Se a igreja católica pretende mesmo disputar otários com as evangélicas, neopentecostais e outros cassinos, precisa cuidar de sua comunicação. Hoje passei na frente de um outdoor católico: JESUS, FONTE DA ÁGUA VIVA. Cazzo, o que isso quer dizer? Água viva? Aquele bicho-geléia que queima o pé da gente na praia? E CORDEIRO DE DEUS, que vem escrito naquele papel distribuído na igreja? O que significa? Por favor, não me explique. O cara que entra pela primeira vez não entende nada e cai fora. Ou fica lá repetindo palavras incompreensíveis. É por isso que se chama rebanho. Na porta de saída, depois da água benta, dá 10 centavos ao fudido que ali faz ponto e aplaca a pesada consciência. Até o próximo domingo, depois de passar a semana inteira cagando para o próximo.
catarro verde
20.2.04
A tristeza chega lagarto, botando sua língua roxa pra fora, caminhando lenta, rebolando verde e ameaçadoramente porta adentro. Ela quer minhas crias, fareja subreptícia as flores murchas da semana passada, os restos de comida na pia, as lágrimas secas choradas em segredo. Ela me conhece, sabe dos meus viveiros vazios, das minhas jóias falsas, da página rasgada daquele livro. Ela me espreita com olhos em lâmina e eu, minguante, vou morrendo aos pouquinhos.
Não Discuto
Postado por
Ratapulgo
às
20.2.04
0
grudados
Na net ninguém esta a salvo.
Eu passeava por uns blog's e vi uma foto de uma pessoa que nunca imaginei pudesse estar no lugar onde a foto foi tirada. Como sou um ser humano que não deixa nada de graça, liguei para essa pessoa e indaguei se ela estaria no dia tal em determinado lugar, e essa pessoa antes de responder perguntou como eu poderia saber? Eu disse que minha cartomante é do caralho e, diante desse argumento irrefutável, confessou que esteve nesse determinado local e perguntou se eu poderia marcar uma hora na minha cartomante. A pergunta, será que eu marco?
veleidade
Postado por
Ratapulgo
às
20.2.04
0
grudados
19.2.04
Bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí
No caminho da estação do trem até o escritório tem uma floricultura. A primeira vez que passei por ela, não percebi nada de incomum, apenas flores, arranjos, baldes cheios de rosas, gérberas, lisiantus e afins. Na segunda vez, achei curioso, mas nada demais. Quando na terceira o fenômeno se repetiu, torci o pescoço procurando o passarinho. Explico: era passar ali na porta e um passarinho fazia um piu-piu, sempre igual. Decerto um boneco daqueles com sensores, que dispara ao alguém passar à frente.
Tornou-se rotina. Comecei a aguardar com alguma ansiedade o momento de passar em frente à porta da floricultura e ouvir o assovio artificial do boneco que nunca, jamais vi, por mais que vasculhasse o interior do lugar com os olhos procurando não dar muita bandeira pros lá de dentro. Era pisar a calçada contígua, ajeitava o livro embaixo do braço, enfiava as mãos nos bolsos e apurava os ouvidos. Aquele piu-piu era um "have a nice day", pra mim, um sopro de bom humor logo no comecinho do dia. Você faz idéia do que significa um sopro de bom humor logo no comecinho do dia? O quanto isso vale?
É que faz já uma semana que o passarinho morreu. Sei lá, não toca mais piu piu nenhum quando passo lá. Maior frustração. Tentei até mesmo pisar dentro da floricultura uma vez, a ver se chegando mais perto... nada. Me vi de barba por fazer, o olhar desvairado, andando por aí sem sentido. Minha mulher reclamando, as pessoas passando a me evitar, eu arrancando os cabelos pelas esquinas, refém de um mistério insolúvel. Me vi também um dia parando ali e perguntando: ei, cadê o bichinho que apitava aqui todo dia quando eu passava?
Não, não. Nem uma coisa nem outra. Sobreviverei na minha sandice moderada, a despeito de não ter mais esse sopro matinal. E também não vou perguntar nada ao povo da floricultura, que um pouco de mistério faz bem.
Provavelmente eles se encheram o saco de ouvir aquele piu piu todo dia o dia todo sempre que qualquer um passa ali, e deram um fim nele. Não sei. Um pouco de mistério faz bem.
É por aqui que vai pra lá?
