"A Paixão do Alferes"
A SUPERPRODUÇÃO SANGUINOLENTA
E SEM ANESTESIA DA CONSPIRAÇÃO FILMES
Furo deste blog: aproveitando a celeuma provocada pela obra do Mel Gibson -- e também a proximidade com o 21 de abril – , a Conspiração Filmes está rodando (com trilha sonora da Trama, sua parceira na Holding Paranóica), em ritmo acelerado, uma versão tupiniquim da película, agora passada nas Alterosas: “A Paixão do Alferes”. As últimas doze horas de Tiradentes, com falas em dialeto mineirês setecentista e legendas em português. Serão cenas brutais, com detalhes sanguinolentos da tortura do odontólogo conjurado – onde os algozes, por coincidência ex-pacientes do mártir, vingam-se arrancando com boticão enferrujado um a um seus dentes, sem anestesia nem plano de saúde. O Conselho Regional de Odontologia de Minas entrou com uma moção acusando o filme de “anti-dentista”, mas a produção já se defendeu, alegando que a intenção foi retratar fielmente o episódio da Derrama (“Só se for derrama de sangue”, já alfinetam alguns dentistas críticos de cinema). A Colgate-Palmolive, patrocinadora original da película, retirou a verba com receio da repercussão negativa. Mas a Schinchariol garantiu o patrocínio, exigindo em troca uma cena em que Joaquim Silvério dos Reis, ao entregar Tiradentes, abre uma Brahma e mostra a bolsa cheia de moedas, dizendo: “Meu negócio é vintém e sair de Xerém”. Depois de veementes protestos por parte da InterBev, a cena foi mantida mas a legenda cortada.
A Conspiração aguarda o feriadão enforcado de 21 de abril para estrear a película.
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Comentários:
Cynthia
Adorei, baby. Mas o intérprete de Joaquim Silvério vai ser quem ? É que se o candidato natural trocar sua gravadora pela Trama, ninguém mais fala em outra coisa até o fim do ano, e aí, babau filme.
25.03.04 @ 11:30:47
Flamarion
Vai ter mulher pelada?
25.03.04 @ 11:36:55
Nelson Moraes
Cynthia: até o fechamento desta edição o intérprete seria o Zeca Pagodinho cantando "Judia de mim" -- mas pra evitar acusações de anti-semitismo o título do samba foi trocado pra "Gentia de mim". Beijão.
Flamarion: Na verdade ia ter. A Luma apareceria peladona segurando a mangueira do bombeiro com que ela enforcaria o Tiradentes. Mas o Eike Batista deu uma grana por fora e a cena foi cortada, ficando só as legendas.
25.03.04 @ 11:48:50
Artur
First Lord, soube que Cahiers du Cinéma já encomendou a Décio Pignatari uma resenha. Especula-se que o título será "Patí(bulo) d'Al(feres) - Amariliou na Villa Ryca". Procede?
25.03.04 @ 13:05:43
Nelson Moraes
Lord Artur: procede, por certo. E Pignatari já está resenhando também as duas outras partes da trilogia: "As Duas Forcas" e "O Retorno d´el Rey". Abração.
25.03.04 @ 15:01:14
Hipopótamo Zeno
Maravilhoso, Nersão!! Se me permite uma sugestão de casting, e pra aproveitar uma piada velha da turma do Planeta Diário, proponho o Schwarznegger no papel de Tiradentes, o Danny de Vito no papel de alicate e a Lacraia, aquela do Pocotó, no papel de corda de enforcamento.
25.03.04 @ 15:06:05
Zeno: casting genial! Na última hora eles descobrem que o laço não cabe no pescoção do Schwarzza e amarram na jeba dele. O alicate Danny de Vito corre pra cortar a corda e salvar o amigo. Então perguntam a ele : "Pra que tanta pressa"? E o Danny: "Tou indo tirar o pau da forca!" :-) Abração.
Márcio Guilherme
Nelson, muito bom.
Nelson Moraes
Márcio: bem-vindo sempre, buddy boy. Se você gosta de filmes que deixam um nó na garganta, that´s it. Abração.
Ao Mirante, Nelson!
30.3.04
O mundo está embrutecido demais para compreender que um diário, mesmo público, não passa de um passatempo de criança. E que, nas mãos de um adulto, é só uma tentativa de resgatar sonhos e verdades.
Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados
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DaniCast
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30.3.04
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A neta de sete anos mostra o desenho de uma casa no alto de um morro, e o avô sorri e diz muito alto que o desenho é lindo, onde ela aprendeu a desenhar tão bem? Ao lado dos dois, o neto de quinze revira os olhos com nojo. Deixa de ser puxa-saco, vovô! O vovô olha chocado, não diz nada. O neto de quize está chocado também mas é com a puxa-saquice do avô. Coça a cabeça, perplexo. Caraaaalho, como o vovô é puxa-saco...
Ou cinco visitas sendo apresentadas a um jardim: ah, que belo jardim; quisera eu ter um jardim como esse; puxa, se eu vivesse aqui, vinha ler todas as tardes naquela rede, que coisa linda; o que é aquilo, uma carpa? – até que a quinta visita, sombria até aqui, sombria no meio da grama, grita: “Puta merda, seu jardim até que não é de todo ruim, o que estraga é esse bando de puxa-saco... Eu até viria aqui mais vezes, mas com essa atmosfera não dá! E tem mais, tua filha é vesga e tua mulher é feia de doer! Eu sou muito franco. Passar bem.”
Os francos do mundo. Que charme, que charme. “Cara, você acha que amigo é quem diz o que a gente quer ouvir? Amigo é quem diz as verdades doídas na nossa cara.” Não é não, mas continuemos. “Por exemplo, vou te dizer uma verdade que todo mundo pensa mas ninguém tem coragem de dizer. Eu queria ir pra cama com a tua namorada. Taí, falei. Todos esses caras também querem, mas ninguém fala...”
Em todo grupo humano (macacos, suponho, sendo menos bobos) há um tipo sombrio que detesta todos os outros porque ninguém é, veja, tão sincero quanto ele; ninguém tem sua rudeza quase santificada, sua rudeza pura.
Alexandre Soares Silva
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Jan
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30.3.04
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Oração de uma Mulherzinha Insuportável Dois
Quando me deito para dormir,
Rezo por um homem que não seja um horror.
Que seja inteligente, forte e lindo.
Que adore ficar horas conversando.
Que pense antes de falar, e lembre das datas comemorativas.
Que diga que vai ligar, e não me faça esperar...
Que tenha caráter e humildade de reconhecer seus erros.
Que não minta, mentira é algo abominável.
Que seja meigo, e aconchegante.
Que ele tenha um emprego que eu não precise sustentá-lo.
Que me ajude nas tarefas domésticas.
Que aceite não quando for a resposta.
Que puxe para mim a cadeira, e que me abra as portas.
Que curta cinema, teatro e saia comigo para dançar.
Que seja fiel, porque estar com alguém é uma escolha, não imposição.
Que faça massagens nas minhas costas, e transe até eu ficar "morta".
Ah! E rezo também que me mande um homem que saiba amar
E me respeite como ser humano inteligente que sou...
E não só pelos meus belos olhos...
Eu rezo pelo homem que vai me amar até o fim...
Amém.
Dreams of Ameom
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DaniCast
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30.3.04
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Momentos
Há uns anos atrás atendi uma senhora velhinha, de xaile negro que lhe cobria a figura, revelando apenas as mãos e um rosto pequenino. Notei que ambos tinham cicatrizes muito visíveis. A senhora estava completamente confusa e envergonhada. Não sabia ao que vinha nem o que tinha para tratar. Justificou-se:
- É que o meu marido é que tratava disto tudo sabe?
Depois de muito esforço e buscas no arquivo a fim de tentar descobrir o objectivo da sua visita, atrevi-me a perguntar-lhe:
- Mas porque não vem cá o marido da senhora?
- É que ele faleceu no mês passado menina.
Mentalmente castiguei-me – “Didas! Sua estúpida! Já meteste água!” – e tentei remediar, claro. Pedi-lhe desculpa, dei-lhe os sentimentos e rematei com aquela conversa de circunstância:
- Deve ser muito difícil para a senhora estar sozinha...
- Não! – atalhou ela apressada – O filha da puta já devia era ter ido há mais tempo! Batia-me todos os dias e duma vez até me obrigou a entrar no forno de lenha ainda cheio de brasas! Eu só pedia a Deus que ele morresse antes de mim nem que fosse só um dia... para eu poder saber o que é viver com descanso!... E Deus atendeu-me!
A minha surpresa foi tanta que não consegui conter um sorriso. Ela sorriu também e depois rimos as duas muito.
O semblante dela tinha-se alterado completamente e de repente até me pareceu mais alta. Olhei as suas cicatrizes com outros olhos.
Depois de mais algumas buscas e deduções a senhora acabou por sair dali com todos os assuntos burocráticos tratados.
Alguns dias depois apareceu de novo. Trazia uma bolsinha daquelas de crochet com uma fitinha à volta e um sabonete dentro, feita por ela, para me oferecer. Ainda a guardo.
Farinha Amparo
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DaniCast
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30.3.04
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Lembro de quando eu era criança.
As Páscoas da minha infância sempre foram muito agitadas. Família inteira reunida, troca de presentes...
A Páscoa não adquiria nenhum sentido bíblico/católico. Era (e ainda é) um mero feriado sustentado pelas indústrias de chocolates.
Então, numa Páscoa entre o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa, descobri a verdade cruel: o coelhinho da Páscoa não existe.
"O coelhinho não existe, mas o Papai Noel, claro, existe!" - era a verdade que insistíamos em sustentar. E tratávamos o assunto como segredo de estado. Passei a me sentir fazendo parte da elite da família por saber desse segredo. Os primos mais novos não sabiam, e sequer desconfiavam dessa trama maligna. Mas eu não! Era praticamente uma adulta e me sentia guardiã de um segredo sagrado.
Mas, enfim, nunca fui muito tolerante e frequentemente me irritava com meus primos mais novos. Não tinha o costume de bater em ninguém (ainda mais porque sempre fui banana e acabaria apanhando) mas passei a me vingar deles de uma forma cruel. Sem dó nem piedade.
"Você sabia que o coelhinho da Páscoa não existe?" era o que bastava para eu me sentir vingada, ainda mais quando saíam chorando. Destruí muitas infâncias. Como eu adorava aquilo!
Admirável Blog Novo
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Ratapulgo
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30.3.04
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Agora vcs me dão licença, porque eu vou conversar com a minha mão
Querida mão,
Vc sempre me apoiou, e é exatamente essa a razão que isso é tão difícil. Vc sempre foi meu braço direito, literalmente, por anos e anos. Desde quando eu tive minha primeira e pequenina ejaculação. Vc nunca virou as costas pra mim, e nunca se incomodou quando eu quis ficar em casa de pijamas ouvindo músicas tristes, ao invés de ir ao cinema.
Vc sempre me deu o que eu quis, sem que eu cobrasse verbalmente por isso. Vc sempre foi gentil, e ocasionalmente dura, quando precisava ser. Vc sempre soube o ritmo certo e onde eu gostava de ser tocado.
Havia vezes que vc focava sua atenção em outro lugar, mas vc sempre vinha comigo pra casa. De noite, quando eu não conseguia dormir, vc era melhor que leite quente (ha ha). De manhã, quando eu lhe desejava, mas estava com muita preguiça, vc nunca ficou de cara feia durante o resto do dia. Vc sempre esperou até que eu tivesse tesão.
Nós nunca precisamos usar camisinha, ou preocuparmos com o constrangimento da manhã seguinte. Vc não se importou que eu não gostava de dormir abraçadinho. E nunca se ofendeu quando eu quis tomar banho logo depois do... logo depois. Vc até me perdoou quando eu prefiri usar um brinquedo ao invés de vc.
Nos últimos meses, vc tem sido extremamente útil. Me manteve fora de qualquer encrenca, mas não me repreendeu nas ocasiões que eu procurei por ela. Vc me fez feliz.
Mas agora, infelizmente, eu me cansei de vc. E de todas as coisas que vc pode fazer. Elas não superam mais as coisas que vc não pode fazer.
Apesar de vc sempre estar junto comigo, vc não tem sido suficiente. Vc não pode acariciar minhas costas até que eu adormeça. Vc não pode me abraçar. Vc não pode me amar. Vc apenas pressiona os botões que eu que quero no controle remoto.
Eu nunca tive que buscar-lhe quando seu carro quebrou. Eu nunca tive que conhecer seus pais. Vc não tem histórias para me contar, e nunca responde às minhas.
Eu não posso brigar com vc por beber direto da garrafa. Eu não posso massagear suas costas. Eu não posso fazer um moicano no seu cabelo enquanto tomamos banho.
Vc pode me alimentar, mas vc nunca me levou pra jantar.
Eu gostaria de dizer que a nossa relação é o bastante para mim, mas não é. Quando penso hoje em todas aquelas vezes que eu me senti triste e magoado como alguém, eu chego a conclusão de que, pelo menos, aqueles sentimentos me faziam sentir vivo. Uma vez eu cheguei a pensar que eu jamais sentiria de novo a falta da boca de um homem, da barba cerrada, das discussões, e de um sentimento romântico casual. Isso tudo sempre acaba me chateando, mas agora, eu sinto falta disso mais do que qualquer outra coisa que vc possa me fazer.
As circunstâncias atuais me dizem que eu devo aprender a conviver com vc pelo resto da minha vida, mas saiba que não estou satisfeito só com o prazer que vc me traz. Saiba que meu coração anda procurando por um outro alguém, e que nós dois vamos romper nosso compromisso. O quanto antes, melhor.
Pilo
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Ratapulgo
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30.3.04
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29.3.04
Sabado à noite no metrô é pura diversão.
Um adolescente troglodita brinca com a máquina de vender livros, apertando números aleatoriamente. Aposto que nem sabia ler. Como disseram na hora, ele deve ter cheirado e lambido a máquina enquanto eu não estava olhando.
Claro que o troglô entra no mesmo vagão que eu. Mas ninguém alimentou o animal.
Duas bichas surdas conversam através de gestos. Bichas. Surdas. Gestos. Mais bizarro do que a família de surdos que encontrei na loja da Claro - porque surdos estariam comprando telefone? - mas isso é outra história.
Uma mulher usava um tênis enfeitado com tiras verde-fosforescente em alto relevo. Parecia que o Hulk tinha vomitado nos seus pés. Era que nem a bunda cabeluda do mecânico e o acidente de trânsito - grotesco, mas você não consegue parar de olhar.
A menina, sozinha, tira um papel da bolsa com um número de telefone e faz uma ligação no celular. Marca o encontro na frente das Sendas. Saltamos na mesma estação e eu, obviamente, fiquei procurando alguém com cara de "estou-esperando-uma-desconhecida-no-sábado-à-noite" na frente do supermercado. So não acompanhei o final da história porque já estava atrasada.
Ser proletária tem lá suas vantagens.
uma dama não comenta
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Jan
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29.3.04
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O jornal inglês "The Guardian" publicou uma matéria sobre o polêmico filme "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson, que retrata de forma violenta e realista as últimas 12 horas da vida de Jesus Cristo. Mas na matéria do periódico nada de controvérsias e polêmicas e sim mais uma amostra do refinado e afiado humor inglês: aqui estão algumas frases que os espectadores do filme poderão dizer no cinema em aramaico (o filme é todo falado no antigo dialeto) e impressionar a namorada e os amigos:
-kheeruut re'yaaneyh laa kaaley tsuuraathaa khteepaathaa, ellaa Zaynaa Mqatlaanaa Trayaanaa laytaw!
Pode ser descompromissado no uso liberal de violência gráfica, mas não é um "Máquina Mortífera 2".
Da'ek teleyfoon methta'naanaak, pquud. Guudaapaw!
Por favor, desligue seu telefone celular. É uma blasfêmia.
Shbuuq shuukhaaraa deel. Man ethnaggad udamshaa?
Me desculpe, mas cheguei atrasado. Perdi algum espancamento?
Een, Yuudaayaa naa, ellaa b-haw yawmaa laa hweeth ba-mdeetaa.
Sim, eu sou judeu, mas eu não estava lá aquele dia.
Ma'hed lee qalleel d-Khayey d-Breeyaan, ellaa dlaa gukhkaa.
Meio que me lembra "A Vida de Brian", mas este não é tão engraçado.
Ktaabaa taab hwaa meneyh.
Não é tão bom quando o livro.
Puuee men Preeshey, puuee!
Bu, Fariseus! Buuuu!
Etheeth l-khubeh 'almeenaayaa d-Maaran Yeshu Msheekhaa, ella faasheth metool Moneeqaa Belluushee!
Eu vim pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, mas fiquei por causa da Monica Bellucci.
Feelmaa haanaa tpeelaw! Proo' lee ksef dmaa!
Este filme é horrível. Quero meu dinheiro de volta!
Saggee shapeer! Laa tsaabey naa d-esakkey l-mapaqtaa trayaanaaytaa.
Genial! Mal posso esperar para ver a segunda parte!
Ayleyn enuun Oorqey?
Quais destes são os Orcs?
Lebba deel daaleq, ellaa teezaa deel daamek.
Meu coração está pegando fogo, mas meu traseiro está dormindo.
Laa baakey naa-eeth gelaa b-'ayna deel.
Não estou chorando, é que entrou uma coisa no meu olho.
Peletaa kuullaah da-Qraabay Kawkbey.
É tudo uma alegoria de Star Wars.
Shluukh kleelaa d-kuubayk, pquud. Laa meshkakh naa d-ekhzey l-ketaan tsuur- aathaa.
Você poderia, por favor, tirar sua coroa de espinhos? Não consigo ver a tela.
Baseem, ellaa saabar naa d-etstebeeth yateer b-Lebeh d-Gabaaraa!
Não é ruim, mas eu acho que preferia "Coração Valente".
nhoque
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Jan
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29.3.04
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EXPERIMENTA
Eu até queria discutir mais sobre ética e estética, mas, sabe como é, sou publicitário.
spectorama
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Jan
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29.3.04
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Boa tarde, Fulano.
- Boa tarde.
- Vamos conversar um pouco?
- Aqui?
- Aqui.
- Infelizmente não será possível. O tipo de conversa que eu teria com você só pode acontecer entre quatro paredes.
*
E Gael. Gael é o terror, minha gente, eu tenho medo de Gael. Gosto não. Ele olha pra você com uma cara de ira que você se mija toda. Todo um histórico de agressividade, já derrubou duas portas, já bateu em todo mundo, pra conter Gael são necessárias quatro pessoas. Ele olha pra mim e fica calado e eu pensando eeeita que é agora. Ontem, depois de ter tido a medicação diminuída, Gael ficou violento de novo e tiveram que conter. Amarra Gael. E Gael tem os poderes de Magáiver, porque Gael se solta. Todo preso lá, braços pernas, ele vai e se solta, só deus sabe como.
E todo mundo chamando Gael de ninja, porque o ninja, porque o ninja. Descubro algum tempo depois que Gael é mestre em tudo que é arte marcial do universo. Avalie. Eu tentava fazer a anamnese e ele falando dos meus peitos. E eu dizendo que não era exatamente esse o assunto em pauta, que existem regras, Gael, e perceba que você está transgredindo. Gael tira o calção e todos vêem os documentos e apetrechos de Gael. Gael, isso não é engraçado. Guarde isso, vá. Chega o psicólogo homem muito macho pra me dar um apoio amigo e tão realmente necessário naquele momento. Gael, se comporte.
Gael senta, olha com aquela cara de vou-te-quebrar-todinha e pede uma massagem.
Ohdeus.
Gael, não tem nenhuma massagista aqui. Você tá num hospital. Gael se irrita e bate na mesa. Grita mais e muito que quer uma massagem.
- E tragam uma médica mais bonita que essa tá fraca demais!
Fico pensando no que raios ele faria se a médica fosse bonita. Valha-me deus.
coisas da Dra. Cris, do mon coeur vomit
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Jan
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29.3.04
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Foi chamado de "fofo"? Dureeeeeeza. Como? Tá feliz? Rárárá!
"Fofo" é o xingamento velado que mais se usa por aí.
Quase sempre usa-se para elogiar, mas ele esconde insultos.
Dessas duas, uma:
a) você foi chamado de meigay
b) você foi chamado de gordinho
NUNCA É CHAMADO DE FOFO UM HOMEM QUE NÃO SEJA MEIGAY OU GORDINHO (ou ambos).
Mentira?
eu discordo do gravataí merengue
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Jan
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29.3.04
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"O que não é o destino... se o farol não tivesse fechado, eu não a teria visto alí, parada no ponto de ônibus em frente à Cruz Vermelha, linda, linda, como uma criança a espera do escolar. Por que mesmo eu a abandonei? Apertava os olhinhos para enchergar o letreiro dos ônibus que passavam e não a levavam. A pequena bolsa bordô, os cabelos roçando os ombros... por que raios eu não quis esta mulher? O novo namorado saiu de trás da barraca de chocolates, um para ele, um para ela. Chocolates, eu sempre dava a ela chocolates e cartões. A blusa de alcinhas que deixava os seios apetitosos como duas mangas maduras, o jeans apertado, o tênis de zíper. Lembrei! Lembrei por que a enxotei da minha biografia! E não é que a pistoleira ainda não criou vergonha para aprender a amarrar os próprios cadarços?!"
bem vindo ao limbo
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Jan
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29.3.04
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De quem é a culpa pela nossa decepção?
De quem nos decepcionou ou da gente, que esperou demais?
No meu caso, é uma decepção dupla, já que a causa sou eu.
passeata solitária
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Jan
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29.3.04
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O que é de chupar, chupo, o que é de lamber, lambo, o que é doce, guardo para apeciar no devido momento.
Ela catava chepas de cigarro na sarjeta da vida. Ofereci um da minha carteira. Ela me fumou até o filtro...
Cigarrinho elegante em brasa, ela me empurrou contra a porta de um bar. No escuro dessa noite, os ratos perambulam sobre nossos pés.
Os copos transbordam, as crianças jogam dados, mentem para as mães, bebem cerveja e podem se quiserem, disperdiçar vida.
O que era de chupar, ela chupou, o que era de lamber, ela lambeu, e o doce ela não quis saber de guardar para mais tarde. Compromisso só com o diabo.
Tem novo fôlego a madrugada em tuas mãos.
perfumado na lama
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Jan
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29.3.04
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No outono os loucos ficam mais loucos.
Médicos acreditam que seja a fuga dos dias.
As luzes diminuem.
saudade do presidente figueiredo
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Jan
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29.3.04
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Furacão, né? Xi. Daí pra vulcão é um pulo.
Mais dois anos teremos atentados terroristas.
Existe pecado do lado de baixo do Equador.
bloggete
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Jan
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29.3.04
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26.3.04
Como discordar de um post
1) Diga olá.
Discordar não deve impedi-lo de sorrir, dizer olá, tirar o chapéu, acenar acanhado para as outras visitas ou afagar a cabeça do cachorro do autor do post. Muito menos de limpar o sapato no capacho.
2) Encontre algo de bom para dizer.
Porque geralmente há. Aqui você deve agir como se quisesse avisar um amigo que ele fica ridículo usando costeletas. Comece dizendo que gostou do corte de cabelo, e dos sapatos. Pergunte se ele emagreceu. Só depois olhe para a costeleta, coce o queixo embaraçadamente e diga, com jeito, com jeito, “já isso aí, nunca gostei muito... Não sei, você não acha que envelhece as pessoas? Eu pensei em usar, mas não ia ficar bem em mim”, etc.
3) Se não tem nada bom para dizer, considere a possibilidade de não dizer nada.
4) Se não agüenta não dizer nada, nem tem nada de bom para dizer sobre um post que acha particularmente repulsivo, respire fundo, medite, se acalme. Tem certeza que o autor do post é um completo canalha, que merece a sua insolência, o seu sarcasmo e os seus insultos?
a) O autor não é um canalha, geralmente é bom – mas este post é infame e você tem que dizer algo a respeito, porque você é o tipo de pessoa que tem que falar sempre porque não tem absolutamente nenhum auto-controle. Além do mais, discordar veementemente de um amigo vai mostrar para todo mundo que você é uma pessoa independente, de opiniões firmes e cara zangadinha e blá blá blá.
Mas lembre, nada de insultos. O pior dos canalhas parece simpático se for insultado. E corte seus sarcasmos pela metade, ou (se conseguir; faz força) completamente. É possível discordar de modo polido, e de fato a discordância polida é a mais eficiente. Digo mais, do alto da minha sabedoria mundana, posta à prova e aprimorada ao longo de duas décadas ouvindo cretinos afirmarem a sem-gracice de Audrey Hepburn ou a canalhice intrínseca dos católicos: a melhor discordância é aquela que não apenas é polida, mas também agradável.
O modelo a ser seguido é o de uma visita. Imagine que você foi convidado para um jantar e o seu anfitrião disse um absurdo qualquer – que nenhum albino jamais fez contribuição alguma para a história da humanidade, ou que Frida Kahlo era ainda mais feia que as próprias pinturas que produzia. E por acaso você tem um tio que é albino, ou tem uma certa queda por mulheres com buço, e ficou irritado. Não importa, seja polido e agradável (minha paixão pela etiqueta me fez sucumbir ao uso do negrito). Mastigue calmamente a batata, tome um golinho de vinho, deixe o vinho descer, com calma, com calma, e diga afavelmente que não concorda. Sorrindo, se conseguir.
b) No caso do autor do post ser um canalha completo, asqueroso, você já errou ao ler o blog dele.
Se o xingar, você é quase tão gentinha como ele. Se o xingar anonimamente, você é exatamente tão gentinha como ele. Se não agüentar ficar calado (mas não agüentar nunca ficar calado é patológico), não precisa dizer olá, que canalhas não merecem nem olá; mas não insulte, e use uns poucos e bem escolhidos sarcasmos. O melhor mesmo seria fechar o blog, com cara de nojo, antes de comentar; e resistir à tentação de voltar lá para ler absurdos.
Se não conseguir resistir à tentação de voltar lá para ler absurdos, considere a possibilidade que o autor possa ser bom, ou você não gostaria tanto de se irritar com o que ele escreve.
Alguns detalhes finais
1) Evite o excesso de intimidade, sobretudo se é a primeira vez que comenta no blog. Isso vale tanto para as pessoas que discordam do post quanto para as que concordam com ele.
Imagine que você está na sua sala, conversando com suas visitas, quando entra alguém pela janela rindo e dizendo:
"Huahuahuahua Muito louca a sua casa, véi! Se der visite a minha também, faloowww... "
(Not done, old boy. Simply not done.)
2) Evite os conselhos de vida.
A situação é típica; alguém está andando na rua, ouve uma conversa sobre economia vindo de uma janela aberta, se irrita, mete a cabeça pela janela e aconselha o dono da casa a transar mais "que isso passa, huahuahuahua".
"-Huahuahuahua tu é gordo cara não deve transar nunca né??? Pega umas mina que passa kkkkkkk falooowww...."
Também evite aconselhar o autor do post a "dar a bunda que passa", "ler menos e viver mais", "ir conhecer esse Brasilzão de meu Deus", etc.
lições práticas de Alexandre Soares Silva
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Jan
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26.3.04
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Estava pensando: caralho. O que explica um ser humano pedalar horas a fio numa academia para não chegar a lugar algum? Ou correr sei lá quantos quilômetros numa esteira para, ao descer dali, descobrir que se encontra exatamente no mesmo lugar? E no fim do mês ainda pagar por isso? Embora eu não seja do ramo, a explicação só pode ser psiquiátrica. Essas pessoas são adictas de endorfinas. Se você amarrar uma delas numa cadeira, ela começa com rubor facial, tremores, sua frio, sente palpitações, avança para convulsões, entra em estado catatônico, evolui para o coma e bate as botas. De morte matada. Vítima do próprio cérebro, que lhe diz antes do momento final: "A endorfina ou a vida". E se auto-extingue, utilizando uma região cerebral ainda não estudada pelos cientistas. Na falta de tempo ou dinheiro para a academia, a pessoa arruma um cachorro. E todo dia caminha horas e horas "no ritmo dele" em volta do quarteirão. "Tadinho, ele precisa tanto". Conversa. É o dono que precisa. A coleira está no cachorro para disfarçar. É o animal que tira o dono da cama para levá-lo a suar, maltratar tendões e ligamentos, desgastar as articulações. Ninguém me contou, eu já vi. Adictos. Ou viciados, como se dizia nos tempos politicamente incorretos. Não entendo de química, mas, conhecendo os laboratórios, tenho certeza de que logo teremos endorfinas sintéticas na farmácia. Quer dizer, teremos não. Alto lá. Terão. Eles terão. E aqueles que não puderem comprar contarão com o apoio dos EA. Endorfinômanos Anônimos. Sem os 12 passos, senão eles correm.
do Não-Endorfinômano declarado catarro verde
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Jan
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26.3.04
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Com a morte de meu pai, cabe-me agora providenciar o inevitável esvaziamento de uma casa inteira, a casa onde cresci e de onde saí aos 25 anos, a casa que meu avô materno fez erguer no final dos anos 40, a fim de que sua filha, quando viesse a se casar, morasse com o mesmo padrão de conforto a que fora acostumada e - aqui a presumida intenção principal - não ficasse muito longe dele.
