. Nada de chifre.

cyn city

28.6.06

EMPREGO

Não gosto de literatura, odeio escrever, nunca vou ao cinema -- não sei como tudo isso se juntou. No começo de 82 fui fazer uns biscates em Buenos Aires e li nos classificados que procuravam alguém para auxiliar um velho. Achei gozado o que pediam no anúncio: "Dá-se preferência a quem não goste de filmes." Fui ver. Parece que em Buenos Aires são poucos os que não apreciam perder tempo no escuro do cinema. Cheguei lá; a mulher dele -- que no começo pensei ser a secretária -- , uma japonesa, me recebeu. Fui levado à sala dele. Idoso mesmo, uns oitenta e tantos, por aí. E cego. Achei gozado um cego numa sala cheia de livros. A japonesa confirmou meu desapego pelo cinema ("Desprezo", insisti) e me explicou: eu iria receber para ler livros técnicos sobre os fundamentos do cinema -- enquadramento, planos, fotografia. Depois de aprender o necessário, iria acompanhar o velho a uma antiga sala de cinema no bairro de Palermo. Minha tarefa era, portanto, ir descrevendo as fitas para ele, utilizando os jargões que guardaria do aprendizado. No começo foi complicado, mas logo me acostumei. "Travelling até uma casa amarela", eu dizia. "Corta para plano médio de uma moça de olhos grandes, grandes e cor de caramelo fervido. Fade." E o velho de olhar grudado na tela, como se enxergasse. Pareciam até brilhar, aqueles globos brancos. Lembro que o único atrito aconteceu na vez em que acabei me entusiasmando com uma cena e fiz sem querer um comentário sobre o cenário -- então o velho me cortou, a voz mais rouca do que de costume: "Quero seus olhos. Não sua opinião." No mais, tudo correu na mais perfeita normalidade. Depois o estado de saúde dele foi piorando, as sessões acabaram e em quatro ou cinco semanas eu deixava Buenos Aires, com um bom dinheiro no bolso. Meses depois recebi um bilhete da japonesa, dizendo que ele havia morrido e deixado uma carta de agradecimento para mim -- que seguia em anexo. Mas era uma longa carta, e eu já disse que não tenho paciência para isso de literatura. Joguei a carta fora sem ler e segui minha vida.

Blog de Bolso

17.6.06

Sobre o Menino do Rio...

Depois de almoçar com uma amiga, fui andar na praia: calça jeans dobrada até o joelho, camisetão, câmera fotográfica enrolada em uma canga, chinelo comprado no dia anterior. Queria pôr os pés na areia, sentir um pouco de água salgada deslizando entre os dedos, ficar um pouco em silêncio. Estiquei a canga, me desprendi dos chinelos, fotografei muito do céu carioca. A praia estava vazia, um fim de tarde com brisa gelada. Eu ando friorenta... Foi a primeira vez que senti frio na minha cidade dos sonhos. Não gosto de frio, mas, lá, até dele eu gosto.
Um garoto parou de bicicleta perto de mim. Pediu que eu cuidasse dela para que ele entrasse no mar. Eu disse que sim, e continuei olhando para o horizonte através das minhas lentes. Não sei quanto tempo ele passou no mar porque me distraí completamente com meus pensamentos. Só me dei conta da sua presença quando, já próximo da bicicleta...

- Tá com cara de apaixonada, hein?
- Anh?
- Você... Olhando assim para o nada e com esse sorriso incontrolável nos lábios. Isso é cara de amor. Olhos de paixão.

Sorri amarelo para o menino e...