Postado por
Ratapulgo
às
19.2.04
0
grudados
Depois do café de uma manhã das comuns entrei no meu quarto. Fechei a porta. Ninguém me ouviria. Comecei a rasgar todos os meus livros. Primeiro os contemporâneos, depois os clássicos. Não tinha ninguém ali para me impedir. Eu não chorava. Minhas mãos trabalhavam rápido. Paul Bowles, Thomas Bernhard, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Maiakovski, dicionários, glossários, antologias, revistas culturais, jornais, toda a Biblioteca Nacional e Drummond. Eu não havia bebido, sem frontal, sem referência, sem vontade de morrer, sem filosofia. A literatura é mercado. A arte é mercado. E uma idiota como eu acha que a vida é isso. Aparecer escrevendo. Vou parar de escrever, vou acabar com este blog, vou virar pedinte nas ruas de Copacabana, carregando um saco dos livros que rasguei. Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, vocês vão achar que é mais um post. Vou vender letras para sobreviver. Livros rasgados. Me dê um real aí que eu te dou um pedaço de livro. Dessas bostas que eu leio todo dia, por prazer e para sobreviver. Dessas bostas que as editoras compram e publicam. Destas bostas de editoras. Grandes e pequenas. Todas a mesma merda. Só muda o nome. Todas nepotistas, todas tribalistas. Se você não é do comando, tá fora. Sei, não precisa me dizer, ressentida? Não, realista. Leio leio os novos, bonitos, vazios, leio leio os velhos, bonitos, os clássicos. Todos que procuro imitar, que eles imitaram e imitam também. Daí vem aquele papinho chato, escritor de blog? Não, não sou escritor de blog, o blog é um instrumento. Vá se foder. O blog é um instrumento até você achar uma editora que te banque. Até tudo que você pensa sair em forma de papel. Papel para vender. Onde uns meia dúzia pagam e você continua duro, porque não é um Paulo Coelho ou Ubaldo, nem está falando de sexo, doenças ou de cidades de deus. Daí você sai em papel e abandona o blog ou o transforma em instrumento de marketing pessoal, pra você vender o seu livrinho on-line medíocre, porque você não é uma Clarice Lispector, você não é um Paulo Francis, você não é um John Fante, você não é uma Hilda Hilst, você não é. Para mimar a sua vaidade, você quer o livrinho em papel pra descolar, quem sabe, uma notinha ou resenha em jornal, que vai dizer que você escreve de uma forma diferente e moderna o que outros cansaram de dizer. Ok, sem problema, faça o que quiser. Quem sou eu pra julgar? Pouco me importa, se você quer saber. Acabei de rasgar meu último livro agora. Rápido, não foi? Acredite se quiser. Mas, apesar de tudo, continue escrevendo se lhe der na telha, pois pode ser que um dia a gente aprenda e a vida pare de imprimir rascunhos.
Prosa Caotica
Postado por
Ratapulgo
às
19.2.04
0
grudados
Marido chegou, deu abracinho, beijinho, comeu o PIOR macarrão que eu já fiz na vida, arrumou o varal, disse que a casa tá ótema e que a faxineira não faz falta, ajudou na tradução, deu abracinho, beijinho, contou fofocas, chamou eu de fumiga, ouviu minha longa narração sobre as virtudes artísticas do Clodovil, falou mal da Martaxa, do Lula-lelé, do síndico, deu abracinho, beijinho e foi nanar. Amém nóis tudo.
¡Drops da Fal!
Postado por
Ratapulgo
às
19.2.04
0
grudados
Mas então hoje eu abri minha caixa que estava guardada há sei lá quantos anos, desde que eu me casei e mudei daqui (da primeira vez, claro) e não podia levar esse monte de absurdos, porque vai que o marido tem um acesso de curiosidade e lê.
Putz. Tem diários meus escritos dos 15 aos 21 anos. Não são exatamente diários, são agendas. Tem os filmes que eu vi, os discos que eu comprei, os caras que eu beijei, pra quem eu dei, ou seja: exatamente como este blog aqui hahahahhahah.
Não li tudo, pelamordedeus. Nem eu mesma me interesso por aquilo. Mas tem informações interessantes, como por exemplo, o dia em que eu perdi a virgindade. Não me lembrava mais (aliás, já esqueci de novo). Bom, quando chegar a data eu escrevo um post pra comemorar.
Não mudei quase nada, a não ser a minha letra, que era bem bonita e agora é um garrancho incompreensível que nem eu mesma entendo, e se eu fosse descrever os diários poderia usar o mesmo texto que tá ali do lado esquerdo:
seus amores (hahahaha),
seus ódios,
seu copo,
seus clichês
e etc.
só que antes eu até que tinha uma certa fé e agora não tenho nenhuma, computadores eram primitivos e eu não vivia numa ilha imaginária.
***
Nos trechos que li, encontrei o dia do chá de cogumelo, que eu já contei aqui e foi uma coisa totalmente hilária, mas não me lembrava disso:
"dormi com o Marcos na cama do David? Só pode ter sido efeito do melo"
hahahhahha fala sério. Eu chamava cogumelo de "melo". O David é aquele amigo que muito tempo depois virou gay. Não me lembro de jamais ter dormido na casa dele, muito menos com o Marcos, que já nem era meu namorado na época.
Que absurdo.
***
Agora não sei o que fazer com isso. Preciso destruir essas coisas, porque se alguém ler eu vou morrer de vergonha, mas também não posso eliminar os últimos vestígios da minha memória remota. Sei lá.
E ainda bem que eu tenho blog, pelo menos os últimos 3 anos da minha vida estão registrados, se bem que tem muita coisa sem lógica, que eu leio e não sei mais do que estava falando, e coisas que nunca contei, e coisas que deletei, e ah, também não é nada tão importante assim.