(...)
Não posso continuar mantendo aquela casa. Nem teria cabimento eu deixar meu apartamento e voltar a morar nela. É grande demais para mim, exigiria manutenções constantes e dispendiosas. A casa, que já foi um lar, tornou-se apenas um imóvel, uma herança. Eu a venderei tão logo me seja possível, porque assim deve ser, e será, e acabou-se!
Provavelmente o novo proprietário botará abaixo metade daquele imóvel, mandará raspar todos os florões, as guirlandas, os medalhões que enfeitam aqueles tetos; derrubará muitas paredes, modificará as escadas, arrancará portas e janelas. Que seja, já não me importo mais. A velha casa, aquela que existe entre minhas lembranças, não pode ser desfigurada. Ela permanecerá sempre comigo, para o bem e para o mal, entranhada.
Estive pensando no que eu gostaria de retirar daquela casa física e conservar comigo. Alguns quadros, sim, objetos de certo valor artístico, um carrilhão vitoriano que soa lindamente, um lustre enorme, de oito braços, esculpido em madeira mil vezes mais dura que a minha cabeça (não me perguntem em que teto vou pendurar aquele polvo). Ah! eu gostaria (por razões sentimentais) de poder ficar com o sofá preferido de minha mãe, que é vitoriano e forrado com uma seda francesa de verdes profundos, sem um único defeito. Mas onde eu colocaria um sofá wildeano daqueles? Nem pensar! Nem pensar! O sofá será vendido e provavelmente o comprará, num antiquário qualquer, uma dessas emergentes vulgares, dessas deslumbradas imbecis que vivem falando em dinheiro, em grifes, mas nunca aprenderam que chic é algo que se tem e não algo que se é*. Dane-se o sofá vitoriano. Trá-lá-lá! Que vá receber outras bundas, e bem ordinárias, por certo. Uma imagem horrenda me chegou agora mesmo: a emergente vulgar deitada naquela seda e abrindo as pernas para um Wandercleyton - garoto de programa bem dotado. Bem, o que tenho eu com isso? Assim é a vida, não é? Dane-se!
Dane-se também o par de poltronas Luis XVI, que já perdeu todos os dourados e precisaria de reparos urgentes de um tapeceiro.
Confesso que senti certa raiva do meu pai, por ele ter acumulado tantas coisas, tantos objetos, coisas que agora se transformaram num fardo, muito mais do que num prêmio.
Minha mãe sempre quis se livrar de muitas daquelas velharias, mas ele, meu pai, jamais permitiu. O sonho de minha mãe era morar em um apartamento pequeno, moderno e prático, bem longe daquele acervo de inutilidades. Meu pai, muito ao contrário, cultuava cada objeto, não se desfazia de nada, e a casa onde vivia era o altar festivo de suas vaidade tolas e chatas. Quantas ilusões o guiaram do berço ao túmulo! - é uma constatação, não uma pergunta. E como ele deve ter sofrido, sendo tão apegado a essas ilusões! Pouco antes de ele morrer, fez-me prometer que eu preservaria a casa, preservaria carinhosamente seus tesouros. Prometi, menti despudoradamente, disse as besteiras todas que ele queria e precisava ouvir. Agora farei o que deve ser feito: tudo muito diferente do que seria a vontade dele! Não sinto culpa, não. Sinto alívio. Chega de altares e atavios, chega de gobelins empoeirados. A cerimônia terminou. Fim da liturgia pagã!
Quantos desencontros de sonhos, meu Deus! É impressionante! Eu, meu pai, minha mãe, cada qual olhando para uma direção diferente. Assim foi a nossa vida. Nunca pudemos caminhar de mãos dadas, nunca. Dane-se também a fantasia de que a felicidade será concedida apenas aos caminhantes que seguem bem juntinhos em direção a Oz!
Jamais consegui agradar a meu pai, que eu saiba. Não lhe dei desgostos, mas tudo o que eu lhe oferecia de melhor, tudo, tudo, fosse o que fosse, sempre acabava parecendo errado ou insuficiente. Sinto-me como um homem que passou a vida inteira tentando acertar sua bolinha em uma determinada caçapa, mas nunca conseguiu. Tentou de todas as formas, por todos os meios e ângulos, mas a maldita caçapa não queria receber a bolinha. Não queria e demonstrava que nunca haveria de querer. Num determinado momento, depois de anos e anos de tentativas inúteis, o homem enche o saco, perde a paciência que lhe restava, apanha um machado de 7 quilos (desses machados de bombeiro) e resolve destruir a mesa, a caçapa e a bolinha. Manda tudo às favas, arrebenta, esmigalha, tritura e percebe que aquele jogo nunca fora o seu jogo; era apenas uma armadilha destinada a minar sua autoconfiança.
No dia em que, pela última vez, eu fechar as portas daquela casa, seguirei em frente e não olharei para trás. Nunca mais pretendo passar por aquela rua. Se, num descuido qualquer, mesmo contra minha vontade, acontecer de eu passar por ali - fecharei os olhos e imaginarei estar em qualquer outra parte do mundo. Não verei a casa novamente, não verei o que quer que tenham construído em seu lugar.
Tenho, hoje, plena convicção de que fui um menino que teve tudo e não teve nada. O que existe de bom em mim, agora como homem, se é que existe, eu mesmo criei, cultivei e desenvolvi apesar dos pesares, apesar da velha casa de Perdizes - onde tive poucos belos sonhos e muitos, muitos pesadelos.
Game over!
Abracadabra!
New game!
Qualquer novo jogo serve, desde que seja outro, desde que seja bem diferente daquele jogo que já perdi ou que se perdeu por si mesmo.
cmagico
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Ratapulgo
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26.3.04
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o amor que move as estrelas
“O amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade.” 1 Coríntios, 13: 6
Volto à Bíblia para falar de amor porque em nenhuma obra moderna encontro equivalente. O papel hoje recebe impressão de terapias, de críticas, de ódio, tudo disfarçado de amor.
Amor, hoje, só nas letras de música do pop, e com sofrimento.
Não terminei ainda a Comédia, mas no final de cada parte, Dante insiste em ver estrelas, e encerra a obra com o verso: “l’amor che move il sole e l’altre stelle”.
Caminho pelas ruas de São Paulo, o que para os cínicos parece um verdadeiro exercício de amor, e me pego transbordado, cheio dessa sensação de olhar para prédios, carros, árvores e pessoas e sentir-se bem, sentir carinho, satisfação, interesse.
E sem deixar de ver a feiúra, física ou moral, a sujeira do centro, a gritaria dos que não sabem falar. A cidade com nome de santo é mesmo uma ilha do purgatório, como disse alguém que ouve Nick Cave cantando “Here Comes the Sun”.
Há muita maldade no mundo, há muita maledicência na rede, e, se perco meu tempo apontado o ridículo dos líderes, tento sempre recusar o ódio.
E é fácil odiar. A indignação moral é o primeiro passo para aceitar o ódio. Você pode subir a escada ou pode descer, onde encontrará outra tentação, o desespero. O desespero é cinzento? Ele arde em quem foi consumido pelo ódio sem nada ter produzido nem alcançado com isso.
E há os que sobem a escada, os que construíram grandes coisas com seu ódio e com sua indignação moral. Estes são peões de obra. Um cavalheiro não odeia, debocha. Um cavalheiro se recusa a tal trabalho de pedreiro.
Para quem acha cavalheirismo coisa de fresco ou para quem não entende o que é ser cavalheiro, mais um versículo:
“Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento.” 1 Coríntios 14: 20
As crianças amam e odeiam facilmente, mas nenhum engenho frutifica da malícia infantil. Nada constróem com seus ódios. E, se cabe mais uma digressão, o fundamento do cavalheiro é o fair play, a existência não é uma brincadeira, mas a vida humana, a vida que levamos, está bem longe de ser séria, e me recuso a ser envenenado.
Atravesso as ruas e penso no que se repete ao longo dos dias. Todo dia parece necessário dizer ao próximo: você não é obrigado a nada, você é livre, todas as suas preocupações são responsabilidades suas, você sabe que pode parar de fazer da própria vida o seu inferno.
E não abro a boca para dizer nada disso. Por timidez? Por querer publicar mais um livro de auto-ajuda e forrar o cu de dinheiro? Talvez, mas também por respeito. Que eu ame as pessoas, isso não me cega, há mais disposição para falar e reclamar do que para ouvir.
A fala não tem sido o melhor instrumento. A escrita muito menos, o ódio tem mais aceitação, mesmo nos blogs, que o amor.
E, no entanto, é o amor que move as estrelas.
saudade do presidente Figueiredo
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Ratapulgo
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26.3.04
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começo de outras coisas...
Quase 35 anos de idade e cheio de pendências. Tinha que dar um jeito em minha vida. Sacudir certezas e jogar tudo para o alto.
Para começar, apaguei do HD das boas lembranças as gostosas trepadas furtivas com mulheres egoístas (EGO mesmo). Divertidas, intensas, insanas até.
Mas certas coisas, depois de 2 anos ficam sem sentido, parecendo EU, LEITORA, da revista Marie Claire. E como não gosto de ciúme, nem de esperar na fila, nem de deixar de ser o melhor pau da sua vida, nem de segredos tolos, varri as memórias e o cheiro da buceta molhada para o baú do passado e sumi com a chave. Se rolar, a gente se vê por ai.
Faltava resolver uma foda pendente desde 2000. Achava ela patricinha demais, apesar da inteligência, humor, da fome pelos mesmos autores que eu e pela devoção fraternal que temos um pelo outro. Na verdade eu achava ela gostosa demais pra mim, e assim nunca tentei realizar meu desejo.
E nessa semana de (re)definições acabou acontecendo. Muito, muito foda. Ela é perfeita. Mas já foi.
Faltava pedir demissão. 7 anos remando contra a maré numa empresa gigante, mas ainda imatura em relação as maneiras de estimular o capital humano.
Pedi. Choraram mas aceitaram.
Agora vivo os últimos dias nessa armadilha de concreto e ondas eletromagnéticas e cercada de intensos tiroteios diários com diversos calibres. Vou para São Paulo. Novos ares, outras paixões.
No Rio deixo duas: uma antiga e uma nova. A antiga, o sorriso perfeito, os olhos de deusa pagã, emoldurados pela cabeleira castanha. Quer me ver grande, feliz. Nossa ligação transcende o presente e vamos nos cruzar outras vezes. E duvido muito que nos abandonemos, já que mesmo com todas as limitações, vivemos o que precisamos viver.
Além do tesão absurdo, das revoluções que promove em mim, tenho um orgulho profundo pela sua capacidade de realizar e uma admiração especial pela sua inteligência e beleza.
A nova é uma paixão pelo conhecimento, pelo novo, pelo prazer de ensinar e ver surgir um celeiro de idéias embebido em feminilidade - uma delícia de estimular, provocar e ver trazer respostas novas e inusitadas para velhos problemas. Queria poder orientá-la até o final, acompanhá-la nessa jornada para a qual a escolhi, mas meus novos caminhos não permitirão. Vou telefonar, dar força por e-mail - quero que a trajetória profissional dessa moça seja vitoriosa também.
E se você ( é você mesma, chatinha...) quiser realmente saber o motivo de ter sido escolhida ( além da sua competência para o trabalho)....basta escutar a música 8 e viajar no título.
Agora é partir para Sampa e começar do Zero. Esquecer os momentos que vivi naquela cidade nos anos 90, no topo da cadeia alimentar, um popstar MTV na flor dos 21 anos de idade. A fama acabou, a vida me atropelou, mas sobrevivi.
Agora vou torcer para que os amigos locais ajudem a superar o trauma dos primeiros dias sem Dani e Lia.
E mergulhar de novo nessa cidade que amo.
L'ENCRE INVISIBLE
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Ratapulgo
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26.3.04
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Minhas fezes para o contorno
Quem puser a mão sobre mim, a fim de me governar, é um usurpador, um tirano, e eu o declaro meu inimigo. Quem mexer no controle ou puser som alto, pior ainda.
O mau gosto... o livre-arbítrio foi, decerto, criação do demônio. Antes do mais astuto dos animais influenciar a mulher, tudo era bom; foi só mexer no fruto, que já começaram a aparecer anjos bregas empunhando espadas flamejantes na Bíblia.
Há quem maldiga o Eclesiastes, dizendo que com um pouco mais de vaidade por aí, as pessoas teriam vergonha de escutar e ver as basculheiras com que nos acometem diariamente.
O problema não é falta de vaidade, as pessoas continuam vaidosas, o problema é terem contado a todos que o ser humano é ridículo, pobre, medíocre e débil-mental. Deveria ser o mais confidencial dos segredos, este sim protegido com espadas flamejantes.
dies iræ
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Ratapulgo
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26.3.04
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Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Eu tentei soltar pipa, a pipa não me soltou. Fiquei enredado de olhos. A pipa é uma vara de pescar pássaros. Eu esqueci meu casaco ontem. Eu não peguei o troco no lotação. Eu me desfiz em detalhes. Estou onde não começo. Se desfazer em detalhes é ser devoto dos ouvidos. Me pareço com a neblina. A neblina é um rio tímido. Eu queria pintar quando pequeno. Admirava o copo de requeijão com os pincéis dormindo. A tinta se espreguiçando na água, de camisola. Lembrava o mar de Tramandaí, que não é azul, mas água do azul. Queria trocar o copo de escovas de dente por um copo de pincéis. Meu tio tinha dentes pretos. Eu acho que ele trocou os copos. Em casa, havia um dia em que a milícia materna recolhia as revistas de mulheres peladas. Todos os esconderijos eram vasculhados, saqueados. Embrabecia com meu irmão caçula que ajudava a mãe a arrecadar as musas. As publicações raras e do mercado clandestino da escola queimavam na lareira. Inquisição doméstica. Depois é que fui entender meu irmão. Ele queimava as revistas para poder olhar as mulheres. O fogo era sua liberdade.
Fabricio Carpinejar
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Ratapulgo
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26.3.04
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Personagem
Inventei Pedro em um dia de dor. Pensei: se eu deslocar o sentimento de lugar, talvez eu já não sinta esta náusea que me joga contra o chão. Então inventei. Fiz um primeiro esboço no papel pardo e comecei pelo nome. Deveria ser forte, masculino, rígido. Pedro nasceu em idade madura, em cidade de mar e com ternura nos olhos. Precisaria ter bom domínio sobre as palavras e linhas. Pedi ao Rubem: ensine ao meu Pedro a receita de teu lirismo. O fermento cresceu. Amei Pedro em um dia de dor. Porque seus braços eram macios, sua voz era suave, seu calor era delicado e suas palavras eram aconchego. E quando acordei já não havia dor ou qualquer lembrança dela, mas havia o homem inventado, criado, recortado, costurado. Eu devia tê-lo chamado de Frank.
Walkwoman
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Ratapulgo
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26.3.04
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O mundo de um míope
No céu, apenas os míopes podem entrar. Eles estão acostumados com as nuvens que passam diante dos seus olhos e a claridade suprema do por do sol. Andam sem conhecer o chão por onde pisam, conhecem o caminho sem saber a paisagem que está ao seu lado. Não reconhecem no espelho os sulcos que o tempo fez na pele de quem ama.
Ama incondicionalmente a alma que um dia conheceu perdida e disforme em meio a todas deformidades que estão nesse mundo. Passa a vida inteira num sonho, e molda seu mundo o mais bonito quanto sua imaginação pode determinar. Seu padrão de beleza não pode ser envenenado com silicone, secadores ou cílios postiços. È um ser sinestésico que ouve o silêncio das retas, o eco das curvas e o sal da chuva. E quando ao usar seus óculos reconhece a espuma das ondas do mar, chora! Por ter certeza que o mundo real é realmente tão especial o quanto ele imaginava.
Em caso de coma - Me coma!
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Ratapulgo
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26.3.04
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Ele comeca a aparecer bastante nos meus shifts ultimamente. o que me surpreende um pouco. Sexta-feira apareceu rapidamente, no sabado tambem e ontem me ligou perguntando se podia me visitar. E veio com essa:foi convidado por uma revista( ele eh fotografo free-lancer) bem moderninha, a Vice, que queria strippers brasileiras como modelo! Nao eh uma revista masculina e sim de comportamento e talvez seja algo interessante.
Quer que eu pose e chame outras duas, para dai escolher a melhor foto. Mas nao sei ate que ponto devo ajudar esse cara, que pisou na bola legal comigo ano passado. Vou pensar no caso.
(...)
Essa semana ainda nao parei. Segunda-feira considero meu dia de folga mas a agente me ligou e pediu para eu trabalhar. Quis recusar mas ela me propos uma troca: eu faria o clube que ela queria ( o lugar eh longe, acaba de 2 das manha e nao eh facil de fazer dinheiro) e ela trocaria o meu shift fraco da quarta por um bem melhor. Ai a coisa mudou de figura pois a troca era otimo negocio. E nao foi de todo mau para uma segundona, deu para faturar algum.
Na terca foi a vez de fazer um pub no leste de Londres, lugar meio derrubado e frio, mas tudo bem ja estou acostumada . A clientela eh mais de trabalhadores, um povo simples e simpatico. Passei um pouco de frio num shift que parecia nao ter fim mas no final sobrevivi. Apenas duas meninas dancando por 7 horas ! Cansativo, viu! A colega era uma outra Maya, uma polenesa gracinha demais, com um sorriso doce de menininha. Sempre bom trabalhar com quem nos damos bem.
Ontem, quarta-feira liguei bem cedo para a agente para confirmar meu trabalho, e fico feliz pois, como ela me prometera ,vou fazer um pub bom ao inves do que estava destinado inicialmente para mim. Esse eh longe tambem, no oeste de Londres, perto do Aeroporto de Heathrow e eh considerado um dos melhores lugares da agencia pois os clientes sao bem-educados, o pub limpo e organizado, o palco eh otimo e a perspectiva de ganhos eh razoavel. Outro dia cansativo mas agradavel. O Mike la aparece; eh um cara super gentil e educado, admirador antigo , que foi morar em Dubai mas de ferias por alguns dias na Inglaterra quis me ver. Quer dizer, ver a Maya. Uma das facetas dessa atividade , alias, que tanto agrada as meninas que a exercem, eh poder ser objeto de tanta admiracao masculina.
Naked Emotions
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Ratapulgo
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26.3.04
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25.3.04
Para quem ainda tem dificuldade de saber a diferença entre Software e Hardware:
- Software: é a parte que você xinga
- Hardware:é a parte que você chuta
Pérolas do Dia
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DaniCast
às
25.3.04
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Paixão de Cristo:
Sapinho: - eles sabem mesmo escolher ator para fazer papel do mal.
Alice: - pois eu acho que eles sempre escolhem homens bonitões para fazer Lúcifer. Com um capeta assim até eu quero ir para o inferno.
Rascunhos de Alice
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DaniCast
às
25.3.04
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Para quê inaugurar technicolor, se depois irias me deixar preto e branco. As crueldades miúdas estão sob minhas unhas, tingindo a pele de roxo. Para quê dar alturas se depois me negarias asas, para quê amor perfeito se chuva não mais. As crueldades graúdas estão enfiadas num cordão e as levo penduradas no pescoço. Para quê cachos de uva se me deixarias à míngua, para quê ensinar teu nome, se me arrancarias a língua. As crueldades que não consigo carregar dormem ao meu lado e ocupam teu lugar.
Não Discuto
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Ratapulgo
às
25.3.04
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O dia do capeta
E eu que sempre achei que um dia o capeta em pessoa desceria no Maracanã lotado, com transmissão ao vivo pela Globo. As outras emissoras também teriam direito a um naco. Pode ser no domingo, mais ou menos no horário do Fantástico. Penso nos preparativos da semana, Jornal dos Ôgro na porta, escola de samba ensaiando. No domingo, estádio lotado desde cedo: o espetáculo começa às quinze. Em campo, Barbosa, Marta Rocha, Pelé mumificado, Mário de Andrade, Gérson, Rivelino, Chacrinha, Drummond e Grande Otelo, o Mequinho que chegue mais cedo, por favor. Também temos direito a Ronaldo cabeça-de-peteca, Santos Dumont, Fittipaldi, Gonzagão, Garrincha, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Exigimos Nelson Rodrigues, a família Maravilha (Dadá, Fio, Túlio e Mara), Lampião, Rui Barbosa, o bandido da luz vermelha e Silvio Santos; queremos a batucada de Zé do Caixão, Flávio Cavalcanti, Roberto Carlos e Padre Cícero, além das jogadas de Vicente Matheus, Dercy Gonçalves, Golbery, Dona Zica e Conselheiro. Tudo isso com direito às companhias de Carlos Lacerda, Zagallo e João Saldanha no camarote especialmente cedido pela dupla Vargas-Beijoqueiro. O capeta chegará por volta das onze da noite, de helicóptero. É nesses momentos que penso na segunda-feira: o que restará desta apoteose em uma mísera manhã de segunda-feira?
O mujique
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Ratapulgo
às
25.3.04
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Cena carioca I
Estava Isa, essa docinho que vos escreve, hoje de manhã num guichê de estacionamento de um dos grandes shoppings da cidade. Tinha perdido o cartão do estacionamento e se preparava para enfrentar, com paciência zen, a maratona burocrática que isso significava. Preenche formulário, mostra documento, e ainda tem que aturar aquele ar da atendende: "Essa perua não tem mais o que fazer do que perder papel em shopping...".
Enquanto enfrentava a situação, aproveitava para exercitar o meu lado "docinho". Até que chegou um segurança e, naqueles rádios que obrigam o cara a falar bem alto, anunciou:
- Tem uma senhora aqui muito nervosa porque perdeu o carro com a mãe dentro.
Primeiro, pensei: "Não seria ao contrário? Ela perdeu a mãe, que estava num carro...". Depois, não resisti, virei para atendente e disse:
- Perdi o tíquete, mas pelo menos não perdi a mãe, né não?
Elas por Elas
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Ratapulgo
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25.3.04
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Do outro lado do telefone:
- Procura uma música na Radio Uol pra mim?
- Eu não to na frente do computador.
- Ahhhh vai lá então.
- Não tem telefone lá.
- Eu ligo no celular.
Atendo celular....
- Desliguei o computador sem querer e agora não quer conectar.
- Eu espero.
- Entrou.
- Digita um post pra mim?
- Vai falando aí que eu digito.
......
- Deleta tudo, não quero mais.Depois eu faço.Procura Coldplay na Radio Uol?.
- Não tem Coldplay na Radio Uol
- Vai na Usina do Som entao...
- A Usina do Som não ta entrando.
- Vai no Kazaa e procura la pra mim.
- No Kazaa não ta querendo achar nada
- Eu não posso dormir sem ouvir essa música
- A Usina do som voltou...fala aí a música.
- Shivers
- Ok...colocando...
Quando a música acabou...
- Ouviu? Alo? Alo?Aloooooou?
Dormiu do outro lado, com o telefone ligado, eu que sou boazinha, depois desse trabalhão todo, deixei " rolando" o CD todo em modo repetitivo e o celular ligado ao lado, zelando o sono da criatura, e fui dormir, não sou eu que vou pagar a conta mesmo.
Casos e Acasos Virtuais
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Ratapulgo
às
25.3.04
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WHITE MAN'S BURDEN
Só adquiri o hábito de ler depois de adulto, aos 25 anos, quando me mudei para o apartamento onde moro hoje. Não consegui, por apoucado pelos mercurismos da genética, pensar em outra via de convivência que não acondicionar sistematicamente meu lixo em sacolas plásticas da livraria Cultura, como forma local e reconhecível de me impor. A prática gerou efeitos melhores do que eu poderia imaginar. Em apenas três anos o vizinho da direita - direita de quem do meu apartamento olha para o corredor - defletiu para outras e ignotas paragens, poupando-me gentilmente do constrangimento de familiarizar-me com suas feições. O da esquerda, conquanto menos solícito, já aprendeu a usar fones de ouvido e a não trazer para casa mulheres que riem alto demais (um dia ele vai me agradecer), e no momento se esforça para domesticar o assobio. Com o apartamento da direita ainda vago, tenho razões para considerar essa etapa virtualmente encerrada, e passei a substituir as sacolas da livraria Cultura por acondicionadores de lixo proprio sensu - pretos, opacos, subentendidos e adequadamente impermeáveis à curiosidade alheia. Pelos próximos anos, planejo deixar cair ingressos de concertos de música erudita no corredor, o que me parece perfeito, exceto pelo fato de que não vou a concertos com muita freqüência.
Apesar de tudo, pretendo rejeitar até a morte o rótulo de metrossexual, por saber que não fica bem em mim adotar opções sexuais mais novas do que eu e por não conhecer marcas de xampus e condicionadores, crendo firmemente, quanto a esse particular, na bondade intrínseca do estado de natureza.
Contos Licenciosos
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Ratapulgo
às
25.3.04
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24.3.04
Eu simplesmente tenho vontade de escrever, nada que valha a pena, nada interessante, nada que tenha sentido ou finalidade específica. Somente escrever, sentir o barulhinho do teclado enquanto eu o toco, olhando para tela, e vendo formar-se palavras, palavras corretas de idéias incompletas.
Nada de melancolia, de tristezas, de chateações, nem alegrias, prazeres ou soluções, nada, absolutamente nada, somente o barulhinho do teclado, e as palavras na tela.
Isso é bem gostoso, todos deveriam experimentar, ir tocando com os dedos as letras do teclado, ouvindo seu ruído peculiar, olhar na tela e perceber que palavras estão se formando, ainda que nestas palavras não se vislumbre ou se produza um única idéia.
veleidade
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Ratapulgo
às
24.3.04
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A Mais bela História de Amor:
-Minhoca, Minhoca, mê dá um beijoca?
-Não dou, não dou, não dou...
-Então eu vou roubar!
SMACK!
-Minhoco, Minhoco, você tá ficando louco! Beijou do lado errado. A boca é do outro lado!
SMACK!
Ah! Se as coisas fossem tão simples assim...
O Sorriso do Gato de Alice
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DaniCast
às
24.3.04
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Dúvida Mundana
Olha, eu acho que fazer sexo é melhor do que trabalhar - sempre, sem exceção. E isto tem uma explicação bem simples: sexo, mesmo quando é ruim, é bom, enquanto trabalhar, mesmo quando é bom, é péssimo. Não tentem me convencer do contrário. Então eu queria saber porquê as pessoas passam dez horas por dia trabalhando e meia hora por semana fazendo sexo (quando muito). Não quero respostas do tipo "é porque se passar o mês inteiro fazendo sexo, você não vai receber um salário no final do mês". Quero explicações mais plausíveis e criativas, até porque não é preciso trabalhar para sobreviver: basta ganhar na Megasena. E ainda assim, duvido que os novos milionários passem mais tempo copulando do que aturando chefes ou clientes. Trabalhar deve ser mesmo muito divertido. Eu é que ainda não descobri as delícias da labuta.
Morfina
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DaniCast
às
24.3.04
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23.3.04
Ele é do mesmo boteco suspeito que você frequenta. E agora, na esquina do mal,
você descobre que ele é mestre na arte de soltar o sutiã com uma mão só.
old style for the new generation priority
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Jan
às
23.3.04
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Na faculdade (estou fazendo faculdade de jornalismo & cursinho), os veteranos publicam um jornalzinho. Na única edição que eu li, tinha uma matéria sobre prostituição. Alguns veteranos com personalidade o suficiente para abordar travestis e prostitutas o fizeram. Ótimo, néam? Eu acho.
Mas uma pessoa SUPER inteligentíssima da minha sala disse que "isso não era matéria pra se colocar no jornal de uma faculdade, onde já se viu, que nojo". Ai, LORD. E por acaso nós temos sociologia no currículo. Não, claro, ninguém se prostitui. Nós só compramos roupas de 120 reais e assistimos Big Brother, as pessoas fazem escova definitiva de 700 reais, adoram ouvir uma música que diz "eu vô pegá essa mulhé pra mim", mas estamos tãããão longe dessa realidade...
adoçante
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Jan
às
23.3.04
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A primeira bigorna a gente nunca esquece
Hoje voltei para casa trazendo a minha bigorna... foi feita por uma empresa chamada Hay-Budden, que operou de 1890 até por volta de 1925. Ou seja, minha bigorna tem pelo menos por volta de 80 anos de idade!
Segundo o Sonny, meu professor, é uma bigorna excelente e tem um som muito claro e bonito. Acabei de me tocar que não experimentei bater nela com o martelo. Mané!
A bigorna estava guardada no segundo andar de um galpão na casa dele. O detalhe é que o galpão fica na parte de baixo de um declive, e não tem um caminho bonitinho para chegar nele. Então imaginem eu descendo pela escada do galpão e depois subindo por um barrancão... com uma bigorna de 40 kg nos braços.
Lições aprendidas hoje no serviço:
1) Existem cavalos com olhos azuis!
2) Existem mini-jumentos!