(…)

continua no Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados

Da teologia anacoreta

Acabo de ver na televisão uma rapariga que aos dezoito anos fez uma tatuagem no rabo em nome do Senhor. Era crente, diz ela. E diz bem, o Senhor sempre escreveu direito por linhas tortas. Agora, quer remover a tatuagem. Parece que subitamente descobriu que era ateia. Se dúvidas houvessem, neste pequeno episódio está demonstrada toda a superioridade moral do cristianismo, sobre as filosofias bacocas de ateus e pagãos. Não fosse o Senhor e sabe Deus o que teria sido daquele rabo. Não passaria na televisão nacional e, de certeza, não habitaria o meu imaginário durante as próximas noites. Mas Deus vai mais longe. Aparentemente é pouco provável que se consiga remover as sagradas escrituras das nádegas daquela jovem. Problemas técnicos, dizem uns. Mão do Criador, digo eu. Nos próximos anos, em cada queca, em cada bronzeado, em cada dólar ganho à custa do talento daquele corpo nas praias de Miami, estarão as palavras de Deus tatuadas naquele rabo. A converter pagãos e a abençoar beatos. É o purgatório em forma afrodisíaca. É a revolução católica que realmente interessa. É certo que ainda há um longo caminho a percorrer. É necessário munir as nossas paróquias de mulatas e trazer freiras bonitas para a ribalta. Se nos dias que correm há pecado capital na igreja católica, então é o facto de estar a perder as prostitutas brasileiras ilegais para a Igreja Universal do Reino de Deus. Solução? Admitir o sexo oral como forma de penitência. Mas atenção, nada de seguir o exemplo dos protestantes. Um brochezito de vez em quando tudo bem, mas sempre dissimulado e no segredo do confessionário. Porque o sexo, meus amigos, acompanhado de uma boa dose de ascetismo e uma consciência devidamente pesada, ainda é a melhor forma de expiação dos nossos pecados.

Diário de Tiago Galvão

16.6.06

A Fine Romance

A moça casada não consegue esconder a expressão de tédio mas tenta explicar ao marido pugnaz o que exatamente as mulé querem dizer com “romance”. Arrazoa que o frisson de todo começo de relacionamento está vinculado às emoções da sedução, e generaliza dizendo que toda mulher gosta de e precisa ser seduzida, e que o fato de que os homens suponham, depois de casar, que basta ir baixando ou subindo a mão roupa adentro em direção ao hinterland feminil é uma tremenda prova de rudeza ou insensibilidade. O marido pugnaz retruca que, se ele realmente precisasse refazer todo o percurso da sedução a cada vez que, er, procura a patroa no afã de encontrar a mais íntima expressão física do profundo vínculo emocional que os une, não teria casado, cazzo.

A moça entediada faz aquele muxoxo de irritação resignada que as mulheres aparentemente treinam todos os dias ao espelho, como se não valesse a pena o esforço de tentar explicar essas obviedades ao brutamontes, mas o marido não desiste, e contra-ataca dizendo que, em suma, então, o que as mulé querem é que os caras sejam cafajestes. As mulheres da mesa negam, mas ele acrescenta que, na prática, elas esperam que o cara finja, que faça toda a mise en scène da sedução mesmo que não haja sentimento nenhum envolvido, da parte dele –ou seja, que ele continue fazendo em casado o que quase todos os homens fizeram um dia em solteiros, e minta sem a menor vergonha sempre que quiser comer alguém -e, pior, a mesma alguém.

As mulheres da mesa ensaiam uma vaia ao marido pugnaz, enquanto pelo menos duas delas se atropelam para dizer que não, elas não querem que o cara finja: querem que ele sinta vontade genuína de seduzi-las de novo a cada dia. Agora cabe aos homens trocar olhares de irônica resignação. A conversa morre aos poucos, e de repente, em meio a um dos silêncios imprevisíveis que de vez em quando surgem em lugares públicos, o cochicho entre a esposa entediada e a vizinha dela à mesa se torna claramente audível: “E qual é o problema de fingir, aliás? A gente finge o tempo todo e eles nem percebem”. Todo mundo ri, menos o marido pugnaz, que olha feio para a mulher. Ele levanta o copo: “Melhor brindar ao quinto aniversário do nosso casamento, porque não sei se vai haver um sexto”. Uma vez mais, todo mundo ri. Menos a mulher.