***
O chá de cogumelo
Um dia, nos distantes anos 80, estávamos sem fazer nada em Valinhos (redundância) e alguém teve a brilhante idéia:
- Vamos fazer um chá de cogumelo! Dá o maior barato!
Acho que deve ter sido o Marcos, só pode ter sido ele que disse isso. Mas não sei mais. Então fomos procurar os "fungos" em algum pasto e fomos para a casa do David, que estava "vazia" (ou seja, os pais dele não estavam lá).
Pusemos os cogus pra cozinhar, não sei bem como. Algum dos presentes dominava a "técnica", ou pensava que dominava.
Então o chá ficou pronto e tomamos. Me lembro que era horrível, mas não mais horrível do que chá de boldo e muito menos horrível do que chá de losna. Eca, pra que fui falar em losna? Puta coisa ruim. hahahhahahha
Aí ficamos esperando "bater". Nada acontecia. Ninguém estava vendo as paredes em chamas, o chão derreter ou o céu ser devorado por cíclopes roxos com bolinhas cor-de-rosa, e foi aí que o barato começou:
- Gente! Gente! Esse chá corrói os dentes, nós vamos ficar banguelas! Tem que escovar os dentes agora mesmo, senão nós estamos fodidos!
Deu um pânico geral, puta bad trip mesmo hahhhahahhaha, fomos pro banheiro e todos nós escovamos os dentes com a mesma escova.
E esse foi o único barato que aquele chá deu. Nunca mais tomei. hahahhahaha.
Sampa demais na Ilha de Siris
Postado por
Ratapulgo
às
19.2.04
0
grudados
18.2.04
coisas que eu adoro feitas de coisas que eu odeio. e vice-versa
odeio azeitona. adoro azeite.
odeio suco de tomate (e bloody mary.) adoro tomate.
odeio uva. adoro uva-passa. (gosto de vinho.)
odeio vísceras de qualquer animal. adoro salsicha.
odeio bacon. adoro baconzitos.
odeio chuchú. adoro souflê de chuchú.
odeio gin. adoro gin-tônica.
odeio queijada. adoro queijo.
odeio pamonha. adoro milho.
odeio o vasco. adoro futebol.
odeio goiaba. adoro goibada.
odeio barriga. adoro sobremesa.
adoro o começo. odeio o fim.
caráio...
Postado por
Jan
às
18.2.04
0
grudados
Eu também quero ser malditão. O segredo de ser escritor maldito é beber mal. É preciso vomitar bastante, fazer cena, chutar bandejas das mãos de velhinhas. Ajuda viver numa pensão fedida e ter como amantes duas prostitutas feias de cinqüenta anos chamadas Ermocília e La Guapíssima. Os críticos decidem se um escritor é maldito vendo os bairros em que os escritores moram - é um gênero em que o estudo cuidadoso dos CEPs é mais importante que o da estilística - e medindo a beleza de suas prostitutas.
O crítico é apresentado ao escritor numa festa e pergunta:
-Você mora onde?
-Na Comendador Faria Mello.
-No centro? Bom. Mais perto da Brigadeiro Tobias ou da praça Professor Otacílio?
-Mais perto da praça.
-Depois das Casas Bahia?
-Antes, antes.
O crítico pensa um pouco, tira um caderninho do bolso e diz:
-Estou escrevendo um artigo sobre os novos escritores malditos, pode me dizer o seu nome...?
O maldito Alexandre Soares Silva
Postado por
Jan
às
18.2.04
0
grudados
17.2.04
Hoje eu paro de tomar remédio pra poder beber no carnaval.
Carnaval sem bebida não é nada, fora que já não vou poder sambar, meu namorado proibiu, disse que se eu botar o pé na avenida ele me tira de lá a tapa e ainda me bota de castigo amarrada na cama.
Eu que não sou boba obedeço, ele é bravo e cheio dessas manias. Da última vez pingou velas em mim porque disse que eu não me comportei durante o jantar, muito maldoso ele, a única coisa engraçada foi aquela fantasia de zorro que ele insistiu em vestir com a espada em punho.
Até que estou gostando disso tudo, ainda bem que ele não tem tendências infantis, é mais morderninho, porque se fosse aquelas coisas de Roda Peão, Cavalinho, Trepa-Trepa, Gangorra e Roda Gigante, eu estaria ferrada, no bom e no mal sentido.
casos e acasos virtuais
Postado por
Jan
às
17.2.04
0
grudados
Tenho esse andar manco.
Essa cara disforme.
Uma veia saltada na perna.
Mania de furar a fila, cortar barato.
Tenho a pele do rosto furada.
A voz em falsete.
Essas olheiras profundas.
A letra bem feia.
Um olho cego. Os dentes tortos.
Não comprimento ninguém.
Quando o relógio toca, finjo que não ouço.
Não sou dada à crianças.
Se machuco o dedo chupo o sangue na hora.
Cabelo sujo, unha encravada.
Camisa virada.
Rogo pragas.
