A saga do primeiro beijo (Post VII)
- Te peguei!
- Tira a mão de mim!
- Você está presa.
- Eu sei. Pode deixar que eu sei o caminho da cadeia.
- Não... espera. Quis dizer que você está presa no meu coração.
Meninos apaixonados perdem a noção de ridículo. Que papo era aquele? Que o Murilo era o garoto mais mulherengo do bairro, isto eu sabia, mas daí para se tornar o Don Juan da breguice era um pouco demais! Mais brega que isto só se eu caísse naquele papo... E foi exatamente isto que aconteceu! Fiquei toda derretida. Convenhamos, ouvir aquilo aos treze anos de idade de um garotinho lindo de olhos azuis era pra derrubar qualquer adolescente de primeira viagem. Perdi a voz, a respiração e desatei a gaguejar:
- Ma-ma-ma...
- Ale, quer namorar comigo? - Ele era rápido e, naquela época, se pedia em namoro.
- E-e-eu? Eu não.
Eu sei, eu sei. Eu sempre fui uma anta indecisa e confusa, mas pensam que é fácil tomar uma decisão dessas? No meu caso, era humanamente impossível. O "não" saiu antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa. Mas, diante do olhar tristonho do Murilo, eu ganhei forças para tentar balbuciar outras palavras:
- Calma, espera. Não é um "não". Quer dizer, não é um "não" pra sempre. É um "não" mais ou menos. Um "não" do tipo "preciso pensar", sabe?
- Bem que o Ivo me disse que você era meio maluquinha...
- O que?
- Maluquinha. Você é um pouco maluca, mas eu gosto de meninas malucas. Maluca no bom sentido, não maluca de lelé.
Nunca entendi o porquê, mas desde que eu me entendo por gente sinto que as pessoas se sentem atraídas por pessoas que possuem um leve grau de desequilíbrio. Na dúvida, deixei que ele acreditasse no queria. Era melhor do que deixá-lo ciente de que minha forma confusa de expressão, não passava de insegurança. Sorri um sorriso de reprovação e deixei que ele falasse por mim já que dos meus lábios quaisquer sons saíam picotados.
- Você quer um tempo?
- Anh?
- Um tempo pra pensar, quer?
- Que-ro! Quero sim...
- Quantos dias?
Pode parecer ridículo, mas o tempo para dar a resposta a um pedido de namoro determinava se a garota era fácil ou não. Uma bobagem que, só de lembrar, me faz querer morrer de catapora preta.
* Dizer "sim" na hora: galinha
* No dia seguinte: garota fácil
* De dois a três dias: mulher pra casar e ter filhos
* Até cinco dias: menina difícil.
Mais do que isto, achei eu, deveriam ser dias suficientes para fazê-lo partir pra outra...
- Uma semana!
- Uma semana? Por que tanto tempo?
- Porque sim!
Olhou-me fixamente, suspirou e ...
- Ok, uma semana.
Nevou dentro de mim naquele instante. Eu tinha sete dias pra pensar no que fazer. Sete dias pra aprender a beijar na boca... Mas, antes que ele percebesse a minha aflição, encerramos o assunto e voltamos a brincar de polícia e ladrão.
----------> Continua
pré-ósculo do AMARULA COM SUCRILHOS
18.6.03
Era tão feio que quando nasceu, o médico bateu em sua mãe.
curta Alea Jacta Est
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Ratapulgo
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18.6.03
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17.6.03
Há coisas inaceitáveis que tentamos corrigir apelando para todos os recursos possíveis, chegando a exageros de radicalismo reativo histérico.
Um vizinho que ouve ópera aos berros, por exemplo. Um cocozinho preso nos cabelinhos do cu. Um cocozão que fica entalado na porta. Uma criança protodelinqüente correndo e gritando desembestada entre as mesas do restaurante que você julgava ser um oásis de sossego, enquanto os pais, modernérrimos, não dão a mínima. Aquele maldito banheiro público que não tem trinco e a porta fica a uma distância enorme da privada, obrigando-nos a contorcionismos ridículos para tentar manter a porta fechada e evitar que alguma bêbada cistítica tenha um vislumbre de sua perseguida em pleno ato mijatório, e você de cócoras sobre a latrina, como convém. Aquele velho enfisematoso que se aboleta na janela do seu carro sempre que você tenta sair do estacionamento para tentar te vender uma pasta limpa-tudo. Uma meleca grudada na narina que não permite que respiremos sem fazer "fíííííííííííínnn" a cada expiração. A velha no caixa do supermercado contando centavo por centavo para pagar a conta "certinha". O gordo que acha que todo mundo gosta de cheiro de charuto (já repararam que fumante de charuto é tudo gordo?). A vizinha que sempre comenta, "A noite foi boa ontem, hein?" A mãe que telefona a cada aniversário de cada fulano da família para lembrar você de também telefonar para o fulano e dar os parabéns. O bar que nunca tem gelo. Aquela chefe no trabalho que faz questão de dizer "Amanhã é meu aniversário! Adoro meu aniversário!", só pra te deixar constrangido e tentar te obrigar a comprar presente (nunca comprei. Deve ser por isso que sempre sou demitida). A fila do banco que não anda porque tem um office-boy no caixa com um container de documentos para pagar. Gente burra desinibida que vomita 74 clichês por segundo e se julga interessantíssima (estas costumam aparecer em fila de banco, e são ubíquas na televisão). O Ruindows que sempre dá pau. Aquele post ENORME que você escreveu com tanto cuidado e desaparece quando você vai publicar porque a conexão caiu e você não reparou (quem manda ser imbecil e não usar um processador de textos?). Uma preguiça tão grande de escrever que você acaba lançando mão do que recebe por mail.
Mas há outras com que temos de nos conformar, dado o enorme número e o peso com que aparecem, coisas contra as quais não temos forças para lutar, e a elas sucumbimos qual iraquianos em dia de invasão ianque.
...
processado por All about Eve
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Criss Ferrari
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17.6.03
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a noite poderia ter sido melhor. ou pior. depois de chegar a ganhar cinco partidas seguidas, deixando costela zerado, comecei a perder e, a dois pontos de fechar a noite, só fiz patetices. e além de jogar como um idiota, meus adiversário ainda começaram a jogar bem, ter sorte e, o fabio inverídico, fazer jogadas do arco da velha, matando uma sequencia incrivel de bolas seis, sete e sete. que puxa!
Mas novamente temos um novo velho líder. Destaque para a acirrada disputa pelo quarto lugar.
Após a 11ª rodada, ficamos assim:
Nasi: 66
Costela: 65
Vini: 51
Scott: 29
Villas: 29
Fabio Inverídico: 22
Nani: 4
frases da noite:
"caralho!" , "merda!", "puta merda!", "buceta!", "o porra!", "mãe do caralho!", "merda de quatro!", "aí é foda!", "se fuder, porra!", "ai meu caralho!", de todos. menos do scot, que é mais limpinho.
diálogo da noite:
"foi mal, costela. hoje so vim aqui pra te fuder", fabio, parceiro de costela, se descupando pela má fase.
"e, até agora, tá conseguindo", costela, compreensivo.
No Veríssimos
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Ticcia
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17.6.03
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entre partidas e chegadas, somente ela permanecera ali.
conhecia de cor todos os detalhes da casa, em cada canto uma lembrança.
abriu a janela, deixando que o sol entrasse sorrateiro, esquentando o frio que existia dentro dela.
andou pelos cômodos, o silêncio como companheiro. por um momento, pôde rever detalhes da infância feliz que lá tivera.
lembrava-se das brincadeiras no jardim, da casa cheia, risos pelo ar, cheiro de bolo de canela (ah, adorava esse em especial); recordações que lhe apertavam o peito, e faziam seus olhos marejarem.
mas não era tristeza o que sentia, era uma saudade boa, daquelas que tocam na alma.
andou mais um pouco, e deu com seu antigo jardim, quanto tempo não o via.
sentou-se no degrau da escada, e ficou admirando o que hoje era somente capim crescido. lembrou-se imediatamente da beleza que ali existia: sua plantação de girassóis, que cultivava com carinho e dedicação, como se cada um deles representasse para ela uma vida, um de seus filhos imaginários.
aos poucos, foi retornando à realidade, voltando para seu mundo. levantou-se e fez menção de retornar à casa, quando avistou um pequeno girassol, indefeso, solitário. quase sucumbindo ao sol escaldante e à falta de cuidados.
com o coração disparado, correu para pegar um vaso e, com paciência e maestria, retirou-o do solo e o colocou cuidadosamente no vasinho cor de laranja.
trancou tudo, virou-se e olhou a casa pela última vez.
com seu vaso nas mãos, e o coração em paz, caminhou em direção ao horizonte. não estava mais só. seria agora mais uma na caminhada.
entre partidas e chegadas...
vá junto e Understand me
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Ticcia
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17.6.03
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Clarice Lispector costumava escrever contos em que os personagens experimentavam epifanias. "Epifania" é uma descoberta interior, é o momento em que se põe a vida em frente a um espelho e se observa algo que não se havia observado antes.
Odeio epifanias, nem sempre elas mostram o que queremos (ou o que não queríamos) ver. Ontem, em companhia de algumas criaturas do cursinho, paramos em frente a uma loja de bijouterias e observamos os brincos. Elas escolhiam qual seria o mais bonito e eu constatava que eram todos grandes demais e cafonas demais. Enquanto elas estavam no "bibibi", sofri uma epifania.
Comecei a me lembrar de que,certa vez, li que existiam três tipos de solidões :
- a primeira, acontece quando se é só no mundo porque todos os parentes e conhecidos já morreram (e ,geralmente,quem sofre dessa solidão vai jájá morrer também).
- a segunda, é a solidão por opção, como quando sentimos necessidade de nos isolarmos para refletir sobre algo(ou simplesmente não refletir sobre nada).
- a terceira.. A terceira ocorre quando nos sentimos sós mesmo estando cercados por pessoas que estão conversando entre si( e, às vezes, estão conversando conosco!), e a única coisa que ecoa na cabeça é a nossa própria voz, repetindo(gritando)seguidas vezes " EU QUERO SAIR DAQUI".
Não deu tempo de gritar. Alguém me cutucou e, como sempre, fui a palhaça que faz todos darem risada enquanto a única que sente vontade de chorar nessa festa sou eu.
pífias epifanias do BooBlog
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Ratapulgo
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17.6.03
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16.6.03
DIVINO AMOR
No primeiro dia depois que ela me deixou
rasguei sua foto, guardei sua carta,
escondi seu presente, quebrei seu copo.
No segundo dia depois que ela me deixou
voltei a fumar, joguei no lixo o livro dela,
pela janela sua escova de dentes.
No terceiro dia depois que ela me deixou
coloquei veneno no peitoral da janela,
esperei pela agonia do pombo,
morreu uma rolinha.
No quarto dia depois que ela me deixou,
picotei com a tesoura o lençol de seda,
queimei a fronha, virei o colchão pelo avesso,
entupi o vaso com a sua calcinha.
No quinto dia depois que ela me deixou
chamei o bombeiro com desentupidor,
resgatei a calcinha, a lavei na pia,
chamei o SEDEX, exigi comprovante da entrega,
meu amor pelo correio,
No sexto dia depois que ela me deixou
disquei o numero dela dez vezes,
desliguei umas tantas vezes,
na décima primeira vez, voz de homem,
quebrei o telefone.
No sétimo dia depois que ela me deixou
sequei as lágrimas, ajeitei o cabelo,
pintei as unhas, enfiei o biquíni
e fui à praia.
inspiração do Yehuda
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Ticcia
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16.6.03
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Pois bem eu sou a estonteante Criss, tonta demais pra escrever algo decente,
mas me apresento: sou paulistana e atualmente vivo em Verona, a cidade de Romeu e Julieta.
Meu blog é esse aqui e espero contribuir para o crescimento do Copy & Paste :)
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Criss Ferrari
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16.6.03
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Respeitável público,
Adentrarão ao picadeiro em instantes os novos co-editores no Copy & Paste.
Agora, além do espantoso Ratapulgo,
da brilhante Ticcia
e da fulgurante Anita
teremos a companhia
da espetacular KK Boop,
da estonteante Criss
e do incrível Henrique.
Todos desfilarão por decâmetros de seda rasgada.
Favor alimentar o ego dos co-editores de vez em quando.
Mas não se aproximem muito das grades.
O uso de flashes é proibido.
Obrigado.
atenciosamente,
o editor dessa birosca.
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Ratapulgo
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16.6.03
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Objeto mais desejado pelas brasileiras daqui...
(ralo)
Um dia vesti um short
desenrolei a mangueira
abri a agua
e so depois de inundar a casa
descobri que nao tinha ralo.
Inundado por Farofa na neve
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Criss Ferrari
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16.6.03
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Burocrácia
- Boa tarde, é aqui que é pra conseguir licença poética?