Filthy McNasty

O Código da Nove - versão 2

Foi encontrado na manhã do dia 27, o corpo do jogador Ronaldo Nazário, nu em seu quarto de hotel em Dortmund, poucas horas antes da partida com a Itália válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo, com os braços e as pernas esticados, em forma do homem vitruviano, e tendo o logotipo da Nike desenhado com seu próprio sangue em seu ventre.

A primeira delas foi uma minúscula cinta de silício presa a seu pé esquerdo. Outra pista foi a aliança que o jogador usava em sua mão direita. Dentro dela estava gravada a seguinte mensagem "Fernanda - xxxx-6393 - Eu gosto é de mulher". Uma outra pista foi o logotipo da Nike desenhado em seu ventre arredondado. Em sua mão esquerda, a polícia encontrou um beque. No criado mudo havia 7 caixas de pizza, todas vazias. A última evidência deixada pelo jogador foi encontrada pelos investigadores alemães com luz negra, onde lia-se escrito, ao lado do corpo "Oh, besta dos infernos // Full House da Nike //P.S. Encontre Parreira ".

Diretores da Nike informaram por sua assessoria de imprensa que pretendem processar Ronaldo por quebra de contrato.

(…)

:: At War With The Mystics ::

Supervisão

Hoje foi o dia da supervisão aqui em casa.
Dia da supervisão é o dia em que a minha avó cisma que alguma coisa está perdida, então ela quer ter certeza que não está. Ela nem está precisando, mas ela quer. As coisas acontecem assim:
- Débora, eu quero a blusinha que a sua bisavó bordou pro seu pai quando ele nasceu.
Provavelmente a última vez que essa blusinha foi vista, foi em meados de 1945.
- Não sei que blusinha é essa não.
- Mas traga aqui que eu digo se é ou não
Então eu passo tempo e mais tempo procurando a bendita blusinha de 1945 e ai de mim se não a encontro, parece até gincana escolar, fase avançada.
- Mas pra que a senhora quer?
- Não te interessa.
2 horas depois, quando a casa toda está mobilizada com a situação em busca da peça, vó chorando porque ninguém guarda as coisas dela direito, empregada que deixa de lavar roupa, pai que acorda, eu que deixo meu trabalho, todos na busca, finalmente a gente encontra e leva pra ela.
- É essa aqui?
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...é, deixa eu ver.
- Pronto?
- Pronto, agora pode guardar de novo.

De Pindamonhangaba para o mundo

15.6.06

O Ronaldo está com febre amarela.

cAtaRrO vE®De

13.6.06

A GAIOLA E AS FLORES

Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular. Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados.
(…)

.:. Fabricio Carpinejar .:.

12.6.06

conversas furtadas

MENINAS NA PORTA DO COLÉGIO

— Pô, olha só, eu tou lendo esse livro, O Código DaVinci, mas pô... Tou sem a menor paciência de ler... Tipo assim, só cheguei na metade.
— É? Esse livro fala de quê?
— De Jesus, e Maria Madalena, tipo... Que eles tiveram um caso, sabe...
— ...
— Aí, tipo assim, o cara que descobriu tudo... Mataram ele...
— ...
— Pô, como é que é o nome dele mesmo? Ah, lembrei: o Silas!
— Eu só sei que esse livro é grossão...

Enviado por Cryss MyAss.


EM UMA FERRAGEM

— Meu chuveiro queimou. Esta é a resistência.
— Ah! A senhora tem a resistência, então quer o chuveiro?

Enviado por Jussara.


CRIANÇA PRODÍGIO

— Que bebê mais fofo! Tá com quantos meses?
— Seis... Mas faz sete mês que vem!