Quando cai bola no quintal, devolvo todas furadas.
Ao deitar, demoro pra pegar no sono.
Demônios me visitam, se aproveitam do meu medo do escuro.
Verrugas na testa, manchas nas costas.
Aftas enormes, pavor de cobras.
Quando choro baixinho, é cisco no olho.
Tenho meu orgulho.
Detesto segunda feira.
Não pago o dízimo, fugi da escola.
Reclamo, brigo, nego, destruo.
Não mexam comigo.
Só não consigo resistir quando toca essa música...
Dança ela comigo?
Old Style
Postado por
Jan
às
17.2.04
0
grudados
Clara Nasceu
Pessoal, segunda-feira as 12:33 (meio-diaaaa) a Clara nasceu, de parto natural, e estamos ótimas... ela mamou logo de cara, e eu sai andando da sala de parto, com a minhas perninhas :)
Ela pesava 3190gr e tem 49cm de comprimento, saimos ontem do hospital e ela já havia ganhado o peso que tinha perdido (a perda fisiológica) e eu estou ótima.
Meu parto foi bom, mas não foi rápido. Entretanto eu recomendo pensar duas vezes em desistir do parto normal (ou natural como quiserem chamar) só porque sentimos dores. Eu pude amamentar logo, ela ganhou peso e eu devo isso ao ótimo hospital.
Me perdoem a falta de foto hoje, amanhã acho que consigo postar algo. E a falta de notícias também, desculpem :)
beijos da Criss e da Clara.
amamentado no pulce.org - blog da Criss e da Clara :)
Postado por
Ratapulgo
às
17.2.04
0
grudados
16.2.04
Amar Emburrece
ADVERTÊNCIA: Quaisquer semelhanças entre as situações e personagens descritos a seguir com fatos reais NÃO são mera coincidência. Esta história foi originalmente produzida em preto & branco.
Como todos sabem, homens não são muito providos de inteligência natural. Apaixonados, então, tornam-se mais abobados ainda. Quando Alechandre viu Sessília pela primeira vez, seus olhos foram imediatamente fisgados. Nada como um belo par de pernas, cabelo chanel, mamilos querendo rasgar uma blusa justa e um sorriso sugestivo para ruir toda a racionalidade de um homem. Quando Alechandre encontrou Sessília pela primeira vez na pista de dança daquele barzinho, ele poderia jurar que todas as bocas se calaram, todas as estrelas se apagaram, o mundo todo caminhou na ponta dos pés e todas as rádios interromperam suas programações só para tocar The Killing Moon.
Mas enfim, amar é decretar uma chacina de neurônios.
Na condição de melhor amigo da vítima, fui testemunha privilegiada do processo de derrocada de Alechandre. Lembro-me muito bem de seu discurso derramadamente sentimental funcionando a todo vapor, comentando TODAS as suas afinidades com Sessília. Disse que ela lia Borges, Poe e Leminski; que seu jogo preferido do Atari era H.E.R.O.; que tinha a coleção completa de Sandman; que gostava de comer pão com manteiga e geléia de uva; que quando criança sonhara em ser chacrete, arquiteta e pintora antes de se tornar advogada; que gostava de yakult, Edward Munch e física quântica; que desistira de ler Ulisses porque cansava demais ficar carregando aquele calhamaço todo no ônibus; que seus ídolos eram Gaudi, Carl Barks e Clarice Lispector; que o que mais lhe doía na vida era a sensação de desamparo e vazio no peito toda vez que um amor acabava, e principalmente a sensação de pensar, "mas acabou de novo?"; que cantarolava Arnaldo Baptista enquanto tomava banho ("hoje percebi que venho me apegando às coisas materiais"); e que ao ouvi-la cantando justamente AQUELA música seu coração se encheu de ternura e seus olhos ficaram úmidos. E aí constatei, porra, o cara tinha caído direitinho na arapuca.
E depois de tudo isso, pra culminar, ele me diz: "putz Auberto, como é que NUNCA nos encontramos antes?". E aí fiquei pensando, quantas vezes já ouvi na vida variações em cima desta mesma frase? "I look at you and what I see is me", cantava o Pink Floyd, se é que minha memória pop não está enganada. Todos que se apaixonaram pelo menos uma vez na vida já passaram por essa fase de deslumbramento e assombro. Pena que quase sempre ela passa.
E mal sabia meu amigo que, a partir do momento em que seus olhos se umedeceram de ternura, começava ali sua derrocada na cadeia evolutiva, e que aquele rapaz promissor, um jovem jornalista recém-formado, em apenas duas semanas se veria transformado em um Neanderthal apaixonadão e completamente aparvalhado, capaz de brincar de mal-me-quer com um Haagen Dazs de cheesecake enfiado no meio da testa, com o sorriso mais alegre e estúpido do mundo estampado em um rosto subitamente repleto de espinhas.
Amar não é para amadores.