Entre Quatro Estações
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Ratapulgo
às
23.3.04
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gribada. muito, muito gribada.
podre.
peguei a gripe do alexandre.
eu sei que casamento é união de corpos e bens e tal, mas num dava pra deixar os germes de fora, meu?
gribada. mal-humorada. chata. sem editora. nada de cartas de amor. gribada. tv a cabo fora do ar. janta por fazer. garganta arranhando. alimentando sentimento pouco generosos e nada cristãos sobre a humanidade em geral e as crianças do meu prédio, que gritam na quadra, em particular. gribada. sem coragem de usar letras maiúscula. espinhas. gribada. uma máquina cheia de roupa pra pendurar. montes de mails pra responder. melhor amiga em crise. mãe doente. gribada. tio na uti. filme vagabundo na tv aberta. casa bagunçada. gribada. cachorro que comeu a almofada do sofá. cachorro que avançou no síndico. enrolada num cobertor xadrez que pinica. fitas bagunçadas. arrumação de outono do guarda-roupas deixada pela metade. gribada. propaganda da tentativa de reeleição da prefeita na tv. telefonema do tintureiro pra avisar que perdeu meu edredom de florzinha. gribada. gribada. gribada. gribada. nariz entupido. pé doendo, cabeça doendo. cabelo sujo. gribada. gatos revortosos. pobre. celular fora da área de cobertura. invejosa. malvada. feia. gribada. gribada. sem conseguir fazer o texto do jornal meio norte. multa de trânsito num lugar ao qual eu nunca fui. gribada. ruim. nariz escorrendo. unhas totalmente roídas. gribada. sem boletas da alegria.
não bom.
¡Drops da Fal!
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Ratapulgo
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23.3.04
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Solidão é uma coisa vergonhosa
A amiga comprou uma picape. Carro de dois lugares, logo começaram a questionar a escolha. E ela:
– Ué, pra que mais? Eu não tenho namorado.
– Mas pode arranjar um, e aí?
– Arranjar como? Não: o banco do motorista é para mim, o do passageiro pra minha bolsa. Tá bom demais.
Agora, meses depois, pensa em trocar de carro. Um namorado imprevisto tomou o lugar da bolsa.
O amigo mandou um e-mail pessimista. Assunto da mensagem: "Momento Marco Aurélio". No texto, ele falava da solidão, da falta de perspectiva. Isso foi há um ano. Um mês depois ele conheceu uma garota e começaram a namorar. Moram juntos agora. Criam poodles.
Apesar desses exemplos de dois dos meus amigos mais próximos, eu não dava o braço a torcer: ia morrer sozinho num apartamento escuro, meu cadáver seria encontrado uma semana depois. Ou então eu criaria jibóias, e elas dariam cabo do corpo. Não havia decidido ainda que fim me esperava, mas sabia que seria trágico e solitário. E aí uma namorada saída não sei de onde me obrigou a rever meus planos.
E agora eu me sinto ridículo ao lembrar das coisas que eu dizia, e estou certo de que meus amigos sentem o mesmo. Quanto amargor, quanto desespero! E para quê? Para vir uma menina e, com suas mãozinhas pequeninas, jogar tudo isso fora e deixar entrar um pouco de ar. Ah, que vergonha dos meus sonhos de misantropia!
Você também alimenta sonhos assim. Nah, não negue. Eu sei. Aceite um conselho de titio: evite essas bobagens. Quanto mais você falar em solidão eterna, em isolamento perpétuo, mais vergonha irá passar quando aparecer quem o livre do peso. Porque nem pesa tanto assim, e vai ser uma baita desmoralização quando alguém tirar com um sopro toda essa carga que você diz ser tão insuportável.
Jesus, me chicoteia!
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Ratapulgo
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23.3.04
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Enquanto isso, nos bares da vida...
- Olá! Posso me sentar aqui?
- Pode, oras. O banco não é meu, é do bar...
- ...
- ...
- Você gosta de bebida?
- Gosto, mas não quero nada, obrigada.
- ...
- ...
- E de comida? Posso lhe pagar umas batatas fritas?
- Adoro, mas não. Estou de regime.
- ...
- ...
- Você gosta de cigarros?
- Hein?
- Cigarros. Você gosta de cigarros?
- Não, eu não fumo.
- ...
- ...
- Você gosta de...
- Diz uma coisa? Como é o seu nome, rapaz?
- Ronaldo.
- Ronaldo? Ok. Ronaldo, você gosta de foder?
- Claro!
- Então vá se foder e me deixa atender outras as mesas, faz o favor?
Alea Jacta Est
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Ratapulgo
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23.3.04
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. Marque com um "x" a opção correta .
Já falei que minha mãe faz 72 primaveras esse ano?
Não, né?
Agora tu imagina aí. Setentaedois. Nascida e criada na caatinga, terço na mão, missa todo sábado, comunhão, confissões, essas coisas. Problemas mil com questões certo/errado, e aqui não falo daquela página da Capricho, falo das coisas certas e bonitas e próprias das pessoas tementes ao Pai e das coisas erradas, inspiradas pelo demo, vôte.
Preâmbulo concluído, vamos aos fatos.
Mocinho do metabolismo de caldeira veio passar uns dias de folga comigo. Tá aqui desde quinta. Num hotel. E eu meio que tô lá com ele. Venho em casa de manhã, lá pelas dez, dizer "presente, fessôra", pra não acabar de esturricar o filme, mas nem tá adiantando muito que ela nem tá falando comigo.
Pior foi na quinta, depois do jantar com o mocinho, quando liguei pra casa:
- Mãe?
- Oi, filha.
- Tô ligando pra avisar que vou dormir fora, viu?
(suspense)
(suspiro)
(voz trêmula)
- Filha, cê tem coragem de me dizer que vai dormir com esse homem?
- Ô, mãe. Se eu não ligo avisando a senhora morre de preocupação, se eu ligo avisando a senhora começa a chorar. Faço o que, hein?
- Você acha isso certo, minha filha?
- Acho.
- Pois bem... (voz sumida)
- Mãe, já tomou o remédio da pressão?
- Já.
- Então tá, a bença?
- Deusabençoe.
- Té amanhã, mãe.
- Até.
Posso com isso? Posso não.
Aliás, diga aí como é que eu tô tendo coragem de contar essa marmota aqui, justo aqui.
Isso foi certo?
Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!
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Ratapulgo
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23.3.04
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São tantas emoções
que nem sei por onde começar.
Estou em Valinhos, no pentiunzinho. Hoje a tarde foi o churrasco do aniversário da Marina. A Tati não via meu irmão e minha cunhada há uns 15 anos (só recordando: minha cunhada era amiga de infância da irmã da Tati) e, relembrando os velhos tempos, voltou aquela idéia de reunir a velha turma:
- Mas onde nós vamos encontrar o David? Os outros até dá pra encontrar, mas ele, vai ser muito difícil.
Então eu tive a incrível idéia de ir até a casa dele, que fica no meio do caminho, mais ou menos, entre a minha casa e a da Tati (um km, por aí).
Chegamos lá e o portão estava aberto, e a Tati simplesmente entrou com o carro, e a gente nem sabia se a casa ainda era deles, mas acontece que ele estava bem ali, na frente da casa, e foi tão absurdamente fácil que não dá pra acreditar como é que a gente passa 16 anos sem ver uma pessoa que já foi unha e carne com a gente (ou "a corda e a caçamba", como disse minha mãe), sendo que estava o tempo todo ali do lado.
Eu corri para abraçá-lo e aí que caiu a ficha e ele percebeu que éramos nós, e disse:
- Eu nem sei quem eu abraço primeiro!
Então nos abraçamos os três ao mesmo tempo e deve ter sido uma cena linda, mas ninguém estava olhando.
E vimos a mãe dele, a irmã dele, um sobrinho. E trouxemos ele pra cá, porque tava rolando a festa e iam cantar parabéns e tudo o mais, e ficamos aqui, relembrando um milhão de coisas - a memória dele é impressionante, nem o álcool destruiu.
Update: entrar no blog da Tati e descobrir que ela escreveu a mesma coisa que eu, praticamente ao mesmo tempo, só que de uma maneira muito mais linda, não tem preço. Notem o que ela disse sobre o encontro: "coisa de comercial de margarina". Putz. Foi exatamente isso ahahaahha muito lindo, muito lindo.
Céu azul lindo demais na Ilha de Siris - coleção outono/inverno 2004
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Ratapulgo
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23.3.04
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O post mais pretensioso de todos os tempos
1- Não estou tendo muito tempo pra pensar em coisas engraçadinhas, alguns insights às vezes acontecem, apenas.
2- Por pior que seja minha situação financeira, não devo nada a ninguém, podem consultar o SERASA.
3- Se não tem algo supimpamente fodacional pra me dizer, que me ajude de alguma forma, não fale, e isso serve pra todo e qualquer meio de comunicação.
4- Se você é daquele tipo que não gosta de ler coisas tristes ou trágicas por não saber conviver, nem agir, com dificuldades, abandone este blog o mais rápido possível.
5- Se você é daquele tipo que gosta de ler coisas tristes ou trágicas, porque acha que pode ajudar, que fique claro aqui, não quero sua compaixão.
6- Se você é daquele tipo que não gosta de ler coisas tristes ou trágicas porque se diverte com isso, bem-vindo, colega.
7- Se você acha que posts com tópicos numerados são coisa do passado, saiba que essa camisa dessa cor aí é coisa dos anos setenta, ô rainha da moda.
8- Se você acha que a Marcela deve sair do BBB, ligue para o telefone da Globo.
9- Se você quer que o Rogério saia do BBB, liga pros Caça-Fantasmas.
10- Entre e fique à vontade.
Crediário
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DaniCast
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23.3.04
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Segurança é algo que todos procuramos ter em nossas vidas. A garantia de se estar vivo e bem no dia de amanhã, sempre o dia de amanhã. E daí, quando se consegue garantir o dia de amanhã, tenta-se salvaguardar o dia depois deste, a semana, o mês, anos a fio.
Hoje em dia é possível ter a garantia de uma vida segura por anos por vir. Ou melhor, pode-se assegurar uma existência estática. Porque não sei se isto pode ser chamado de vida. É o aspecto negativo da segurança: Ela é limitante.
Eu estive no dito mundo desenvolvido, onde havia segurança em todo lugar, mas tudo que senti eram amarras ao meu redor. E as pessoas lá (e aqui também, claro) se guardam em caixas cada vez menores e mais fortes para ficarem seguras. Afinal, para quê ter espaço para bater os braços se já disseram que é impossível voar?
A maioria das pessoas prefere ser treinada a aprender e entender algo. O importante é ganhar o suficiente para o dia de amanhã. É muito mais rápido e produtivo viver sem pensar na vida, nas pequenas coisas que fazemos. O importante é ganhar o suficiente para o dia de amanhã. E eles nunca percebem que o amanhã chega todo dia e tudo que eles fazem com este tempo é garantir o dia seguinte. Eles põem tudo em números e esquecem que até os números podem ser infinitos, não têm amarras.
Mas eu não estou falando de máquinas, e sim de seres humanos, com sentimentos e emoções. E mesmo neste quesito eles procuram irracionalmente uma garantia. Coloca-se num pedaço de papel o amor que deverá ser estocado para o dia de amanhã. O amanhã continua chegando e tudo que se faz é... estocar.
Segurança é limitante. Admito que é confortável e agradável saber que no futuro há bonança, mas isso impede qualquer aprendizado e entendimento. Estas coisas são inevitavelmente incômodas.
no one knows
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DaniCast
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23.3.04
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22.3.04
Das abstrações.
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor
amor amor amor amor
amor amor amor amor
amora amora amora amora
amora amora amora amora
você
você você
você você
você você
você você
você você
você você
você você
você você
você
.
.
.
e eu.
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DaniCast
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22.3.04
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Das coisas boas da vida
Dia de sol. Café da manhã de padaria. Pedaladas na lagoa. Caminhadas na praia depois do pôr-do-sol. Dormir abraçada. Reencontrar pessoas que eu gosto muito. Descobrir músicas deliciosas em cds antigos. Beijar morrendo de rir. Morrer de rir. Rever fotos antigas. Cantar alto. Comer pizza dormida como se fosse caviar. Caminhar de mãos dadas. Acordar no meio da noite e ver que amo quem está do outro lado da cama. Ir ao cinema e sair apaixonada pelo filme. Beijos na boca por minuto. Poder pensar em alguém enquanto canto Chico Buarque. Fazer aniversário. Me sentir alucinadamente atraída por uma pessoa toda vez que ela repete uma palavra qualquer aparentemente sem importância. Ganhar uma aposta boba. Água de coco gelada no calor e de frente para o mar. Sentir que encontrei alguém que é a minha cara. Carinho de mãe. Paquerar e cair apaixonada. Ver qualquer gato dormindo. Abraço apertado-demorado. Caminhar em Ipanema no meio da tarde de um dia de semana. Ligar o rádio e achar uma música que eu a-do-ro!
Sentir que faço parte da felicidade de alguém.
Acontecível
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DaniCast
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22.3.04
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"Mas Cacá, tu até tens muito bom gosto pra homens. O problema é que eles não têm lá um gosto bom pra mulheres."
clarices
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DaniCast
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22.3.04
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Saída Estratégica Pela Direita
A frase é do leão da montanha, e sempre me vem quando sinto estar no lugar errado.
Uma das razões por que não fiz curso de inglês foi ter entrado na sala incorreta: em vez do primeiro ano, entrei numa do segundo ou terceiro, não entendia nada. Fingi, fui tão discreto quanto possível, até que aprendi a balbuciar licença pra ir ao banheiro com uma menina ao lado. Nunca mais voltei.
Duck and cover, run and hide, nem sempre é possível fugir, e quando nos percebem, não há defesa que dê conta.
Hmm, mas ia dizer de casamento, não vou mais. Um amigo sempre diz que se fosse coisa boa não precisava de testemunha. A piada é boa, mas está velha e desgastada. Uma correlata diz que o maior problema das mulheres aos quarenta são as mulheres de vinte.
No passado, o homem comprava sua esposa; com o passar do tempo, a mercadoria foi perdendo tanto o valor, que até o pai da menina passou a pagar pra se livrar do encosto, geralmente em festa. Vivemos em outros tempos, alguns costumes permanecem.
dies iræ
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Ratapulgo
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22.3.04
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21.3.04
Manual Prático de Conquista
Um amigo perguntou-me como ganhar um coração. Duas surpresas: a primeira, que eu esteja com toda essa boa fama; a segunda, que ele possa querer ganhar um prêmio como esse.
Respondi-lhe que todo coração é um bandeirante em busca da Cidade d'Ouro. É preciso tornar-se a tal cidade, para que o aventureiro torne-se seu. Homens, mulheres, cachorros, todos buscam por um membro da realeza: seja um príncipe encantado, uma princesa - eu que o diga - ou uma cadelinha real. Antes de conquistar alguém, é necessário conhecer os sonhos desse alguém. E é por isso que a amizade é indispensável, como primeiro passo de uma conquista. Aliás, estamos cansados de ouvir que não há amor verdadeiro sem amizade.
Conhecendo-lhe os sonhos, vem a parte difícil: tomar parte neles. Há dois caminhos para isso. O primeiro, mais fácil e arriscado, é se transformar no príncipe encantado e fazer com que pareça que se é o par perfeito. Cá entre nós, só apóio o método quando falamos de uma conquista barata e rápida, sem pretensões de estender-se. O segundo é roubar os sonhos do coração bandeirante. Expulsar o príncipe encantado e chamar a atenção do alvo para alguém de sangue menos nobre: Vossa Mercê. As técnicas para fazê-lo, infelizmente, são secretas; cada um as desenvolve como melhor lhe parece. E - que isso permaneça secreto - não conto as minhas porque são extremamente egoístas e dolorosas para o alvo. Quando me preocupei em criar estratégias de conquista, não estava muito interessado no bem-estar das pessoas, se é que me entendem.
Um ponto importantíssimo é a franqueza absoluta. Fala-se, hoje em dia, muito em gostar; não admito, e jamais admitirei, que alguém "goste" de mim. O amor é suave e clássico; belo e deslizante; vermelho e sublime. Os olhos do conquistador jamais são inexpressivos, jamais vazios. Ele está sempre encantado com o céu, a água, a terra. Ele nunca - eu disse nunca - fala de futebol a quem quer conquistar. Ou se fala, dá sempre um jeito de descrever apaixonadamente a expressão do seu jogador predileto quando fez um gol. Sim, señores, é o que quero dizer: o conquistador jamais encara o mundo como um conjunto de banalidades. E isso é franqueza.
Discorri sobre os métodos que já tinha testado e aprovado, nos meus tempos menos sérios, e já que sempre terminava dizendo um "mas claro que isso não vai manter a pessoa ao seu lado", meu bom amigo fez a grande pergunta:
- E como fazer com que essa pessoa fique comigo por muito tempo... Para sempre?
Sorri e disse que nada era para sempre. Mesmo assim, demorei a responder o resto da pergunta, e o que saiu foi, finalmente:
- Pedir amor, meu amigo, só se você amar.
E é a mais pura verdade. O conquistador perfeito é, certamente, aquele que ama quem quer conquistar. Um olhar apaixonado vale mais que mil palavras; e não há ator que possa simular o épico sentimento que chamamos amor. Essa foi a minha grande conclusão, seguida de uma ainda mais verdadeira, só que do meu pretenso aprendiz:
- Uma lição para você: um conquistador apaixonado nunca mais será conquistador. E eu vou procurar outro professor.
A César o que é de César!
Vox Noctis Liber
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DaniCast
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21.3.04
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Fiquei no chuveiro deixando a água cair forte e perscrutar lânguida cada canto do meu corpo, como que numa tentativa de revelar, e por conseguinte expurgar, nem sei bem o quê. Talvez tristeza, coisa que por si só não faz sentido. Talvez a causa de minha tristeza. Mas como expurgar-me de meu próprio corpo, morada onde há muitos anos fui encerrado, enclausurado sem sequer me perguntarem se era isso mesmo. Queria catarse. De qualquer tipo, de qualquer forma, vinda de qualquer lugar. Paleativos, que fossem, mas já me serviriam. Me abandonei ali, e segui, etéreo, para outras paragens distantes. Assim fiquei por longo tempo, imóvel, molhado, com olhos vagos enfiados em idéias, em imagens e elocubrações, como procurando o caminho da felicidade que já não é aqui. Sem que eu percebesse a angústia compactada no meu coação irrompeu e eu chorei, chorei até soluçar, até que meus olhos ficaram injetados e senti o gosto do chorar na boca. Mesmo assim, agora, enquanto escrevo ainda com os cabelos molhados a pingar-me sobre a testa, sinto que não retirei nada de mim, mas ao contrário, somei.
Henry_Wotton
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DaniCast
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21.3.04
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Tagarelices de Domingo
Há uma poesia nos nomes ingleses. O nome do marido da escritora Dahpne du Maurier era Frederick Arthur Montague "Boy" Browning. Eu ouço um nome desses e fico feliz um dia todo...
-Como é o nome?
(sorrindo feliz) Frederick Arthur Montague "Boy" Browning. Vou lá na praia chutar as ondas com as mãos nos bolsos, pensando nesse nome e em outras coisas, e em outras coisas. Quer vir?
-Não, fique, me entretenha.
Quer outro nome inglês? Que tal Brigadier Gerrard Montgomery “Butcher” Collins? Esse inventei, mas posso procurar um autêntico para você. Ou nomes franceses, nem se fala. Italianos, espanhóis. Gregos. Faço-te saber que escrevi um livro com uma personagem chamada Julianna Rossa-Ravilius, e uma outra chamada Elizabieta Dushku. Eu...
-Chega de nomes, você me aborrece. Conta uma anedota aí.
Não, contarei um fato verídico que revela muita coisa, muita coisa. Meu irmão é psiquiatra, você sabe. E diz ele que 90% dos malucos que aparecem no hospital são fãs de Raul Seixas. No kidding. Boy, I wish I was kidding. Agora, diz ele que...
-Outro dia desses vi a empregada cantando “Viva a Sociedade Alternativa”.
Eu sei, foi horrível. Ela é Adventista do Sétimo Dia e nem faz idéia do que está cantando. Eu tentei dizer, mas não tive coragem de destruir o sorriso empolgado dela.
-Seu irmão não é aquele que você tentou matar?
Sim, sim. Bom, não tentei, foi sem querer. Estávamos os dois andando na nossa casa de campo, eu tinha seis anos, ele dez, e eu estava zangado porque ele ia na frente sem prestar atenção em mim. Daí peguei uma pedra deste tamanho, juro, deste tamanho, e atirei. No momento em que ela saiu da minha mão eu soube que ela ia cair na cabeça dele, e caiu mesmo.
-Que barulho fez?
Cluck. Não clock, cluck. Ele caiu de lado no matagal do lado da estrada e ficou lá. Sem saber o que fazer, voltei para casa. Minha mãe me viu emburrado e perguntou o que tinha acontecido, e eu disse, “O Ricardo não queria parar e ficava andando na minha frente, e eu atirei uma pedra na cabeça dele e ele caiu e agora ele está lá no chão sem se mexer e não quer falar comigo”. (Alexandre ri, feliz.) Isso tirou dez pontos do QI dele, mas ainda sobram 160.
-Mais 16 pedras pra atirar.
Sim. Escute, quer ouvir o meu plano pra ficar rico? Contratar o Paulo Cesar Pereio pra ler poesias famosas, dizendo “porra” no final de cada dois versos. Gravamos e vendemos os CDs. Ele leria a Rhyme of the Ancient Mariner, por exemplo, assim:
The Sun came up upon the left,
Out of the sea came he, porra!
And he shone bright, and on the right
Went down into the sea, porra!
Ou como Velho do Restelo. Depende se o primeiro CD vender bem. Não sei, não sei...
-Você e seus planos pra ficar rico. Como era mesmo? Um show em que as pessoas pagam pra ver motoristas estacionarem carros em vagas apertadinhas?
Sim, sim. Se esbarrasse no carro da frente ou de trás, soaria um alarme. E teria um tempo máximo pra fazer isso.
-Mínimo.
Não, máximo. Máximo, sua burrinha.
-Ah, é. (Estendendo um microfone imaginário) Alexandre, qual a sua opinião sobre as pessoas que deixam comentário no seu blog dizendo “aê malandro, se liga, fica aí só reclamando, reclamar é fácil quero ver fazer”, etc?
Reclamar é fácil? Fazer é que é fácil. Fazer qualquer badalhoco faz, na entrada e na saída, andando, dando cambalhotas e até assobiando. Mas reclamar bem é difícil. Repare que essas pessoas estão tentando reclamar, e pessimamente. O que há é pouca gente para dar valor à arte da reclamação, que é um artesanato que fazemos com nossos próprios desprezos, enroscando um no outro como vime. (Se levanta, e espreguiça) Mas agora chega, enough; vamos pra praia, ó Voz na Minha Cabeça, chapinhar a água reflexivamente, de mãos nos bolsos e assobiando clássicos do pop francês da década de sessenta.
-Desde que não seja Je T'Aime.
Então não. (Senta de novo, pega um jornal.) Olha, mais um escoteiro se perdeu na floresta...
Alexandre Soares Silva
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Ratapulgo
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21.3.04
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MANIFESTO CATARRO VERDE
1. Sou a favor da legalização do aborto
2. Sou a favor da legalização das drogas
3. Sou contra qualquer ginástica ou esporte que não seja foder
4. Sou contra trabalhar
5. Sou contra todas as religiões
6. Estou cagando para o Palmeiras e detesto futebol
7. Não sinto tesão por mulheres pesadas, me dói o osso do púbis quando vêm por cima
8. Sou contra o misto-quente e a favor do hambúrguer
9. Odeio patrões e chefes, quem tem chefe é índio
10. Toda mulher tem que saber chupar direito ou tratar de aprender
11. Mulheres órfãs são as melhores, não tenho de conhecer os pais
12. Todo computador é bom desde que seja Macintosh
13. O ritual do Santo Daime é a coisa mais chata do mundo
14. O Angeli está morto e só falta enterrar
15. Circos com animais devem ser fechados
16. Japoneses que caçam baleias devem ser afogados no mar
17. A chatice é o único pecado humano imperdoável
18. Poodles devem ser extintos, assim como pinchers, pitbulls e rottweilers
19. Sou contra pipoca em cinema
20. Sou contra todos os partidos políticos
21. Odeio usar camisinha, embora use
22. Sou contra a redução da maioridade penal
23. Sou contra a fabricação de armas
24. Toda criança miserável deve ter direito a banho grátis em pet shop
25. Todo filme do Eric Rohmer deve dar direito a travesseiro na bilheteria
26. Não me sinto representado por políticos
27. Não sou governado por governos
catarro verde
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Jan
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21.3.04
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20.3.04
Dona Donata
Talvez eu ainda não tenha falado dela aqui. Apesar de ateu, há coisas que são sagradas para mim, e não gosto de ficar falando nelas. Acho que é pra não desgastar, sei lá. Só sei que dentre essas coisas ocupa lugar de maior destaque a lembrança da minha avó materna, Dona Donata. Todo esse negócio que eu tenho, de contar histórias de um jeito meio engraçado, meio triste, eu herdei dela. E ela contava histórias bíblicas assim também: A versão dela para a história de Salomão e as duas mulheres que brigavam por um bebê era muito mais legal e engraçada que a original, com Salomão jogando a criança pra cima e tudo mais.
E sonhei com ela esse fim-de-semana. Ela dava um jeito de entrar em contato comigo através de uns aparelhos parecidos com modems, e as mensagens vinham numa espécie de código morse. Começou a me explicar que toda pessoa, depois de morta, vai para onde passou a vida acreditando que iria. Então o cara que acha que vai prum lugar cheio de anjinhos tocando harpa, vai prum lugar cheio de anjinhos tocando harpa. Um cara que acredita que vai passar a eternidade com muitas mulheres e cerveja, vai para o céu da putaria. Minha avó estava num lugar muito bonito, tinha praia lá, e ela conversava muito com Nossa Senhora, não rezando nem nada, mas como velhas comadres. E Deus (em maiúscula aqui por respeito à minha avó, não a ele) passava às vezes pra ouvir umas histórias dela também, e ria, ria muito.
Então perguntei para ela o que me estava reservado depois de morrer. E ela respondeu que eu iria para o inferno. Não por ser um descrente, mas por trabalhar com máquinas, e passar tanto tempo com estes seres sem espírito.
Antes que perguntem: Não, eu não acredito que minha avó tenha falado comigo em sonho. Mas acho meu subconsciente precisava encontrar um modo contundente de gritar por socorro, de avisar que estou afundando. Nada melhor do que fazer isso através da voz de Dona Donata, a melhor contadora de histórias que já habitou esse planeta.
Jesus, me chicoteia! || arquivos setembro 2002
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Ratapulgo
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20.3.04
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apontamento
Acho curiosa a forma como as lembranças da infância habitam nossa cabeça. Para mim, pelo menos, nunca há um quadro completo, que me permita determinar exatamente como se deu o fato. São apenas fragmentos, parecidos com pedaços de sonhos que tivemos na noite anterior.
E assim foi com meu primeiro contato com um apontador de lápis. Lembro que estava do lado de fora de minha casa, sentada na rua. Sei, não sei como, que se tratava de uma casa no Bairro Floresta. Lembro-me da menina chegando da aula com um caderno na mão. Não sei determinar sua idade, já que, para uma criança pequena, tanto faz a pessoa ter 12 ou 32 anos. Afinal, no início da vida temos o costume de dividir o mundo entre "nós, pequenos" e "os gente grande".
Tenho na memória a imagem da "menina pequena" que eu era perguntando à "menina gente grande", já freqüentadora do universo escolar, o que era aquela coisa redonda e colorida que ela tinha nas mãos. Deve ter sido interessante para ela se deparar com aquela coisa miúda perguntando sobre um prosaico apontador de lápis. Ela foi gentil, me explicou e fez ponta em um lápis para que eu visse o funcionamento do interessante dispositivo.
Depois disso, minha infância foi sempre acompanhada de uma atração por essas maquininhas de afinar pontas de grafite. O auge da felicidade apontadorística seria ter um daqueles enormes apontadores de mesa, que afinavam várias pontas simultaneamente, bastando girar a manivela.
É... Nunca tive um daqueles. Mas querem saber? Acabo de inventar para mim uma mania em potencial: colecionar objetos que fascinavam a Mônica criança. O primeiro da lista? O apontador redondinho. Em seguida o grandalhão que se prendia à mesa tal qual um moedor de carne.
Bom. Esse "flashback" é cheio de buracos, de lacunas que o tempo impingiu a minha memória. Um deles é minha idade. O outro, a cor do apontador. Como não sou boba nem nada, em vez de me lamentar, vou fazer uma limonada com o limão que o esquecimento às vezes é. Meu primeiro apontador será vermelho. E minha idade? Três longos anos de vida.
monicômio
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Ratapulgo
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20.3.04
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De perto demais
Sem lugar é como você se sente quando um motorista de táxi cheio de correntes douradas no pescoço e mais botões da camisa abertos do que pede o calor carioca te conta, refletindo lágrimas e saudades no retrovisor através do qual te olha acuada no banco de trás, que o fim do seu casamento de 16 anos foi decidido ali, exatamente no banco de praça em que você estava sentada esperando um táxi qualquer.
Da Estrangeiridade
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Ratapulgo
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20.3.04
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A Saga do Primeiro Beijo (Post XXXI)
O Bilhete:
"Murilo, eu sei que você está bravo comigo e por isto eu queria pedir desculpas. É que eu estava doente e comecei a ficar zonza, zonza, zonza e meu estômago doía... Mas aquilo tudo que eu disse no parque não tem nada a ver com você. Juro.