- Não, licença poética é ali com o Fonseca. Ali, no terceiro guichê.
(no terceiro guichê)
- Boa tarde, eu vim aqui pra pegar a licença poética. Aqui os documentos.
- Qual é o caso?
- É um caso de redundância, pra um pagode que eu fiz.
- (lendo) "Dor que dói"? Infelizmente não posso conceder.
- Como assim?
- Casos de redundância aguda são proibidos, não posso fazer nada.
- Peraí, mas essa aí nem é original! O Renato Russo já usou!
- Olha, nessa época eu ainda não estava aqui, mas creio que uma portaria de 1993 proibiu redundância aguda.
- Isso é porque eu sou preto e pagodeiro! O Chico Buarque vocês deixaram até rimar "sol" com "rock´n´RÓLL!"
- Ah, mas o Chico pode tu-do!
Nem só à alma feminina fala o Chico Buarque.
mau humor
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Ratapulgo
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16.6.03
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Que merda, que merda, que bosta! Foi horrível, horrível, tenebroso! Cada vez que me lembro tenho vontade de enfiar a cabeça dentro de um buraco. Porque há muito tempo não tenho 16, 17 anos, e agora eu agi como se tivesse. Se for parar pra pensar, eu era muito mais responsável nessa época. Eu não queria que isso acontecesse, eu sabia que ia acontecer, eu poderia ter EVITADO, e não adianta culpar a cachaça, nem eu mesma, nem aquele mala do meu namorado, porque ninguém sozinho tem culpa. Mesmo que aquele tosco venha querer jogar toda a responsabilidade nas minhas costas. Na verdade nós dois temos culpa. Eu tenho culpa, sei disso, mas ela não é só minha. Ele tem tanta culpa quanto eu. Eu tenho culpa por não querer ter sido apresentada à "família" antes. Ele tem culpa por ter tido essa "idéia espetacular" da gente ficar invadindo a casa dele de madrugada. Mas eu tenho meus motivos, eu tenho os meus porquês de tudo isso, sem contar que eu sou uma anti-social aperfeiçoada, não gosto mesmo de conhecer sogra, acho isso péssimo, horrível, uma desgraça. Ainda mais com pouco tempo de namoro. Eu acho horrível começar a namorar e imediatamente ser apresentada para a família inteira. As coisas tem que acontecer aos poucos, como foi entre ele e os meus pais.
Senão, traumatiza.
E eu já sou gata escaldada nessas histórinhas de conhecer sogra.
Por quê? Por que eu sou do jeito que sou, e não fui feita pra ser avaliada por mãe de namorado. Parece que quando vou conhecer mãe de namorado é que nem participar de um concurso de miss, onde ficam medindo teus peitos, tua bunda, tuas carnes, e fazendo uma série de perguntas I-D-I-O-T-A-S, e por aquela meia dúzia de perguntas toscas, avaliam toda a tua bagagem de vida, teu interior, tua história, teus valores. Dá aquela sensação de estar num concurso de miss, e não ter corpo para ser miss. Falta tudo, falta bunda, peito, carne. E aí, eu me recuso a responder perguntas I-D-I-O-T-A-S feitas por mãe de namorado.
Porque mãe quer que o filho namore uma menina que além de ser uma princesa sem um fio de cabelo fora do lugar, sem vícios, seja inteligente, bem vestida, escolada e tudo o mais. E eu me recuso a enquadrar em padrões estéticos cretinos. Eu me recuso a conhecer mães de namorados, porque já conheci ZILHÕES delas, e elas são todas iguais. Querem sorrisos plastificados que eu sou impossibilitada de dar. Eu me recuso a falar mal do Ratinho, eu me recuso a dizer que tenho pena de iraquiano, eu me recuso a dizer que me emocionei com a história da menina de 5 anos, que limpa toda a casa, porque a mãe é problemática. Eu me recuso a dizer que torço pro coxa. Eu me recuso dizer o porque que até hoje eu não terminei o segundo grau. Eu me recuso a dizer porque não tenho irmãos. Eu me recuso a contar a história da minha vida pra uma pessoa por obrigação. Eu me recuso a tudo isso.
Sou cabeça dura sim. Mas não sou a única culpada de, às 7:49 da manhã, bêbada ainda, impossibilitada de responder qualquer pergunta, com os olhos borrados de delineador, com o cabelo desse tamanho, com gosto de cabo de guarda chuva na boca, ter dado de cara com a mãe do meu namorado na cozinha da casa dele.
Mas ele insistiu demais nessa história, quem iria imaginar que a gente fosse capotar de sono? Sei lá, se eu tivesse meus 18 anos, naquela época eu era intocável, o mundo era meu, e o resto das pessoas que se fodesse, eu não devia satisfação pra ninguém, eu era a poderosamegalossaura de 18 anos. Mas agora eu já sou uma senhora, e sei que isso é foda. Eu me preocupo mais com as consequências dos meus atos inconsequentes. É, eu estou perdendo a graça. Com 18 anos, eu daria risadas de toda essa história. Mas agora, eu me sinto péssima com a impressão que causei. Que grande merda! Horrível, não tenho outra palavra. Parece até um pesadelo, que qualquer hora dessas ou eu acordo, ou eu me mijo. Desgraça!
Sei lá, de repente a mãe dele pode ser a pessoa mais gente boa da face da Terra, mas quem, me diz quem, quer dar de cara com o filho acompanhado, no café da manhã, sem ter conhecimento disso?
Aí ele me diz: "Esquece, agora já foi, o que interessa é a gente e que se foda o retso do mundo". Muito pelo contrário baby, nós não temos mais idade pra pensar desse jeito. Não nós com quase 23 anos na cara. Nós dois somos culpados. Ele por me propôr uma cagada, e eu por topar a cagada. Cara, de fé, eu pensava que esse tipo de coisa só acontecia na Malhação, e não comigo.
Cata Vento & Montanha Russa
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Ratapulgo
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16.6.03
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Vá atrás do seu sonho.
E quando voltar me traga uma cerveja.
-- Tomás Creus
Prosa Caotica
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Ratapulgo
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16.6.03
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15.6.03
Até 10 de agosto
As costas doem. A vida de grávida cansa. Carandiru é uma bosta.
Achei que seria diferente, que escreveria um diário grávido, que de fato comecei, mas nunca passei do primeiro dia. Achei que leria todos os livros que faltavam, que mudaria para uma casa ensolarada com todas as minhas coisas em ordem e um certo lugar para o Beanie, os gatos disputando espaços com ele e com o sol. A música nas caixas, os discos nos lugares, os livros todos juntos. Achei que ficaria calminha em casa, lendo e escrevendo.
A casa é uma maçaroca das minhas coisas com as do Marcelo e as do Beanie, não tenho mais disposição de ficar limpando nada, como tinha com as outras casas. Esta não era para ser minha casa, mas acabou virando. Então tem um ar temporário, e é muito pequena, e não cabem todas as coisas, e o fogão ainda não foi ligado, vivemos de um forninho e um esquentador de acampamento. Já faz 7 meses que estamos aqui e nada acontece. Minha inspiração foi sugada pelo útero, minhas noites já não são as mesmas. Às vezes as vozes da insanidade me visitam, e às vezes não consigo mandá-las embora, então eu fico louca. Mas passa. Já disse que escolhi chocar. E essa vai ser minha maior criação.
O Beanie se mexe muito. Não engordei quase nada, tenho novas estrias que coçam. Todo mundo tem um conselho inútil para dar, todo mundo fala que agora é que vai piorar, mas nunca piora e falta só dois meses. Meus pés não incharam, não fiquei com papada, só tive uma variz, que nem existe no singular. Não vomitei em ninguém, tive alguns poucos desejos e fiquei viciada em suco de tomate. Saí normalmente, bebi um pouco, fumei um pouco e meu filho continua lindo e perfeito. Essas mães que param de respirar porque engravidaram e vivem de fazer enxoval, elas me dão pena, porque em algum momento, jogarão toda a frustração em cima dos filhos, que nada têm a ver com isso e terão que freqüentar psicólogos por causa das mães loucas. Pessoas que param de viver só para serem mães não são normais. Gravidez não é doença. Não significa perder a vida e a juventude. Só se você quiser, e eu não quero.
Finalmente entendi que minha vida não vai voltar a ser o que era. Mesmo antes do Beanie, eu ficava querendo que a vida fosse como quando morava com um amigo na Vila Madalena, depois como quando morava sozinha na Vila Mariana, ou quando bebia quatro dias a fio sem dormir, só escrevendo, ou quando passava noites fora de casa, de férias. O presente nunca me satisfazia. É tão fácil romantizar o passado, as coisas ruins ficam tão pequenas que quase não dá para lembrar. E eu vivia querendo voltar. Agora eu quero agora, a barriga mexendo, cada dia maior, cada dia que nunca mais vai voltar e que eu vou lembrar com gosto, os dias em que o Beanie foi Beanie e morava em mim.
Achei que seria diferente. Não costumo fazer planos, aliás, continuo não fazendo. O Beanie vai nascer em algum dia de agosto e ainda não temos nome e nem berço e nem espaço. Mas achei que seria diferente. Assim não é perfeito, mas do outro jeito eu moraria sozinha. Por um lado, seria ótimo. Por outro, uma bela merda. Não é hora de solidão. Agora eu quero dividir tudo, porque o Beanie é só metade meu. E apesar da falta de espaço, da falta de grana, da falta de roupas que me caibam, era exatamente assim que tinha que ser. Inclusive a parte do semi-abandono do brazileira!preta. Estou mudando meus métodos, porque minha vida também mudou. Nada que fica igual muito tempo é bom. E não adianta bater o pé por causa das mudanças. Quando elas têm que acontecer, nem pílula impede. Então agora é assim. Tenho outras coisas a fazer, uma vida que nunca vivi. A anterior está aí, para todo mundo ver, para quem quiser escavar meus arquivos, para quem quiser ler meu passado. O futuro está lá na frente, e o presente é silencioso. Pelo menos agora. A vida é uma puta louca e imprevisível, nunca dá pra saber o que vai acontecer amanhã quando você abrir os olhos. Por isso que vale. Senão seria uma vida de merda.
before you accuse me take a look at yourself, brazileira preta
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Ratapulgo
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15.6.03
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14.6.03
ETERNA NAMORADA
Apesar de lembrar que foi amor à primeira vista, não consigo precisar como foi nosso primeiro encontro. Sei que foi ótimo porque permanecemos amigos desde então.
Tivemos desencontros, é verdade. Ela já foi chamada de gorduchinha, mas nunca reclamou. Confesso também que a chutei algumas vezes, mas sempre curti muito mais os momentos em que tive ela nos meus braços. Agarradinhos, os dois, sempre que podíamos.
Mas ela também escapou de mim muitas vezes. Fugiu, me deixou para trás, caído, desolado. E a cada decepção, eu me levantava, ia buscá-la. E ela voltava para mim.
Traição, mentira, entre nós, nunca houve. Jantares caros, cinema de arte? Não, nunca foi necessário. Ela esteve sempre comigo nos lugares onde eu sempre quis estar. E estará, novamente, hoje, no dia dos namorados.
resmungado por O PIOR NÃO TEM LIMITES
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kktanaka
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14.6.03
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LIMITES, um dia eu me canso.
Nenhuma pessoa no mundo merece viver num constante equilibrismo e permanecer IMUNE.
Eu apenas quero acreditar que fiz o bastante, fiz o que foi possivel, e mais nada.
Nao quero mais. Nada disso me interessa, nao consigo conviver com DOR. Essa dor que acaba com a minha possibilidade em permanecer com lucidez. Cansaço extremo. As pessoas sao muito crueis, e eu nao quero acabar sendo o que abomino. Nao vou permitir que outros façam de mim o que pretendem: me nivelar por baixo, ao nivel da mesquinhez deles.
Eles seriam vencedores se eu me tornasse igual a eles. Me recuso a isso.
tem saída em Sem Saída
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kktanaka
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14.6.03
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Vista curta
Os pais achavam que o menino era retardado. Demorara tanto para andar e falar! E agora, na escola, não aprendia, não brincava, não tinha um único amiguinho. Levaram-no a um psicólogo. Após uma rápida análise, o doutor chamou os pais e explicou:
- O problema não está na cabeça. Está nos olhos.
- Os olhos ficam na cabeça, gracejou o pai.
O doutor suspirou.
- O menino não enxerga um palmo a frente do nariz. Pelo visto, vocês também não.
Os pais saíram ofendidos com o psicólogo, isso era jeito de falar? No entanto, confiaram em sua palavra e levaram o menino a um oculista. O oculista se espantou.
- Mas ele está quase cego! Como vocês não perceberam antes?
- Achamos que ele era retardado, doutor.
- Acharam que ele era retardado?