Quando a gente se esquece do tempo, é aí que ele passa mais depressa. Em questão de semanas Alechandre e Sessília percorreram todos os passos da via crucis da paixão. E de repente, tudo o que encantava tornou-se motivo de escárnio e ironias corrosivas. Citações de filmes tornaram-se "manifestações pretensamente intelectuais de erudição frustrada". Se antes os olhos brilhavam de paixão, agora faiscavam de rancor, sarcasmo, raiva. "Mas acabou de novo?".
Alechandre passou exatas duas semanas curtindo sua ressaca pós-amorosa em grande estilo. Estatelado em sua cama, olhando o teto branco de seu quarto na penumbra e ouvindo álbuns de Zezé di Camargo & Luciano, e o que é pior, identificando-se terrivelmente com TODAS as letras dos caras, e cantando em altos brados: "O tempo todo, o dia inteiro/ Sinto o seu corpo, sinto o seu cheiro/ E a minha vida é só pensar em você...". Fatos que corroboraram, definitivamente, a minha tese: amar emburrece.
Hoje, três meses depois, Alechandre não pára de falar na Jizele, que tem 25 anos, 271 CDs e "o sorriso mais cool do mundo", segundo suas próprias palavras. Por mais que ele quebre a cara, não aprende as lições. Discutindo sobre a imbecilidade da paixão, Alechandre disse que preferia ser o rei dos débeis mentais a insistir na "medíocre e conformada estupidez de um cético blasé neo-liberal", obviamente referindo-se a mim, tsc, tsc. Ah, a verborragia dos apaixonados.
Observando essas cenas, pergunto-me: será que um dia chegarei a tal estado de torpência mental? Espero eu que não. É preciso estar sempre alerta para os riscos da paixão: olho para os dois lados antes de atravessar a rua, atento a movimentos de estranhas, essas coisas. Mas já deixei minha família de sobreaviso. Se um dia eu for pego pela armadilha do amor, quero que os aparelhos sejam desligados. Não desejo sofrimentos desnecessários.
Pensar Enlouquece. Pense Nisto.
Postado por
Ratapulgo
às
16.2.04
0
grudados
goodbye ruby tuesday
Eu adoraria consegui dizer uma coisa definitiva. Aliás, gostaria de sentir uma coisa definitiva, isto é, tomar uma decisão interna e mantê-la aconteça o que acontecer. Mas não adianta, sempre acabo me rendendo.
Eu queria tanto uma semana ao menos de estabilidade, de certeza. Algo para eu me lembrar depois que as interrogações voltassem. Mas não, os momentos certos não duram mais do que minutos.
god only knows...
Postado por
Ratapulgo
às
16.2.04
0
grudados
Acontece...
Ontem eu notei algo estranho. Você não faz a menor falta. Do amigo que você era so sobrou lembrança, alguns apelidos, presentes, cartas, comentarios no blog. Acabou assim, você lá precisando de alguém pra conversar, eu aqui sentindo falta do meu melhor amigo, mas e daí? Já perdi antes e to perdendo de novo, grande coisa...Grande sim, mas se esvaiu, foi embora como tantas outras coisas menores e maiores na vida da gente. Eu não vou conseguir te dizer isso cara a cara porque doi em mim e em você, mas se você liga ou não liga não faz a menor diferença, e eu sei que ninguem mais nessa vida vai saber tanto de mim, mas acabei entendendo que as pessoas tem missões e a sua acabou. A minha tambem. Pode até ser que a gente se veja algum dia, tenho um mundo de livros pra te devolver, mas eu sei que nossos olhos não se cruzam novamente, ainda que eu esteja olhando pra você. Vou te amar pra sempre mas não quero mais te ver.
Garota Perdida
Postado por
Ratapulgo
às
16.2.04
0
grudados
14.2.04
Os limites da amizade
Ontem encontrei uma amiga minha, uma das minhas melhores amigas, aliás, que me contou que conhece um dos 03 caras que fizeram aqueles dois rapazes se jogarem do trem, aqui em Mogi. O que até hoje não se apresentou à polícia estudava em sua sala.
Pouco tempo depois do ocorrido, alguns amigos do sujeito ligaram para o namorado dela, que também era bem próximo do dito cujo, para que fosse visitá-lo em seu "esconderijo", pois estava abalado, precisando de uma força e tal. A reação do namorado da minha amiga foi algo como "Mas ele não é meu amigo mais... porra, o cara é um assassino, e vocês querem que eu vá lá dar força pra ele? Ele que pague pelo que fez sozinho!".
Aí eu fiquei pensando em como eu reagiria no lugar dele. E se aquela moça com quem conversava, que estava ali do meu lado, e que tanto amo, cometesse um crime hediondo? Se matasse, ou fizesse muito mal a alguém? Seria certo virar as costas para ela?
O que constitui uma relação de amizade? É possível haver companheirismo para todas as horas, todas mesmo? Até mesmo aquelas em que o seu amigo faz coisas absolutamente condenáveis do seu ponto de vista ético? Para mim, sentimentos de amizade têm muito de admiração também. Admiração pelo caráter do outro, seu jeito de ser, de ver a vida, de se relacionar com o mundo. Questionei-me se a amizade pode continuar existindo mesmo depois dessa "admiração" ser fortemente abalada. Se é possível apoiar seu amigo sem sentir-se seu cúmplice em algo que você condena.