Será que a gente pode ficar de bem?"
Preciso de um papel de carta bonito.
- Alê, eu falei uma carta! Esse bilhete está ridículo. Você acha o quê? Que o Murilo vai ler isto e desculpar você só porque o papel de carta é rosado e tem desenhos de flores do campo?
- Não agoura, Marilu! Não agoura! E isto não é rosa; é bordo. O bilhete está lindo. Pode entregar assim mesmo. E cuidado pra não dobrar. Entrega enroladinho como se fosse um pergaminho.
- Vai quebrar a cara.
- Não vou, não.
Passei a tarde procurando pontas duplas no cabelo. Uma ansiedade que me fazia bater a cabeça na parede. Pra piorar, a Marilu não voltou em casa naquele dia. Só foi aparecer no dia seguinte. E à noite!
- Isso são horas?
- Você parece minha mãe falando. Eu, hein...
- E então? Como foi?
- Eu avisei...
- Ele não vai me desculpar?
- Não vai, não.
- Mas o bilhete estava tão bonitinho... O que ele disse?
- Ele não disse.
- Como não disse? Ficou mudo?
- Eu falei que era um bilhete seu, ele olhou e nem abriu.
- Foi embora assim? E a carta?
- Não leu...
- Devolveu pra você?
- Rasgou.
- Rasgou? Sem ler?
- Ãnrãn... Trouxe os pedacinhos pra você não achar que é invenção minha.
- Que cretino!
- Alê, a gente já esperava que isto pudesse acontecer. Eu acho que essa história não tem volta, não.
- Que insensível! Você disse que eu estava doente?
- Disse. Em seguida dei o bilhete e ele rasgou na minha frente.
- Não acredito! Infantil! Babaca... Por que esses meninos são tão, tão, tão... Arght!
Ali começou um problema que me acompanhou durante muitos anos. Bastava o menino não me dar bola e eu ficava enfurecida. Enfurecida e muito mais apaixonada... Não era masoquismo, era burrice mesmo.
- Olha, sem querer ser estraga-prazeres, mas já sendo, eu acho melhor você esquecer o Murilo.
- Não. Ele não quer ler, vai ouvir.
- Alê, o Ivo disse que o Murilo não quer mais ver você.
- Tudo bem. Eu não ligo. Mas ele vai ter que ouvir. Vou gravar uma fita cassete.
- Já vi que vai sobrar pra mim de novo...
Vem, me ajuda a procurar o gravador.
----------> Continuará em
Amarula com Sucrilhos
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Ratapulgo
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20.3.04
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Longe, o início. Perto, o fim. A névoa da incerteza invadia a sala mas ninguém poderia a ver, pois tudo estava cego, surdo e mudo. Não havia muito o que fazer senão esperar, mas como esperar se cada segundo era uma eternidade e se todos os segundos não equivaleriam a nada, daqui a algum tempo. A economia de movimentos não era proposital. Era realmente necessária, já que nada valia a pena ali.
Num panorama assim, dificilmente se mantém a sanidade. O cérebro logo desliga e nada do que acontece continua a acontecer. Até que um segundo depois, um segundo que a realidade resolveu chamar de Big Bang, o Universo se refez e eu, que era refém de uma situação de completa placidez, volto a viver. Mas o calor infernal faz com que essa minha vida não dure mais do que poucos milimilésimos de segundo, antes de ser consumido pelas chamas da explosão original. Ok, tudo bem, pelo menos posso dizer que fui testemunha ocular do início do Universo.
Mas o duro é que eu queria contar isso pra alguém..
(...)
Um, dois, três, pim, cinco, seis, sete, pim, nove, dez, onze, pim, treze, quatorze, quinze, d... pim, dezessete, d... dezoito, dezenove, pim, vinte... e um, vinte e dois, vinte e três, pim, vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete, pim, vinte e o...nove, trinta!
A-há, eu sempre fui bom nisso!
A vida tem dessas coisas
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Ratapulgo
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20.3.04
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Rapadura é doce, mas não é mole não!
Ontem preparei-me para ser embalada nos mais belos sonhos (de preferencia com o bombeirão da Luma). Coloquei o celular para carregar, e o fdp ligou sozinho. Às 23;15 ele toca:
-Alô, Dra. tati, sua cliente xpto acaba de ser presa, o flagrante será lavrado no XXo. DP, a senhora pode ir lá, dar uma assistência?
- O que? Como? Onde? Quem? hã? Aquela ruminante, galinácia, filha de uma rapariga destentada. Pô eu já tô de pijama....
- Dra, a coisa é séria, a senhora vai?
(momentos de reflexão....sim, não, não sei, pô..... a essa hora!!)
- Eu vou. Me troquei, precisava de outra roupa, meu vestido quase novo e lindíssimo estava sujo de esfirra, pego um outro de alcinhas - tá calor - em 15 minutos já estou lá. Faço meu trabalho com esmero, volto para casa, praticamente congelada. Chego em casa e a mãe da Tati indaga:
- A senhora sabe que horas são?
- Três da manhã?
- Não fofa, são 4;30, você não disse que teria que levantar às 6 da manhã?
-Não só disse como hei de fazê-lo.
E o fiz, acabo de chegar de Tremebé, e não fica perto de Aparecida porr* nenhuma, fica perto de Taubaté.
Estado físico: podre.
Estado mental: esgotado.
Perspectivas para os próximos dois dias: CAMA, CAMA, CAMA
veleidade
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Ratapulgo
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20.3.04
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19.3.04
Papos entre amigos
- Carnaval foi bom ?
- É, foi.
- Não senti segurança.
- É que houve um dia em que eu briguei com a namorada ,ela acabou comigo e até agora não estamos bem.
- O que houve ?
- Ela caiu, eu estava do lado e eu não a amparei.
- Por que não ?
- Por que fui eu quem causou a queda, na verdade. Pisei no pé dela.
- Acontece.
- Mas eu só caí porque tentei segurar a garrafa de cachaça que estava na minha mão.
- Hum.
- E ainda caí em cima dela(da namorada, a garrafa ele segurou).
- Hum.
- E o chão estava barrento, tinha chovido, sabe, melou todo mundo.
- ...
- E ela estava de saia, todo mundo viu a calcinha, imagina.
- ....? Não quero imaginar.
- E eu estava vestido de mulher,roupa dela aliás, rasguei a saia que estava vestindo, enterrei a cara dela na lama, foi uma coisa.
- Acabou?
- Não, de noite, enquanto dormíamos, eu vomitei em cima dela.
- Bêbado, na lama, vestido de mulher, e a única coisa que você pensa é em salvar a cachaça. Cara, eu sou tua fã.
Sabem, às vezes as pessoas abusam do amor alheio.
BooBlog Um blog inútil para voce passar o tempo útil (ou o contrário)
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Ratapulgo
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19.3.04
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Já que não posso falar isso pessoalmente... aqui vai:
TE AMO!!
Nhacs e Slepts
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Ratapulgo
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19.3.04
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Oficina de loucos
O que você diria de uma pessoa que, com quase 30 anos nas costas, fica trancado um dia inteiro dentro do próprio apartamento porque a mãe saiu e não deixou a chave?
E se uma pessoa fica trancada pra fora de casa, das 14 às 23 horas porque sua mãe e irmã saíram e não deixaram a chave de casa?
O que acharia de um vizinho que bate na sua porta às 22 horas pra pedir a geladeira emprestada porque sua mãe muito lúcida (definição própria) quebrou a porta da geladeira e resolveu doá-la para catadores de lixo, impossibilitando gelar as cervejas?
E se isso tudo fosse a descrição de uma pessoa só? Pois esse é o meu vizinho. Vermelho de cabelo, rosado de pele e totalmente cara-de-pau.
Pediu nossa geladeira emprestada, dissertou sobre os problemas psicológicos de sua mãe, pegou gelo, falou sobre sua infância traumática, sobre as oportunidades perdidas, as faculdades não terminadas, a antiga namorada que lhe causou um prejuízo financeiro enorme (que inclusive foi o responsável por fazê-lo voltar a morar com a mãe). Tudo isso em suas três últimas visitas num curto espaço de tempo de menos de vinte minutos.
Até então a impressão que ele me passava era a de uma pessoa fraca da cabeça que, apesar da idade, não tem a chave de casa. Agora além disso, percebo que ele tem sérios problemas, que, quem sabe, anos de terapia poderiam amenizar.
"É... a minha vida é muito difícil" foi sua frase de despedida.
Pena que ele vai se mudar em breve. Com certeza renderia textos interessantes sobre o universo psicológico de uma alma perturbada.
Admirável Blog Novo
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Ratapulgo
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19.3.04
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CONSULTA MÉDICA
- Bom dia, doutora.
- Bom dia.
- Direto ao problema. Quero que a senhora me receite aquela pomada que eu vi na TV. Aquela que o cara passa na barriga e fica com abdominais perfeitos.
- Desculpe, senhor... Mas isso é impossível!
- Não é, não. Depois de passar a pomada o cara ainda esquia por planícies verdes floridas, e acaba numa praia com muitas mulheres bonitas.
- Senhor, isso realmente não existe.
- Existe, sim! Eu gravei e trouxe a fita. Vamos assistir.
(cinco minutos depois)
- Uau!
- Eu te disse que era legal! E aí, vai me fazer uma receita.
- Sinto muito, mas para isso eu precisaria prescrever LSD, e isso seria ilegal.
- Não é, não. Eu trouxe um artigo. Leia aqui.
- Mas... Isso aqui está escrito a mão.
- Não, não está. A fonte que é assim.
- E por que está rasurado?
- Não sei. Pergunte pra eles!
- Posso te ajudar em mais alguma coisa, senhor. Por favor, não vale repetir o que o senhor já pediu.
- Droga. Tá certo. Então... Pode me dar o seu carimbo? É pro meu sobrinho.
- Não, não é. É pra você, você vai forjar uma receita falsa.
- Diabos, você é boa mesmo mulher! Fez USP?
ChickenDog
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Ratapulgo
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19.3.04
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Ocupações maravilhosas*
* Título plagiado de J. Cortázar - Histórias de Cronópios e Famas
Quando era criança, uma de minhas ocupações preferidas era pegar um mosquito, desses caseiros, e colocá-lo próximo a um formigueiro para que as valentes formigas o levassem para dentro.
A operação
Primeiro passo: captura do inseto. Colocava a mão direita aberta, em posição vertical, a uns trinta centímetros da presa. Após alguns segundos de concentração, movimentava a mão rapidamente em direção ao alvo. Quando a mão estava a uns dois centímetros do mosquito, fechava-a. O fechamento da mão devia coincidir com a tentativa de fuga do pequeno animal. Quando tudo era feito com precisão cirúrgica, tinha o mosquito preso em minha mão.
Segundo passo: preparação do inseto. Introduzia os dedos da mão esquerda na mão direita ainda fechada. Pegava o mosquito. Então, com a mão direita, retirava-lhe as asas. Nesta etapa o bichinho fica muito parecido com um Fusquinha. Algumas variações: Quando queria uma batalha mais violenta, deixava o mosquito com uma das asas. Quando queria dar uma chance ao inseto, deixava as asas e lançava-o à parede com alguma força de modo que ficasse atordoado. Com isso, caso se recuperasse do impacto a tempo, poderia escapar das formigas. Acontecia, às vezes, de o mosquito voar levando uma formiga presa a uma de suas patas. Gostava de ficar imaginando a sensação da formiga ao voar pela primeira vez na sua curta vida.
Terceiro passo: colocação do inseto no formigueiro. Colocava então o mosquito próximo à entrada de um formigueiro. Era preciso cuidar para que o formigueiro fosse de uma espécie que inclui mosquitos em sua dieta alimentar. Depois disso bastava esperar que as formigas achassem o inseto e começassem uma árdua batalha para levá-lo para dentro do formigueiro. Várias delas pegavam-no pelas patas e arrastavam-no, não sem alguma dificuldade, para a sua despensa. Freqüentemente, uma formiga subia nas costas do inseto e de lá observa a movimentação. Até hoje não sei se era a líder que orientava as demais ou se era apenas preguiçosa e gostava de participar sem fazer força.
Em breve:
Como fazer um lança-chamas com uma seringa de injeção (não façam isso em casa, crianças).
Como fazer uma armadilha muito pouco funcional para matar ratos (podem fazer em casa, mas não dá certo).
Como matar (involuntariamente) uma galinha de hemorragia interna (para estômagos fortes).
PS. Meus pais diziam que quando eu morresse sofreria muito ao passar pela "terra das formigas". Mas essa ameaça me soava um tanto abstrata e não tinha um efeito dissuasório dos mais significativos.
neosaldina com coca cola
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Ratapulgo
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19.3.04
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18.3.04
Saco cheio
O carro freou no cruzamento, o cavalo subiu por cima do carro, o carroceiro espancou o cavalo, a multidão linchou o carroceiro e eu, olhando, me atrasei.
failbetter.
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Ratapulgo
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18.3.04
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Imortalidade
Encaro a mortalidade cada vez que encontro a face de meu avô no rosto de meu pai.
Dizem que a descoberta da mortalidade foi uma grande queda. Lendo as declarações de Truffaut, Allen e Borges, parece que a evitar por meio da obra não é aconselhável. O ceguinho dizia mesmo ninguém ter o direito de lembrar-se dos mortos, mas era só frase de efeito.
Dentre todas as formas de buscar a imortalidade, talvez a menos venerada ou romântica seja o acaso, todavia é uma das mais interessantes. Múmias não me interessam, desenhos e esculturas têm sua graça; porém o que mais aprecio são as cartas.
As cartas causam sensações paradoxais: ao mesmo tempo que nos vemos num distante passado, há sempre um elemento cotidiano próximo. Desta síntese sobrevem, invariavelmente, a consciência da mortalidade.
E as correspondências costumam revelar problemas e aflições que jamais saberemos como foram solucionadas, e a dúvida de até que ponto importa.
De qualquer modo, minha sugestão é parar de usar e-mail e começar a talhar cartas em madeira ou pedra: é caro, dá trabalho, porém é um dos meios mais seguros de se atingir a imortalidade.
dies iræ
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Ratapulgo
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18.3.04
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.
(...) A passo de escoteiro, você consegue chegar ao centro do lugarejo em não mais que deleitáveis vinte e alguns minutos. São duas ruas paralelas, uma cansada de seus paralelepípedos e outra do mesmo barro quase ocre e sempre seco e muito rachado da estrada onde você encontra (fazendo o caminho de volta) a placa pregada na estaca. Entre elas você imaginou que haveria uma praça, mas para seu constrangimento não há praças na cidade. Um observador mais atento em verdade nos diria que não há quase cidade na cidade, mas ele não foi convidado para este quinhão da narrativa.
Garotos de calças curtas brincam nas calçadas que alguém plantou em frente às casas, menos à beira do armazém colorido. Trata-se da única edificação a quebrar a monotonia do centro da cidade, de resto marcada apenas pela geografia acidental de algumas residências. As crianças de Baixo do Ribas têm lábios rachados e narizes que sangram a todo momento, tornando a crostinha vermelho-negra um acessório corriqueiro ao redor de suas narinas. Possuindo apenas duas ruas para seus folguedos, é nada menos que previsível que estas crianças costumem explorar os arredores da urbe. A municipalidade de Baixo do Ribas também é seca, quase ocre e coberta de pó e rachaduras, com exceção de um pequeno bosque de vegetação rasteira e do único lugar no qual os pequenos não são bem-vindos para brincar: a velha pedreira.
A velha pedreira não é uma pedreira. Não existem rochas no perímetro de Baixo do Ribas, a cidade construída, povoada e esquecida ao final de um caminho ressecado protegido pela vertigem de seus barrancos. Se você virasse à esquerda ao fim da rua de paralelepípedos e tivesse a persistência de abrir caminho por entre o bosque de arbustos espinhosos de folhas quebradiças e depois tomasse de novo a sinistra e só então seguisse em linha reta por quase metade de um dia, acabaria chegando à velha pedreira. Tivesse você a felicidade de palmilhar esta via proibida no dia correto e na hora exata, encontraria três crianças – duas garotas de vestidinho de chita, um menino pançudo – descalças, mochilas de lona nas costas e calos curiosos nas mãos, desbravando o único lugar que lhes é vetado em Baixo do Ribas, cidade que, como qualquer lugarejo sem muito contato com as massas civilizatórias, cultiva grande respeito por seus tabus e não costuma dar atenção a porquês.
Mas você não estava lá e nada viu, então leia:
Jamais alguma criança de Baixo do Ribas pisara na velha pedreira. Na verdade, há incontáveis eras nenhuma criatura de qualquer idade ou espécie encostava o pé ou a pata ou o exoesqueleto ou qualquer parte do corpo dentro de seus limites, nem ao menos para tentar entender como um lugar poderia ser chamado de pedreira em uma região carente de rochas. Até os fabulosos besouros quadricórneos, onipresentes na região, receavam chegar muito perto dela, assim como as já extintas serpentes emplumadas. A primazia dessa exploração coube a Evita, Lili e Adinho, que de posse de seus óculos de natação – para proteger os olhinhos da poeira penetrante – e de um extenso cabedal de ferramentas – para impedir qualquer intransponível surpresa – ingressam na velha pedreira e caminham com muito gosto, algum temor e considerável excitação por seu território. A velha pedreira:
Um espaço quase circular em sua perfeição, se observado de uma altura aproximada de nove mil pés. Para os que estão no solo, apenas um descampado muito amplo, destacando-se do restante de Baixo do Ribas por seu solo muito fofo e de um tom definitivamente diverso de qualquer coisa que lembre o ocre. A cada passo, as crianças deleitam-se com o tato da superfície quase movediça nos cascos de suas solas. Mesmo ainda não tendo sido convidado para esta narrativa, o observador mais atento ressurge para nos revelar que este solo é composto de minúsculos fragmentos de rocha, mais exatamente de todas – todinhas! – as rochas que um dia existiram na região. Reduzidas a minúsculos grãos de poeira macia quase esbranquiçada, foram determinada tarde reunidas em círculo pelos zelosos Gigantes de Muito Antanho, à guisa de cemitério. As três crianças abrem as banguelas quando, sem precisar espichar muito as orelhas, escutam o ruído que o solo peneirado da pedreira faz ao ser compactado pelo peso de seus corpos. Entre latido e lamento, tão áspero quanto agradável, é impossível ignorá-lo enquanto continuam a deixar pegadas macias e inegáveis atrás de si. Assim que chegam ao ponto que consiste no exato centro da circunferência da velha pedreira, Lili estica os braços para o alto de modo a reduzir a tensão em seu esqueletinho e anuncia:
Lanchinho!
(...)
failbetter.
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Ratapulgo
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18.3.04
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Notas do Cientista
A Cobaia exibe 3 personalidades distintas, cada uma observada cuidadosamente através de 3 mensagens consecutivas deixadas no celular do Cientista.
Mensagem #1: A Cobaia tenta parecer indiferente e despreocupado com a falta de ligações do Cientista:
*piii*
Oi João, aqui é o *meu ex*. Só queria saber como vc está. Se puder, me dá ligada. Beijo.
*click*
Mensagem #2: A Cobaia finalmente desmonstra sua frustração ao Cientista:
*piii*
Joãooooo... vc vai me ligar ou não? Me liga aí, se quiser.
*click*
Mensagem #3: A Cobaia começa a mensagem notavelmente irritada. Então, prossegue simulando melancolia, na esperança que o Cientista seja facilmente manipulado a sentir-se a pior pessoa do mundo. O Cientista, a seguir, percebe o hábito da Cobaia de tentar sempre passar-se por vítima:
*piii*
JOÃO. Terça-feira. Me liga. Eu não sei porque vc está me evitando. Eu simplesmente... não sei por que... vc me liga, diz que ainda pensa em mim... e depois me evita... Poxa, me liga.
*click*
Mais tarde, o Cientista pensa, enquanto escreve em seu blog, que talvez esse caso particular de tentar evitar o ex, simplesmente signifique que o Cientista desenvolveu uma vida nova fora do laboratório, e não é mais tão completamente fascinado pela Cobaia.
Apesar de que, o Cientista também nota que ele foi tornando-se menos objetivo durante a experiência, e na verdade, acabou criando um pequeno ressurgimento dos sentimentos que sentia pela Cobaia nas profundezas obscuras do seu coração.
O Cientista sente vergonha. Mas nada irá impedi-lo de continuar seus estudos, na esperança de achar um jeito de esquecer a Cobaia. E isso é uma puta mentira, porque a verdade é que a Cobaia é o único cara com que o Cientista quer transar.
Pilo
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Ratapulgo
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18.3.04
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17.3.04
Sob as Pelancas Viris de Marlene Mattos...
Não sendo do Rio, queria falar mal do Rio. Mencionar os chiados cariocas que lançam perdigotos nos meus olhos abertos e inocentes de paulista. A preguiça, a vagabundagem, o eterno arrastar de chinelos sobre as pedras portuguesas nas calçadas, em frente a lojas caras demais. Mas eu ando arrastando o chinelo, eu adoro isso; e acho que uma certa preguiça é uma coisa boa, porque a preguiça anula os outros pecados todos. Deus sabe como eu seria vítima da luxúria, da ira e do orgulho se não preferisse tirar sonecas. Assim muitos cariocas são capazes de ir para o céu porque foram virtuosos por preguiça. E não vou reclamar do sotaque dos cariocas, ou pelo menos não muito – porque numa mulher sexy até um sotaque atroz fica bem.
Como eu adoro o Rio. Certo, levo um susto cada vez que ouço funk carioca saindo do carro ao lado – by Jove, isso é o ponto mais baixo do espírito humano, seguido de perto do infomercial e dos diálogos das novelas. Das janelas dos carros importados no Rio, por escolha de jovens de classe média alta que evidentemente tomam muito leite, sai o equivalente musical do cheiro de carniça que vem às vezes quando estamos correndo na Lagoa e passamos perto de um cachorro atropelado sob o sol. Mas será o funk carioca assim tão pior do que a música das classes baixas de São Paulo? É menos choroso, menos patético, menos bundão.
E as livrarias de Ipanema – Travessa, Travessinha, Letras e Expressões – gosto tanto delas que queria ser enterrado ali (contanto que não fosse na seção de livros da Conrad. Aí também não). Mais perto dos livres de poche, mais perto da biografia de Balthus. Enterrado de bermuda, camisa polo, chinelos. Debaixo do chão eu abriria os olhos cada vez que chegasse um carregamento de livros novos, eu ficaria feliz. E que ângulo para ver certas mulheres de saia.
Muitas das coisas que senti na vida, nunca fui capaz de escrever sobre. A sensação de estar no lobby do Hotel Tivoli em Lisboa, quando eu era criança – o mármore, os jornais de vários países, os cheiros de charutos e cachimbos e perfumes – aquela sensação de cosmopolitismo sobre a qual Mário de Sá Carneiro passou a vida toda tentando escrever. Homens em ternos creme falando em turco. Uma família, quatro filhas, falando alemão. Eu, sentado numa cadeira de vime lendo Lovecraft, observando tudo.
A sensação, aos vinte anos, chegado na véspera a Paris, de estar no Louvre olhando um armário com peças de porcelana, e ver no vidro do armário o reflexo de um rio verde-azulado que corria - e perceber que aquilo era o Sena, e me virar para trás para ver o Sena pela primeira vez. A sensação de estar dentro dos Invalides, vendo o túmulo de Napoleão no interior da cúpula, e sentir uma ambição incontrolável (como Balzac) de ser o Napoleão das letras - de ter merecido, ao morrer, ser enterrado com pompa igual. Exceto que fui pagar a entrada e não vi que havia uma divisória de plástico, paaam, bati a cabeça na divisória, para a diversão de turistas guatemaltecos e do cobrador senegalês, o maldito.
E também queria escrever sobre a sensação de estar na Urca, no banco de passageiro do carro de um amigo, e chegar na avenida Portugal e subitamente (é subitamente) ver a enseada sob o sol, e os barcos.
Alexandre Soares Silva
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Ratapulgo
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17.3.04
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Por que é que tudo aquilo que a mãe faz para os filhos não é mais do que a obrigação e o que o pai faz é assim um grande favor?
Cara, tem hora que eu desanimo.
Laura, no :: Mothern ::
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Anita
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17.3.04
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Oh, glória!
Como diz Gonzagão em Estrada do Canindé, tem coisas que pra mode ver o cristão tem que andar a pé. Agora mesmo eu estava vindo lá do terminal Aê, Carvalho!, andando sem pressa, praticamente pedindo para ser assaltado. Eis que chega a meus ouvidos uma voz meio estridente, falando muito rápido coisas ininteligíveis. Parecia narração de jogo de futebol numa estação AM mal sintonizada. Mas não, era algo mais interessante: vinha de uma Igreja Universal do Reino de Deus do outro lado da avenida (não é o Reino de Deus que fica do outro lado da avenida, é a igreja). Parei, considerei a pressa que tinha de chegar em casa (para tomar limonada), atravessei a rua e entrei no templo de São Edir.
A cena que vi foi das mais intrigantes: os fiéis haviam formado uma fila, que serpenteava entre os bancos. Lá na frente, identifiquei o dono da voz estridente: um "pastor" (minha formação batista me impede de chamar de pastor alguém que nunca pisou sequer numa faculdade de Teologia) que segurava o microfone com a mão esquerda enquanto abençoava os fiéis enfileirados com a direita. E era jogo rápido, quem olhasse de repente poderia pensar que ele dava tapas na cabeça das pessoas. A fila andava, ele botava a mão na cabeça de cada um, e ia repetindo sua cantilena acelerada: "SAI DA VIDA DESSA PESSOA! SAI DA VIDA DESSA PESSOA! DO CASAMENTO DESSA PESSOA! SAI, ESPÍRITO DO MAL! SAI, MALDIÇÃO! SAI DA VIDA DESSA PESSOA! DA FILHA DESSA MULHER! DA LOJA DESSE HOMEM! SAI, PRAGA! ESSA PESSOA QUE TEM INSÔNIA! ESSA MULHER QUE TEM ENXAQUECA! ESSE HOMEM COM PROBLEMA NA COLUNA! EU ESTOU DANDO UMA ORDEM: SAI!".
Ia assim, sem parar por um segundo. E o mais curioso: depois de passarem pela bênção do "pastor", as pessoas sumiam! É sério: a fila era grande, mas eu não vi ninguém voltar para os bancos, talvez com uma expressão de alívio espiritual na face. Sei não, sei não... Imagino que, logo depois de onde o homem gritava, existia um alçapão onde as pessoas iam caindo e sendo devoradas por crocodilos. Bela maneira de evitar conversas constrangedoras depois, tais como "Ué, mas eu nem sou casado", ou "Filha? Que filha?", ou "Eu nunca fui comerciante, meu Deus!". Pensei em averiguar, mas o homem gritou "SAI, PRAGA!" umas três vezes seguidas. Achei melhor obedecer, e fui embora.
Jesus, me chicoteia!
Postado por
Ratapulgo
às
17.3.04
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Ando permeada de fragilidades e delicadezas, bordada nos olhos da menina que povoa minhas inseguranças. O mundo tem emulado um quarto escuro cheio de incertezas e fito a porta rezando confusa uma oração onde peço resgate, onde peço um abraço de aconchego e calma. Desaprendi meus trinta e poucos anos e estranho este grande corpo que o tempo me trouxe. Por dentro me reconheço impúbere, miúda e pouca e tenho medo dos estalidos da casa. Se chover amanhã, invento doença e fico na cama e faço de conta que se chamar mãe, ela vem. A nenhuma menina poderia ser permitido ficar sozinha em dias de fragilidades e delicadezas como este.
Não Discuto
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Ratapulgo
às
17.3.04
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Pois é... incoerências à parte, meus dias correm em seus trilhos. Tudo funciona bem e loucas são as coisas que fervem na minha cabeça, no meu corpo, é uma sopa. De letrinhas, ainda que dadaístas.
Ah sim. Hoje fumei narguilé em plena aula. Como eu não fumasse nem corretamente e nem muito, os alunos ficaram tontos, menos eu. Estou lendo "Le Petit Nicolas" e meu texto aos poucos se contaminará daquela linguagem hilariamente infantil, e eu já logo penso em fazer traquinagens na classe, mesmo sendo eu a professora.
Hoje também comi nachos com chili no Mustang Sally, que é um bar cheio de curitibanos. Não que não devesse haver curitibanos em Curitiba, mas é que lá há demais. Mas vi uma celebridade por lá, que é aquele cara que chegou ao topo do Everest, o... bem, ele tem uma pizzaria por aqui.
As it doesn't make sense, I'll give up and go to bed.
A Moveable Feast
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Ratapulgo
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17.3.04
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16.3.04
DA INFÂNCIA GIGANTESCA
Adotei um cãozinho. Devia eu ter uns 8 anos de idade. Estava brincando de playmobil na rua quando vi aquela graciosa criatura andando pela calçada. Era um cão fila, com coleira. Fugira de uma casa qualquer. Devia pesar 5 arrobas e ter dois metros de altura. Gigante. Não tive dúvidas: fiquei amigo do puppydog e arrastei-o para casa. Ele era meu amigão. Dei água e presunto com queijo para o bichano comer. Quando meus pais chegaram e acharam aquele cavalo no gramado de casa, assustaram-se. O cãozinho assustou-se também.