Mandaram fazer um óculos enorme (pagaram, claro, à vista). Ao colocá-lo, o menino abriu um largo sorriso – era seu primeiro sorriso – e exclamou:
- Como o mundo é bonito!
A mãe ficou emocionada e não conteve uma lágrima, mas o pai cochichou:
- Estávamos certos. Além de cego, é retardado.
FDR
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Ratapulgo
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14.6.03
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Adolescentes
Sou a favor de adolescentes. Acho a adolescência uma fase fantástica. Espinhas, puberdade, pêlos, punhetas. Aquela coisa toda. E digo isso por uma simples razão: não entendo por que as pessoas querem tanto acabar com a adolescência, por um lado, e querem tanto prolongar a adolescência, por outro.
Veja só o primeiro caso. São quase todos intelectuais. Ou ao menos acham que são intelectuais. Ou ainda querem ser intelectuais. E só porque passaram uma adolescência atroz, isto é, com tudo de ruim que a puberdade pode oferecer, arrependem-se completamente de terem vivido isso (com razão, claro) e querem que os outros não passem pelo menos sofrimento. Logo, pregam a sublimação da adolescência.
O segundo caso é tão ruim quanto. É gente que adora a adolescência. Talvez por não terem passado, ainda, pelos entraves da idade. É aquele tipo de gente que vai ter espinhas com quarenta anos, sabe? E que põe piercing nos mamilos com trinta anos. Ou que descobre os prazeres do vício solitário em plena maturidade. E por aí vai.
Os adeptos da não-adolescência pregam a supressão de certos valores que são inerentes a este período. Eles não conseguem entender que a adolescência é o tempo certo (eu diria o único tempo) para se duvidar de tudo: Deus, capitalismo, família e sobretudo bom-gosto. Somos marcados por um período de extremo bom-gosto, que é a infância, e depois vem a adolescência, quando damos um tempo para o bom-gosto. Retomá-lo na idade adulta é de bom tom, mas temos que encarar o inevitável: haverá aqueles que escutarão rock para o resto de suas vidas. E acharão bonito ir a uma festa fantasiados de integrante mascarado e andrógino do Kiss.
Os outros, bem, os adeptos da adolescência eterna estão em toda a parte. Deve ter um agora mesmo, ao seu lado. É, aí nada sala do escritório. Ou então em você mesmo. Impregnado neste corpo adulto, um adolescente tardio. Como um encosto. Livre-se dele! Já.
Quero que meu filho seja um adolescente sadio. Terá no pai um crédulo, mas deverá ser, ainda que por pouco tempo, ateu. Ou ao menos agnóstico. Só para ver qual é. E deverá escutar rock de mau gosto (pleonasmo) no último volume, até ensurdecer seu pai e sua mãe que estarão, a esta altura do campeonato, relendo Guerra e Paz. E deverá usar camiseta do Che Guevara e freqüentar passeatas.
Mas isso durante um tempo determinado. Será na dúvida do monstrinho cheio de espinhas que plantarei minhas certezas todas. Isso, claro, se até lá eu tiver alguma.
O Polzonoff
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Ratapulgo
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14.6.03
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retrato
em uma mensagem eletrônica chega seu retrato. preenche, enorme, meu monitor de 17 polegadas. seus grandes olhos parecem contar que têm saudades de um janeiro frio e distante. são os mesmos olhos cheios de mar. melancólicos como as ondas que rebentam na praia. você é assim. sua vida se desdobra entre o drama de letras teatrais e romances fugazes de inverno. eu decidi que quero viver e ser feliz. seu retrato é lindo, provoca-me saudoso sentimento. mas passou. acabou. página virada.
seu cabelo cresceu. meu oceano inundou. quase me afoguei nas águas salobras das lágrimas que não derramei. te disse adeus em uma carta: "time to move on". e você pretende continuar o hide and seek game. olho para o monitor. você não é mais meu. nem nunca será. esboço um sorriso. você continua lindo, mas esta sua melancolia, esta sua arte da tristeza e da distância. não. não a quero mais.
te olho e te vejo: distância. você já é outro. eu também sou outra. mas o que pretende enviando-me fotografias? não meu querido. eu não vou participar deste jogo. eu quero brincar, quero ser lúdica. mas não quero mais jogos amorosos. pode me enviar retratos, músicas românticas, peças teatrais. não. eu sei que nada disso é para mim. nada disso é em nome de um amor. isto é sua vaidade. fique com ela. sinta-a, ame-a, deixe-se inundar pela solidão do amor não realizado. viva assim, se é o que deseja. eu não. eu quero amar de verdade. ou não amar de mentira.
adeus
boop it
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Ratapulgo
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14.6.03
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13.6.03
Jantar
Num restaurante aconchegante, com música ao vivo e garçons de smoking, o casal na mesa do canto olha a banda tocar, e ele comenta:
- Olha lá aquele cara. Ele sabe tocar saxofone!
- O que que tem?
- Ele deve comer mulher pra caramba!
- Como?
- É, o jeito que ele toca, o assoprar, o instrumento meio fálico, as caras e bocas, o charme!
- Que bobeira!
- Sério. Ele convida as mulheres, diz que uma do Stan Getz é dele, e que ele dedicou à ela, e zap! Come! Mulher cai nessa fácil, fácil.
- E eu não sei? Ainda tenho guardado aqueles seus poeminhas bobos que você me fez.
- Bobos, mas com amor! E, confesso, um deles eu fiz pra outra menina antes. Mas agora ele é só seu!
- O da cama?
- Isso.
- Eu já sabia. Foi pra Fabiana, não?
- Como você sabe?
- Coisas de mulher.
- Mas eu juro que...
- Xii! Fica quieto que eu estou ouvindo o saxofonista tocar! Lábios fortes, não?
Zazoeira
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Ratapulgo
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13.6.03
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Quando vão perceber que para o mal-humorado, a demonstração de interesse é algo bem irritante? O ápice então é perguntar se o humor já melhorou. Puta que pariu não fode vai tomar no cu caralho que merda filho da puta. Isso é o pensamento. Silêncio. Mas não há o menor esforço para que minha feição demonstre algo diferente disso.
fluxo de consciência do Sexo, Doce & Techno
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Ticcia
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13.6.03
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12.6.03
Amores aos pares
são ímpares.
Paixões plurais
são singulares.
By Veríssimos
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Ticcia
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12.6.03
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Sabe o que vou dar para minha namorada no dia 12? PICAS!!!
LACTOBACILO MORTO
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Ratapulgo
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12.6.03
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Súbito fez-se alma o que já fora pedra e manso o que fora voragem e não havia mais nada que àquilo pertencesse que não tivesse sido tocado por um suspiro, nem nada que daquilo viesse que não trouxesse em si um rufar de folhas e um abrir de portas. Chegou com ele um improvável cheiro de manhã perdida, entre sons de casa e lençóis azuis, que se espalhou pelos cantos inexoráveis dos sentidos. Também com ele vieram cães amarelos deitarem-se aos pés da cama, sob a janela, anunciando que já quase ia meio dia. Desejei que não se escoasse o poço do que era, desejei que ali ficasse preso, para sempre, aquele pedaço de mundo ungido de calma, aquele sótão da realidade imprecisa repleto de olhares suspenso, vistos pelas frestas de sol. Então, súbito se fez novo o que já ia se fazendo velho e deitei a cabeça no peito morno da manhã que havia partido.
Não Discuto
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Ratapulgo
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12.6.03
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A minha avó odeia o meu pai e vice-versa. A relação sogra-genro mais radical que eu conheço. Não, nada de "quero que ele(a) morra" ou coisa do gênero, eles decidiram ser um pouquinho mais civilizados. Eles simplesmente não se falam. Aparentemente, não fazem a menor questão de mudar essa situação. Menos mal. Melhor do que aquela histeria de novela global ou filme de Almodóvar.
Ontem à noite, por exemplo, no fim da minha conversa telefônica com ela:
- Então tá, vó. Um beijo.
- Um beijo, querida. Outro prá sua mãe e um pro Pedrinho. (sic)
- E pro meu pai, não tem beijo, não? (eu sou má)
- Não. Não há necessidade.
A autenticidade dela é que me impressiona. Quando eu crescer, quero ser igual a ela.
me Jane you Tarzan
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Ratapulgo
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12.6.03
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11.6.03
Manipulação de Chi Maligno - Algumas Técnicas
Na Renânia uma vez um homem foi assassinado com trocadilhos. Ele revirava os olhos de desgosto cada vez que ouvia um. Uma vez que o irmão disse um trocadilho particularmente ruim, o homem ficou em silêncio como se tivesse sido insultado; depois suspirou e disse baixinho: Ai, Senhor, dai-me...
Diz a história que nesse ponto o irmão fez um trocadilho com “paciência”, que só tem sentido em alemão medieval, e nem em alemão medieval tem muito sentido; e aí o homem olhou incrédulo para o irmão, branco de horror, e cobriu devagar o rosto com as mãos como se sofresse muito, e foi tombando no chão, e morreu no meio das galinhas.
Todos sabemos que há chineses que usam trocadilhos para golpear inimigos à distância – trocadilhos são feitos de chi maligno. Uma técnica muito pior, no entanto, vem do arnis, uma arte marcial filipina, e envolve o uso indiscriminado de aspas. Faça uma experiência: fique de pé na frente da tela, braços relaxados, um leve sorriso no rosto, e leia esta frase tirada de um folheto que me veio pelo correio: Promoção “Imperdível”! Descontos “especiais”!
Não sei você, mas eu senti leves agulhadas nas juntas todas quando li essa frase, e vi luzes vermelhas piscando na retina. Mestres de arnis podem matar bois com o uso aleatório de aspas. Na falta de papel, usa-se os dedos indicador e médio das duas mãos, para fazer o gesto de aspas no ar e mandar o chi maligno para a vítima.
Mestres trocadilhistas e aspistas se enfrentaram uma vez, nos arredores da cidade de Manila. Enquanto eles se atacavam todas as mariposas e libélulas de Manila caíram mortas. Sobreviveu apenas um homem, um leiteiro de Makati. Ele fazia trocadilhos, fazia aspas com os dedos, dizia mensagens positivas e *AlTerNava* *leTRas* *mAiúsCulaS* e *MiNúSculAs.*
(Foi morto anos mais tarde, no entanto, quando outro mestre de arnis deixou um comentário no seu blog dizendo: “Ae cara como vc é mala!!!!” Humm.)
trocadalho do Alexandre Soares Silva
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Ratapulgo
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11.6.03
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Meu quarto sempre foi meu aconchego, minha cara, meu refúgio. Não me refiro ao quarto no qual me encontro neste momento, mas o da antiga casa onde morava. Nasci e cresci naquele quarto. Passei 22 anos da minha vida sendo vizinha de D. Lola, que criava um galo na área do prédio, de D. Maria que sempre vinha pedir um tomatim, um bucadim de açúcar, um tequim de folha verde...De D. Hilda que tinha 300 filhos que brigavam o dia todo e garantiam baixaria de qualidade! Todos eles tinham seus quartos em frente ao meu e milhões de vezes eles presenciaram eu dançando que nem uma louca com os cabelos lá em cima, ou então conversando com as paredes (Edgard, pros mais íntimos) ou então tentando incomodá-los com música alta. Tive várias fases em que ficava enterrada no quarto o dia todo esperando o tempo passar. Meu pai não deixava eu brincar com as outras crianças porque eles eram ¿más companhias¿ e eu era superior (ainda bem que nunca acreditei nisso), e então eu ficava no quarto vivendo minhas fantasias, cortando minhas revistas, lendo, tentando em vão fazer roupas pras minhas Barbies, quebrando meus aparelhos de som quando não conseguia gravar a música que eu queria. Isso me ajudou a tomar gosto pelas coisas. Sempre que eu tinha uma oportunidade de brincar, eu curtia tanto que achava que ia morrer. Sempre que consegui gravar a música que queria ouvia compulsivamente até as pessoas me pedirem pra trocar.
Quando ficava triste, me escondia no guarda roupa, ficava no breu, remoendo minhas dores. Quando estava feliz armava uma barraca no quarto e chamava minhas primas pra acamparem. Fiz o possível e o impossível pra ser feliz ali dentro e fui. Quando já estava de mudança pra cá, fui a última a sair da casa. Arrumei tudo e depois quando entrei no quarto, aquele lugar onde eu tinha vivido quase tudo, ele estava vazio. Minha cama, meus posters, meu criado mudo, não havia mais nada. Eu me sentei no meio do quarto e minha vida passou como um filme na minha cabeça. Meus vizinhos me viram chorando, depois eu fui embora e nunca mais voltei.
Palavras achadas por uma Garota Perdida
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Ratapulgo
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Pérolas da semana passada:
Novinho (sim, esse é o apelido dele!), amigo com alma de Barbra Streisand, para o pai:
- Mas pai, eu não gosto de lavar panela, eu nasci pra brilhar! Ô, pai... (sapateando)
- Então use bombril.