Nenhuma resposta para aliviar.
Não sei dançar.
Postado por
Ratapulgo
às
14.2.04
0
grudados
13.2.04
Eu gosto de ser bem atendido
Adentrei a loja de heavy metal com o objetivo de comprar uma camisa do Massacration, a única banda que respeito pelo excelente trabalho e por representar o verdadeiro espírito do metal. Sim, estou sendo irônico.
"Bom dia", disse ao atendente coroa e mau-humorado, que lia uma revista sobre metal e devorava um pacote de amendoins, atrás do balcão cheio de adesivos, pingentes, cd´s, braceletes e toda aquela parafernália típica de lojas de metal. Após ouvir um grunhido que deveria ser a resposta, perguntei se eles vendiam a camisa ou se saberia me informar como posso conseguir uma.
Ele, tão educado quanto um carro de som anunciando baile funk em procissão funerária, sem desviar o olhar da revista que lia, apontou para uma arara de camisas e disse:
- Nem sei, ô. Vê ali.
Abri meu melhor sorriso de "tomara que você morra com uma prisão de ventre crônica" e fui até a arara. Olhei aquele monte de camisas de bandas, caveiras, monstros e aberrações, sem sucesso. Nada da camisa do Massacration.
"Uma pena", pensei, num muxoxo. Desta feita, encaminhei-me para a saída, quando fui abordado pelo mesmo vendedor, que entre um grunhido e um "Ôôô, psiu!", perguntou:
- Tem a camisa?
E eu, que não nasci pra santo, apontei pra arara e lasquei:
- Vê ali.
neurociência das chiks peitudas
Postado por
Jan
às
13.2.04
0
grudados
12.2.04
Se Tolkien fosse brasileiro
Se Tolkien fosse brasileiro seria publicado pela José Olympio e estudado por Antonio Candido, que o compararia a Murilo Rubião e José J. Veiga. Iria aos sabadoyles, sairia pra rua de chinelo comprar pão, se filiaria à CUT, escreveria um livro sobre o Palmeiras. Frodo se chamaria Anhangaquara, Saruman se chamaria Cupuaçã. A Terra Média seria uma alegoria mal-disfarçada do Brasil sob a ditadura e Dias Gomes faria uma novela sobre isso, O Coronel dos Anéis, com música dos Secos e Molhados e Mário Gomes no papel do guerreiro Zé Aragão. Não é o tempo que estraga tudo, é o Brasil.
Alexandre Soares Silva
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
Para quem gosta de estudar Inglês de maneira rápida e eficiente:
Curso rápido de inglês (Ou: a foquim inglich cors)
Quando você faz um curso de inglês convencional você aprende a falar inglês almofadinha que só serve para se comunicar com os PhD da vida, e olha lá. Aí você chega a um país anglofono e percebe que aquilo que você fala não é entendido pelo povo no seu dia a dia. Você fala e todo mundo fica olhando com aquela cara como se estivessem esperando o desenlace de uma piada. É muito constrangedor, depois de 550 pontos no TOEFL...
O negócio é aprender a falar nas ruas de New York. Se você não pode pagar uma viagem a New York, então recomendamos seguir estas curtas indicações fonéticas. Garantimos absoluto sucesso na sua comunicação com os nativos. Eles entenderão direitinho o que você quer dizer.
a.. Se você quer uma Coca-Cola, diga:
- GUIMI A COUC.
b.. Se você quer comer uns ovos com presunto, diga:
- RAM AN EGGS.
c.. Se você prende o dedo na porta do táxi, grite:
- FOC!
d.. Se algo lhe parece muito caro, diga:
- FOC!
e.. Se levar um escorregão no metrô, diga:
- FOC!
f.. Se você for assaltado no Bronx, diga:
- FOC!
g.. Se você dá de cara com um mulherão tipo Kim Bassinger, diga:
- UARA FOC!
h.. Se alguém lhe grita algo que contenha FOC, responda:
- FOQUIU TU.
i.. Se você perde seu passaporte, chame a policia e diga:
- AI LOST MAI FOQUIN PEIPERS.
j.. Se você se perder na cidade, grite:
- AI AM FOQUIN LOST.
k.. Quando se referir a uma terceira pessoa, outro sujeito, diga:
- DE FOQUIN GAI OVERDER.
l.. Se está a fim de transar com aquela morena espetacular, diga-lhe:
- AI UANA FOC WIT YU.
m.. Se está a fim de transar com aquela loira espetacular, diga-lhe:
- RELOU, CAN AI FOQUIU?
n.. Se não souber onde pegar um táxi, pergunte:
- RAO TU GUET A FOQUIN CAB?
o.. Se estiver muito chateado não diga REFOC, somente repita FOC várias vezes.
p.. Se perceber que alguém está querendo fazer gozação com você, pergunte:
- ARYU FOQUIN MI?
Se estas instruções não lhe servirem ... UAT DA FOC YU UANT?