Mais de meia hora para acalmar os ânimos dos pais e do pequenino animal.
Dias depois o dono achou-o comigo. Levou embora o Remelento — nome que eu escolhera com tanto afinco.
VIZINHOS
Meus vizinhos da esquerda chamavam-se Hiroshi Schubert e Satoshi Mozart. Dois gênios de maquinários e traquitanas Hering-Rast. Eles tomavam nescau com água, lavavam — literalmente — dinheiro, trocavam carpas vivas por frutas diversas, tinham fixação por subir em árvores, dois Moglis, sim. Ensinaram-me a contar de 1 a 10 em japonês. Aprendi a responder minha mãe quando me chamava, usando um "Hi". Escalada solo com aqueles dois, pular muros e desenhar mangás zóiudos. "Quanto maior o olho, mais alma sua personagem terá".
Eram dois irmãos meus. Muito da minha personalidade, dali.
Mudaram, mudamos. Cada um para um canto diferente.
E o tempo deixou-nos assim, sem saber qual o destino brilhante de cada um.
ÓPIO
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Ratapulgo
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16.3.04
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15.3.04
GRANDE APERTO, O FIM DA FELICIDADE & OUTROS FILMES DEFEITUOSOS
Saio do banheiro e sento-me aqui, diante do computador. Começo a escrever este texto, enquanto a chuva parece atravessar o vidro da janela, além do cinza do dia que se espicha lá fora. Você talvez tenha saído da cozinha, onde desligou o fogo e encheu uma xícara de café, e agora sentou-se diante do seu computador e está lendo este texto no meu blogue. Seus dedos longos desistem da havaiana azul (ou verde?) e pisam os tacos frios, depois dos lábios tocarem a borda quente da louça do café. Há uma mancha no canto de sua boca. Você olha pra janela (há uma janela?) no mesmo momento que também olho, depois de pensar um pouco, e, afinal, colocar uma enfermeira neste texto. Ela cuida dum senhor muito velhinho e gentil que está prestes a morrer, mas tem em mente apenas o filhotinho de beagle, e imagina as estrepolias que o cãozinho faz, sozinho em casa, e sorri. O velhinho também sorri pra ela, feliz por ela ter sorrido pra ele, enquanto neste exato instante o cachorro vira seu prato de leite e você derruba sua xícara e também sorri. Enquanto o café se esparrama por sua escrivaninha, eu também sorrio. A chuva diminui e o dia ganha dimensões mais luminosas por isto. A enfermeira recolhe seus utensílios, despede-se do paciente idoso e atravessa o corredor do hospital. Eu penso para onde ela poderia ir, enquanto você pensa que um filhotinho de beagle talvez diminuísse a sua solidão. Eu hesito em escrever a palavra solidão aqui, pois eu não acredito na solidão. Eu não quero começar a pensar agora, isto certamente
HOTEL HELL
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Ratapulgo
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15.3.04
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atrapalhará a escritura deste texto e assim nunca saberemos onde a enfermeira pôde chegar, se ela voltou para casa e se sentiu feliz por estar com seu cãozinho e se o velhinho ficou triste por estar só e morreu de madrugada, olhando a chuva tocar na janela do hospital com seus dedos de granizo uma melodia líquida. Eu não quero pensar em outras coisas, mas é inevitável, e penso em Michel. Penso no quanto devo estar chateando-o, com meus atrasos no trabalho. Ouço um grito do Pernalonga, vindo da tevê na sala: a minha filha diz algo impossível ao Pernalonga no exato momento em que o cãozinho lambe uma lágrima no rosto da enfermeira. Os pensamentos todos sobre a sua solidão, a minha solidão, a solidão de minha filha e a solidão de seus pernalongas imaginários atrapalham o desenvolvimento deste texto, que certamente não terá fim. Você levanta-se, para além deste texto, para fora deste blogue, e coloca This Years Love para ouvir. O piano de David Grey e sua voz rascante fazem com você e com o dia algo semelhante ao que o cãozinho faz com a enfermeira. O fato de eu ter começado a pensar e ter interrompido este texto me deixa mais confuso ainda e eu penso em como tenho me sentido confuso, em como tenho me sentido só, mesmo quando acompanhado por uma turma de setenta alunos, e penso que alguma coisa deve estar por acontecer, pois há muito tempo não tinha a consciência de estar só. A enfermeira trança seus dedos no pêlo do cãozinho, minha filha abraça seu cobertor deitada no sofá, você veste suas calças pensando em mim, no cãozinho, David Grey solta um vibrato rouco, Michel desiste de esperar o meu telefonema, o velhinho ruma para sua felicidade escura e o dia começa, em um outro dia, em um outro dia. Em um outro dia.
HOTEL HELL
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Ratapulgo
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15.3.04
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Acho que preciso de internação. Acordei com três músicas bombando ao mesmo tempo na cabeça: um jingle do Eymael + Dercy Gonçalves cantando "mando bala, meto bala, lasco bala" + um jingle do Janio Quadros. Tudo ao mesmo tempo. E olha que não mexo nos meus arquivos sonoros há tempos. Uma camisa-de-força, por favor? Tem de manga curta?
¢AtaRrO vE®De
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Ratapulgo
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15.3.04
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Minha idéia para por a democracia em prática no Brasil é fazer o próximo Big Brother em Brasília. Imagine câmeras plantadas 24 horas por dia no congresso, senado, gabinetes e salas de reunião. Bem mais emocionante que o BBB atual, não. Teria menos caras fortões e mulheres saradas, mas haveria muito mais intrigas e emoção. O Pedro Bial proporia tarefas — fazer reforma agrária, melhorar o sistema de saúde, acabar com a fome, sei lá — e quem fosse vencedor poderia ser o líder temporariamente. E as votações semanais do público eliminariam aqueles que não tivessem bom desempenho.
Acho que assim Lula se esforçaria bem mais para justificar seu título de líder e o Palocci talvez não durasse tanto no cargo.
Chez Nigro's
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Ratapulgo
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15.3.04
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Outro dia esteve aqui um priminho meu, moleque do alto de seus cinco anos de idade. Quando viu minha coleção de vinis na estante, me perguntou:
- Tio, onde você comprou esses CDzões gigantes?
Ai minhas costas.
Pensar Enlouquece. Pense Nisto. - versão 2.0
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Ratapulgo
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15.3.04
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13.3.04
Algo já esperado
- Finalmente apareceu. Eu ia ter perguntar sobre fogos de artifício, mas deixa pra lá.
- Porque, não gosta deles?
- Não. Gosto de coisas de menina. Fogos de artifício me dão medo. Me fazem chorar feito um coelho.
- Coelhos choram?
- Você é sempre tão engraçado?
- Só quando ando com meninas bonitas.
- Ok, não vou estragar seu elogio.
- Está bem assim. Estou fazendo piadas do seu lado. Isso podia ser mais engraçado, você podia ajudar, que tal?
- Fique feliz que não estou estragando tudo. E porque você não está na balada com seus amigos?
- Pessoas felizes me deprimem. Pessoas bêbadas e felizes me dão vontade de cortar os pulsos.
- Você me faz feliz. Isso é deprimente?
- Não. É só uma boa ação. Se eu morrer esta noite e não for pro céu, vou ficar muito puto.
- Ei, vamos pra casa. Está começando a chover.
Às vezes, somente com um evento externo o contador de histórias pode achar o final mais apropriado para o seu conto. Então, tudo que for constante e esperado - como a morte, a chuva e o inverno - pode ser usado como fim. Isso nos lembra que, embora não pareça, é da natureza humana agir contra o inevitável.
Chicken Dog
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DaniCast
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13.3.04
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11.3.04
Hoje e aquele dia
Não faço idéia do porquê, na verdade o melhor é nem tentar relacionar uma coisa às outras porque elas não têm rigorosamente nada a ver, mas depois do almoço de hoje, quando me dei conta do quanto a tarde estava bonita e de que não vai chover de jeito nenhum pelos próximos dias e que, graças a Deus, ninguém querido está prestes a ir embora de lugar algum por agora, nesse exato momento me lembrei daquele dia passado, o dia em que ela chegou lá em casa contando o caso do menino de quem arrancara um dente de leite.
O caso era assim: ela arrancou o dente do menino e pôs o pedacinho branco dentro do bolso da sua camisa de uniforme dizendo que o colocasse debaixo do travesseiro durante a noite e fizesse um pedido. Aí, no dia seguinte, o menino voltou pra escola com o dente exatamente naquele mesmo bolso e disse professora, minha mãe ficou muito brava com a senhora, mandou colocar meu dente de volta no lugar!
Enquanto dizia essa frase assim, em vivo e concreto discurso direto, não parava de gargalhar. Eu, que tinha lá pelos meus sete anos de idade na época mas me lembro de tudo como se fosse hoje, fiquei muito espantada com aquela gargalhada sem fim e, na minha cabeça de menina, vi naquilo tudo ares muito cruéis, brutos, atrozes, maus.
Passei vários dos dias que se seguiram àquele entregue a elucubrações mirabolantes: Será que ela é má? Será que vai ficar arrancando meus dentes assim também a vida toda? Será que as mães dos alunos odeiam tudo o que ela faz? Ai, será que ela é a professora mais malvada da cidade? Foram mil invenções e interrogações alimentando meus temores de menina até que, nessa mesma época, ela começou a me levar pra escola em que dava aulas.
Então conheci o tal menino banguela, brinquei com todos os seus alunos, merendei sopa sentada naquele banco gelado de alvenaria de escola pública. Ela me ofereceu giz pra brincar naquele quadro gigante, me deixou fazer dupla com alunos que estavam sozinhos pra fazer trabalhos, me deixou brincar de elástico com as meninas no recreio. Não sei, pode ser imaginação, mas acho que foi com essas idas à escola dela que os tais temores de menina passaram, porque desde então parei de pensar na possível malvadeza da minha mãe ou em dentes de leite sendo arrancados à revelia de crianças e suas mães.
Bom, é isso. É isso e, por incrível que pareça, hoje não quero chegar a lugar nenhum, pra mim está ótimo ir dormir tendo alcançado apenas esse conjunto de fatos, o que eu queria de verdade era só dizer em algum lugar que foi muito bom ter lembrado disso tudo do nada, muito bom mesmo, então pronto: está dito.
Da Estrangeiridade
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Ratapulgo
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11.3.04
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regras de conduta no ambiente de trabalho (recebi do meu pai, hoje)
NOVAS REGRAS E CONDUTAS DE TRABALHO
INDUMENTÁRIA:
Informamos que o funcionário deverá trabalhar vestido de acordo com o seu Salário. Se o percebermos calçando um tênis Prada de $350 e carregando uma bolsa Gucci de $600, presumiremos que vai bem de finanças e, portanto, não precisa de aumento. Se ele se vestir de forma pobre, será um sinal de que precisa aprender a controlar melhor o seu dinheiro para que possa comprar roupas melhores e, portanto, não precisa de aumento. E se ele se vestir no meio termo, estará perfeito e, portanto, não precisa de aumento.
AUSÊNCIA DEVIDO À ENFERMIDADE:
Não vamos mais aceitar uma carta do médico como prova de enfermidade. Se o funcionário tem condições de ir até o consultório médico, pode vir trabalhar.
CIRURGIA:
As cirurgias são proibidas. Enquanto o funcionário trabalhar nesta empresa, precisará de todos os seus órgãos, portanto, não deve pensar em remover nada. Nós o contratamos inteiro. Remover algo constitui quebra de contrato.
AUSÊNCIAS DEVIDO A MOTIVOS PESSOAIS:
Cada funcionário receberá 104 dias para assuntos pessoais a cada ano. Chamam-se sábado e domingo.
FÉRIAS:
Todos os funcionários deverão entrar em férias nos mesmos dias de cada ano. Os dias de férias são: 01 de janeiro, 07 de setembro e 25 de dezembro.
AUSÊNCIA DEVIDO AO FALECIMENTO DE ENTE QUERIDO:
Esta não é uma justificativa para perder um dia de trabalho. Não há nada que se possa fazer pelos amigos, parentes ou colegas de trabalho falecidos. Todo esforço deverá ser empenhado para que não-funcionários cuidem dos detalhes. Nos casos raros, onde o envolvimento do funcionário é necessário, o enterro deverá ser marcado para o final da tarde. Teremos prazer em permitir que o funcionário trabalhe durante o horário do almoço e, daí, sair uma hora mais cedo, desde que o seu trabalho esteja em dia.
AUSÊNCIA DEVIDO À SUA PRÓPRIA MORTE:
Isto será aceito como desculpa. Entretanto, exigimos pelo menos 15 dias de aviso prévio, visto que cabe ao funcionário treinar o seu substituto.
O USO DO WC:
Os funcionários estão passando tempo demais no toalete. No futuro, seguiremos o sistema de ordem alfabética. Por exemplo, todos os funcionários cujos nomes começam com a letra 'A' irão entre 8:00 e 8:20, aqueles com a letra 'B' entre 8:20 e 8:40, etc. Se não puder ir na hora designada, será preciso esperar a sua vez, no dia seguinte. Em caso de emergência, os funcionários poderão trocar o seu horário com um colega. Ambos os supervisores do funcionário deverão aprovar essa troca, por escrito.
Adicionalmente, agora há um limite estritamente máximo de 3 minutos no box. Acabando esses 3 minutos, um alarme irá tocar, o rolo de papel higiênico será recolhido, a porta do box abrirá e uma foto será tirada. Se for repetente, a foto será fixada no quadro de avisos da empresa sob o título "Infrator Crônico".
A HORA DO ALMOÇO:
Os magros têm 30 minutos para o almoço, porque precisam comer mais para parecerem saudáveis. As pessoas de tamanho normal têm 15 minutos para comer uma refeição balanceada que sustente o seu corpo mediano. Os gordos têm 5 minutos, porque é tudo que precisam para tomar um "Slim Fast" e um remédio de regime.
Muito obrigado pela sua fidelidade à nossa empresa.
Estamos aqui para proporcionar uma experiência empregatícia positiva. Portanto, toda dúvida, comentário, preocupação, reclamação, frustração, irritação, agravo, insinuação, alegação, acusação, observação, consternação e "input" deverá ser dirigida para qualquer outro lugar.
Tenham uma boa semana.
A Gerência
perolada
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Ratapulgo
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11.3.04
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10.3.04
A amiga
Domingo. Início da tarde. Corro ao centro comercial para comprar umas meias à Madalena que fez um enorme xixi em casa da avó, molhando a roupa que trazia vestida. À saída, encontro uma amiga que não vejo há já algum tempo. Chama-se Susana. Andámos no mesmo colégio. Está cada vez mais corcunda. Parece que tem mirrado com o passar dos anos. À volta dos olhos, encovados e tortos, tem umas olheiras profundas e escuras. Traz, como sempre, uma mochila a abarrotar de coisas. Usa muitos anéis, pulseiras e colares. Nos braços, tem várias pulseiras, de cores berrantes. Roxo, preto, laranja, verde, amarelo.
- És mesmo vaidosa! Onde é que compraste estas pulseiras. São tão giras!
- Foi naquela loja ao lado do ginásio. Sabes onde é? Dois euros cada uma.
- E esta grande?
- Esta foi noutra loja.
- É gira.
- Tenho uma ainda mais grossa, mas a minha mãe não me deixa usar!
- Não te deixa usar...
- Não.
- Tens de lhe dizer que, com trinta e três anos, tu é que escolhes o que usas.
- Ela diz que eu exagero um bocadinho! Diz que pareço uma árvore de Natal!
- Não pareces nada...
Olho para as suas mãos. Nos dedos, conto-lhe sete anéis, dois deles enormes, de massa, um preto e um branco.
- Ouve cá. Deixa-me experimentar esse anel preto.
- Comprei este na mesma loja. Um euro. Este aqui é que foi mais caro. Custou dois euros.
- E este de prata?
- Este foi o Miguel que me deu no dia dos namorados.
- No dia dos namorados? Então tu tens um namorado, Susana?
- Tenho. É o Miguel. Mora na rua dos teus pais, no lote 71. Não conheces? É o Miguel. Mora no primeiro direito!
- Não sei quem é, mas tenho de descobrir.
- É.
- Sua marota, tens um namorado...
- Chama-se Miguel. Mas, olha, mas não digas nada à minha mãe!
- Não digo, prometo.
Não sei quem é o tal Miguel. Se calhar nem existe. Mas isso também não interessa para nada. O que interessa é felicidade que ela sente ao me contar que tem um namorado chamado Miguel que lhe ofereceu um anelinho de prata no dia dos namorados. Continuamos a nossa conversa. Pergunto-lhe pela sobrinha, pela mãe, pela prima que foi minha colega no ciclo preparatório, pelo irmão, por uma vizinha. Quando me calo, ela começa a perguntar-me pelos meus pais, pela minha irmã.
- E o Raul? Está bom?
Ela sempre trocou o nome ao Reinaldo, chama-lhe Raul. Não a corrijo. Raul é dos nomes de que mais gosto. Quase tanto como Benjamim, Gaspar, Nicolau, Álvaro. È nome de guerrilheiro, de revolucionário latino-americano. O Che Guevara, em vez de se chamar Ernesto, deveria ter-se chamado Raul.
- Está bom. Cada vez mais gordo…
Ri-se, com inesperadas gargalhadas sonoras, como se eu tivesse dito o maior disparate do mundo.
- Não está nada! És mesmo parva!
- Então, tu não conheces o meu marido...
- Conheço!
- Ele é gordo... Não há problema nenhum em uma pessoa ser gorda, pois não...
- Não é nada gordo. É magrinho e é muito bonito.
Percebo que não vale a pena continuarmos a falar das características físicas do meu marido. Ela é que sabe. De seguida, pergunta-me pelos meus filhos.
- O João está bom. É muito bonzinho. Para o ano já vai para a escola. A Madalena também está boa, mas é um bocadinho chata.
Arregala-me os olhos e mais uma vez me contraria.
- Não é nada chata! È muito querida. Ela até me deu um beijinho quando a encontrei na rua com a tua mãe e a tua tia.
- Isso é porque ela gostou de ti. Viu que tu eras uma pessoa muito especial.
Sorri-me. Os olhos estão mais tortos do que nunca. Não percebo se ela está a olhar-me nos olhos ou se, por vergonha, os desvia para outro lugar. Tem a pele muito macia, como sempre teve, e o cabelo muito forte e bonito.
- Gosto tanto de ti. Tenho saudades tuas. – diz-me, depois de um silêncio pequenino, enquanto me aperta as mãos. Apanha-me de surpresa. Estas coisas nunca se dizem. As pessoas que conhecemos nunca dizem que nos amam, que nos querem ou que precisam de nós.
- Eu também tenho saudades tuas.
Inesperadamente, dá-me um abraço e, para minha surpresa, começa a choramingar, num lamento triste.
- Queria tanto ir a tua casa. Para estar contigo, com o teu marido e com os teus filhos.
Há um silêncio que me custa, que me incomoda, que permanece. Que lhe respondo? Volto muitos anos atrás, quando éramos duas meninas, de bata verde e ganchos da Heidi no cabelo. Recordo a nossa professora, a Vitorina, dona de vários gatos siameses. Usava calças de bombazine, botas de montanha e camisas bordadas da ilha da madeira. Tinha uma voz masculina, uma voz grave que nos assustava. Recordo o tempo em que fomos colegas de carteira. Todos os dias, sentadas uma ao lado da outra, na primeira fila, mesmo ao lado das janelas que davam para o pátio. A menina aplicada da sala sentada ao lado da outra menina, mais velha, diferente, de olhos doces e infantis. A menina com quem a Vitorina, baixando o tom da sua voz, perdia todo o tempo do mundo para explicar os números e as letras. Recordo a inveja que me causava o estojo de marcadores da marca Carioca que ela tinha. Um estojo grande, enorme, com uma paleta interminável de cores. Os meus olhos, já na altura, se fixavam no amarelo-torrado, no cor-de-rosa clarinho, nos vários tons de laranja e de vermelho. Cores tão bonitas, tão intensas, apetecíveis, como se tivessem gosto e cheiro. Quebra-se o silêncio.
- Querias e vais. Vá, dá-me lá o teu número de telefone para combinarmos um almoço. Eu venho cá buscar-te e depois venho trazer-te.
- Achas que a minha mãe me deixa ir?
- Claro que deixa! Se quiser, ela também vem almoçar connosco. E o que é que tu gostas de comer?
- Gosto de tudo, mas gosto muito de lasagna.
- Gostas de lasagna? Olha que sorte, eu sou especialista em fazer lasagna. Vais adorar a minha lasagna!
Minto-lhe. Nunca na vida fiz tal coisa. Nem gosto muito de comida italiana. Quando nos despedimos, ela desculpa-se pelo tempo que me tomou. Não lhe respondo. Abraçamo-nos outra vez. Sinto um aperto no coração e apetece-me chorar. A tarde está solarenga e, ao nosso lado, está sentada uma mulher cega que pede esmola. Não quero que me peças desculpa. Eu é que tenho de te pedir desculpa. Por te esquecer. Por não te ter convidado para o meu casamento. Por não retribuir os teus presentes de Natal. Por me cruzar contigo na rua e te cumprimentar, rapidamente, enquanto corro para sítio nenhum. Por ter deixado de te prestar atenção. Por ter crescido e me ter tornado numa mulher vulgar, aborrecida, enquanto tu permaneceste uma menina de olhos tortos e doces.
Alice no país dos matraquilhos
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Anita
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10.3.04
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Ele evita fotos. Evita fotos porque ela está muito longe, sempre esteve longe. E olhar uma foto, além da dor de ver a foto, tem a dor da nostalgia do tempo em que via as fotos sem medo, do tempo em que não calculava as tristezas e as euforias que lhe agitavam o espírito. Toma hoje mais cuidado. Mas resultados não parecem ter surgido muito claros.
Quanto a cartas, evita-as um pouco, foge menos. Que elas torturam muito pouco de cada vez, não dói na mesma hora e só se descobre que se foi ferido conforme o tempo haja passado. Descansam na estante, umas sobre as outras e também espalhadas. Às vezes muitas páginas, em que aparece comedida a expressão, mas latentes as idéias indizíveis, como latentes as idéias indizíveis nas outras onde se multiplicam as páginas e se oferece o coração em palavras muitas e de reflexões.
E as tais sensações que não se dizem o encobrem de tantos ditos, de tanto que dizem, e tanto que dizem, e de tanta ansiedade em que o afogam por serem suas falas sem palavras, que ele deseja uma palavra – mas não há quem a diga. Quem a diria está distante, prisioneira do ar, presa na fotografia, escrava do oceano, refém dos caprichos geográficos, latente quanto a idéias indizíveis e amorosa nas palavras. E esta palavra é possível que não seja palavra, pode ser discurso, pode ser aceno, olhar ou convite: contemplemos este mar entre terras; que não saibamos haver terras, mas apenas terra; que estejamos no mesmo lado, e que tudo seja agora dizível neste lado, libertos agora do papel das fotografias, do papel das palavras.
E assim conseguiremos, entre tantas outras coisas, a felicidade de respirar.
O Mercador de Seda
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DaniCast
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10.3.04
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Minha vida no sertão
Pense nisso. Um calor de 40 graus à sombra. Você sai do trabalho, daquele ar-condicionado polar e vai almoçar na rua. Meio-dia. Seus miolos cozinham, seus sapatos derretem. Para piorar, ainda trabalho no local mais quente de toda a cidade. Nem vontade de comer você tem, tudo que você deseja é uma água bem gelada. Pena que não dá para jogar na cabeça. E aí fica nesse entra e sai, gelado, fervendo. Quando está em casa fica tomando um banho atrás do outro. Basta experimentar uma camisa para inutilizá-la. Fica parado de frente para o ventilador sem vontade de se mexer. De noite, a cama é uma frigideira. Você rola, rola e não consegue dormir. A água nem gela na geladeira porque você não pára de beber. E o termômetro da cozinha lá... bombando!
Compro chateau de inverno no Senegal.
Pirão sem Dono
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DaniCast
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10.3.04
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Sem nunca abandonar o humor, traço de toda a sua obra, Prata falou ao Elas por Elas:
(...)
Qual a maior diferença entre homens e mulheres?
A única diferença é que os homens existem há séculos. E a mulher há apenas uns 50 anos. Mas veja só o que elas já fizeram em meio século!!!
Você acredita que há uma natueza feminina (e outra masculina)? Ou tudo é uma questão de cultura?
A verdade é que nenhum deles presta. Nem os homens, nem as mulheres. Se pelo menos uma das facções funcionasse, convencia a outra e o mundo seria maravilhoso. O problema é que as mulheres e os homens desconfiam. Por isso que existem os advogados. Os advogados são a prova de que não se pode confiar em ninguém.
Hoje é o Dia da Mulher. Você acha essa data necessária?
Não. Nivela a mulher a contador, indio, secretária, sogro... Ou seja, este negócio de "dia de alguma coisa" foi inventado para agradar as minorias...Todo "dia de alguma coisa" é pior que aniversário, em que as pessoas se obrigam a nos dar e a gente a receber e dizer "não precisava". Aliás, tem coisa pior ainda: Natal e carnaval. Acho que os dois deveriam ser iguais a copa do mundo: só de quatro em quatro anos.
Elas por Elas
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Ratapulgo
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10.3.04
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O DIA EM QUE O TEMPO PAROU PRA UMA MIJADINHA.
Então vinham pela Belém-Brasília, num Gol 99, o Tempo, o Açodamento, a Experiência e, ao volante, o Serviço. Reparando que o Tempo tava com a bexiga cheia e suando frio (tinham entornado um montão de cerveja), o Açodamento palpitou:
-- O Tempo tá apertado...
O Serviço estacionou num posto pro Tempo fazer xixi. E ele começou a demorar, demorar. No carro, o Açodamento, inquieto, pôs a cabeça fora da janela, fixando o olhar no banheiro do posto, e depois de um esticado silêncio comentou:
-- Olhaí, acho que o Tempo acabou.
A Experiência, mãe de todas as Paciências (é, com o Tempo ela veio dando à luz uma prole considerável, embora ele não assumisse a parternidade), sabendo que o mijão gostava de dar umas sacudidelas pra não molhar a cueca, obtemperou:
-- Calma. Acabou nada. Sempre sobra um pouquinho. Cuca fresca.
O Açodamento, pai da Impaciência (é, com a Experiência ele acabou sendo pai, embora ela preferisse deixar a guarda da menina com ele), cutucou o Serviço, fazendo gestos (é, o Serviço era surdo-mudo) pra que o outro desse logo a partida e largassem o mijão ali. A Experiência:
-- Nanananinha. Não adianta pressionar: sem Tempo o Serviço não sai.
O açodamento, quase chorando, jogou a cabeça pra trás e se recostou na poltrona:
-- Ah, se o Tempo voltasse...
E a Experiência, descascando uma banana:
-- Não adianta se lamuriar agora, baby. Fica frio.
O que aconteceu foi que o Tempo, com o xixi preso, acabou estourando a bexiga. Ouvindo o barulho (não me perguntem como), o Açodamento, histérico, virou-se pros outros e:
-- Tão vendo? Tão vendo! O Tempo estourou! A culpa vai ser nossa!
Nisso vinha vindo um Cliente em sua moto de Polícia Rodoviária. O Açodamento, já em pânico, reparou que o Serviço era quem mais tinha jeito de bocó ali e, virando-se pra ex-amante -- com o fim de livrar a cara de ambos -- sussurrou:
-- E aí? Entregamos o Serviço pro Cliente?!?
A Experiência, sem se intimidar:
-- Peraí que eu dou um jeito.
Saiu do carro, ajeitou a cinta-liga, abriu um pouquinho o decote e foi falar com o Cliente.
Neste instante acordei.
Eu cochilava no departamento de arte da agência, enquanto o pessoal da criação e do atendimento batia boca sobre uma campanha que tava atrasadíssima. Não sei se aquilo se misturou ao meu sonho, mas tomei a decisão imperiosa – corri pro banheiro.
Moral da história: Propaganda chega em tudo que é lugar. Inclusive no sono de redator preguiçoso.
Ao Mirante, Nelson!
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Ratapulgo
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10.3.04
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9.3.04
Clotilde
OK, devo confessar: eu tenho uma ressaca de estimação. A danada se chama Clotilde e é uma minúscula mulher-das-cavernas, que fica agarrada aos meus cabelos, esmigalhando tijolos nas minhas têmporas enquanto chuta minha nuca. Qualquer deslize, qualquer tacinha a mais de Bailey’s com gelo, qualquer jarrinha de tequila com soda e limão... batata!. Dia seguinte eu já levanto da cama com a Clô grudada na minha cabeça.
Os médicos mandam a gente se hidratar, comer coisinhas leves com pouco tempero e ter juízo da próxima vez.
Minha mãe me diz que o bom pra ressaca é um copão de suco de tomate com vodka logo ao acordar, ou cerveja preta batida com ovo no café da manhã. Mas quando foi que a minha mãe já me deu um bom conselho nesta vida? A teoria assombrosa dela é a seguinte: se a ressaca só aparece quando ficamos sóbrios, devemos continuar bêbados. O mundo está perdido.