Jardel, amigo guitarrista, sofrendo com a inclemência do sol limoeirense, também para o pai:
- Pai, compre uma moto pra mim?
- Mas você num já tem uma bicicleta?
- Tenho. É que eu queria uma coisa que roncasse, fizesse barulho...
- Compre uma porca e amarre na garupa.
Arroz-de-leite
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Ratapulgo
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11.6.03
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10.6.03
Sempre chega esse dia
sem mandar aviso
Dia inútil em que não me encontro
que é ameaça de outros tantos que perdi
Lembranças não se apagam
mas queria tanto esquecer
Não lembro é como faço para sorrir
Pior
Não acho motivos
Um dia que foi ontem
porque alguém limitou a minha dor no espaço de 24 horas
Será que devo contar ou fico com o medo de saber o resultado da soma?
Não vi se tinha sol ou lua quando desisti e resignada deitei com essa ausência
Acordei quando para muitos o calendário dizia ser hoje
Tive medo do instante que vinha pela frente
A lágrima é pelo passado que não esqueci e pelo futuro que posso ter
Um dia sem luzes
sem calor
O sol batia no meu ombro
Pedia para que olhasse para a janela e visse a vida lá fora
Não aceitei o convite
De que adiantava saber que marcava 30 e tantos graus no digital da esquina
se o inverno estava dentro de mim?
Ontem
texto do Postal
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Ticcia
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10.6.03
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Eu preciso fazer um tratamento intensivo com alguém que pense mais em si mesmo do que nos outros, porque eu não sei fazer isso. É questão de sobrevivência, porra. Quero dizer, eu não vou durar muito nesse mundo competitivo enquanto continuar dando importância aos sentimentos e ao bem-estar alheio. Preciso aprender a pegar o que eu quero sem me importar se isso vai partir em cacos a auto-estima e a felicidade alheia.
Preciso parar de me privar de algumas oportunidades só porque sei que grandes amigos vão ficar profundamente magoados. Duvido que deixem de falar comigo ou qualquer coisa assim, mas sei que vão se sentir péssimos e isso é argumento mais do que suficiente pra eu controlar todos os meus impulsos e segurar minha onda, por mais que a necessidade berre, por mais que meu corpo diga que eu preciso daquilo, por mais que a tentação seja forte. Preciso lembrar, de vez em quando, que eu preciso ser minha prioridade.
Mas eu não consigo. Não se for pra chatear alguém importante pra mim.
Alguém aí me empresta um pouco de egoísmo que o meu tá acabando.
Me empresta um pouco, porra.
Caralho, como vocês são egoístas.
atenda o pedido da Utopia Dilucular
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Ticcia
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10.6.03
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ontem fui ao bar encontrar o mr. wiggles, que agora perdeu o contato com jesus, depois que ele, jesus, saiu do aa e tal. isso de "descobrir uma vida nova" faz as pessoas realmente ficarem uns 30% mais chatas, incluindo a pregação. eu gosto demais do mr. wiggles, mas quando ele estava andando com jesus era tipo um saco encontrá-lo, sempre com o cara a tiracolo em seus delírios pequeno-burgueses, como o dessa gente que acha cool viver na sarjeta. enfim, ambição é como gosto: é mais pra lamentar.
hoje tinha um editorial engraçado do clóvis rossi chochando o lula e conformando-se com seus ansiolíticos, enquanto o lula continua feliz e frequentando festinhas & sessões de cinema com as vedetes hodiernas. o lula virou uma espécie de rainha da inglaterra. acho legal a idéia de termos uma elizabeth com rabada e polenta, só que podiam também mandar junto pelo menos a body shop, hein? que suplício ser brasileira nessas horas.
não comento sobre contas, inflação, impostos e a ladroagem de instituições como o pão de açúcar porque não vale a pena. gosto do brasil porque é o país-modelo das estruturas sociais medievais, com destaque no carro abre-alas pra imobilidade. então, por exemplo, se você nasce cagando dinheiro e é um diniz, sua posição lhe diz (ou, na melhor das hipóteses, vc "ouve vozes" e pode bancar o tratamento em casa) pra meter a mão no dinheiro dos outros e você é obrigado a ouvi-la, sacou? enquanto isso, as vozes na minha cabeça saem de seres disléxicos. praga.
e continua o campeonato pelo extermínio da nossa grande imprensa nacional, filha, irmã e cunhada do nepotismo! vamos ver quem vai ser o primeiro a passar a fita amarela na porta de seu estabelecimento e ir se esticar durante uma temporada nas ilhas seychelles. eu já tenho os meus palpites.
notícias de Nibelunga do Cabelo Duro
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Ticcia
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10.6.03
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É QUESTÃO DE ESCOLHA
Me liga a Ana Paula, uma prima meio piranha que eu tenho. Ela é super alto-astral e ótima companhia para baladas: bonita, cabeça-de-vento e meio fútil. Costumávamos sair em BH e ela, já no início da noite dizia: "Vou beijar aquele ali". Dito e feito, já tínhamos carona para voltar para casa. Paulinha, gostosona, já foi vendedora de loja de shopping, recepcionista e promotora de eventos. Até que se cansou e resolveu fazer a vida em Portugal. Não, não tão literalmente. Lá namorou russos, portugueses e suiços..até que conheceu um norte-americano interessante. Tiveram um affair de poucos meses e o moço zarpou para Las Vegas. De lá, não resistindo aos encantos de Paulinha, o moço disse que queria casar. Em dois meses ajeitaram tudo, vieram ao Brasil conhecer a family da moça (minha tia, dona Etelvina, que faz a melhor feijoada do mundo) e juntaram trapos e alianças. Há oito meses o casal vive em Los Angeles em perfeita harmonia. A Paulinha.. ah, a Paulinha faz ginástica todas as tardes, estuda inglês e prepara o jantar para o maridão. "Pô, Paulinha, vc não vai trabalhar nem estudar não?". "Hã? Alexandra, eu moro na Califórnia, meu marido é rico e me ama. Quanto você ganha mesmo?".
Um Jeito Alexal de Ser
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kktanaka
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10.6.03
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E hoje eu fui ao médico de ônibus e fiquei do lado de uma senhorinha. A pele escura, o cabelo branquinho, branquinho, e os olhos apertados que nem eram de chinês nem nada. Assim como eu. E ela sentada, com uma bolsinha surrada de aro de madeira apertada contra o peito farto, numa humildade de santa. Tão linda que eu morri um pouquinho.
Sorvete de Casquinho
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Ratapulgo
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10.6.03
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Uma das características mais tristes do Rio é a quantidade de crianças pedindo esmola em sinais de trânsito. De uns tempos para cá elas começaram a fazer malabarismos com bolas de tênis, na tentativa de atrair ao menos alguma simpatia dos motoristas. Hoje eu vi, num sinal de Botafogo um exemplo de que, se os malabaristas de sinal estão se esmerando em técnica, ainda falta-lhes planejamento.
Fechou o sinal. Dois rapazes de uns 15 anos, bolinhas de tênis nas mãos, foram para a frente dos carros. Um subiu no ombro do outro e começaram a fazer malabarismos duplex. Demonstraram grande equilíbrio tanto nas esferas quando nos próprios corpos, culminando com um pulo do que estava sobre os ombros do colega. Perfeito, não fosse por um detalhe: o pulo coincidiu com a abertura do sinal. Ao planejarem seu número, eles esqueceram de deixar um tempo para recolherem o dinheiro...
Espírito de porco
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Ratapulgo
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10.6.03
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Free Willi
- Benhê
- Ahn ahn.
- Benhê!
- O que foi Afonso, são duas horas da manhã. Me deixa dormir.
- É que eu estive pensando, quando eu era criança eu nunca tive um
amiguinho imaginário.
- Isso às duas horas da manhã?
- Eu tô falando sério, Angela Maria.
- Eu também, Afonso.
- Isso pode ser a causa de todos os meus problemas existenciais
- Eu acho que acabei de encontrar a causa dos MEUS, Afonso.
- Oi, Willi.
- O quê?
- Willi, é o nome do meu amiguinho imaginário. Ele tá aqui do meu lado.
- Que nomezinho mais besta, Afonso. Não dava para simplificar, não? Sei
lá, chamar de João.
- Vê lá se eu vou ser amigo de um João ninguém. Você ouviu isso, Willi?
João. Rá, rá, rá.
- Rá rá rá digo eu. Para quem é filho de um Astolfo até que você tá
exigente demais com nomes.
- Tá vendo, Willi, ela sempre dá um jeito de alfinetar a minha família.
- Afonso, quer apagar essa luz?
- É que eu não tô conseguindo ver o Willi.
- Ai meu Deus do céu.
- Não, Willi, eu acho que ela não topa.
- O que foi dessa vez, Afonso?
- O Willi tá querendo fazer um menáge a trois.
- Tá, mas apaga a luz.
Luz apagada. Afonso sente uma pancada na cabeça.
- O que foi? Você tá louca?
- Não fui eu, foi a Winnie. Ele mereceu, né, Winnie?
EU HEIN
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Ratapulgo
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10.6.03
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9.6.03
CONTO INFANTIL
Era uma vez um menino que gostava imenso de foder. Certo dia, ele estava a passear num bosque quando se cruzou com a Branca de Neve. E disse-lhe assim: “Ó Branca de Neve, posso-te ir aos entrefolhos do pipi?” E a Branca de Neve repondeu: “Está bem. Até porque os anões têm a língua trabalhadora, e eu sempre gostei que me fizessem minetes enquanto lavo a loiça. Mas picha, que é bom, está quieto ó preto. A piça anã nunca me encantou.” O menino saca da gaita e, quando se prepara para dar início aos trabalhos de cu-abaixo e cu-acima, aparecem a Super-Mulher e a Cat Woman. E diz o menino: “Ó Branca de Neve, desculpa lá mas vais para o caralho. Isto é que é pito bom.” E toca de se fazer à Super-Mulher e à Cat Woman. Na altura em que o menino se está a preparar para meter a estaca no super-bordedo da Super-Mulher, aparece o Super-Homem e abarbata as duas gajas. Antes de se pôr na alheta com as super-putas, enfia o nabo, com super-rapidez, na boca do menino, mais de duzentas vezes. E no fim, esguicha-lhe para a cara, vazando-lhe uma vista.
Moral da história: mais vale uma pássara na mão que duas a voar.
P.S.: Falta o final feliz: quando a Super-Mulher e a Cat Woman se foram embora com o Super-Homem, o menino sentou-se ao pé de um carvalho e chorou. Mas nisto apareceu o Bambi e pôs-se a consolar o menino. E o puto vai e enraba-o.
TETAS COMO ELEFANTES
A minha avó embirra com a minha fixação em mamas grandes. Não percebe como é que, aquilo que para ela é uma atrapalhação na lida casa, pode ser um arrebita-nabo para mim. A verdade é que a funcionalidade de um par de tetas gigantes é diferente se estivermos a manuseá-las na óptica do utilizador. Eu dou grande valor a uma prateleira como deve ser. Principalmente quando estou a lamber uma crica de uma gaja feia. Nessas altura, dou graças ao Criador por ter posto entre mim e a fronha desalinhada da sopeira em que estou a efectuar trabalhos de canalização, um muro de chincha que impede o contacto visual. Não poucas vezes, no meio de uma minetaça, me desconcentrei por ver a verruga encimando o nariz da gorda que estava a comer. No fundo, quando estamos a comer lampreia, não nos apetece nada ver a lombriga que deu origem ao pitéu.
PERIGOS DAS GAJAS BOAS
Está um calor do caralho e as gajas começam a descascar-se – e bem. Mas isso traz alguns perigos. Hoje, na faculdade, lá estava uma colega com um vestido cavado nas costas (mostrando que não levava soutien) e justo nas ancas (mostrando que nem cuecas tinha – ou pelo menos eu esforcei-me por acreditar nisso com todas as minhas forças). É evidente que, passados dois minutos de aula, já eu tinha o nabo a latejar. Saí logo e fui esgalhar três punhetas preventivas. Voltei, mas o bicho não se acalmava. Muito por culpa da gaja, que – vê-se claramente – proporciona festa rija na cama. E, estando ela mesmo à minha frente, tornava-se fácil para mim imaginar uma monumental canzana em que eu – sem lhe tirar o vestido, apenas levantando a saia para cima – lhe dava uma carga de piçada épica sem pedir licença nem nada. Tinha que distrair o pensamento e recorri à minha técnica do costume. Comecei a pensar: “Na baliza, Moreira. Quarteto defensivo com Miguel, Argel, Hélder e Ricardo Rocha. No meio-campo, Tiago e Petit. Mais à frente, eu a foder esta puta mesmo na marca do penalty e o terceiro anel todo a gritar: Pi-pi! Pi-pi! Pi-pi!” Foda-se, não havia nada a fazer. Todos os caminhos vão dar a Roma e todos os meus pensamentos vão dar à rata. E agora? Esgalhar mais punhetas não podia, sob pena de ficar com o nabo em carne viva. Agarrar a gaja por trás e comê-la ali à má fila também era desaconselhável. Simulei um mal estar de estômago e saí definitivamente da sala. A História da Arte que vá para a puta que a pariu. Se o Rubens tivesse visto a peida da minha colega – que além do mais era cheiinha, como ele gostava – ainda hoje estava agarrado ao pincel. Não ao verdadeiro mas ao metafórico, claro. A tocar sarapitolas umas atrás das outras.