'pearly'
Postado por
Jan
às
12.2.04
0
grudados
Tá, então eu vou contar logo do episódio da banana porque as pessoas já tão imaginativas demais. Sinto desapontar a todos nesse momento, vocês que nutriam toda uma expectativa achando que eu praticava cousas pouco ortodoxas envolvendo bananas e os muitos buracos que a pessoa possui.
Nã, calma.
Então deixa eu explicar o cenário humano daquele tempo.
A minha mãe.
(sempre ela, né? praticamente uma obsessão)
A minha mãe, ela sempre foi muito preocupada com a educação sexual das crianças (as dela, pelo menos). Não queria repetir o mesmo erro dos meus avós. Queria que fosse tudo logo esclarecido, o assunto tratado com naturalidade, assim, de onde vêm os bebês logo na primeira infância e bora lá. Mas aí vocês precisam perceber que era a minha mãe. Que ela erra a mão às vezes, porque bichinha, ela tem pouca noção demais. A pessoa mais cheia de boas intenções que há, mas nem sempre funciona adequadamente. Então foi a enciclopédia da educação sexual, mainha não acha que você precisa casar virgem, minha filha, só tem que ser com um moço bom de quem você goste, mas num escolha muito não que se demorar, a pessoa vai encruando. E sempre a vida toda eternamente até encher o saco, a história da camisinha. Camisinha, atenção todos, camisinha, nunca esqueçam, quando o negócio esquentar, lembrem de mainha e use camisinha.
Que, se tivéssemos realmente levado ao pé da letra, seríamos todos donzelos para a vida toda. Ou pior, gentes com graves questãs problemáticas na esfera psico-sexual.
Aí ela comprava milhares de camisinhas no supermercado. Milhões. Ninguém fazia sexo em tempo algum nunca e nem queria, éramos todos queijudinhos de marré marré marré e o pote das camisinhas tava ali, cheio. E eu tô colocando as coisas no masculino plural, antes que vocês estranhem, porque tenho dois irmãos. E essa é a regra da gramática. Tá. Os meninos, meudeus, eram tão zé-queijinho e inocentes de toda uma vida, que usavam as camisinhas pra encher d'água e ficar jogando no corredor da sala, um pro outro. Não havia realmente o menor perigo das pessoas praticarem o intercurso, e eu disse isso a ela, "mãe, pára de comprar essas camisas, porque tá ligada que num rola nada, né?", mas ela achava que devia, e quando ela acha que deve, melhor é deixar pra lá, num discuto.
Pronto.
Então ia passando o tempo. Ia passando e passando até que a hora do vamo-vê ia se aproximando, eu achava no meu juízo pelo menos, e aquelas camisas ali, e eu, e você ouve as pessoas falando, né? Não, porque camisinha faz o sujeito brochar, porque camisinha é uó, porque camisinha é ruim de colocar, porque a pessoa morga ali no meio do processo, porque. Mas tem que usar, de qualquer jeito em qualquer tempo tem que usar, meudeus, se eu num usar minha mãe me mata, valha-me, quero nem pensar. Eu acho que eu nem tinha o clássico medo de doer, de dar xabu, não, porque na verdade eu tinha o grande medo maior de todos, que era o de ser impenetrável (tapada, ou isso), mas depois desse maior medo de todos, vinha a história da camisinha. Meudeus, todo um processo se desenrolando, veja bem, já uma dificuldade, daqui que eu arranje um sujeito que me deflore vai ser um milênio, ainda mais um que seja bonzinho e legal, e depois de toda essa jornada em busca do pote de ouro, a pessoa correr o risco do cidadão se desanimar por causa da camisa? Num pode. Num pode de jeito manêra, Cristiane. Aprenda todas as técnicas possíveis que existem no mundo pra pessoa vestir a camisinha sem desandar a receita, e logo, e rápido, porque ninguém sabe quando é que o troço vai acontecer.
Tá.
Aí entra a banana, o "objeto" na casa da pessoa que mais se assemelharia a um pinto. E dizia que quanto maior mais difícil, escolhi uma banana super-extra-GG. Umas camisinhas, certo, lá do pote, e praticaremos. Não deve ser difícil.
A pessoa então se põe em seus aposentos e passa ali algum tempo. Porta fechada mas aquela coisa, sem chave. Tava ali na labuta de descobrir minhas habilidades quando o -mor chega do nada e dá uma batida na porta e entra sem esperar muito (é assim: quando as pessoas batem é só pra cumprir protocolo, que ninguém espera você dizer "pode entrar" nem nada da espécie - isso até hoje). Pois bateu uma vez e eu contraí os meus músculos todos que há e joguei tudo pra baixo da cama. Camisas e banana e coisas, fui o gatilho mais rápido do oeste. E o mongo entra então e diz algo como "purra! vem ver um negócio aqui na televisão! rápido!", e eu já dou um pulo da cama com um entusiasmo pra ver uma coisa na tevê como nunca houve antes. Ou depois.