Deixo minha mãe e seus elefantes cor-de-rosa pra lá, e sigo o que os médicos dizem.
Não sei vocês, mas numa hora dessas, com Clotilde babando nas minhas orelhas, eu não posso nem pensar em receitas elaboradas, formas untadas, ingredientes rebuscados, cheiro de comida condimentada e, que Deus me perdoe, cozinha bagunçada. Eu quero uma comidinha leve, fácil de engolir e que não agrida o meu já conturbado estômago. Ah, e que, de preferência, eu já possa deixar pronta na noite anterior à esbórnia. Hum, e, claro, que eu consiga fazer de óculos escuros.
Até o Osso
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DaniCast
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9.3.04
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Ontem eu vi a neve!
Eu vi a neve, vi a neve se formando, senti ela caindo na palma da minha mão em meio a chuva que também caía. Não era neve pura, era neve misturada com lágrimas do céu. Uma neve mestiça. A minha primeira neve. Coloquei a mão para fora do carro e o vento que cortava entrou, a água caindo junto com a neve que beijava a minha pequena mão.
Minhas mãos são finas, pequenas, minha finada avó paterna dizia que minhas mãos serviam para ser mãos de costureira. Por isso nunca cheguei a ser uma virtuose no piano. Os dedos eram curtos demais para os efeitos de Le Lac du Comme.
Rascunhos de Alice
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DaniCast
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9.3.04
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O coração sabe quando o dia não há de ser o melhor dos mundos. Ele avisa no corpo quente ao acordar, quase febril, precisando de banho para refrescar-se. Avisa nos batimentos mais acelerados, na falta de sono já tão cedo para quem foi dormir às cinco da manhã. O coração sabe, sabe tudo.
O meu, bem que me avisou. Fui me deitar às cinco, almocei às cinco, doze horas depois, com compra e troca de torneiras no intervalo. Perdi a manhã, perdi a tarde, não fiz os meus deveres de casa trabalhistas. Me angustiei, chorei muito. Lágrimas salgadas. Lágrimas nunca são amargas, lágrimas são água e sal.
Dois fundos tão diferentes na minha vida. O da bolsa, difícil de encontrar, tanta coisa guardo dentro dela. O do coração, sempre à mostra como janelas sem janelas e portas sem portas para fechá-las. Exposto, na superfície, esse meu coração nada superficial.
Eu sofro, choro lágrimas salgadas e nem mesmo sei por que elas são salgadas, água e sal.
Somos choro, somos soro.
Telhado de Vidro
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DaniCast
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9.3.04
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Vou comendo os dias aos bocados, mastigando as horas, deixando os minutos presos entre os dentes. Uns começam suco de laranja e terminam mocotó; outros, cheiram a amêndoa como veneno e depois escorrem sorvete de menta. Há os algodão doce, bomba de creme, açafrão e curry. Ultimamente meus dias sugerem um gosto de quase certeza, uma memória da língua perdida entre uma lambida e um beijo, sabor fugidio e incerto. Minha boca pede o gosto de dias que se foram e eu a encho de pimenta.
Não Discuto
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DaniCast
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9.3.04
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Olhei para a estante e dei de cara com a “Crítica da Razão Pura” de Kant. Me deu uma vontade incontrolável de ler. Felizmente, ao lado estava a coleção do “Samurai X”, meu conforto e abrigo nas horas em que a tentação é forte.
Letra Morta
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DaniCast
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9.3.04
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Então é dia 9 de fevereiro de 2004 e Monsieur Honoré de Balzac apareceu em meu sonho lembrando que, em breve, farei parte do seleto grupo das trintonas que não dispensam cremes anti-rugas, loções milagrosas para manter a firmeza do corpinho e uma taça de bom vinho.
Antes de firmar o tal compromisso irrevogável com o Balzac, tenho ainda um ano para olhar-me no espelho e dizer: ainda estou na casa dos 20! Um ano também para adiar qualquer possível crise existencial, por mais tola que seja. E responder: "não, ainda não ganhei meu primeiro milhão de reais" (quem sabe eu ganhe na mega-sena antes disso).
Será um longo ano em que vou maturar idéias e planos. Pensarei seriamente em sair de casa e ter um aquário. Talvez eu acabe de escrever meu livro. Pode ser que eu me matricule numa academia de ginástica para adentrar o rol das trintonas com corpinho de vinte. Existe também a possibilidade, ainda que remota, de me aventurar no que se chama, em jargão jurídico, "união estável", com a condição de ter cachorrinhos de estimação. Vou decidir se terei filhos ou não. Vou plantar uma árvore. Lerei A Montanha Mágica de Thomas Mann, porque Ulysses vou ler aos quarenta. Talvez eu leia Dublinenses ou Retrato do Artista quando Jovem como aquecimento.
Vou aprender a dançar tango. Dedicarei mais tempo à cozinha de invenções suzihonguianas. Primeiro item do menu: espaguete ao molho "curry" com iscas de filé. Beberei menos, mas vou me embriagar mesmo assim (não me perguntem como, eu não conto, é segredo). Quero começar a lutar box - para tanto vou comprar um saco de pancadas e nele colar a fotografia dos meus desafetos.
Ouvirei mais música, mais conversas ao pé do ouvido, mais risadas de minha sobrinha, mais histórias de meus amigos, mais piadas de japonês e mais silêncios de fim de tarde. Tomarei mais yakult (viu Mlle. Helô? Certo, Monsieur Matusca?) e comerei mais barrinhas de cereais e menos caixas de bis. Talvez não coma mais chocolates. Tentarei dormir menos, também.
Talvez opere minha miopia numa das inúmeras tentativas minhas de enxergar o mundo de uma forma DIFERENTE. Cantarei mais no chuveiro, fumarei menos no trabalho. Será um ano em que perceberei mais ainda a existência dos meus braços e ombros, da coluna e das costas, dos pés e tudo o mais que tanto reclamam minha atenção e doem em dias frios. Mas fica aqui registrada uma meta: irei vencer, a qualquer custo, todas as crises de depressão e mania que ameaçarem estragar um dia sequer dos meus vinte e nove anos.
Tudo vai ser diferente
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DaniCast
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9.3.04
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Dia Internacional da Soninha
Betty Pimentinha virou Pat em novas dublagens. Preferiria Patty, que é hambúrguer. Parei de tentar compreender o mundo no dia em que caiu a obturação de meu siso enquanto o escovava.
Hoje é dia, e sempre que é dia de alguma coisa, o melhor é não falar sobre isso. Alguém falará por você, e se ninguém falar, talvez o melhor seja ficar quieto.
Uma das razões por que entrei pra Física foi ter lido uma agenda do colégio e descoberto que não havia dia do físico. Saí quando vi um projeto de lei para instituí-lo. Tem gente que não se dá o respeito.
dies iræ
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Ratapulgo
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9.3.04
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Ela me ligou de Montevidéu para dizer que havia se casado. Eu estava no último parágrafo e de repente não sabia mais o que fazer. Eu não conheço Montevidéu. Ou por que tudo acabou dando lá. Puxei meus óculos do rosto e mergulhei num silêncio pesado e sufocante. Pendurada na linha, ela ficou esperando uma palavra que fosse. Não me lembrou de que já estava morta desde o primeiro capítulo.
Prosa Caotica
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Ratapulgo
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9.3.04
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Corujice
Arthur, filho de minha amiga-irmã Adryana e meu afilhado:
- Mãe, tá vendo Guga jogar "xapato", tá? - apontando pra tv.
- Hã?
- Guga jogar "xapato". Tá vendo, tá?
- Aaah, tênis. Tô vendo sim, filho.
- Tênis não, "xapato".
Dois anos e meio de autêntica fofura, inteligência, lindeza e galhardia.
Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!
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Ratapulgo
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9.3.04
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Criancinhas amestradas.
Que desarme a lona e atire a primeira pedra o pai ou a mãe que nunca fez este número, sucesso garantido no Grand Circo Familiar:
Senhoras e senhores, respeitável público, apresento-lhes a incrível Criancinha Amestrada!
O espetáculo começa cedo, logo que o pequeno astro aprende o primeiro truque. Pode ser dar um sorriso quando a mamãe pede, abanar as mãozinhas, repetir um barulhinho que o papai faz com a boca, bater palminhas para a vovó. Se sabe responder a algum comando, então está no ponto para ir para o picadeiro! E assim que o público chega, eis os amestradores.... oops, os pais orgulhosos a exibir o sensacional número para as visitas.
À medida em que o tempo passa, os truquezinhos vão-se sofisticando: sabe cantar o refrão do útimo sucesso das rádios, aprendeu o primeiro passinho no ballet, decorou o bordão da novela, consegue imitar um animal. Cada crianca tem seus truques e todas elas, pais ansiosos para exibi-los (afinal de contas é quase irresistível mostrar ao mundo o quanto somos fodas por gerar uma criatura tão talentosa!).
Fulaninha, conta até dez em inglês pra titia ver, conta!
Bem cedo também as crianças aprendem o doce sabor dos aplausos. E, junto com os truques ensinados, aprendem como é fácil agradar uma platéia quando se faz, na hora solicitada, exatamente aquilo que os outros esperam que se faça.
Difícil é a gente desaprender isso quando cresce.
: : Ju (criança muito bem amestrada e agora crescida, e esta incurável mania de ver uma ponta de tristeza atrás do sorriso dos palhaços): :
:: Mothern ::
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Ratapulgo
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MANUAL DO PENINHA
Putz, alguém aí leu "O Globo há 50 anos" de ontem? A matéria que eles destacaram é tão surreal que parece piada. Uma obra-prima do jornalismo. Reproduzo-a abaixo para quem não teve a oportunidade de ler. É meio grande mas vale a pena.
****
"FUTEBOL DE LUTO COM A MORTE DE DJALMA (O Globo, em 03/03/1954)
Djalma Bezerra dos Santos, o veterano ás do futebol, que defendera, por tanto tempo, as cores do Vasco da Gama e, por último, integrava a equipe do Bangu, foi vítima de trágico e fatal acidente, resultado de um ato de imprudência. Foi uma das ocorrências mais dolorosas do carnaval.
Na tarde de segunda-feira, o player participara do baile dos casados na sede da Associação dos Empregados no Comércio. Estava na companhia de Ivone Santos e de sua irmã, Dulce. Em meio às danças, alguém pisara no pé de Dulce. Interpretando o gesto como proposital, protestou. Houve discussão que degenerou em verdadeiro conflito. O footballer teve que enfrentar, numa luta desigual, cerca de 20 indivíduos, todos eles amigos do que pisara a pessoa que estava em sua companhia. Na luta Djalma sofrera um ferimento extenso no frontal, do lado direito, recebendo, no HPS, três pontos.
Socorrido, Djalma voltou ao Centro para participar dos folguedos de rua. Estava muito animado, inteiramente entregue à folia. Cerca das 22h, a sra. Dulce, a do pé pisado, sugeriu a Djalma que fossem à sua residência. Deveria trocar de roupa para um baile a que pretendia ir. No entanto, quando lá chegaram, a fechadura não funcionava. Por sugestão de uma vizinha, Djalma tentou entrar no apartamento da amiga, no segundo andar, descendo agarrado a uma corda de persiana de um apartamento do terceiro andar. No entanto, o cordel não suportou o peso do seu corpo, partiu-se, e o player foi cair, de pé, na marquise. Mas, grande azar, Djalma se desequilibrou e caiu na rua, batendo com a cabeça no meio-fio. Foi levado para o hospital, mas não resistiu, morrendo ontem às 13h30m."
****
Não é sensacional? O que os jornais de hoje em dia ganharam em "informação" perderam em diversão.
Repolhópolis
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Ratapulgo
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Viva a mulher!
Hoje é dia internacional da mulher. Enternecido pela data e tudo que ela significa, vou, eu também, prestar minha singela homenagem. Para tanto, nada melhor do que reeditar este post, que tem tudo a ver com a condição da mulher atual e que tem um significado muito profundo mesmo, quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Fábulas Consagradas - O sapo Egberto
Era uma vez, uma lagoa onde funcionava a Orquestra Experimental de Repertório Minimalista (OERM), regida pelo popular Maestro Budweiser. Uma meia hora depois do por-do-sol os músicos apareciam de seus cafofos e começava o som que fazia o maior sucesso entre as libélulas, os guaxinims e as mulas-sem-cabeça "cabeça", que não curtiam o som popular das cigarras ou regionalista demais dos grilos. Estes, ficavam nos entornos da lagoa dizendo:
- Só.
- Sublime.
- Brilhante.
- Só.
Acontece que o sapo Egberto, um mezzo-barítono mezzo-calabresa, passeava um dia pela clareira do bode estressado atrás de umas mosquinhas muito gostosinhas e crocantes que por ali havia, quando de repente não mais que de repente ouviu uma dupla de grilos mandando ver num "Melô do cri cri ci". Ele ficou ali ouvindo e acabou curtindo o som.
Naquela noite, tentou dar uma empostação mais grílica ao seu som, para escândalo do resto da orquestra. O Maestro, vermelho de raiva, interrompeu o ensaio e o mandou embora. Triste, ele se retirou e caminhou dezoito dias até achar outra lagoa, onde uma pequena banda fazia um som completamente grilo, coisa de lôco! Ele foi todo feliz e saltitante para a lagoa, dando uns cricricris bem agudos, mas antes de conseguir mergulhar na água, uma cobra apareceu e o comeu.
Moral da história: Não tente ser o que você não é, porque poderá acabar se tornando aquilo que não seria.
É por aqui que vai pra lá?
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Ratapulgo
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8.3.04
Esses filmes para homens do sexo masculino que a Globo passa de domingo à noite, fala sério, são uma bosta.
¡Drops da Fal!
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DaniCast
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A Dama de vermelho
Quando entrei no quarto da Clínica Psiquiátrica Pinel, tomei um susto. O Getúlio, mesmo sob efeito de sedativos, parecia transtornado. Olhou para mim desconfiado com um sorriso que mais parecia um espasmo. O Getúlio trabalhava no meu táxi à noite. Das 6 da tarde às 6 da manhã, direto, sem falhar um dia sequer. Até que fez aquela maldita corrida: Era madrugada, ele não sabe precisar a hora. Disse que estava meio cochilando, com a porta do táxi aberta. Quando deu por si ela já estava sentada no banco de trás. Usava um vestido longo, vermelho, de um tecido brilhante, como se viesse de um baile. Trazia um crisântemo branco na mão. Seu rosto era alvo, emoldurado pelo cabelo moreno escorrido. A maquiagem pesada escondia os olhos negros com olheiras. Ela disse onde queria ir: Oscar Pereira. Só isso, mais nada. Tinha uma voz grave, estranha, com um tipo de reverber, quase masculina.
O Getúlio disse que ligou o taxímetro e arrancou João Pessoa abaixo. Logo, notou que a mulher soluçava. Era um choro quieto, contido. Um grunhido quase inaudível, enquanto cheirava a flor. Aliás, o cheiro também era estranho: um cheiro forte, como se o táxi estivesse cheio de crisântemos. Já na altura da Azenha, como o choro não parava, o Gegê resolveu desligar o rádio onde Bruno e Marrone lamentavam uma ida paixão. Não adiantou. Pelo retrovisor via as lágrimas negras de rímel escorrendo pela face pálida da mulher.
Quando subiam a Av. Oscar Pereira, entre os cemitérios, notou que o choro cessou. Resolveu, então, olhar para trás e conversar com a mulher. Mas já não havia ninguém no táxi além dele e de um crisântemo branco sobre o assento traseiro.
Pobre Gegê, a medicação continua pesada. Sem previsão de alta.
Taxitramas
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DaniCast
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8.3.04
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É preciso ser muito viado pra ser contra casamento gay.
FDR
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Jan
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8.3.04
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Ele me liga e sua voz não sai... sei quem é pela respiração. Depois de uma longa pausa, do outro lado da linha, um 'Oi' desanimado. O lugar é fechado demais, escuro demais, parece chover forte lá fora. Estou com as pernas bambas e preciso de um lugar para sentar. Estou num vazio completo e a única opção é o chão... mas tudo está tão úmido e empoeirado que resolvo ficar de pé. Ele me faz esperar muito e eu não consigo dizer uma palavra sequer. Depois de algum tempo ele fala, com uma voz que não é a dele, rouca e grave, pontuando depois de cada palavra; que quer muito me dizer que eu "nunca julgue, não compare ou pergunte por quê".
Acontecível
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DaniCast
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8.3.04
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Ah, as delícias de morar sozinha.
Eu já morei em diversas e curiosas circunstâncias, já morei em repúblicas, com quatro, seis e até dez pessoas, já morei em família (éramos seis, sem trocadilhos), já morei com marido - sim, tenho o interessante estado civil de divorciada e esta figura quase literária chamada "ex-marido", um estado civil, cá entre nós, muito mais interessante do que dizer "sou solteira". Não sei por que a sociedade torce o nariz se uma mulher é solteira, fica parecendo coisa de encalhada, "ninguém quis essa aí, deve ser uma megera" - mas enfim, eu nunca, nunca, tinha morado completamente e totalmente sozinha. Como eu já mencionei assim, ligeiramente, a minha situação financeira está grave e não quer sarar, está pior que coração partido pós-romance-russo, mas ainda assim...
Ah, as delícias de morar sozinha.
Acabei agora pouco de lavar a louça, uma tarefa simples e trivial. Só que quando se vive sozinho, só você suja louça e você só lava a sua louça. É fabulosamente egocêntrico, quase um nirvana. E não existem aquelas cansativas discussões que me acompanharam a vida toda, "de quem é a vez de lavar a louça?", "não, não sou eu hoje", "oh não! Não acredito! Deixaram a frigideira engordurada na minha vez??? Eu não vou lavar isso!", "mas o que é que você faz? Toma café o dia todo com uma xícara diferente de cada vez???"
É claro que eu recomendo veementemente a quem nunca morou em república que viva a experiência ao menos uma vez. Especialmente quem não tem irmãos. É uma experiência edificante, constrói caráter. Ensina a ter tolerância com o próximo, mesmo que o mais próximo seja um estudante crônico de Filosofia, - "poxa, tenho dez anos antes de ser jubilado pra terminar o curso" - tenha comido inteira a torta de maçã que a sua mãe mandou pra você, - "estava muito boa, e ela ainda mandou com um bilhetinho super-legal, o bilhete tá colado na porta da geladeira" - e tenha hábitos que te enlouquecem, como por exemplo, escutar os seus CDs e colocá-los todos trocados nas caixas, sumir com o livro que você estava lendo, comer todos os biscoitos de chocolate que você comprou e que estavam no armário, usar todo o seu shampoo, lavar roupa sem ler as instruções da máquina - ou do sabão em pó, ou ainda, sem verificar que calcinhas vermelhas soltam tinta sim e deixam todas as camisetas de algodão rosadas. "Acidentes acontecem, fazer o quê?"
Se você tiver condições e coragem, more sozinho. Você vai poder ficar na internet batendo papo no messenger sem culpa, assistir somente o que quer na TV - sem precisar ficar repetindo pela milésima vez que não quer ver anime, não, pelo amor de deus - comer o que quiser a hora que quiser - sem precisar lembrar a ninguém, também pela milionésima vez, que não suporta nem o cheiro de calabresa com cebola, por favor! - dormir na sala, usar o telefone quando quiser e com quem quiser - "não é aquele seu amigo de novo, é? Você vai demorar aí?" - e outras pequenas liberdades que deveriam constar na constituição brasileira como direitos inalienáveis do cidadão.
O ser humano não foi feito para viver em sociedade não, isso é uma falácia, acredite em mim.
MadTeaParty
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Jan
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8.3.04
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Se eu fosse meu pai, faria uma checagem no meu fígado. Um hepatograma caprichado.
Porque a impressão que dá é que o figo da criatura num tá mais metabolizando o álcool. Ele acorda da farra de ontem ainda bêbado. Chega aqui, deita na rede e se dana a falar.
Toca Wilco no radinho e ele
- O que é isso que tá tocando, hein? Minha filha, a rotação da vitrola tá alterada. Que música ruim da porra. Caralho.
Entenda que pro meu pai falar porra e caralho numa fala só, tem que estar bêbado.
- Pai, vai timbora tomar um banho frio, vai. E essa música é boa, porra.
- Boa? Que boa porra nenhuma, fora de rotação!
- ...
- E eu sou auto-limpante, querida.
- Tão tá.
- Vamos à praia?
- Heh. Não?
- Tenho que aproveitar a minha juventude.
- Verdade, verdade. Como diz aquele comercial lá, né? Vai que tu fica velho?
- Jamais posso deixar isso acontecer. Jamais. Tem muita mulher no mundo preu ficar velho.
- Pronto, agora tá ótimo isso. E as mulheres todas caindo aos teus pés todo dia, né?
- É muito cansativa essa minha vida, mas eu agüento.
- Pai, vai tomar banho, pai.
Aí minha mãe vem me mostrar o biquini novo.
Enfim.
Algum dia vou encontrar meus pais biológicos e tudo se fará claro e compreensível.
mon coeur vomit
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Anita
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8.3.04
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Mensagem da Diretoria
Olá. Eu sou a DaniCast, mas podem me chamar de Dani, sou uma mulherzinha insuportável e a partir de hoje vocês todos estão ferrados porque eu também leio blogs, seleciono os escolhidos e posto aqui. Favor enviar mimos e tentativas de suborno lá em casa.
Reclamações sobre fisiologismo não serão aceitas.
Have a nice day.
Voltamos agora à programação normal.
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DaniCast
às
8.3.04
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7.3.04
enough is enough
Sou uma dama, que vocês sabem bem.
Mas dentro de mim, habita uma travecona que usa gilete embaixo da língua, que é capaz de detonar um ser vivente com um simples olhar, que come purpurina e respira laquê, toda montada e poderosa, chamada Rebecca Monalisa.
Finésima, em cima do salto 18, com cabelão, insuportável, arrogante, perigosamente destrutiva, que não dá chilique jamais porque é travecona internacional, mas é uma homicida, do tipo que retalha suas vítimas.
Cuidado, que ela acordou. E tem fome.
perolada
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Anita
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7.3.04
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A garota das coisas
Meus pais discutem na sala, e eu vou para o meu quarto. A garota do quarto. Por falta de pessoas, essas paredes me amam. E eu retribuo, é claro, como não? Passo os dias fazendo companhia, carinho, dançando e cantando pra elas. Assinalo os filmes que quero ver no guia da Tv e assistimos todos juntos, como uma família feliz. Eu, as paredes, as portas, o travesseiro, o edredon, as almofadas, a bagunça. Somos perfeitos. Ninguém briga, ninguém discute, ninguém faz cara feia e se eu quiser é só pegar, abraçar, beijar, tá logo ali, pra mim, e todo o resto já me contêm, inteira. Ninguém pede sexo, satisfação. Ninguém me destrói com meia dúzia de palavras, ninguém fala. Ninguém vai embora, ninguém morre, só eu.
Fabulosa e Inútil
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DaniCast
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7.3.04
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Fala que eu te escuto
Na fila do banco, um cara logo à minha frente dispôs de uma hora e meia para discorrer detalhadamente sobre todos os aspectos da miséria humana - num tom DATENAL, ou seja, alto e bem amparado por gestos largos e truculentos. Sorte minha que não fui eu, pelo menos não diretamente, quem ele alugou como ouvinte. Mas, na prática, umas cinquenta pessoas ouviram atentamente ao que o cara dizia. Senti pelos olhares e expressões que alguns se convenceram de alguma verdade escarrada pelo cidadão, e pensei comigo se o que basta pra se convencer alguém de qualquer coisa é só um pouco de fôlego.
Tombadilho
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DaniCast
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7.3.04
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Eu presto atenção no que eles dizem...
Mas eles não dizem nada.
Palavras sem sentido. Silêncios vazios e avassaladores. Um medo quase palpável.
Medo.
Vergonha do medo. Tristeza pelo medo. Angústia no medo.
Medo que corrói ideais, sonhos e objetivos.
Medo que destrói uma base construída de entusiasmo, alegria e coragem.
Vontade de desistir. De entregar os pontos. De jogar tudo prô alto e, ir atrás de meus sonhos, por mais que eles representem riscos que jamais me atrevi a correr.
Mas esse medo, que persegue e maltrata, impede que atitudes - que nos desviem um milímetro sequer do rumo que tomaram nossas vidinhas confortáveis - sejam concretizadas.
A vontade de mudar existe e sempre existirá.
Mas, o medo e essa covardia, que nos é mais humana que a própria vida, nos faz mudar cada vez menos.
Ele está ali, parado a porta; e aqui também, sentado a meu lado, me observando atentamente.
Ele está lá fora e, ao mesmo tempo, dentro de cada um de nós.
Falemos baixo, por favor. Talvez ele não perceba o que estou planejando...
Se necessário, peço que, por gentileza, o distraiam.
Vou ali fazer minha vida valer a pena e já volto.
Requintes de Crueldade
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DaniCast
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7.3.04
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Tarsila... do Amaral
É a mais nova moradora da República "Ô LALA - FALTOU LUZ MAS ERA DIA"
Veio da Pérsia diretamente para Curitiba. É albina, tem o focinho achatado e sustenta uma estranha atração por toalhas e manchas no chão.
Por enquanto só mia e tem medo dos nossos pés.
Descendente de imigrantes alemães, é filha de Marcela do Amaral e neta de Michelle Fuchs.
Amada por todos que a vêem, tem um futuro não muito promissor. Será uma fumante inveterada (passiva ou ativamente falando), esnobe e mimada.
Com uma gata dessas, quem precisa de homens?
Admirável Blog Novo
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DaniCast
às
7.3.04
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Do you habla my língua?
Na minha humilde opinião, o maior invento do homem é a língua. Existe coisa mais genial do que catalogar cada som produzido por nossas pregas vocais - sem trocadilhos, por favor - e tranformá-los em fonemas e depois, unindo esses fonemas, criar palavras e articular frases? Aliás, criar um meio de comunicação onde os indivíduos não precisam decifrar mímicas. Imaginem quanto tempo uma pessoa não demorava para entender, entre grunhidos e gestos, que a sua aldeia estava sendo atacada por outro povo? Como toda invenção do homem, a língua foi se modificando, se modificando, se modificando, se modificando e se modificando um pouco mais até chegar ao que a gente conhece hoje. Mas não vou falar sobre como surgiu o português, inglês, alemão ou o francês e sim sobre um idioma menos conhecido, mas não menos falado: o namorês.
Pouca gente conhece o namorês - este estranho idioma que não se aprende na escola, nos livros ou nos cursos de conversação do CCAA, mas todos nascemos sabendo falá-lo fluentemente. A sábia natureza faz com que esta habilidade só se manifeste após uma certa idade (é algo muito semelhante ao surgimento de pêlos no corpo dos rapazes e a fixação por bolsas e sapatos das meninas). Após 2 ou 3 semanas de relacionamento monogâmico, o cérebro apaixonado envia uma informação para as gônadas, que confirmam a informação e a reenviam para o cérebro, que dá tilt e envia a informação para as pregas vocais. É assim que acontece toda a magia do idioma falado pelos casais apaixonados.
Apesar de ser uma língua primitiva e utilizada apenas por estímulos fisicoquimicomongossexuais, o namorês obedece - assim como os outros idiomas - rígidas normas gramaticais. Por esta, nem o prof. Pasquale Big Mac esperava! Existem muitas diferenças entre o namorês e o português, principalmente no caso dos pronomes pessoais retos (eu, tu, eles, nós, vós, eles): o namorês só possui as duas primeiras pessoas do singular (euzim e meuamorzim). Outra peculiaridade é que, diferente do português que possui os modos verbais Indicativo, Subjuntivo e Imperativo, o namorês possui apenas o modo Implorativo. Veja como o verbo pegar fica flexionado no modo Implorativo, na frase abaixo:
Meuamozim pega cervejinha para euzim?
Fiquem ligado pois na semana que vem colocarei aqui uma lição sobre outras línguas muito faladas e pouco conhecidas, como o favelês, o impostoderrendês e a língua da professora do Charlie Brown.
Alea Jacta Est
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Anita
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7.3.04
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Me passaram a mão na bunda e eu não comi ninguém
Então a gente estava lá no bar e um veinho vinha passando. Ele disse pra Tati:
- Vou até ali mas já volto.
Eu ouvi aquilo e falei pra Tati:
- Nossa, fala a verdade, você tá super ansiosa pela volta dele.
E logo depois ele voltou mesmo, ficou encarando a gente e eu comecei a rir, mas depois que ele passou a Tati disse:
- Não ri não, que o véio passou a mão na minha bunda e isso não tem graça nenhuma.
hahahahah aí que eu ri mesmo. Que veinho sem vergonha. E ela:
- Coitado, nem fiquei com raiva. Tô com pena dele. Deve fazer uns 50 anos que ele não passa a mão em bunda nenhuma.
hahaahahaha Pior foi que depois ele voltou, parou bem na minha frente, encostou em mim e eu tive que virar de lado, e ele disse:
- Vocês estão bravas?
Pô, sei lá, eu ria e a Tati tentava permanecer impassível, nem riu nem disse nada.
E ele foi embora, finalmente.
Sampa demais na Ilha de Siris
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Ratapulgo
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7.3.04
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Frase do dia
Eu mereço.