Bom, mal saio, estava lá fora uma gaja que me anda a rondar há algum tempo, só que tem a perna curta e a peida descaída. Começou a fazer-se a mim, outra vez. Pensei: “Foda-se, quem esteve a sonhar com lagosta, agora não se contenta com carapau.” Pareceu-me uma posição eticamente correcta e um bom lema de vida. Mas caguei nisso e mesmo assim comi a gaja. A canzana que era para a outra, levou-a esta. Acho que até ficou com a peida no sítio e tudo.
O Meu Pipi d'além mar
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Ratapulgo
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8.6.03
personalismo
no maço de cigarros, uma daquelas fotos que já aprendera a ignorar, inveterado que era. sempre tivera um sistema psicológico de detecção natural de locais e situações nas quais poderia ou não fumar, e já nem percebia mais as fotos muito bem produzidas. pegou o maço, deu a nota de dois reias e saiu do boteco, no qual só entrara pra comprar a desgraça fumígera.
quando foi botar o maço no bolso da camisa social velha e cinza, amarelada nas axilas, percebeu algo. nada muito sério, ou mesmo relevante, que não pra essa história. a foto não era uma das que estava acostumado a ignorar. num fundo escuro, como crepúsculo de um dia de chuva pela manhã, estava seu rosto. seu rosto mesmo, com todas as marcas de espinhas, olheiras acumuladas por anos de bebedeira e farras intermináveis, isso sem falar da maconhazinha que de vez em quando rolava por ali.
e a foto sorriu pra ele.
tá, dêem um desconto pra frase-parágrafo-telegráfica, mas esse ponto é relevante pra coisa toda então mereceu o destaque. voltemos, pois. e assim ele desatou a correr, segurando o maço bizarro e fechado até uma quebrada de rua mais úmida, escura, e discreta, onde pudesse analisar melhor o que ocorria.
recapitulando: o cara fumava pra burro, bebia às ganhas, fumava um às vezes, e nesse dia achou um maço com uma foto sua num fundo de muito mau-gosto, num maço de cigarros que comprou num boteco qualquer. claro que ele, assim como eu, deve ter achado que era uma brincadeira aquilo, alguém querendo lhe dar uma lição. e decidiu ler o texto.
O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE:
ALFREDO, SE TU CONTINUAR FUMANDO DESSE JEITO, TU TÁ FUDIDO.
a foto.
o texto.
a cara dele ali impressa. 'maldita maconha'. sorriu de novo, a foto. ele jogou o maço ao longe, pra dentro da rua escura, foi-se embora numa correria que só vendo. claro que ele só aguentou correr meia-quadra, inveterado que era, mas isso não vem ao caso porque ele acaba de sair da história. o maço ficou ali abandonado, o alfredo mais além, tossindo e catarrando marrom, se recuperando e entrando em outro boteco pra comprar outro maço de cigarros.
uma senhora sem-teto passou pelo esbaforido fumante quando ele saiu do outro bar, carregando consigo a fotinho da impotência, levando suas quatro ou cinco sacolas velhas, suas roupas e ossos gastos, até quebrar numa rua escura pra tirar uma soneca e amassar umas latinhas de cerveja e refri light que trocaria por alguns troquinhos, até o dia em que não precisasse mais andar ou respirar ou fazer qualquer outra coisa. e viu no chão, ali, um maço fechadinho de cigarros.
como ela não suportava cigarros, perdera o marido por insuficiência respiratória, pisou com força no pacote, logo o jogando num monte de lixo velho e úmido da quebrada escura e úmida.
não, ela não viu a foto dela mesma se contorcendo de dor pelo esmagão.
como assim dois uísque?
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Ratapulgo
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8.6.03
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Conversas de boteco
(um post a la Zazoeira)
- Você não odeia essas pessoas que repetem a pergunta quando respondem?
- Se eu odeio pessoas que repetem a pergunta quando respondem? É claro!
* * *
- Se eu fosse você, trataria de me agarrar agora mesmo.
- Se eu fosse você, me suicidaria.
* * *
- Quantos anos você me dá?
- Trinta e sete...
- Errou. Trinta.
- ... mas com corpinho de trinta e seis...
* * *
- Bebida é uma merda.
- O que você faz neste bar então?
- Sei lá, é o vício. Devo ser um coprófilo enrustido.
- Que bosta.
- Rá, rá.
* * *
- Bundinha. Tem que ter bundinha.
- Prefiro peitões. Daqueles em que a gente enfia a cabeça no meio dos dois e faz blrlrrr com a boca.
- Necas. Peitões tem pouco prazo de validade.
- A vida não tem muito prazo de validade.
- Ih, sem papo-cabeça...
* * *
- Não me conformo. A Marta foi uma pessoa com tanta sorte na vida, e no entanto jamais foi capaz de perceber o quanto era feliz.
- Sim, é verdade. Que azarada, não?
* * *
- Admiro as pessoas que falam, porque elas têm a coragem de se expor ao julgamento prévio das pessoas.
- Sei.
- É como aqueles alunos que levantam a mão toda vez que o professor pergunta se alguém tem alguma dúvida. Quase sempre a dúvida de um é a dúvida de muitos outros.
- A-hã.
- De certa forma, são como porta-vozes daqueles que não tiveram coragem de se expressar. Dão a cara a tapa, ficam vulneráveis, arriscam-se ao julgamento alheio ou de fazer papel de palhaço em nome da minoria silenciosa.
- Tá, tá. Eu sei aonde você quer se chegar. Mas precisava perguntar ao professor de biologia o que acontece se uma mulher peida durante o sexo anal?
- Porra, vai dizer que só eu tinha essa dúvida? Tudo bem, um herói nunca recebe o devido reconhecimento.
- A-hã.
* * *
- Chorei quando o Titanic começou a afundar.
- Pô, não conta o final do filme.
Pensar Enlouquece. Pense Nisto.
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Ratapulgo
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7.6.03
Você tem certeza do que sente por mim?
Tenho certeza, mas será que você sabe o que eu sinto? Tem certeza que quer saber? Eu não busco nada, porque descobri quem sou. Quando você busca, fica longe, nunca encontra. Quando pára de buscar, você já é. Se você quer proteção, é só deixar essa proteção explodir. Noutras palavras, você é Deus dentro de si mesmo. Mas é claro que é preciso trabalhar isso. Essa busca não é uma busca. Você não viaja buscando, mas despertando. Por exemplo, eu te fodi e não vou levar nada. Eu não aprendi nada, eu despertei. Quando aquilo flui, já está ali. Está tudo dentro de você.
Você ainda esconde algum segredo de mim? Se sim, isso te incomoda? Você gostaria de me contar?
Eu coleciono manchas de sangue. Não qualquer uma, nem qualquer sangue. Minha coleção inclui apenas aquelas marcas em meu colchão, tingidas ali para sempre. É esquisito porque você sabe que não posso ver sangue, sobretudo se for o meu. Sempre fui assim e não há o que mude - pelo menos não havia. Bastava uma encarada numa gota daquele líquido viscoso, de cheiro estranho e gosto inesquecível, para me dar um apagão mental. Já desmaiei fazendo a barba, quando tirei dois dentes cisos de uma só vez - experiência péssima, que me deixou uma cicatriz bem abaixo do nariz por causa de um móvel que cruzou meu caminho rumo ao chão - e até cortando a unha. Morria de vergonha, mas não tinha jeito. Era ver e ir para o chão. Se meu pau fosse transparente, eu seria um saddhu.
Você me perdoaria se eu te traísse?
Lamentos são para os fracos. Acredita que meu pai teve a manha de mandar imprimir essa frase cretina atrás do cartão de visitas dele? Se minha mãe não ligasse tanto para decoração, ele teria um quadro com essas palavras pendurado em todos os cômodos de nossa casa. Quem sabe posto até um banner na porta do sobrado para todo mundo saber que ali era essa a religião seguida. E eu, educado debaixo do pesado manto da tradicional família mineira, sempre acreditei nessas palavras repetidas a cinco gerações pelos machos da minha família. Para mim, aquilo era a lei e ponto. Agora que atingi a transcendência, não há como retroceder. Quem faz parar é o ego. A mente freia e engarrafa o medo. Mas a consciência liberta. E o corpo precisa estar preparado, se deslocar, se propagar, conceber.
Você tem certeza que eu te amo?
Uns fazem kung-fu, outros fazem judô... Eles estão tentando causar dor ao corpo, agredi-lo para ter um prazer. Que prazer é esse? É o fruto da ação que eles vão ter depois da reação. Eles estão buscando uma glória. Quando passam naquela prova recebem congratulações, sentem-se bem. Por exemplo: artes marciais. Quem pratica está ali sentindo dor, maltratando o corpo, né? O amor vai além dos movimentos normais, paralisa tudo. Se você pára, vai sentir um problema dentro do sistema. Vai enrijecer tudo, a não ser que você seja um faquir. Sendo um faquir, você não deixa, mesmo estando o corpo parado, você não deixa. Nem as articulações. Porque a própria consciência está trabalhando. Chama-se fluxo de energia. Ela vai indo para o primário, secundário, e a consciência vai se propagando. É um dom. O amor é um dom.
Você às vezes queria estar solteiro? Se sim, para fazer o quê?
Se a ordem é escolher entre corpo e alma, ambos são teus. Mas, giro em torno do Sol e sigo a ordem que vem de dentro. Não é falsa moral, é ser livre. Não posso sucumbir ao que não quero, ser o que critico. São caminhos opostos. E eu expando a minha luz, sem me reprimir nem me culpar. Eu sigo a minha ordem. Sou líder da minha vida, e a minha liberdade é de alma, mas mantém o corpo preso. E eu queimo, me queimo, ardo em febre, ferro em brasa, minha carne, meu karma. Ainda não somos seres etéreos. Ainda temos essa carne densa que nos prende e nos afasta. Mas não faz mal. Você escolheu minha alma. O que importa é que os veículos mentais das pessoas se despertem, se harmonizem. Quando a mente se submete à sublimação até que ela colabora, mas quando ela não quer ser adestrada, não quer se submeter à consiência, fica mais difícil, porque existe diferenciação dentro do sistema. Tilt.
O que você mais gosta em mim?
Me intriga aquela enorme fenda que parte 10 cm abaixo do seu umbigo e onde pode-se vislumbrar formas longínquas e embaçadas. E os pés que eu não vejo. Do desassossego. Sua pele arrepiada pelo meu beijo. Sua boca que me entorpecesse em dez segundos. Eu queria mesmo era inventar você.
E o que mais odeia?
Quando você chega a estágios de se enterrar, se furar e deitar em uma cama de pregos. Isso me deixa puto! Ficar sozinha, trancada naquela brecha úmida, se matando sem ao menos querer brigar não acaba com a ansiedade. Quando o muito obrigado atinge a gente, o ego incha mesmo. A mente fica alegre com isso e vem o conflito novamente.
Você acha que é sacana comigo?
A ardência na garganta impulsiona o cérebro que desespera minha língua que não é corajosa o suficiente para contar que sou muito complicado. E safado.
Você tem ciúmes de mim?
Foi preciso que o Bush fosse indicado ao Nobel para abalar minha fé, mas agora é só uma questão pessoal. Eu consegui esse limite, ninguém conseguiu e eu consegui. Foi um marco em minha história. Eu vejo pessoas que foram lutadores e pararam no tempo. Depois eles foram ver que a mente judiava deles. Ela os prendeu ali dentro. Qualquer coisa que pareça sobrenatural e anormal para as pessoas, é porque está em desequilíbrio. O equilíbrio dessas três polaridades, mente, corpo e consciência faz com que realmente você viva sem extrapolar.
O que te dá ciúmes?
Vamos dizer assim: uns dominam o conceito, outros não. A habilidade de superar a dor e não se agoniar com isso depois é apenas atingir um limite possível. Para extrair o amargo, a consciência tem que achar outro caminho para trilhar se quiser encontrar a felicidade. Percebi que este último não era o que me mobilizava.
Você acha que eu sou muito grudada em você?
Só quando você escova os dentes com a minha mão e lava os pés com as costas da minha língua. Quando você deixa os olhos em cima do meu criado mudo também incomoda.