Enviado por Cesar Dias.

conversas furtadas

11.6.06

DIÁLOGOS BOBOS DE INSPIRAÇÃO ANIMAL

Essa é antiga, mas é boa :

- E aí, So, sua gatinha tá melhor ?
- Tá, sim. Eu levei no veterinário mês passado e ele disse que eu não precisava me preocupar com aqueles caroços na barriga dela, que não tinha nada de tumor, era só bola de pêlo.
- Ah, que bom, então. E aí ? Expeliu ?
- Ontem. Dois machinhos e três fêmeas.


Cyn City

AGENDA

– Fala, dona Letícia.
– Doutor Breno, o senhor Lamberto tá aqui.
– Lamberto, Lamberto…
– Seu amigo. Estudou com o senhor no terceiro colegial. Lamberto. Apelido Caveira. Irmão do Farofa, que namorou sua prima. Dizendo que dia desses vocês se encontraram no shopping.
– Olha, dona Letícia, eu não tenho tempo pra… ahn. Ah, tá. Lembrei; vi ele no shopping, sim. Olha. Diz que eu tou muito ocupado, fala que…
– Ele diz que veio tomar o café.
– Como?!?
– Ele diz que o senhor falou pra ele vir tomar um cafezinho na firma qualquer dia desses, e ele veio.
– …
– Doutor Breno?
– Dona Letícia, fala que eu tou ocupado!
– Pois é. O seu Lamberto também tá. Disse que tem outros compromissos. Que não pode se atrasar. E que quanto antes vocês puderem tomar o café, melhor.
– Ah, é, dona Letícia? Meeeesmo? Ele disse isso, é? Que coisa. E o que mais que ele quer, hem?
– Quer o dele descafeinado. Por conta da gastrite.
– …
– Doutor Breno?
– Ahn. Escuta. Fala pra ele voltar outra hora. Inventa qualquer coisa.
– Ué. Tá. Iiiiiiiiiiih, doutor Breno, eu já ia esquecendo. Que cabeça a minha. Deixaram também um recado urgente aqui pro senhor.
– Recado urgente? De quem?
– Do Edevaldo. É pro senhor ligar pra ele.
– Edevaldo?
– É. Da limpeza.
– Da limp… E por que é que eu teria que ligar pro funcionário da limpeza, dona Letícia?
– Ele quer saber o resultado do balanço semestral da firma.
– …
– Doutor Breno?
– Er… Dá pra me explicar que piada é essa?
– Aquela reunião que o senhor fez semana passada, com todo mundo da empresa, lembra? Quando o senhor disse que aqui dentro não tem isso de patrão e empregado, que é tudo transparente, que todo mundo joga no mesmo time. Então. O Edevaldo quer saber o resultado do balanço semestral da empresa. E se puder ser pra hoje…
– Como?!?
– É que ele vai tomar umas com os amigos à noite lá no bar do, como é mesmo o nome, gente?, eu ando tão esquecida; acho que é bar do Tarzan. Pois é, aí ficou de falar do balanço contábil pra eles. Ah, quer saber também se isso de mesmo time quer dizer que o senhor torce pro São Caetano.
– …
– Doutor Breno?
– Me faz um favor, dona Letícia. Vem até aqui na minha sala. Agora.
– Olha, doutor Breno. Não vai dar. Acabou de chegar aqui uma pessoa muito importante, que precisa falar com o senhor.
– Ah, sei. E quem seria, dona Letícia? O Cafuringa, vigia do estacionamento?
– Não. O Ministro do Planejamento.
– Hã?
– É. O Doutor Paulo Bernardo Silva. Tá aqui querendo ouvir o que o senhor ia fazer.
– O que eu ia…
– É, fazer. Ele tá meio nervoso. Diz que o senhor falou em alto e bom som num coquetel aí que se o senhor fosse o Governo dava um aumento pros aposentados e pensionistas do INSS e calava a boca da oposição. Pois ele tá aqui querendo saber como é que o senhor ia fazer isso sem comprometer a previsão do Orçamento pra 2006.
– …
– Doutor Breno?
– Er. Ele quer entrar… agora?
– Imediatamente. Diz que o Congresso vota hoje à tarde o projeto de aumento de 16% e ele não tem tempo a perder. E tem mais.
– Ahn. O quê, dona Letícia?
– Seu Lamberto. O Caveira.
– O que que tem?
– Ele quer saber que hora então ele volta pra tomar o café. Diz que a agenda dele tá lotadíssima pra hoje.