Fui fazer as unhas (uma dama sempre esta de unhas feitas), aproveitei para eliminar alguns pelos da panturrilha, e minha manicure falou:
manicure: Tati vc precisa parar de sentar com as pernas cruzadas.
Tati: Como assim vc diz? Eu sou uma dama, vivo de saias e damas jamais sentantam-se de pernas abertas.
manicure: Ou issso ou vc nunca vai consertar esses encravados na panturrilha
Tati: Bem se é assim, de hoje em diante eu estarei sempre de pernas e braços abertos e, se me questionarem por isso, eu justifico dizendo que minha manicure mandou.
Poucos e bons leitores: Caso me vejam de pernas abertas, por favor entendam, é quase uma recomendação médica.
veleidade - UOL Blog
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Ratapulgo
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7.3.04
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e com a minha mania de guardar TUDO, mas TUDO MESMO, de magoas a comprovantes do cartao de credito, joguei fora hoje 17 cartoes. Tipo, uns 5 de plano de saude, 4 ClubeFolha, 4 carteirinhas de estudante, Sindpd, Sesc, etc.
pode parecer bagunca, mas sou tao organizada que me perco na minha propria organizacao.
No fundo eu sou uma aberracao.
A day in a life
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Ratapulgo
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Passei no supermercado e já tem ovo de Páscoa. De novo, essa merda? Não podiam ser tipo bienais ou trienais, esses troços? Uma variadinha no eterno calendário? Um Natal caindo em junho, Carnaval em dezembro, panetone em Finados – que por sua vez teria sua data sorteada na tômbola? Ou na tumba? Falar nisso, vou tomar banho. Outra merda que não pressupõe solução, você tem que repetir todo santo dia. Penélopes, todos nós. Tecendo essas porras todas.
¢AtaRrO vE®De
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Ratapulgo
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Livros imaginários, livros quase imaginários e livros que deveriam existir
No capítulo inicial de "Se um Viajante Numa Noite de Inverno", o personagem-narrador de Italo Calvino entra em uma livraria e tergiversa, dentre outras coisas, a respeito de:
- Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido;
- Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente;
- Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade Do Preço;
- Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada;
- Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim.
Há um espectro imenso de especulações que poderiam ser feitas em torno destas e de tantas outras classificações feitas por Calvino, mas neste texto discorrerei a respeito de uma espécie não catalogada pelo escritor italiano: a dos Livros Cujos Títulos Soam Tão Improváveis Que Você Mal Acreditaria Que Realmente Existem Caso Não Tivesse Se Deparado Com Eles.
O primeiro exemplo que me vem à mente é de um volume de contos espírita, que encontrei há alguns anos num desses balcões de saldo de balanço da Bienal do Livro: "A Vida Como Ela Continua Sendo Depois da Morte", que teria sido psicografado do espírito de Nélson Rodrigues em pessoa (ou alma, sei lá eu). Se eu não tivesse segurado esse livro em minhas próprias mãos, provavelmente acharia que se tratava de uma piada infame.
Outro achado foi ter encontrado o (...)
continua em Pensar Enlouquece. Pense Nisto.
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Ratapulgo
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7.3.04
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5.3.04
E antes que suas palavras voltassem a significar alguma coisa, você sentada em frente a mim como a exegese dos meus sonhos, perdi-me em seus olhos ao cair no vórtice negro e letal de suas retinas. Então não existíamos mais, minha mão esquerda tentava tocar seus pensamentos, havia lírios, incenso e ímpeto derramados por figuras celestes. E nos beijamos.
Pequenos Dias Longos
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DaniCast
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5.3.04
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Sala de espera
Você também já ficou assim? Se sentindo na sala de espera da vida?
A vida ainda por começar.
Os sonhos para realizar.
Para sonhar.
Vai vir alguém lá de dentro, da vida, te puxar a mão e te trazer pra dentro dela. "Agora é a sua vez". E vai se abrir uma porta e você vai ver uma luz, e as cores e você vai dizer pra si mesmo "aaah, então isso é que é viver".
Mas calma. Você só estava de olhos fechados. Agora você abriu os olhos. E ainda está lá, sentado no escuro, na sala de espera da vida.
Alice Chebel
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DaniCast
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Como se alguém amasse no escuro
Há uma coisa muito importante na vida. A imaginação. A imagem que se tem das coisas que fazem parte de nós. Há uma coisa ainda mais estranha: as pessoas. As pessoas que não conhecemos por imagem. Pessoas longínquas que nos chegam por sentimentos. Emoções. Pessoas que põem as palavras à frente de tudo. Dizem palavras para descobrirem o caminho que podem percorrer. Palavras como cães para prever o perigo da revelação. Porque há o medo de alguém se perder do outro numa questão de falsidade. Mentir por palavras é tão natural como errar uma palavra. Mentir é um esforço de aperfeiçoar a própria vida. A mentira é um erro construtivo. A imagem que se tem de alguém é uma complicação emocional. Falo de imagem verbal definida por palavras experimentais dentro dum corpo invisível. Um corpo de palavras num excesso de ausência. As palavras são estruturas de relações emocionais. Alguém longe de nós não é som nem imagem, mas apenas uma ideia de ser protegida pelas suas palavras. Posso adiantar esta imagem: como se alguém amasse no escuro e fosse tão sincero no amor que não sente.
Escrita Ibérica
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DaniCast
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5.3.04
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O verdadeiro inferno é viver no paraíso e, por falta de meios, não poder desfrutar de suas benesses infinitas. Como um Borges, cego na biblioteca, assim era o martírio de Eu.
Falam dos jejuadores que, depois de um certo período de privação, deixam de sentir fome. Não funcionava assim com ele: Eu nunca deixava de sentir desejo.
segundo Blogauti
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DaniCast
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5.3.04
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Tanque ao Sol
Havia ali um ouvido, moldado na areia. Dele pulularam sepulturas de coisas que ainda não foram completamente obliteradas, e assim se fizeram caminhos que davam para o mar e de costas para mim. Supus a pele opaca de tanta surra, mas era descuido mesmo, puro. As mãos só viam o que queriam, os sentidos faziam mais e mais linhas por ali, embora se perdesse nos destinos. Sem crença em sorte, mas em escolha. Me escolhe? Me escolhe de novo, por favor não, por amor? Ontem eu pensei nesse favor de amar e descobri que a paga veio em triplo e meu saldo estava negativo e que não adiantava curvar-se em abraçar joelhos e chorar que toda lágrima não havia mar para encher copo. Fui lavar roupa, para gastar o corpo e a idéia.
Salomé Descalça
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DaniCast
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5.3.04
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"A moça de Londres"
Sei que ela só andava de preto: longas e pesadas saias com blusas que faziam com que seus membros brancos sobressaíssem mais. Tinha o cabelo liso e comprido, da cor de mel escuro, que emoldurava um rosto oval e pálido. Ela passava lápis nos olhos e ficava com um ar misterioso, embora permanentemente mau-humorado. Os lábios eram cheios e, talvez, juntamente com o formato oval do rosto, eram os detalhes físicos que eu mais gosto nela. Ela morava em alguma cidadezinha do interior da Inglaterra, com uma tia. Seu mau-humor aumentava quando era obrigada a vir de Londres - onde estudava música em um Conservatório - para passar alguns dias. Me lembro da atmosfera soturna e antiquada da casa, os móveis velhíssimos e escuros, com ar de terem mais de duzentos anos. Havia um imenso relógio - acho que chamaríamos de "carrilhão" - para o qual havia uma chavinha minúscula, que servia para dar corda nele. Sei que ela planejou o assassinato da tia por questões de ciúmes (mais do que por ganância). Uma briga envolvendo um irmão ou um primo. Mas não sei se ela conseguiu matar a tia. Será que ela se chamava "Nancy"?
Opiário
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DaniCast
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5.3.04
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Karl Marx III
Um amigo meu começou a ler a biografia de Karl Marx e está adorando. Ele mata aulas de biologia e inglês para ler o livro na biblioteca. Acho isso válido. Mas lembrem-se dos livros de história do ensino médio. Sempre que você encontrar a passagem: "Fulaninho foi para Tal Lugar, foi então que conheceu as idéias de Marx.", se segue uma revolução que termina morte de muitas pessoas, socialismo e ditadura com repressão.
Se isso acontecer no Brasil daqui a uns anos, saibam que eu tentei evitar.
Polegar Opositor
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DaniCast
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5.3.04
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À Uma Amiga...
Por muitas vezes, fazemos da vida um jogo, onde o vencedor é sempre aquele que mantém a cabeça erguida e que não volta atrás nas suas decisões. Mas esse vencedor é também aquele que volta pra casa sozinho e aí o orgulho desaparece e baixa uma tristeza imensa.
Não quero dizer com isso que sempre devemos abrir mão das nossas convicções, porém em determinadas situações, vale a pena baixar as armas e hastear a bandeira branca. Alguns amores merecem isso.
Então, se você tem alguém com que queira falar desesperadamente, ligue, procure, mas faça alguma coisa.
Antes que seja tarde demais.
Ponto Gemini
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DaniCast
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5.3.04
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"Quando a Nasa iniciou o lançamento de astronautas, descobriram que as canetas não funcionariam com gravidade zero. Para resolver este enorme problema, contrataram a Andersen Consulting, hoje Accenture. Empregaram uma década e 12 milhões de dólares. Conseguiram desenvolver uma caneta que escrevesse com gravidade zero, de ponta cabeça, debaixo d'água, em praticamente qualquer superfície incluindo cristal e em variações de temperatura desde abaixo de zero até mais de 300 graus Celsius.
Os russos usaram um lápis....."
amarar
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Jan
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5.3.04
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Provérbios?
Toda vez que eu vou consultar o Dicionário Aurélio na Internet eu me deparo com uma frase do Autor do Dicionário que me incomoda e me causa estranheza, das duas uma, ou a frase não tem nenhum sentido ou sou eu que não consigo entendê-la. Bem, a frase é a seguinte:
"Definir uma palavra é capturar uma borboleta no ar"
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Isso tem algum sentido? Que cátzo tem a ver uma palavra com uma borboleta?. Até eu posso criar dúzias de frases sem sentido, como por exemplo:
"Viver sem Medo é como acariciar um camelo de polainas coloridas"
ou
"O maior espetáculo da vida é ver um Russo banguelo tentando abrir uma ostra"
Díficil mesmo é criar frases que tenham sentido e que posteriormente sejam consideradas provérbios, ou ditos populares caso a autoria se perca através do tempo. As pessoas deveriam pensar antes de tentar criar algum provérbio, na grande maioria das vezes o resultado é um monte de palavras desconexas mas que tem o aval de outras pessoas que nada entenderam mas que não discordam para não se passarem por burras.
Na verdade eu nem sei o motivo de estar escrevendo isso, mas eu tinha que dizer que aquela frase lá em cima realmente me incomoda.
Ninguém se Basta
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DaniCast
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5.3.04
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Quando eu era criança acreditava que os peixes vinham do céu. Eles vêm. Mas eu acreditava que eles caíam, assim fisicamente, pela ação da gravidade. Daí que em dias de chuva eu juntava minhas mãos em concha para tentar pegar algum deles.
Hoje pela manhã, enquanto chovia, fui até a janela e tentei fazer isso mais uma vez, só que não reconheci minhas mãos.
O conhecimento e a cultura turvam determinados lirismos. A criança morreu. Mas era uma criança tão interessante e eu gostava tanto dela.
Henry Wotton
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DaniCast
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5.3.04
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Outro dia, uma aluna minha da primeira série começou a falar trocando os "esses" pelo "xis". Eu me lembrei imediatamente de boa parte dos internautas brasileiros, que escrevem "axxim". Credo. Será esse o nível da nossa Internet? O de crianças de primeira série?
Estação Lugar Nenhum
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DaniCast
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5.3.04
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Calmaria
Marina partiu de casa na madrugada que mal luzia à procura de Dorival, que ela perdera há anos.
Ruas conhecidas, bairros inusitados; prédios, casas, quiosques. Meses. Anos.
Dorival, percebendo que Marina se desmanchara nos dias a fio, saiu à procura da memória de seu rosto e perfume.
Hospitais, asilos, delegacias, meses, anos.
Dorival sem força e o banco da praça num breve intervalo quase silencioso.
Marina sem esperança e o banco da praça num intervalo silencioso quase breve.
Só aquele momento de sobremesa vazia.
Só aquela luz intensa do meio-dia cegando as sombras.
Dorival olha Marina, que lhe retribui o olhar de farta estranheza.
A praça está florida nessa época do ano, mas as estações não são eternas, e o dia continua sua caminhada fantasma.
Marina e Dorival sabem desse tempo hirto e continuam, assombrados, a busca pelo outro.
As flores não se movem, não há vento.
Entre Outras Mil
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DaniCast
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5.3.04
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Vou dar um pulo no Rio de Janeiro neste fim de semana, para tratar de negócios importantíssimos.
Estarei hospedado no Copacabana Palace, provavelmente na beira da piscina, tomando água de côco e com protetor solar no nariz e nas maçãs do rosto.
Para falar comigo, liguem para minha secretária.
Porque se é pra ser um pobre miserável, que seja com classe.
Crediário
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DaniCast
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5.3.04
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No ponto de ônibus
No ponto de ônibus todos devem olhar para o mesmo lado. Quem olhar para o lado oposto não deve olhar nos olhos das pessoas. Evite contato visual, essa é a regra. Mas hoje um cara quis ser diferente.
Ele ficava exatamente na linha visual de todos, e olhava nos olhos de todos. Dava pra perceber o quão inquietas as pessoas ficavam. Alguns se mexiam, mudavam de posição, fuçavam na carteira pra desviar o olhar, mas o homem não arredava pé. Continuava olhando na direção errada. Somente ele.
Esse ato poderia ser caracterizado como resistência, ir contra a maré, contracultura. Enquanto isso, o tempo médio de espera por um ônibus se multiplicava por três. Alguns se perguntavam qual era o problema desse homem. Até que uns ali, outros aqui, começaram a conversar. Logo estavam todos conversando. Unidos. Um assunto em comum - fora a espera pelo ônibus.
Se o homem fosse embora as pessoas continuariam conversando? Se ele virasse e esperasse o ônibus os outros conversariam com ele? Se ele continuasse olhando, o que as pessoas fariam? Não sei dizer, meu ônibus chegou e fui embora.
ChickenDog
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DaniCast
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5.3.04
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Ira divina
Estava na rua ontem, por volta de quatro da tarde. Em cinco minutos o céu ficou negro e um dilúvio desabou, alagando a cidade. O vento derrubou árvores e do céu caíram pedras de gelo do tamanho do dedão do meu pé.
Isso não é normal. Deus não gosta de São Paulo.
Canjicas
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DaniCast
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5.3.04
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O mentiroso deveras
O mentiroso deveras tinha um poder de persuasão perfeito. Conseguia ludibriar até o padre cético e a tia que relinchava. Construía mentiras complexas quase heterotéticas. Emendava mentiras em mentiras e verdades em mentiras em verdades. Fazia interlocutor lembrar mentiras antigas!
O mentiroso deveras estava começando a confundir seu passado desgraçado.
Esquecera a verdade, não lembrava se aquele atropelamento acontecera ou se apenas torcera o pé quando pequenino.
Ópio
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DaniCast
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5.3.04
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Se você pode...
começar o dia sem cafeína, nicotina ou tranqüilizantes;
comer, dia após dia, a mesma comida sem se queixar;
entender que água é a melhor coisa para lhe matar a sede;
perceber quando existe tensão ao teu redor e evitar o perigo;
ser capaz de ficar indiferente diante da alta do dólar e da queda da bolsa;
ser capaz de compreender quando todos estão muito ocupados para te atender;
aceitar uma crítica;
acalmar tua tensão sem precisar de auxílio médico;
ter pique para passar noites em claro, numa ótima;
dormir tranqüilamente a qualquer hora, em qualquer lugar;
relaxar ao final do dia;
desfrutar da carícia de uma mão querida em tua cabeça;
então, é quase certo que.......
... VOCÊ SÓ PODE SER O CACHORRO DA CASA!!!
Biscoito Doce em Devaneio...
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Anita
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5.3.04
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4.3.04
Preso, porém honrado
Um dos problemas básicos da sociedade é a idéia de que não fazer o mal seja equivalente a ser bonzinho. Não é vantagem nenhuma não ter sido preso. Aliás, não ter sido preso pode ser indício de mau-caratismo.
Prisão por desacato à autoridade. Quem nunca recebeu, bom sujeito não é. A mais fácil; e se houvesse um levantamento sobre o número de vozes de prisão por desacato por cada policial, verificar-se-ia que em mor parte dos casos se trata de abuso, encheção do polícia.
Prisão por estelionato. Então você nunca tentou vender o viaduto do chá nem a porta do céu... vai por mim: o sujeito que compra merece. O estelionatário é o quem abre os olhos do próximo para a maldade que permeia as relações humanas, deveria ser condecorado.
Indução de menores ao vício, receptação, perturbação da ordem e tantas outras formas de resistência civil, pacífica, que deveriam ser enxergadas sob diferente prisma.
dies iræ
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Ratapulgo
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4.3.04
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Eu coleciono santinhos. Estes que a pessoa faz o milheiro para agradecer a graça alcançada. É certo que não há quem não possua um retratinho de Santo Expedito na carteira, para aquelas causas urgentes e/ou impossíveis que acontecem na média umas 3 vezes por dia. Santo Expedito é pop. Um superstar dos problemas de difícil solução (como trânsito engarrafado que faz a gente se atrasar pra reunião importante, telefone que não toca etc), cuja invocação nunca é tardia. Na foto ele está pisando num corvo que grita cras (amanhã!), numa mão segura uma cruz onde está escrita a palavra hodie (hoje!) e na outra mão segura uma folha; ele está, literalmente, com as mãos e os pés ocupados. Santo Expedito está sempre atolado com nossos problemas, mas não deixa pra amanhã, ele tira da frente. Como diz Pedro Bial, ele é o nosso herói. Os santos foram pessoas incríveis, que em algum momento se destacaram na sociedade por refutar a sociedade e abraçar uma causa misteriosa e desconhecida, na qual eles botavam muita fé. E assim, de marginais e excluídos na sociedade, eles passaram a heróis fora dela. Como São Calisto, que foi escravo, errou, pecou, foi preso, solto, preso de novo, se regenerou e virou papa. Ou Maria Madalena, pecadora por devoção, mudou de idéia ao ser salva de um apedrejamento. Podia ser você. Ou, considerando-se minha vida sexual pregressa, eu. Eles são nós amanhã. Quando finalmente Deus nos der um sinal que comprove sua existência e justifique nosso abandono da sociedade. Ganhasse você as chagas de Cristo depois de uma temporada no meio de um mato sem cachorro e cheio de lobos, tal qual São Francisco, se convertia ou não se convertia? Eu, no ato. E olha que eu já pedi muito sinal pra Deus. Tipo: - Se ele ligar agora eu juro que rezo dois terços e dou comida aos pobres. Ok, a promessa é meio vaga: quantos pobres? O que você quer dizer com comida? Eu nunca especifico muito bem minhas promessas. Até porque meu coração é puro e sincero, e eu gostaria de alimentar muitos pobres. Mas se eu disser quantos, Deus pode achar pouco. Por outro lado se eu disser que vou alimentar muitos, estaria blefando, usando da minha sinceridade para alcançar meu objetivo; quem garante que eu vou ter tempo para alimentar tantos pobres? E se eu vou ter dinheiro pra fazer tanto sanduíche de pão com salsicha? E se Deus souber que quando eu disse “alimentar” eu pensei pão com salsicha e achar que eu sou munheca, uma vez que se o pedido se concretizar eu vou botar a mão numa grana preta, mesmo que a Sena acumulada saia pra mais de um apostador? Por isso eu deixo no ar. Talvez por isso eu nunca tenha recebido um sinal: eu não tenho sido clara o suficiente. É a única explicação, pois se até São Tomé, que ousou perguntar o porquê de acreditarmos no que nunca vimos, recebeu não um, mas vários sinais. Uma vez eu perguntei: -Deus, se eu não fui clara o suficiente, me dê um sinal. Neste exato momento a luz do banheiro queimou (muitas vezes somos surpreendidos pela fé nos mais improváveis cômodos de nossas residências). Mas eu não encarei isto como propriamente um sinal; ela já havia piscado em outra ocasião, quando eu disse ao espelho que se fosse preciso eu faria um pacto com o diabo para acabar com meus culotes e com a celulite.Acredito que tenha sido o vapor de água o causador do incidente. Enquanto esperamos um sinal que justifique abdicar de confortos como água encanada, luz elétrica e sauna a vapor seguida de exfoliação e massagem com óleos aromáticos no spa do Hotel Emiliano, os santos, estes desbravadores crédulos, vão fazendo a ponte entre Deus e a humanidade. Afinal de contas, graças ao sacrifício da fé eles conquistaram a amizade de Deus. E por terem desenvolvido um excelente trabalho junto ao público, receberam também sua admiração profissional. Eles ocupam a posição de intercessores junto ao senhor e seu filho. Funciona mais ou menos assim, há três guichês: uma para os pedidos que hão de se realizar com a graça de Deus nosso senhor, outro para os desejos a serem atendidos para a honra e a glória de Jesus, e aqueles confiados ao divino Espírito Santo. Os santos entram com o pedido em um destes guichês, e advogam em nosso favor caso o processo emperre. Quase como era o processo de visto para os Estados Unidos antigamente. Os santos são nossos despachantes espirituais. É por isso que eu sou fã e coleciono. Aliás, estou atrás de um São Cirilo. E quem estiver precisando de uma da raríssima Santa Filomena, que promove paz interior e sossega o coração atribulado, me avise. Eu tenho pra troca.
papagaiada
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Jan
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4.3.04
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- posso falar uma coisa? nمo é cantada nمo.
- claro.
- você parece a madonna.
- mas em que fase?
porque tudo na vida depende da fase da madonna.
e eu nunca, mas nunca imaginei, que alguém ia achar que eu pareço a madonna.
sinceramente.
Acredite... ou não
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Jan
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4.3.04
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Tem coisas que só acontecem comigo...
Na primeira vez que olhei pra cara de um dos meus instrutores da auto-escola eu vi que ele tinha pinta de... err ... "lover boy". Cada braço que é uma coxa minha, gel no cabelo, óculos Hunk, roupa colada, todo uniformizado de prostituto mesmo. Só que eu - Nani e Mel, agora vcs vão ficar orgulhosas de mim - controlei minha "Joselitisse" e não abri minha boca.
A primeira aula com ele foi bacana. Eu irônica, ele risonho. Ria que parecia relinchar a cada piada que eu fazia. Imaginei que talvéz não fosse gel no cabelo, talvéz fosse o cérebro em pasta incolor e inodora que sai pelos poros cada vez que ele faz força e se espreme para pensar. Como me irritam as pessoas que acham que o belo é essencialmente o que se pode ver...
Bom, sei que na primeira aula não aconteceu nenhum tipo de intimidade - aqui, leia-se intimidade como "ficar a vontade para se falar qualquer coisa", tarados. Minha pinta de rabugenta geralmente mantém as pessoas longe em primeira instância. Em primeira instância. Porque eu tenho um num-sei-quê que leva rapidamente as pessoas a agirem como se me conhecessem a milênios, e é aí que a encrenca sempre começa, porque eu abro as portas, nego entra e põe os pés no sofá, depois acha ruim quando dez anos depois eu reclamo - com essa sutileza de mamute que deus me deu. Enfim...
Hoje ele começou a me elogiar, disse que eu parecia muito mais nova do que realmente sou, cutucou meu piercing, e eu só olhando torto. Quem me conhece, mesmo que pouco, sabe que a tática do elogio para mim tem efeito contrário. Às mulheres comuns, os elogios, a mim, as criticas, por gentileza. Essa arapuca não funciona com a patinha aqui.
Numa certa altura a coisa ficou meio entediante, porque o serviço dele era basicamente me fazer desaprender a dirigir errado. Explico: sou daquelas que tem vicios de quem aprendeu a dirigir "de menor na vila", como não tirar o pé da embreagem, não ligar a seta para estacionar, apoiar o braço na janela e etc.
Foi aí que papo vai, papo vem, e eis que ele começa a me contar sobre o outro emprego dele. Como chamar essa profissão, éhh, "sexador explícito" num teatro da rua Aurora. Sim. O mancebo faz sexo para dezenas de onanistas e afins num teatro mofento da rua Aurora. Ah, e faz programas também, se as garotas (e demais) aí quiserem o telefone, eu providencio.
Corta para a cena nas imediações da marginal Pinheiros. Eu dirigindo pra onde eu queria, ele sentindo-se na mesa do bar, me falando todo o portifólio dele, quanto tempo ele leva e como ele faz para uma mulher (como diz ele) "chegar lá". Falou sobre a barba, sobre o cabelo e sobre o bigode. No começo eu pensei que ele estava tirando sarro da minha cara, mas as histórias tinham detalhes de romance policial.
Me veio o ímpeto de perguntar se eu tinha cara de recalcada sexual pra ele fazer tanta propaganda do quanto ele satisfaz as senhoras insatisfeitas. Mas não abri o bico para não virar personagem no entusiasmado monólogo dele.
Tempo vai, tempo vem... Pense numa mulher ouvindo isso uma hora e meia. E sem mais nem essa ele se vira e me diz, abre aspas, o cara que conquistar esse seu coraçãozinho é o cara de mais sorte no mundo, fecha aspas. Pronto. Deveria eu puxar o freio de mão, berrar "Me possuuuuuuua! Me possuuuuaaaaaa!" e depois deixar uma notinha de 50 na cueca boxer dele?
Essa dança do acasalamento torta já subestima demais minha inteligência, que já não é grande. Isso já é covardia.
Eu mereço.
Madame Limbo
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Jan
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4.3.04
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Aí fomos fazer compras. Comprar as comidas da casa, esse tipo de coisa. Que eu abomino do fundo mais profundo do meu ventrículo esquerdo, mãs. Mãe da pessoa com doenças incapacitantes para as compras. É a alegria de não se ter o que fazer da vida (ou assim as pessoas pensam), que você fica encarregada de ir ao banco e comprar o pão e abrir a porta quando toca a campainha, e eu devo dizer que ela num tocou menos de 258 vezes hoje, foi um fenômeno do além.
Sem mencionar o telefone e todas as ligações erradas do universo.
Aí dia desses ligaram perguntando se era da casa de apoio. Me pergunto: casa de apoio e casa de passagem são a mesma coisa? Se são, por que as pessoas ficam ligando pra cá se num tem nada a ver o número do telefone, somente o três que vem na frente é igual? Como pode? Se não, bem, é só o usual mesmo. Pessoas ligando errado.
Recebi uma ligação esquisita. Teve essa também, foi. Uma moça dessas moças felizes, com a vozinha feliz, toda animada, querendo falar comigo mesma. Sou eu própria, moça - avisei. Então ela pergunta se eu sou amiga de Du... Du... Dush...
E eu digo logo: sou, sou.
Porque é essa pessoa amiga minha cujo nome é Duschinka (você diz "duxinca" mesmo). Ela comenta por aqui, mas disfarça com um "Duka", que ninguém imaginaria que era o diminutivo de Duschinka, né? Mas é. E eu estudei com essa pessoa a minha vida inteira de colégio das freirinhas e sou testemunha do quanto ela sofreu na vida por causa desse nome. Porque as pessoas nunca sabiam. Duxinsca, Duxica, sendo que a maioria ficava mesmo era no Du e depois parava. Primeiro dia de aula durante 10 anos foi isso. O professor pegava a lista de chamada e quando chegava nela, Du... Du..., e as pessoas já tavam acostumadas e diziam o jeito certo, mas sem brincadeira que isso se repetiu por 10 anos seguidos. E deve ter acontecido mais depois, né, acontece que aí eu num presenciei mais, porque acabou a escola e a gente foi estudar em cantos diversos.
Teve até aquele torneio de natação. Porque é, éramos meninas nadadeiras. Da equipe do colégio. E fomos então pressa competição que teve, nós duas e mais duas, pruma prova de revezamento. Então antes da prova começar, tinha um homenzinho que falava o nome da gente no alto-falante e a gente, humilde de toda uma vida, levantava o bracinho no meio da muvuca: tô aqui, moço! É isso mesmo! Aí era pro homem dizer Duschinka e houve então o empacamento habitual. Du... Du... Então ele tascou um "Dulcinéia!", e a gente sabia que era ela mesmo, então ela levantou o bracinho humilde e ficou sendo Dulcinéia pela noite.
A propósito, que desfecho trágico teve esse revezamento. Que fiasco. Que horror. traumas da juventude da pessoa que nem gosto de lembrar.
Mas.
Eu mesma quando conheci Duschinka, não conseguia crer. Olha que eu era essa criança a mais tímida de todas, aos 8 anos, muito muito mais tímida do que essa pessoa tímida que sou hoje, e avalie aí o que é escola nova classe nova pessoas novas o universo seu inteiro quase novo pruma pessoa tímida. O horror, o pânico, o martírio. Aí tinha essa menina que todo mundo chamava de "duxinca" e eu não conseguia compreender. Como pode, meudeus como? Deve ser o apelido. Só pode. Aí eu passava assim como quem não quer nada nem investiga grandes mistérios da humanidade pela banca de Duschinka e lia lá na etiquetinha do livro dela: "Duschinka".