Eu ainda sou a melhor transa da tua vida?
Quando você solta as engrenagens, o universo penetra meu estômago e Marte absorve tudo para se contrair num espasmo como se isso fosse te escancarar as pernas com um macaco hidráulico. Isso é foder.
Se você não quisesse mais ficar comigo, teria a coragem de me dizer ou ia mudar as atitudes para que eu percebesse sozinha?
Nenhum desejo neste sentido. Engoli a seco e extrapolei na ilusão quando pensei ter superado todos os problemas nesta vida. A caneta falhou em todas as decepções e tive que começar de novo. Sem estar disposto a aceitar tudo em defesa do relacionamento, tentei reerguê-lo. Partido. Quebrado. Amargo. Errado. O mundo parou. Silêncio. Cadê a luz do dia?
Você ainda gostaria de trepar com ela?
Toda justificativa tem uma boa causa. Naquela noite a angústia dos olhares perguntava: o que aconteceu? Ficar impotente em meio a toda aquela tristeza era provar que estava me perdendo e iria sofrer muito. Acho que deveríamos beber um pouco mais antes que eu continue. Vá com calma para não vomitar. Não vou cuidar de você. Percorri cada poro daquele corpo como se estivesse com muita fome. Extasiado com as formas, babei um gemido misturado com gozo à temperatura de 37,5 ºC. A vertigem subiu pelas minhas pernas como uma câimbra. Meu analista garantiu que eu não me reconheceria. Fiz a curva e entrei pelo caminho até a porta da frente, mas não gostei do que vislumbrei. Eu estava certo. Não podia mais haver engano.
Você acha que merece meu perdão?
Mas o que é isso? Um insulto à realidade, à lógica das coisas? Me peça para dançar o Ragatanga mas comece com um por favor que te levarei ao deleite. Sabe o que é passar uma semana vomitando satisfação pelos olhos? Se não podemos fazer nada, vamos jogar War que invadirei a Oceania para me distrair.
Você ainda quer casar comigo?
Me falta aquele clima dos casamentos, onde todo mundo fica viajando nas sacanagens que os noivos logo vão estar praticando. Medo. É grave, doutor? Um pouco de sol, mais verduras e legumes e uma buceta de vez em quando. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Desliguei o ar-condicionado e atendi o telefone. (...) tesão, o maior tesão (...), ...me come (...), mete de uma vez só (...), tudo aqui dentro (...) tudo, de uma vez (...). Achei estranho aquelas palavras e desliguei. Devia ser engano. Vou mudar. Mas vai mudar assim na puta que o pariu. Olhei e não havia cupidos voando em volta da mesa. Tive que me resignar.
na cama de pregos com o FAKERFAKIR
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Ratapulgo
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7.6.03
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6.6.03
A casa
Era uma experiência. Uma espécie de Casa dos Artistas – sem câmeras e sem artistas. Apenas eu, Estela e meu gato, naquela casa de janelas altas e corredores longos. Parecia um bom lugar. Desfizemos as malas, consertamos o chuveiro, distribuímos beijos de boa sorte e boa noite.
Logo de manhã percebi que algo estava errado. Acordei na sala de jantar – eu havia dormido no quarto. Levantei e chamei Estela. Estela estava enrolada no lustre. Era um lustre grande, mas e daí?
Peguei a escada e acordei-a.
- Que diabos está havendo?
Estela desceu, ainda sonolenta.
- Você me colocou no lustre?
- Eu? Por acaso você me colocou em cima da mesa de jantar? O lustre é muito mais confortável do aquela maldita mesa redonda. Pelo menos não bate vento.
- Claro que bate.
Em vez de café da manhã, tomamos chá. E na hora do chá, tomamos café da manhã. Não só isso. Jantamos durante o almoço e almoçamos durante o jantar. Estranho, muito estranho.
No outro dia, acordei de ponta-cabeça, dentro do armário. Estela estava ao meu lado, pendurada em um cabide. A sala estava na cozinha, a cozinha estava na garagem, a garagem estava no banheiro, o banheiro tinha simplesmente desaparecido.
Os cômodos mudarem de lugar não era nada. A casa começou a mudar de número, depois de rua, de bairro... Quando dei por mim, estávamos morando em Mogiguaçu. Eu nem sabia onde diabos ficava Mogiguaçu.
Não demorou muito e o meu gato se transformou em cachorro. Pior! Em poodle, em um maldito poodle. No lugar do meu equipamento de alpinismo, surgiu uma cesta de piquenique.
Estela só aceitou apertar o botão de alerta vermelho, de pânico total, quando vestiu seu vestido-longo-preto-caro-decotadíssimo, foi se olhar no espelho e voilà: um avental de flanela cobria-lhe o corpo.
Finalmente deu-se conta de que a coisa havia passado de todo e qualquer limite.
Resolveu trazer sua mãe para morar conosco. A velha jurava que podia dar um jeito na casa. Dizia já ter morado em lugares muito piores. Eu avisei que aquela casa não era um lugar adequado para mães. Além do mais, o combinado era só nós dois – e o gato, ou cachorro. Quem Estela pensava que era? Deus? Silvio Santos? Estela não me ouviu. A simpática mãezinha expandiu-se em dezenas de simpáticas mãezinhas. Passavam o dia a tagarelar entre em si. Uma perpétua convenção de mães.
Convenci Estela de que precisávamos contratar parapsicólogos. A convivência com eles me acalmou um pouco. Noites inteiras tomando cerveja, dando risada e jogando pôquer. Estela, ao contrário, passou a detestá-los. Eu os defendi. Brigamos. Estela atacou a parede em um abajur.
Os parapsicólogos insistiam que a nossa casa era normal, normalíssima.
Como vocês explicam o pudim feito de pedra? eu perguntava.
Eles riam.
Como vocês explicam as duzentas e trinta e sete toalhas molhadas? Estela perguntava.
Eles riam.
Acabamos por trancá-los no sótão, que na verdade era o porão, e eles passavam a noite a me chamar fantasmagoricamente:
- Mááááá-ri-oooooooo, Mááááá-ri-oooooo!
A única solução era mudar de casa. Continuar a experiência em outro lugar. Mudamos. A casa foi junto.
Então um dia, ao sair de um demorado banho quente, Estela viu uma criança surgir em meio ao vapor. A criança disse:
- Mamãe!
Estela gritou. Fui correndo socorrê-la.
- Papai!
Na porta do boxe, a criança havia desenhado com o dedinho um coração todo torto.
Foi aí que compreendemos.
Havíamos nos casado.
poltergeist do FDR
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Ratapulgo
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6.6.03
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4.6.03
Simone chega, encontramos com Érika e Alex (outro casal companheiro, atualmente sem blog) no Chopp do Bixiga, instalado no centro antigo de Fortaleza, perto do Dragão. Casarão charmoso transformado em choperia, música dos anos setenta e oitenta, astral espetacular, todo mundo adorando.
Na saída do banheiro Érika e eu topamos com um tumulto que tornava impossível a passagem - por cima dos ombros da pequena multidão deu pra ver uma moça aos prantos, segurando a mão desfalecida de uma amiga apragatada em uma cadeira.
E eu não sou esprangida? Sou. Fui lá, peguei o pulso da moça - cheio, forte, regular, e disse "filha, tenha calma. sua amiga está dormindo porque está bêbada. Leve num hospital pra um soro glicosado amigo e se prepare pra ressaca amanhã".
Voltamos pra mesa a tempo de ver outra mocinha vomitar um caminhão-pipa de chopp de vinho na toalha da mesa, na calça, no chão. E ainda foi embora, devidamente amparada pelas amigas, dando tchauzinho.
Aumente seu vocabulário no Arroz de Leite (grifos nossos)
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Ticcia
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4.6.03
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verdadeiro ou falso
Eu não tive uma infância tão feliz assim, quase não conheci meu pai, minha mãe nunca foi lá muito doce, eu era muito agressiva, nunca gostei de brinquedo de menina, adolesci prematura, casei muito cedo, me separei muitas vezes, tive filho muito tarde, amadureci quase à tempo, sou toda ouvidos, nunca fui de desabafos, não dou liga prá conselho. Quase ninguém sabe da minha estória, nem se tudo isso é verdade. O que importa prá mim é o que não tem importância, não vive de passado, não suspira por futuro. O que vinga, meu bem, é pouco drama, muito riso e um desejo inconfessável de viver sem juízo.
receita da Afrodite
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Ticcia
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4.6.03
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Superstição
Bom, dizem que existe essa superstição aí. Vi num filme uma vez que era uma crença dos índios norteamericanos. Mas depois li que umas tribos africanas é que acreditavam nisso. E uma vez me disseram que era coisa dos índios brasileiros. Ou seja, tem tudo para ser mentira e não existir superstição nenhuma. Porém, para efeito de verossimilhança, digamos que fosse uma crença dos navajos.
Pois então os navajos não permitiam que se tirasse fotos deles. Diziam que a imagem reproduzida roubava a alma do fotografado. Superstiçãozinha mais ridícula, eu sei. No entanto, tenho me sentido como um navajo ultimamente. Não que ande fugindo de fotografias, muito pelo contrário: seria trair o narcisismo que cultivei por tantos anos. Mas ontem tentei escrever alguma coisa para você (ou sobre você, sei lá) e desisti. Comecei várias vezes e em todas apaguei o que havia escrito.
Porque agora me parece que cada palavra que eu escrever roubará um pouco da alma do que sinto. Tenho medo de, escrevendo, dissolver um sentimento que surgiu de forma tão espontânea e explosiva.
Já escrevi demais. Tudo o que já senti ou pensei acabou mais cedo ou mais tarde sendo escrito. E para quê? Para que essa necessidade mórbida de guardar fotografias dos sentimentos?
Dessa vez não. Nada de escrever. Dessa vez vou viver, que deve ser melhor.
polaróide do Jesus, me chicoteia!
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Ratapulgo
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4.6.03
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Momento Familiar
Pra quem não sabe , eu sou filha de alemã.Ha-Ha-Ha ..Pode rir da minha cara quem já me conhece, mas é verdade.
Nessa foto super simpática aqui é claro que eu sou a da esquerda. Não, eu não sou filha adotiva , ok?
A que está ao meu lado é a Nina. Minha irmã.
Somos parecidíssimas. Chegam a nos confundir na rua.
A Nina tem 15 anos. Quando era menor , fomos passear no ibirapuera e ela soltou da minha mão e saiu correndo.
Eu, a tchonga, tive que ir atras , no pique atrás da guria, só que ela corria e gritava - " Você não é minha irmã , você não é minha irmã. Agora , eu neguinha , correndo atras de uma menininha lourinha chorando e gritando , imaginem o que todo mundo pensou???
- A menina ta sendo sequestrada! Chama a polícia.
Veio o guardinha.
- O que que ta acontecendo? ( e a filha da mãe, gruda na perna do Guarda - Ela nao é minha irmã , ela não é minha irmã!
- To tentando pegar minha irmã , não ta vendo?
- Aham, e eu sou a Branca de neve. O que que vc é dessa menina? babá?
- babá é a Pu.....
- Filhaaaaaaaa...., interrompeu mamãe que chegou a tempo d'eu não xingar até a vigésima encarnação do guarda. - Sua mãe não te ensinou que você nao deve falar palavrão? (e eu que levo a bronca ainda por cima)
E a multidão ao redor do possível sequestro.Saiu até um "LIXA"!"LIXA"!
- Vai Lixar a buceta da tua mãe , filho da puta! , disse a minha mãe (aquela que me ensinou a não falar palavrão)
- Não é sequestro , então? Perguntou gentilmente , uma senhora que estava à frente da liga de intriga.
- Não num é nao. As duas são minhas filhas e vão cuidar da vida de vocês.
Quando tava todo mundo virando as costas a Nina grita:
- Ela não é minha mãe!
Tivemos que tirar documento do inferno pra provar o parentesco.
Nunca mais fui no Ibirapuera e ela nunca mais assistiu Família Dinossauro.
fotinhos no Casos e Acasos Virtuais
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Ratapulgo
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4.6.03
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Tendência de mercado
Aposto como aconteceu de novo.
Já reparou que toda vez que você vai ao supermercado no fim de semana você encontra pelo menos um casal gay fazendo as compras do mês?
Confesse (pra mim você pode). Você já acha inteiramente normal encontrar casais gays no cinema, no restaurante - até mesmo no hotel, na hora do café da manhã. Mas no supermercado é diferente. No supermercado você ainda sente algum constrangimento. Estou certo ou estou errado?
Lá fora, na rua, você nem repara mais, porque os casais gays já fazem parte da paisagem. Mas ali, entre as quatro paredes do supermercado, em pleno gueto das donas-de-casa, atrás da moita dos extratos de tomate e rodeado de maionese por todos os lados, você não tem como não achar tudo vagamente pervertido.