Ao Mirante, Nelson!

9.6.06

MALDIÇÃO

“COM DORES PARIRÁS TEXTOS ACADÊMICOS ROCOCÓS! POUCOS LERÃO.” “Por que você escreve tudo em maiúsculas?...” “ ‘VOCÊ’ ?!!! CÃO INFIEL! ‘VOCÊ’ ?!!!!!!” “Vós é muito complicado”. VÓS SOIS! IGNORANTE”. “Quero dizer, o uso do pronome ‘vós’... O Senhor não é mesmo onisciente, é?” “SENHOR ESTÁ BOM. FALA ‘SENHOR’... LERÁS TESES ACADÊMICAS, DISSERTAÇÕES, MONOGRAFIAS INTERMINÁVEIS EM TEUS FINAIS DE SEMANA!” “...” “CALUDA! ALUNOS NÃO DEIXARÃO QUE ASSISTAS À NOVELA DAS 8. TERÁS DE DAR AULAS SOBRE MAX WEBER, LER TEXTOS DE BRUNO LATOUR, DERRIDA, DELEUZE". "Mea culpa, mea maxima culpa..." "O SALÁRIO SERÁ RIDÍCULO. AS MULHERES TE ACHARÃO CAGALHÃO E CONFUSO!”. “Majestade!” “FICARÁS CARECA! LENTAMENTE... PARA QUE EU POSSA GOZAR DO PRAZER DE TE VER RIDICULAMENTE TENTAR VÁRIOS PRODUTOS CONTRA QUEDA DE CABELO. MAS NEM TÃO RÁPIDO ASSIM QUE AS PESSOAS NÃO PERCEBAM A PRÓPRIA MORTALIDADE ATRAVÉS DE TUA CABEÇA”. “Mas por que eu?!!! Por que Vossa Excelência não fodeu a vida de Chico Buarque de Holanda?! Tom Jobim?! Esses cachaceiros todos... Gente desregrada e ruim! Excelência, por que me desamparaste?” “SÓ PELA SACANAGEM. E DIGO MAIS: SABES POR QUE ODEIAS TANTO WOODY ALLEN?” “...” “AGUARDA UM POUCO... É DIFÍCIL... ACERTAR O TECLADO... RINDO DESSE JEITO. AI, JESUS! ME ACODE”...

Segunda Mão

5.6.06

O Homem que disse Venâncio

Um dos motivos por que fico revisando textos no Franz Café, é para poder ouvir a conversa dos outros. Nesse dia a conversa da mesa ao lado se dava entre um ator experiente e a jovem atriz. Ele beirava os 125. Ela tinha cem anos a menos. O velho era todo cheio das verdades. Começou a falar sobre sensibilidade, coisa de artista.

Voltei ao texto. Estava procurando a parte onde tinha parado. A frase era:

"O nome dela pode ser Laís Venâncio". E nesse instante o velho disse:

- Meu vizinho, o Venâncio, por exemplo.

No exato instante em que eu li "Venâncio" - no meu texto - , o velho falou "Venâncio"!

Larguei o texto e olhei pra cara do velho. Algo aconteceria. Era um sinal. As pessoas começariam a cantar, o velho se transformaria num espírito, alguém me entregaria um envelope lacrado, alguma coisa. Passei o resto do dia esperando alguma coisa.

Estava há dois quarteirões de casa quando um carro passou por uma poça d'água e me encharcou. Do outro lado da rua, Nora, a costureira espanhola, gritou meu nome.

Finalzinho mixuruca...

começou o Diario da Odalisca