Como pode.
Por que a mãe dela escreveu o apelido na etiqueta do livro, quando todo mundo sabe que na etiqueta do livro você tem que escrever seu nome verdadeiro, meudeus? Porque a etiqueta do livro serve pra quê se não pra localizarem o dono do livro se o livro se perder pelo mundo? Como vão achar a menina pelo apelido, quanta informalidade! Talvez eu não soubesse o que era informalidade aos 8 anos, mas o sentido do meu raciocínio era esse, entenda. Aí aquilo tudo foi me intrigando muito, ocupando vários lugares no meu pensamento, venci a barreira da timidez patológica e fui lá perguntar:
- Olha, me diz uma coisa... Qual o teu nome?
- Duschinka.
- Não, mas o teu nome de verdade.
- Duschinka.
- ...
Aí acabei me conformando e ela me contou que foi o pai dela que leu esse livro dum russo aí num sei das quantas e tinha uma Duschinka lá e pronto, foi isso. A gente ficou melhor-amiga. Você pode até perceber que até hoje ela me chama de miga: não somos retardadas, é que a coisa vem de muitos tempos.
Pois.
Acho que nunca me perdi tanto num post. Era de quê que eu tava falando, jesus?
mon coeur vomit
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Anita
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vem cá: que é que o outkast faz que o prince não fez há dez anos, no mínimo?
(fora aquele visual boi-lambeu, claro)
Quarto da Telinha
Postado por
Anita
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Kiai
- E aí, cara?
- Hã?
- Não está me reconhecendo? Sou eu, o deltóide...
- Ah...
- Como vai esta força?!
- Bem...
- O que tem feito?! Lembra das coxas? Cruzei com elas estes dias...
- Coxas?
- É, as coxas... Ei, ei, olha só quem está chegando... Lembra dela?!
- Quem?
- A panturilha! Olha ali...
(...)
Hoje, às seis e meia da matina e depois de dez anos, eu voltei a treinar Karatê. E digo: dói. Mesmo sem nenhum corpo-a-corpo, dói tudo. Ai. Mas foda-se o corpo: de novo, após muito tempo, a alma está nova em folha. Oss.
MegaZona
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Ratapulgo
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Sorriso amarelo
Ladrão obriga vítima a sorrir durante assalto
Abraços e sorrisos... Parecia qualquer coisa menos um assalto em andamento. Quem presenciou a cena deve ter pensado que aqueles três homens que caminhavam juntos eram grandes amigos que há muito não se viam. No entanto, era a primeira vez que eles se encontravam.
Sebastião Cleverson da Silva (30) estava caminhando pelo bairro Quilombo, próximo ao restaurante Choppão, tranqüilamente. De repente, dois homens se aproximam, de braços abertos. Sebastião, até titubeou, imaginando de onde conhecia os desconhecidos. Ele não os conhecia e talvez até preferiria nem tê-los conhecido.
Os dois homens deram um longo abraço em Sebastião, que até estava constrangido com tamanha fraternidade. Durante o abraço, um dos homens disse que aquilo tratava-se de um assalto e mandou Sebastião ficar sorrindo. Dito e feito.
Sebastião riu de orelha a orelha. Em seguida, os dois ladrões obrigaram a vítima a caminhar com eles até um lugar sem muito movimento. Lá, limparam os bolsos de Sebastião, que ficou sem R$ 300 e sem o telefone celular.
Positivo e Operante
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3.3.04
Alto Teor de ironia
el justiceiro tcha-tcha-tcha
e sabado, quando botei minha linda saia pra dancar tcha-tcha-tcha me deparo com a bateria do Pavilhao 9 tocando na minha rua, porque eu moro na periferia sim, e dai?
e cito 4 pessoas que conheco e moram num raio de 200 metros da minha casa e estao presas. Finesse total.
e as 3 mocas de tamancas enormes e maquiagem exuberante nem chamaram um pouco de atencao, quase nada mesmo
Tomei absinto (vulgo alcool Zulu, que fiquei arrotando a noite inteira) e fui pro Rey Castro, bar cubano em frente ao Dublin, do lado do Corleonne da semana passada, e achei lindo os tiozinhos dancando, a musica maravilhosa, as camisetas verdes e quando estava pensando qual seria a sequencia, se primeiro a Erdinger, depois mojito, depois uma tequila e um dri martini, porque sou fina, ou o mojito antes, porque a minha intencao era sair de quatro e vomitando, e pensando em fazer um blog de criticas de lugares, minhas amigas quiseram ir embora, e ble! fui.
Fomos pro Armazem da Vila, pela terceira vez no ano, e me emburrei logo de cara. Lotado de nordicos pescadores de bacalhau, pelos menos minha vodka era tao enorme que quase gorfei.
E so' pra variar um pouco, quis bater em 3 caras, por muito pouco nao tirei minha sandalia e arremessei na cara deles, e e' certo mesmo, viu? Deus nao da' asas a cobra. Se eu fosse como minha amiga e tivesse 1,85m e ainda usasse salto, eu ia sair distribuindo sopapos em baixinhos folgados e qualquer outro da renca de babacas da Vila Olympia, aqueles que chegam: e ai gostosa? some daqui. Sua piranha vagabunda. Ue', ha 5 segundos eu nao era gostosa?
E nao vou mais pra Vila Olympia esse ano, nao mesmo, se nao for acompanhada de algum macho com 1.80 de altura e com sangue esquentando, porque quero ver sangue escorrendo na cara desses filhos da puta.
Com nervos um poucos mais frios, fui passear de Fusca ontem. Fui ate' a frutaria do Jaguare', ver pitboys e suas namoradas acefalas, fui e voltei no estilo, ouvindo coisas: o foda e' voce ouvir o ronco do motor e ja' estar na quarta marcha. Minha amiga sugere: imagine voce chegando na Berrini de Fusca. Show, oculos de sol, chapeu, boa' ou uma echarpe no pescoco, Penelope Chamosa, olha esse quebra vento que luxo!
e estou rindo ate agora, com o pai da minha amiga, que foi leva-la na escola, em meados da decada de 80, um Fusca e umas 15 criancas dentro, na curva a porta abriu e ela caiu, ele bateu a porta e continuou, uma das criancas cutucou e falou: ela caiu, ela caiu, ele voltou de re', botou ela pra dentro do carro e foi pra escola. La' ele deixou ela, ralada, sangrando e com a roupa rasgada, e voltou. Quando chegou encontrou a esposa berrando, porque ja tinham ligado da escola, pra leva-la num medico.
E ele: Mas ela machucou tanto assim?
A day in a life
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Ratapulgo
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Sex and the city perde feio
E ontem eu fui dar plantão. Troquei o dia com um colega e fui. Obra do destino, já que ocupar a mente era tudo que eu estava precisando. Ok, eu não contava com a insônia filha da mãe que tive. Cochilei por apenas 40 minutos e pensei seriamente em desistir da troca. Mas, como já tinha dado minha palavra, entrei no ônibus e fui.
Chegando ao hospital, em pleno estacionamento, tive a visão do inferno. Um singelo carro prateado paradinho bem na porta. Olho a placa e constato ali a combinação de letras e números que vivia a procurar, tempos atrás, nas ruas da cidade. Não, eu não podia acreditar naquilo. Era demais. Sim, era o carro da minha primeira grande paixão. E, como se trata da sortuda da minha pessoa, um grandessíssimo canalha, na melhor definição do termo. Claro que xinguei o mundo todo e tive ódio das coincidências.
Por que ele tinha também que trabalhar justo ali, naquele hospital no quase fim do mundo?
E mesmo um pouco tensa, comecei meus atendimentos na emergência. A distância (grande) entre os nossos consultórios me dava uma pontinha de esperança que passaria despercebida pelo cidadão. Até que uma auxiliar de outro setor entra no meu consultório...
-Doutora, Dr. Fulano de Tal quer falar com a senhora.
-Hein? - me fazendo de doida lindamente.
-É, Dr. Fulano, o xxxxgista daqui, pediu pra chamar a senhora.
-Ok - me ferrei.
Barriga pra dentro. Solta o cabelo. Putz, logo hoje que vim tão esculhambada. Queria que ele visse como estou bem, que superei tudo. Bati na porta e entrei. Ele não muda mesmo. Mesma expressão. O cabelo tá precisando de um corte, essa roupa não tá combinando com ele, mas continua com o mesmo charme.
-Olá! - sorriso colgate.
-Oi, - tentando ser seca - mandou me chamar?
-Foi. Vi seu carimbo nessa receita e pedi pra ver se era você mesmo.
-Pronto, já viu?
-Vi, malcriada.
-Então, tchau.
-Depois passo lá na frente pra falar melhor contigo.
Fechei a porta e saí me sentindo a mais adolescente de todas as mulheres. Porque ele estendeu a mão e eu apertei. E é óóóbvio que ela estava uma pedra de gelo. E é óóóbvio que ele percebeu e deve estar se achando o rei da cocada preta. A gente não manda nessas coisas, né? Tsc. Continuei minhas consultas e meu celular toca. Piscando no visor um número que eu fiz força pra esquecer e não discar nunca mais na vida.
-Alô?
-Já acabasse?
-Quem é? - eu sou uma atriz.
-Eita, Beta - tinha esquecido como me derretia com o jeito que ele chama meu nome.
-Ah é tu, diz.
-Acabasse?
-O que?
-Os atendimentos.
-Só acabo amanhã, é plantão.
-Bora almoçar fora?
-Eu almoço aqui no hospital.
-Mas hoje você não vai.
-Vou sim. E preciso desligarr porque tô cheia de coisa pra fazer.
-Você era mais legal.
-E você continua o mesmo galinha, tchau.
Hãn?? Eu disse isso? Déa vai se orgulhar quando souber. Após quinze minutos a mesma auxiliar que me levou até ele entrou novamente no meu consultório. Trazia um exame que ele pediu pra eu olhar. Quando abri caiu um papel. Você continua linda e braba. Não, não basta ser canalha, tem que ser insistente, é isso? Ignorei o bilhete, falei qualquer coisa sobre o exame e fui almoçar. Na primeira garfada meu celular toca novamente.
-Diz, criatura.
-E aí, bora?
-Já estou almoçando.
-Nem me esperasse, gatinha?
-Não tinha motivos para.
-Eita que tá chata hoje!
-...
-Eu vi você no shopping um dia desses com um cara... é seu namorado?
-Não é da sua conta, que-ri-do.
-Adoro quando te tiro do sério.
-Tchau.
-Ei, desligue não!
-Estou com fome.
-E eu com saudade.
-Ridículo.
-Antes você não achava isso.
-Claro, antes eu era uma adolescente e você um homem solteiro. Agora anos se passaram e as coisas mudaram completamente.
-Você sempre estraga a brincadeira.
-Ah, agora isso é uma brincadeira?
-...
-Então vou dizer à sua mulher que você adora esse tipo de brincadeira.
-Tchau, Beta.
E como se não bastassem todos os problemas do plantão, mais essa pra me tirar o bom humor.
Bela, linda criatura, bonita. Nem menina, nem mulher...
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Se tem uma coisa que me dá nos nervos é quando mexem nas minhas coisas.
Meu pai é mestre em fazer isso. Ele simplesmente domina a arte de desordenar as coisas alheias pelas costas. Não posso viajar por 2 dias que quando volto descubro que ele me fez o desfavor de colocar todos os meus livros na estante, às vezes ordenados por autor, todos os cds no porta-cds e todas as cuecas nas gavetas. E ele ainda chama isso de organização.
Dessa vez foi ainda pior.
Mudaram os cheiros do meu quarto. Tem um cheiro estrangeiro pairando no ar. E o pior é que não consigo identificar a origem ou espécie. Não é um cheiro constante, de modo que às vezes ele desaparece e quando acho que me livrei dele, ele volta de supetão e se enfia nas minhas narinas dizendo "ei mané, estou aqui, no seu território". Tampouco é um cheiro ruim, tipo carniça ou peido. É um cheiro qualquer, talvez um cheiro de algo velho, mas não um cheiro ruim. Apenas um cheiro não pertencente ao meu quarto e que anda me incomodando muito. Talvez alguém de fora tenha vindo por algum motivo aqui no meu quarto. Não entendo porque esse pessoal te que ir por ae espalhando seus fedor por onde passam. Não se respeita nem mais o aroma do território alheio.
Arf.
[C A C O F O N I A]
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Ratapulgo
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furunfando por um país melhor
Às vezes saio de casa apenas para embelezar o mundo. Percebo que contribuo para tornar o Bananão um lugar belo.
Seria importante também levar uns coelhos. Em público, de preferência na frente das crianças.
É coisa de europeu e de americano do norte entrar em escolas atirando em todo mundo. Os alunos vibram, mas perdem oportunidades didáticas.
Eu encheria um caminhão de universitárias politizadas, essas que tiram a roupa por qualquer coisa, e, após demorado banho e tosa, invadiria as escolas para mostrar como é que é.
saudade do presidente Figueiredo
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. Ai, a juventude .
Fato é que andei mesmo beijando na boca (e ainda ando!), mas num foi nem por isso que andei sumida, foi preguicite aguda mesmo. Falta de assunto também.
E o rapaz tem vinte anos, está trabalhando aqui em Lampião City por uns tempos até a empresa-patroa mandar o coitado pra outra cidade. Certo, até aqui tudo correndo bem, a não ser pelo fato de o rapaz estar querendo se desligar da empresa, arranjar um emprego por aqui, pra que?, pergunta vossa senhoria, pra ficar comigo, na minha companhia, namorando comigo.
Namorando comigo.
Morando comigo.
Esse menino é doido.
Não, é não. É um daqueles personagens de filmes-meg-ryan e assemelhados que a gente assiste e pensa ô, môdeus, pra que eles fazem essas historinhas, só pra encher o desmiolo da gente com besteira? num tá vendo que aqui na vida de verdade um homem vai abandonar tudo pra ficar com a gente? Pois abandona, meninas-moranguinho do meu Brasil. Não percam as esperanças, papai noel existe, fada também.
Aí é assim. A história seria linda e cor-de-rosa e multiplex se não fosse um porém: eu não estou apaixonada pelo mocinho. E como é que eu digo que as coisas não são bem assim, que ele é um rapaz novo, que ainda tem muito que se apaixonar e que a mulher da vida dele não sou eu, é outra que tá esperando por ele no futuro? Posso dizer isso não, que é palhaçada. Também não posso simplesmente ó, num lhe amo não.
Socorro.
Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!
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Ratapulgo
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2.3.04
sonhos estranhos
Então ó só.
Sonhei que eu tinha 9 elefantes, todos eles na frente da minha casa. Um deles era macho e tinha um topetinho igual ao do Ronaldinho, só que loiro. E eles saíram pelo portão, estavam passeando pela rua, e eu chamei o macho (o nome dele, no sonho, era Luca - veje só), porque sabia que as fêmeas viriam logo atrás. E foi o que aconteceu, todos eles voltando pra casa, bonitinhos.
E no dia seguinte, sonhei que usava um anel enorme, feito de pedra azul, e por dentro tinha um desenho jateado, bem estranho, contendo 7 macacos, pra me protegerem.
Agora, me digam. Uat de fóc isso quer dizer? E não, não joguei no bicho, ainda.
perolada
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A Tabuletra informa: matador do zoológico continua à solta e população quer ver que bicho dá
O mar não está para peixe no zôo paulista. Um espírito de porco está colocando um poderoso mata-rato na comida dos animais, o que já causou um número elevado de mortes. A polícia já iniciou as diligências mas para a administração do parque, as autoridades andam comendo mosca: “As investigações andam a passo de tartaruga. Enquanto isso, todos os dias temos que atender cidadãos cuspindo marimbondos e exigindo providências. Ainda tivemos que aumentar a vigilância e estouramos o nosso orçamento. Já estamos matando cachorro a grito para não deixar mais nenhum bicho morrer. Até quando teremos que engolir sapo?”.
O delegado de polícia concorda que o ritmo é lento mas defende a posição dos investigadores: “A perícia tem que ser cuidadosa pra não deixar passar nada. É trabalho de formiguinha mesmo”. Para as autoridades uma coisa é certa: não se trata de um principiante. “Este elemento é cobra criada e escorrega feito peixe. Macacos me mordam! Aliás, mordiam”. Como se não bastassem os problemas da polícia no zôo, uma denúncia anônima informou que o próximo alvo do gatuno seria a prefeitura de São Paulo onde existem muitas vítimas em potencial: alem da anta, ali vivem também preguiças, traíras, robalos e papa-propinas.
Durante a semana, as autoridades investigaram alguns ex-funcionários do zôo e chegaram a prender um deles que portava um frasco suspeito. No fim, a polícia deu com os burros n’água. O conteúdo do frasco não era veneno mas apenas água-que-passarinho-não-bebe. “Tive medo de virar bode expiatório desta tragédia” declarou o ex-suspeito quando foi libertado. “Eu louvo a Deus por ter me tirado desse perereco”.
Enquanto isso, em furo de reportagem, a Tabuletra conseguiu contactar o terrível carcará que se identificou com o nome fictício de Lobo e respondeu a algumas perguntas.
A Tabuletra: Por que você está fazendo isso?
Lobo: Eu era pedinte ali perto do parque mas ninguém me ajudava. Sempre fui tratado como um cachorro. Todo mundo dava comida aos macacos e não dava nada para mim. Agora é a hora da onça beber água! No próximo verão não vai sobrar nem uma andorinha.
A Tabuletra: Você não tem medo de ser preso?
Lobo: Esse pessoal que está cuidando do caso é tudo cabeça de minhoca. Bagrinho pensando que é tubarão. Nunca mataram um mosquito e agora acham que vão cantar de galo. Vão é pagar muito mico. Não me pegam tão cedo. Podem tirar o cavalinho da chuva.
A Tabuletra: Você não teria um jeito mais produtivo de expressar a sua revolta?
Lobo: Pra começar, detesto quando dizem que sou um desocupado sem nada melhor para fazer. Quando isso acontece, eu viro bicho. Eu faço terrorismo urbano. E posso te dizer: fazer sucesso nesta atividade não é mole não. A gente tem quer matar um leão por dia.
Letra Morta
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Caindo a ficha
Estou me tocando aos poucos de algumas coisas inusitadas que eu vou ter que fazer para virar ferreiro:
Comprar uma bigorna.
Construir uma forja em casa.
Usar um avental de couro (depois de decidir não comprar mais nada desse material).
Até aí tudo bem, mas o que é o mais surreal é que...
A prática de ferragem inicialmente é feita em patas de cavalos mortos, obtidas em matadouros, ainda acopladas à parte de baixo da perna!
... eca!
(...)
Aprendiz de ferreiro
Hoje foi o início oficial do meu aprendizado como ferreiro.
Acho que levo jeito para a coisa... hoje eu iria só ajudar passando a escova de aço nas patas dos cavalos para aprender a segurar as patas e para começar a acostumar às posições em que se tem que trabalhar, mas meu professor achou que eu estava bem à vontade fazendo o serviço e eu acabei fazendo um monte de coisas a mais, inclusive removendo ferraduras.
Lição do dia... ferradura quente + dedo = OUCH!
Amanhã é que eu vou ver como é que meu corpo vai estar. O trabalho é meio que pesado. :)
Entre Quatro Estações
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Ratapulgo
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2.3.04
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São os vermes que formam o húmus.
Os coqueiros só atraem relâmpagos.
As janelas do quarto estão fechadas mas eu sei que tem alguém me espionando. De dentro. Remoendo a memória. Um Cristo posando para a posteridade de gesso. Um Bel Air ano 57 sobre a mesa. A TV Emerson. A Frigidaire. Sobre os sofás pés de palito, minhas bonecas desmembradas fazem sombra. Meu pai a cabeça, minha mãe os braços, minha irmã as pernas. Eu junto toda a família e lembro de coisas que não me interessam: há dois dias, vejam só, num jantar informal na casa de L.B., a quem só conheço de mesas de bar, um sujeito com um copo de Cuttysark na mão me confidenciou seus temores. Disse que como ex-oficial da inteligência do exército brasileiro, via com preocupação a nossa "situação" em Foz do Iguaçu. Como assim?, eu perguntei, com a minha melhor expressão de espírito livre. Ele virou os olhos para um bonsai sobre a mesa e ali fixou-os por uns trinta segundos, sem me responder nada. Tive tempo de acender um cigarro, dar dois tragos e reabastecer o meu copo. Vejo com preocupação o interesse norte-americano na região de Foz do Iguaçu, ele repetiu. Essa justificativa de haver terroristas na região. Isso é preocupante. Não nos convém. Afeganistão, Iraque, agora o Haiti. Não sei não. Muito preocupante. Não foi Caetano quem disse naquela música:"o Haiti é aqui"? O Havaí, eu corrigi, começando a me coçar. Eu já conhecia essa história. Eu não queria conversar com um milico, não queria admitir a possibilidade de uma invasão. Me lembrei do pau-de-arara e molhei as calças. Deixei o cara falando sozinho e fui pro banheiro. Os tempos mudam mas minha memória é uma esponja. Não sei quando vou superar. Abro as janelas e o lado de dentro não sai.
Prosa Caotica
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Álbum de recordações
Coisas que caem das prateleiras empoeiradas em cima da minha cabeça
Quando eu tinha entre 7 e 8 anos, meu avô em levou prá pescar. Lembro-me que ele passou horas ensinando-me pacientemente tudo sobre iscas vivas, mortas e artificiais; sobre como se usar corretamente o molinete e a não berrar como uma moça quando um anzol japonês nº15 atravessar o seu dedo indicador.
Alea Jacta Est
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1.3.04
Top 10 Joselito
Ou "as mais chavônicas brincadeiras de mau gosto"
Enviado por Ricardo
1. Pisar no tênis novo pra "batizar"
2. Em baile de formatura, ficar puxando a camisa do amigo pra fora da calça
3. Na aula, queimar a bunda do colega da frente com isqueiro
4. Peteleco na orelha
5. Chamar quando o cara tá de costas e deixar o dedo do lado do rosto, pra quando virar dar no olho
6. Espirrar e limpar a mão no amigo
7. Amarrar o cadarço do tênis um no outro
8. Cama de gato
9. Par ou ímpar arrancando pêlos
10. Roubar o boné e ficar jogando um pro outro
Homem Chavão
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QUARESMA
Cheiro de mijo subindo da calçada grita Quarta-feira de Cinzas, alegria perdida. Esse fedor é a única coisa que fala nas ruas do Centro, o resto é um silêncio de cadáver. Bati a porta de ferro do prédio na saída da Rio Branco e me assustei com o fim de festa nítido no que não era dito nem cantado, na falta de um refrão pra puxar um monte de gente que também faltava. Um silêncio duro, fedido de doer. Um jornalista antigo me contou de um plantão quando o jornal funcionava noutro prédio, um caixotão mais pra perto do cais. Passou uma madrugada toda de carnaval lá sozinho. Olhava a sala sem fundo, por cima das mesas, das baias e das máquinas, poucas lâmpadas acesas, ninguém. Morrer deve ser isso: uma redação vazia e um bloco passando lá fora. Aquela gente toda, cadê?
Que coisa que eu vi no Simpatia é quase amor. Na verdade, fora dele: lá de baixo vi a doentinha da janela, olhando pra gente passando na Vieira Souto. Uma mulher de camisola branca, nem acenar acenava, nem jogar confete. De todo mundo que via a festa passar longe, vigiando do alto - e são sempre muitos - aquela era a única que queria descer, vontade inútil nos olhos vegetativos. Tomara que tenha sido só ressaca da noite anterior, que tenha brincado muito, que tenha saído muito alegre e alguém num bloco tenha parado na sua boca um minuto, cantado um número de telefone pra ela ligar quando curasse o porre. Aquela gente toda, cadê?
Eu não entendo porra nenhuma de carnaval. É uma besteira pra esquecer outras besteiras. Atrás de uma bateria e de um carro de som, é tudo besteira. É isso e mais alguma coisa, que a minha burrice não alcança. Já fico satisfeita de lembrar de cada bloco que acompanhei este ano. Escravos da Mauá, Simpatia é quase amor, Bola Preta, Bip Bip, Bloco de Segunda, Banda de Ipanema, Charanga 3D e Lapa. Fui ainda no Fla Flu de sábado (maracanã no carnaval, meu time ganhando: isso é mais ópio que De Quincey consumiu a vida toda), num baile inusitado, no baile mais respeitável da Orquestra Imperial, na despedida de um tal de Emanuelle que viajou e eu continuo sem saber quem é, assisti a quatro filmes, dei plantão no jornal em dois dias. E mexi num capítulo do livro.
(...)
PROCESSO PERVERTIDO
Decidi entregar na mão deles e ver o que acontece. Não adianta tentar controlar. Se o velho com a boca e os intestinos podres decidir morar na casa, que more. Se a garota decidir dar pra ele, que dê. Se a autora fizer vista grossa, que faça. Assino embaixo depois e ficamos todos livres.
"vida é o mundo"
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Ratapulgo
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MEUS CACHORROS
Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha
Eu tive meus cachorros e fui me desvencilhando das cordas e coleiras, da proximidade. Não criei mais laços com os latidos. Finjo que não tenho mãos para demonstrar afeto. Meus cães eram vivazes, vira-latas, baldios. O primeiro tinha o nome de Xodó e a empregada tratou de deixar o portão aberto de propósito. Nunca mais foi visto. Nem ele muito menos a empregada. O segundo surgiu no dia 7 de setembro e dei o nome de Sete. Eu assistia Moby Dick e chovia canivetes. Apareceu na porta, encolhido, doente e famigerado. Pedia uma vida para dar. Não sei como consegui convencer minha mãe. Criança tem seus truques. Depois de adulto, nossas mentiras assumem cacoetes e são percebidas a distância. Sete morreu ao escapar de meus braços e cruzar a rua. Era o meu aniversário, três anos juntos, seu pêlo castanho combinava com meus cabelos loiros. Ele jogava futebol com laranjas. Andava pelos muros como um gato. Me lambia no rosto quando chorava. Estava colocando uma camisa nele. Claro, que cachorro não gosta de bancar o boneco de pelúcia. Ele se revoltou com a blusa e pulou para fora da calçada. Um carro o fez vento e velocímetro. A culpa me engasgou e virou asma. Eu vi Sete se despedir debaixo das rodas. Seu olhar de pulseira de relógio, o gemido do ponteiro, que qualquer um pode escutar ao aproximar o tempo do ouvido. O gemido longo - início de um uivo - que guardei no pátio, com uma cruz, feita de uma antiga pipa, e a inscrição: "Meu cachorro não sofre do medo do paraíso".
.:. Fabricio Carpinejar .:.
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Ratapulgo
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O jogo dos palavrões
O menino puxou a manga do pai e disse, baixinho:
- Eles estão falando palavrão.
Era a primeira vez que ele levava o filho ao estádio. E a torcida não colaborava. Olhou em volta e viu cerca de dez mil pessoas em pé, insistindo numa hipotética ligação entre o apito, os bandeirinhas e a mãe do juiz. Pegou a mão do filho:
- Augusto... o estádio é o único lugar do mundo onde as pessoas podem falar palavrão. O único. Em qualquer outro lugar, você sabe o que acontece... aquilo que tua mãe te ensinou.
- Fica com a boca suja?
- É. Fica com a boca suja. Menos no estádio.
- Por quê?
- Por quê? Bem, era preciso ter um lugar no mundo onde as mães deixassem a gente falar palavrão, não é?
O menino concordou com a cabeça, satisfeito com a lógica da resposta. Não era de se espantar que o lugar fosse tão grande, e estivesse tão cheio.
O jogo corria nervoso. Houve um breve momento de silêncio, quebrado por um grito estridente:
- Filha da puta!
Era o menino.
- Filha da puta vai tomar no cu filha da puta!
Todos aqueles torcedores bêbados, barrigudos, sem camisa, todos aqueles assaltantes, camelôs, motoboys e taxistas, todos pararam de cuspir e arremessar sacos de urina no campo e olharam horrorizados. Que tipo de pai deixaria uma criança gritar daquele jeito? Que tipo de educação era aquela?
- Augusto! Pára com isso!
- Por quê?
- Por que o quê?
- Você disse que aqui a gente podia falar palavrão.
- Aqui a gente pode falar palavrão. Mas não agora.
- Por quê?
- Como por quê? São as regras. Você tem que ter um motivo pra xingar. Tem que esperar acontecer alguma coisa importante.
E o que era mais importante que o gol do seu time? Os assaltantes, camelôs, motoboys e taxistas se levantaram, unidos por um único urro de alegria. O menino não teve dúvida:
- Puta que pariu filha da puta!
O pai tapou-lhe a boca e olhou em volta com um sorriso de constrangimento... esse menino...
Daí em diante, Augusto teve muitas oportunidades de xingar à vontade: um gol anulado, dois pênaltis não marcados, um cartão vermelho e dezenas de faltas.
Quando o jogo acabou, o menino estava exultante. Nunca se divertira tanto em sua vida. O time perdera por três a um. Quem dera fosse por quatro. Cinco. Seis. O objetivo maior era ou não era xingar? Na portão de saída, não saiu.
- Que foi?