E os alarmes falsos? De vez em quando você vê dois homens juntos fazendo compras no supermercado. Mas daí, quando você vai dar aquela espiadinha básica (© by Pedro Bial), descobre que o carrinho só tem cerveja, carvão, lingüiça, limão e 51. Decepção... Você espia o carrinho de casais gays porque você quer conferir a tendência!
Você sabe: pode demorar um pouco, mas tudo o que os gays adotam (com exceção de filhos, claro!) um dia vai ser adotado pelos demais consumidores. Sim, dentro de alguns anos você também vai querer essa margarina enriquecida com potássio exponencial orgânico. Sim, você um dia também vai achar imprescindível que a sua cera para o chão da cozinha seja porcelanatizada premium. Sim, você vai passar agora mesmo na seção de laticínios para levar uma caixa desse iogurte de damasco com geléia de tâmaras edição limitada.
Mas não é só dentro do carrinho de supermercado de um casal gay que você pode antever o seu futuro. Por exemplo: o calçado que a leitora vê no pé de um gay, hoje, vai estar no pé do seu marido (marido da leitora, não do gay em questão) em no máximo cinco anos.
Três a cinco anos é o tempo que toda moda gay leva para chegar ao mainstream. Foi assim com: músculos, brinco, cavanhaque, careca e calça comprida com sandália. A viadagem de hoje é o acessório do playboy de amanhã!
email no Kyle Na Real
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Ratapulgo
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4.6.03
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Como a gente sabe se é tristeza ou se é culpa? Ou se são as duas coisas?
Como a gente sabe o que é permitido e o que é way beyond the line?
Como a gente sabe se é sono ou se é vontade de voltar no tempo?
Como a gente sabe se pedir desculpas adianta? Ou como a gente sabe se já se desculpou o suficiente?
Como a gente sabe quando tem que calar a boca?
Como a gente sabe que não devia nem começar?
E como é que eu me livro disso de falar mais do que acho que devia?
regrets of sullen girl
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Ratapulgo
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4.6.03
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3.6.03
Roteiro Turístico de Moi-Même
eu fui feita às avessas
e às avessas quero ser...
Memórias de uma Surtada Os Olhos de Nelson Rodrigues Júlia e Gin Quisto é Bossa-Nova Entro na Vida para Sair da História tanto faz tanto fez o título o diploma o nome o rótulo que queiram me dar sem uma única palavra minha doce pequinesa em Frankfurt poemas datados vão pro liquidificador moem moem moem enquanto exercito o olho direito procuro o que tem dentro deste sorvete Il fait pas-de-deux/ Tem que ser você minha necessidade de prazer olho atrás do olho alguém se lembra de Madame Morineau? da guerra no Kuwait? não é assim tão simples delicado de cá do além-paraíba Oficina Flor do Universo onde costumávamos roçar nossos subsídios depois eu larguei do vício das visitas de Januário e seus panfletos de Trotsky debaixo do braço fui convidada para dar um curso de Literaturnaia Utchioba em Moscou eu precisava vestir uma peruca holandesa pra passar pela alfândega e esconder meu camafeu de begônias da revolução permanente que tola indivisível eu era ali roendo as unhas sinais de mediunidade me disse uma parapsicóloga soviética do partido você é telecinética não tenha medo nós respeitamos os latino-americanos e suas fezes adversas eu tive de rir do português sem parecer anormal dei um sonoro peido pra começar o dia uma poesia uma poesia são duas poesias onde como minhas tias sua débil mental busco saliva pra engolir o café da manhã -- o que será que fosso mas não masso?
recebi uma proposta de morar na fronteira paraguaia declinei o padrão de tempo é frágil como em Bombaim onde tenho atitudes espasmódicas sob o cadavérico céu e os mais sóis dos tons de azul aquele horizonte pastel teorizando ortopedias quando passei a suspeitar da consciência dos objetos de que os outros não passam de pequenos embrulhos da memória de que me livro segundos antes do elevador chegar ou do diabo que os carregue
o Pão de Açúcar é uma pedra gigantesca
o Corcovado é uma pedra gigantesca
quando qualquer um, seja onde for,
estender a mão pedindo ajuda,
mostre-lhe que você não tem um braço
........................................................................................
minha última noite com Isolda nem te conto paralelogramo-nos entrelaçadas: A Minha Amiga Wanderléia é Você, eu gosto de viver em saciedade entre mim e o poder há uma linha que une pontos de uma mesma intensidade sísmica na propagação de um terremoto MUDA A DOUTRINA O TAMANHO DA LATRINA senhor juiz eu me confesso culpada por tornar minha memória pública por conluir com contrastes embora seja indivíduo de pouca periculosidade verbal empale-me açoite-me que o castigo seja contundente imorredouro abram o código criminal da rainha Maria I na página 127 e escolham a minha pena perdi o controle total das admissibilidades senhor juiz não toscaneje puna-me! por sonhar com as primeiras-bailarinas de Istambul imaginá-las oito corvos voando juntos em tamanha velocidade que ficam brancos por romper a casca antes do ovo por vencerem as batatas por preparar em segredo uma lista de abobrinhas só pra dizer na frente dos amigos por meu pai me beijar só em dia de aniversário por minha vidinha particular pau-sa-da-men-te por vigiar meu marido do basculante da cozinha lendo as memórias de Stalin o rei do monossílabo como meu pai folheando Mein Kampf sem ler ó rodas ó engrenagens os diplomatas do verso a embaixada de intelectuais paulistanos por ser hoje eu amanhã eu num mundo que brinca e devora por filar público de escritores famosos por procurar dentro de conchas garotas que não me querem por escrever pelas paredes da casa pensamentos graficamente desconexos tirar fotos de trás pra frente de superamanhãs esquartejadas eu preciso domar a fera musicalista dos vocais lírios dos Campos as primas rimas preciso pôr e não expor, considerai
saudades de Malhada, minha primeira namorada em Paris, uma cidade que Descartes visitava com frequência, eu não resisto ao apelo das inconsistências da opção pelos pobres da opção pelos clássicos preparo uma edição bilíngue de Moscas nos Umbrais mãos passeando esquadros desenhando pés nos jacarés inaugurando a metodologia do acento agudo misturando sombras que andam andam até que eu mude de idéia e anoiteça um mormaço dentuço quando meus nervos se reagrupam e eu saio para mais uma noitada de bingo literário com meus tristes poetas caducos e suas canetas barrocas:
Maldição linguística é um caso sério
não fosse meu crocodilo datilógrafo
não sei como fecharia de versos
essa luz tão clara ferindo o único
olho de Camões na minha mesa
Prosa Caotica
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Ratapulgo
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3.6.03
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Personal Trainer
Comprei a bicicleta ergométrica. Tá lá no canto da sala, quietinha, me espiando. Mas não era isso que eu queria.
O que eu queria mesmo era um saco de areia grande, desses de boxe, de prender no teto. E gastar a energia dando muita porrada no infeliz. Sem luvas mesmo. Porrada, cotovelada, cabeçada, joelhadas, principalmente joelhadas. Depois morder, arrancar o couro com os dentes, agarrar, encoxar, chacoalhar e esbofetear com gosto o desgraçado. Depois abraçá-lo, chorando e resfolegando, pedir mil perdões e dormir encolhido sobre a areia que derramou no carpete de madeira.
Isso sim é queima de calorias!
---
Cheguei a uma conclusão:
Bicicleta ergométrica é uma coisa que não te leva a lugar nenhum.
O Sinistro
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Ratapulgo
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3.6.03
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Tristeza no peito
Então eu fui ao cinema e depois, fomos beber. Mal saímos em busca do bar e alguém falou:
- Vamos ao Hooter’s?
Topei, tentando me lembrar onde eu tinha lido esse nome. Depois veio o estalo! Hooter’s: a cadeia americana de restaurantes, onde as garçonetes são peitudas! Claro que vamos ao Hooter’s! E fui todo sorridente, pensando na cerveja gelada e nas garçonetes de top branco justo e shorts curtos.
Assim que o letreiro foi avistado, cada passo em direção ao bar parecia um passo em direção ao paraíso. Em um certo ponto, pensava tanto nas garçonetes que esqueci do chopp e ia pedir um copo de leite. Tudo era lindo, tudo era belo.
- Mesa prá quantas pessoas, senhor?
Pânico! Pandemônio! Horror! Cadê o short e o top? Cadê os peitões??? Nada. Nada, nada, nada: apenas a garçonete baixinha que usava soutiens tamanho ovo-frito. E então tudo escureceu e o chão sumiu sob meus pés. E a vida perdeu a cor, e a comida perdeu o gosto e a ordem voltou a ser caos.
Foi pior do que quando descobri que Papai Noel não existia.
Alea Jacta Est
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Ratapulgo
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3.6.03
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Já expus a teoria de que Agnaldo Timóteo é o nosso id, o conteúdo sombrio do inconsciente que tentamos sufocar sob camadas de civilização. O contraponto ideal seria uma Aracy de Almeida como superego. Pensem nos benefícios para a humanidade. Carlito Marrom, Arnaldo Picaretunes e a mãe do Mano Wladimir jamais teriam aberto a boca se dessem ouvidos à sua Aracy interior.
puragoiaba
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Ratapulgo
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3.6.03
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E então a minha cerquinha vai aumentando. Toda semana vou à loja comprar mais tijolinhos e aumento meu murinho. Cada vez mais eu me arrependo de dar abertura às pessoas e deixar com que elas enfiem a cabeça e vejam o que se passa aqui do lado de dentro. As coisas que eu guardo aqui são ridículas, por isso elas saem tão rápido depois de perceberem a perda de tempo que foi.
Eu sou lerda. Eu preciso de tempo pra pensar e digerir o que me dizem. Não sei e não gosto de tentar resolver tudo na hora. Falar um "deixa assim" é muito mais simples e eficiente. Largo do jeito que está, esfrio a cabeça, percebo que fiz um H ridiculamente desnecessário e então peço pra conversar e pedir desculpas por ter agido de modo tão infantil.
Quer dizer, esse é o planejado. E o que eu imaginei que fosse dar certo. Eu sei que as coisas não andam bem pra você e por isso eu queria deixar de ser uma das coisas que te chateia.
Se é que te chateio. Eu odeio pretensão.
T&S Version
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Ratapulgo
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3.6.03
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2.6.03
:::a perna dela apenas se encostou nas minhas. estava apertado por isso acabamos nos encostando. olho pra ela e não sinto algum tipo de desejo sequer, mas hoje foi diferente. senti sua pele quente proxima a minha. separadas apenas por jeans. percebi que estava com as mãos entre as pernas e em certa hora senti um toque em minha perna. e logo veio outro. senti toque a toque, movimento a movimento não acreditando que ela estava ali ao meu lado se masturbando. meu corpo ficou quente e comecei imaginar seu sexo quente como meu corpo. foi estranho mas percebi que aquela excitação era fria. estava com furos demais no corpo para pensar nela. não queria ela, queria a menina que me transformava em criança, adolescente, mas ela estava longe. queria vavra mas ela não mais me queria. peguei a unica coisa que me acompanhou fielmente por mais de trinta anos. fui em direção ao desconhecido, ao novo. um novo hotel. com minhas roupas velhas, manchadas de sangue me sentei ali naquela janela e toquei pela ultima vez. a música pela primeira vez me levou pra onde eu sempre quis. sempre quis voar e aquele dia ela me deu asas. voei mas na hora em que a onda da minha companheira passou minhas asas cairam assim como meu corpo naquela calçada. já era hora. quem eu amava não estava mais comigo então não tinha rasão para estar aqui mais.
...a semana estava estranha ate que li adjetivos que me deixaram feliz e quebraram uma subita vontade de ficar sozinho que tomou conta de min hoje.
:::é estranho sonhar que esta deitado em um colo e logo depois estar nele. é estranho quando uma menina pega sua mão e coloca no seio dela só pra mostrar que o coração dela está batendo rápido demais. ainda me mato...
...quando você nasceu eu ja esperava por você ha algum tempo, quando ela nasceu ela ja esperava por min mas ela ainda não sabe...
fuckin broken heart
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Ratapulgo
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2.6.03
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Cena 1: Um colégio. Escadas. Garoto 1 vai subindo. É abordado por Menina 1.
- Oi.
Menina 1 parece achar que esse "Oi" é o pretexto que faltava para Garoto 1 agredi-la. Esconde a cabeça entre os braços, prevendo um soco, ou algo assim. O medo é visível. Mesmo sem nunca ter falado com Garoto 1, ela nutre um enorme temor daquele rapaz barbudo.
- Oi. Tudo bem?
Nenhum xingamento. Nenhum chute. Nenhum tiro. Nenhuma bomba atômica. Nenhum petardo verbal. Apenas simpatia e cordialidade. Nada poderia ser mais inesperado. Menina 1 comemora, por ainda estar viva.
Cena 2: Uma sala de aula. O professor ainda não chegou. Garoto 1 toca sua bateria imaginária, praticamente em transe, enquanto, com a voz, faz os barulhos correspondentes aos movimentos frenéticos de suas mãos.
Garota 2 entra na sala. Dá de cara com aquela cena dantesca. Olha, com uma cara de total desaprovação e estranhamento, para o garoto esquisito, e diz:
- Eu tenho medo de você.
Cena 3: Ainda aquela mesma sala de aula. Vamos manter este cenário, a título de economia. Tio Lula não quer que o Brasil cresça agora.
Mas, então. A sala de aula. Garoto 2 vai até a carteira de Garoto 1.
- Garoto 1, qual é o seu e-mail? Preciso mandar umas paradas pra você.
- Ah. É garoto1@eusouumamerda.com
- Falando sério. Qual é o seu e-mail?
- Tá. Falando sério, agora. É garoto1@eusouumamerda.com
- Porra, moleque! Sem brincadeira. Eu preciso dessa merda de endereço. Diz.
- Pô, desculpaí. Não sabia que você ia se irritar por tão pouco. Meu e-mail é garoto1@eusouumamerda.com
(...)
(baseado em fatos reais)
Pessoal e Intransferível
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Ratapulgo
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2.6.03
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eu: segunda vou tirar os cisos
dix: eu nem sabia de ciso nenhum.. rs
eu: ahn?
dix: eu num sabia q vc tinha cisos...
eu: tenho dois em cima
dix: um amigo meu tiro um do meio da testa...
eu: AHN????
dix:hum... o q eh um ciso?
morrendo de rir
eu: dente!!!
dix: ahhhh.. morrendo de rir.. eu acho q confundi
com cisto.. ou algo parecido.. ahhahaahahah
eu: DUUUUUUUUUUUUUUUH
dix: haahahahaahahahah
se rolaaaaaaaand de rr
caralho.. esa foi foda
hahahahaahahahah
eu: bebeu hj?
preciso reavaliar meus relacionamentos com pessoas alcoolatras. antes que eu comece a ficar que nem ele, por osmose cibernética.
conjecturas do pó ao pó
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Ratapulgo
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2.6.03
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1.6.03
Algo a ver com futebol
Raramente escrevo sobre futebol. Isso porque, este ano, tenho estado alienado para o esporte bretão. É uma pena. Gosto de futebol e discordo de quem diz que esporte é algo para os que não têm imaginação. De fato, se você for ao estádio e ficar olhando somente os jogadores correndo atrás da bola, nada mais isento de imaginação. Ora, mas eu suponho que você, leitor, seja uma pessoa que vá ao estádio e que viva o ambiente. Logo, seu imaginômetro, num lugar destes, deve quase transbordar o mercúrio.
(..)
Durante muitos anos, fui muitas vezes ao estádio. Vi finais, semifinais, amistosos, jogos ruins que terminaram em 0 x 0 e jogos disputados nos pênaltis. Mas eu trocaria todos estes jogos por uma lembrança viva do primeiro, aquele da minha infância.
Sentado na arquibancada dura, ao lado do meu pai, que escutava no radinho informações sobre o jogo que iria começar em breve, percebi um barulho conhecido. Parecia um apito de maria-fumaça, se bem que eu nunca vi de perto uma maria-fumaça. Era um “i” estridente, conhecido. Trata-se de um velhinho para mim anônimo, de seus sessenta, setenta nos, que vende picolé no estádio. Usa um boné virado para o lado, como o Sérgio Mallandro. Tem um bigode meio canalha e grita para o estádio
— Coco, limão, chocolate bacaxi-xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
E esta sua ladainha arranca de todos os torcedores, sem exceção, um sorriso. Não importa se o time está ganhando ou perdendo (desde que não esteja levando uma goleada, claro), todos riem à passagem do velhinho anônimo do bacaxi-xiiiiiiiiiiiiiiiii!
A tarde teve direito a xingar a mãe do juiz, os jogadores do time adversário e também os do time que uma vez foi do coração. Sim, foi. Porque há muito me desinteressei do futebol, ao menos como as pessoas se interessam por futebol. As cores do Coritiba me são apenas simpáticas, digo, mais simpáticas do que as do inimigo histórico, o Atlético Paranaense. Mas não me fariam, de modo algum perder a cabeça. Até cheguei a me declarar um ex-torcedor do Coxa.
Eis que me lembro, porém, da final de um Campeonato Paranaense entre Coritiba e União Bandeirantes — e volto a torcer para o alviverde. A simples lembrança da bandeirinha do time sendo agitada e batendo na cabeça das pessoas em volta, por um moleque entusiasmadíssimo com um título tão... pequeno, me anima a xingar com mais ímpeto o zagueiro que acaba de fazer uma besteira, entre tantas.
Comemoro o gol de empate. Depois o gol da virada e ainda mais o terceiro gol. Termino o jogo rouco, cansado e com frio. Meu pai, ao meu lado, é um homem velho, muito mais velho do que a idade que tem. Quieto durante toda a partida, ele comenta comigo alguns lances do jogo.
Em frente ao colégio Zacarias, indo para casa, eu só queria era poder pegar na mão dele novamente, olhá-lo com aquela admiração de quem vê o pai como um gigante e me perceber novamente como uma alminha dentro de um corpo. Uma alminha feliz, dentro de um corpo.
O Polzonoff
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Ratapulgo
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1.6.03
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- Alo?
- Laila?
- Eu.
*Blábláblá.*
- Ei, você me esqueceu?
- Hein?
- É, você me esqueceu?
- Esqueci, claro.
- Claro?
- Ué.
- Mas esqueceu como?
- Esquecendo oras.
- Assim, esquecendo?
- Deixando de pensar, sei lá.
- Simples assim?
- É. Você queria o que?
- Ah, sei lá.
- Se você não sabe não sou eu quem vai saber.
- Mas me explica como você esqueceu.
- Ah por favor, quer saber? Fui numa benzedeira tirar os maus olhados, isso deve ter ajudado.
Never Lose Touch Of Your Dreams
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Ratapulgo
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1.6.03
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Na Porta
Deixo minha consciência na porta, esperando de braços cruzados algum traço de autocrítica, mas realmente não sei o que isso significa. Quero você, com seus lábios gelados e seu coração quente. Com seu abraço forte, seu hálito de pasta de dente. Quero suas mãos que percorrem pontilhados em meu rosto, que inevitavelmente ligam meus olhos aos seus.
Deixo minha inocência na porta, de rosto vermelho, com um arrepio nos cabelos de tanto desejo. Quero seu tato vacilante, que toca minhas costas num instante que não quero esquecer. Me beija entre as escápulas, minha pele entre seus dentes, arranca minha alma pelas tangentes, e tenho que ser seu.
Deixo minha conivência na porta, olhando os rodapés das paredes, com a idealização torta de não te enfrentar. Quero seus movimentos de serpente, suas coxas que me encaixam em movimentos inconsequentes. Quero suas manias incoerentes, seus hábitos displicentes que só me trazem pra mais perto de você.
Deixo minha anuência na porta, concordando com a mente que reclama contra o corpo que conclama todos os sentidos em mim. Quero seus beijos com a certeza de que com eles posso lutar, pela língua que mais explora, pela saliva que mais demora a nos dominar. Quero seu corpo para disputar quem vai por cima, quem determina a maré de nosso olhar.
Deixo minha influência na porta, tentando dominar meu toque, querendo encher de nuvens seus olhos de luar. Mas quero seus raios, sua gravidade que me leva em um vai e vem, que me transforma em ondas do mar. Quero seus tratos de amor, onde nunca se perde, onde se decide onde a densidade de nosso lábios deve estar.
Deixo minha eloquência na porta. As palavras morrem onde nossos corpos quedam, onde a nossa essência rompe para entrar.
Quero você.
má influência do Cardiotopia
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Ticcia
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1.6.03
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POUCO.
Precisava muito pouco pra viver, nada complicado, tinha o meu emprego, salário no fim do mês, uma cama pra deitar, dentes pra mastigar, saúde legal, só minha idade pra atrapalhar, cinqüenta e cinco anos fazia estragos, ombros mais caídos, saliência no abdome, cansaço no olhar, menos mulher, fizera as contas, somente duas no ano todo, mas tudo bem, você está amadurecendo me diziam os amigos, mas eu me preocupei, teria que dosar o amor, o pouquinho do amor que restava dentro de mim, o motor não podia parar, eu tinha esperança, sonhar reencontrar o belo no meu interior, ser outra vez o bom amante, você é um imbecil ! eu gritava mudo, as vezes mais relaxado eu me dizia, é bem possível e sorria; assim seguia minha vida, preocupado com minha crescente velhice e a tradicional solidão dos velhos e tudo mais, as vezes mulheres apareciam e diziam, você é tão maduro, gostaria de viver ao seu lado! pois sim, maduro, se soubessem da verdade sairiam correndo aos berros, nem passariam pela mesma rua, portanto eu continuava sozinho, eu e meus cinqüenta e cinco anos, cada dia mais difícil: cara, me dizia um amigo, nessa idade a gente vê as coisas com mais clareza, tudo é mais simples, você fica calejado, bom, eu respondia, pode ser, tenho que reaprender, não dá mais pra sorrir, mostrar os dentes alvos, piscar um olho, e esperar o convite, tão simples tempos atrás; o velho não pode complicar, nem ser exigente, é bom deixar a dignidade pra lá, meu amigo abanava a cabeça, eu sem saber se concordava ou se tinha pena de mim, mas Deus, as vezes se precisa de um pouco de sexo, uma mulher que fale bobagens pra você, sentir seu perfume, segurar a mão macia, e isso eu encontrava quando queria, era só receber o salário e procurar as meninas de vida fácil...uma vez, bem recente, me arranjei com uma dessas, nova de idade, vinte um anos, alegre, bonita, meio mulata, olhos verdes, o nome dela Isaura, nem sei como ou por quê ela topou comigo, dinheiro não era, me fez sentir homem de novo; eu não interferia no trabalho dela, nada de ciúme velho, me repetia toda vez que me percebia carrancudo, ela tinha razão, mas porra, era meio difícil segurar essa, com tempo me acostumei , a raça humana tinha disso, se acostumava com tudo...bom, essas meninas são maravilhosas, tiram a roupa sem frescura, contam histórias pornográficas no seu ouvido, com certeza autobiográficas, fazem sex show, e te chupam sem cerimonia , se masturbam rindo, são molecas, não são hipócritas no sexo, ia tudo as mil maravilhas, tudo muito livre, alegre...numa noite depois de muito sexo ela me disse, vamos dançar, tem uma boate que conheço, lá em Mesquita, porra, menina, falei, a barra lá é pesada, mas me digam, dá pra resistir à uma menina com quase um terço de sua idade? não mesmo...
...o local era uma espelunca atroz, mal cheirosa, uma droga, Isaura me largou e correu prumas crioulas bundudas, beijando e abraçando, me sentei numa mesa, pedi um chope e esperei, depois do terceiro impacientei e fui procurar por ela, tava de flozo com um cara, me aproximei, segurei seu braço, vem, boneca, falei, o cara me olhou, encarei de volta, nada especial, apenas mais moço, simpatia, falou ele, se manca, a dama nesse preciso instante tá comigo, sacou? olhei pra Isaura, não gostei o que via no seu rosto, parecia dizer: manda ver se tu é homem, a examinei com cuidado, cuidado de quem não quer esquecer, reparei no vestido justo grudado no corpo, as costas de fora, tudo marcado, os bicos dos seios, o umbigo, a curva suave do ventre, se olhasse bem podia até adivinhar os lábios pequenos da vagina, droga, podia até sentir o cheiro de suas axilas, aroma do suor intimo, erótico típico das mulatas, porra, que beleza de mulher, comecei a ficar excitado...como é, amizade? tu vai ficar aí que nem poste? não respondi, esperei voltar ao normal, olhei ao redor, uns três pilantras e meia dúzia de vadias de butuca na gente, merda, pensei, negativo, tô fora, a porra do crooner assassinando um bolero, si negaras mi presencia e tu vivir...encaixou como uma luva, tô velho, mas tengo que vivir, e tinha mais, brigar por mulher, jamais de la vie, nem quando eu ainda tinha cabelo na cabeça, nem quando um bíceps de quarenta centímetros, never tinha quebrado essa regra, never, não ia ser agora, num bordel de beira de estrada, larguei o braço dela, resmunguei um fodam - se, tomei o rumo da saída, ouvi o grito : cagão! a partir de hoje não sou mais tua! covarde de merda! não abri a boca, nem olhei pra trás, fiquei parado na porta da espelunca, acendi um cigarro, pensando... droga, não tinha nada pra pensar, minha mente um branco...
...porra, eu vivia tão bem, por que diabo fui me meter com essa puta.
indignação do Yehuda
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Ticcia
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