Não lembro o que era, mas me entreteve de maneira tal que esqueci o "material" ali embaixo da cama pra sempre.
Pra sempre até sexta-feira, que era o dia de faxina aqui em casa, e a pessoa chega então da escola ali pelo meio-dia e vai entrando contente, imagine, tarde de sexta-feira, só a alegria no coração, lalalá, dobro no corredor e tá tudo lá: banana extra-mega-GG VESTIDA com uma camisa, camisas "usadas", camisas intactas (hoje penso que eu era muito estragada, ou a memória faz isso de multiplicar as coisas, mas o que ficou na figura do juízo foi aquele monte de camisa junto com o lixo varrido do quarto e a banana, claro).
Isso Tidinha (a faxineira) varrendo e limpando e assobiando assim, como se não tivesse acontecendo nada.
Minha primeira reação então, instalado o pânico, foi gritar.
- AAAAAHHHH!
Desse jeito que as pessoas gritam.
O que é que eu faço mamãe o que é que faço agora? Estou destroçada. Vão tirar meu couro até o fim dos tempos. Como vou explicar isso etc. Aí veio o arco-reflexo da atuação que mereceu muito o Oscar, tu vai ver que um dia eu ainda ganho o douradinho por my lifetime achievement e esse dia terá importância crucial na história,
- O QUE É ISSO? AAAAHHH! DE ONDE VEIO ISSO, MEUDEUS?
E Tidinha olhando pra mim com aquela cara de "tá, conta outra então que tu num sabe de onde veio, danada!" e disse "humm, tava debaixo da tua cama, Cris...", e eu continuava, louca, desvairada, surtada, descompensada,
- CADÊ MAINHA? MAINHA!? MAIIIINHA TU JÁ VIU ISSO, MAINHA?! MEUDEUS É UM ABSURDO! O QUE ISSO TAVA FAZENDO DEBAIXO DA MINHA CAMA, MEUDEUS???
E mainha, que não tinha visto nada ainda (muito bem, Flipper!), veio pro corredor e caiu numa risada a maior de todos os tempos.
- TÁ RINDO DE QUÊ? AGORA ME DIIIIGA DO QUE É QUE VOCÊ TÁ RINDO! Mainha, isso NUM TEM GRAÇA! As pessoas ficam fazendo coisas NO MEU PRÓPRIO QUARTO! E nem pra jogar fora! MEUDEUS, É O FIM DO MUNDO, MAINHA!
Pra ela parar de rir foram uns cinco anos. E ficou estabelecido então que num tinha sido eu. Foi algum dos meus irmãos que, muito desconcertado, não quis assumir a culpa. Mas todo mundo sabe que se num foi um, foi outro. Claro que a parte da banana impedia que um dos dois assumisse a culpa, que isso envolvia toda uma mudança de intenção sexual talvez, então chegou uma hora que eu disse "mãe, melhor deixar isso de lado, né? esquece... vai traumatizar os pobrezinhos", tenho certeza que minha cabine particular de altíssimas temperaturas pra queimar eternamente no fogo do inferno tá reservada desde já.
mon coeur vomit
Postado por
Jan
às
12.2.04
1 grudados
"E o enriquecimento dos homens ocorre de seis maneiras: pela mendicância, pelo serviço ao soberano, pela agricultura, pela aquisição de conhecimentos, pela usura ou pelo comércio."
(de uma fábula indiana)
---
Por falar em indianos, eles são um dos povos mais interessantes. Eu e meu pai fizemos umas aulas de sânscrito. Não sei nem escrever meu nome. Não que a aula não tenha servido para nada: comecei a achar o grego fácil. Meu pai, que aprendeu umas coisas, diz que resolveram colocar as regras de gramática de todas as línguas no sânscrito: singular, plural e dual nos nomes e verbos, uns 10 casos para os nomes, ao contrário dos 5 em grego e 6 em latim, um alfabeto de 50 letras e as intermináveis regras de sandhi - algo como ser obrigado escrever "d'oiro" no lugar do tradicional "de ouro" de vários jeitos possíveis, em vários casos diferentes, para que a pronúncia fique mais adequada.
Não é só a língua. Nosso professor, que já morou um tempo na Índia, disse que um amigo seu foi espancado por uma gangue de macacos. Sério.
E, se um asceta indiano resolvesse ler Santa Teresinha não ia entender nada... "pequeno caminho", pequenos sacrifícios? Isso é sânscrito para eles. Vi a foto de um sujeito que está com a mão direita levantada faz uns 10 anos. Perguntei para meu professor se isso não cansava um pouco e ele disse que não: "depois de um ano o braço calcifica, não dá mais para abaixar". Ah bom...
Noites áticas
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
Primeiro Contato
Não sei dizer qual foi meu primeiro contato com a vida. Pode parecer forçado, mas não sei qual foi o dia que acordei e me dei conta de que estava vivo. Foi antes das palavras surgirem em minha mente? Provavelmente, pensei algo ridículo.
Eu me lembro do meu primeiro contato com a morte. Pode parecer forçado, mas foi quando perdi o medo. Antes eu só me lembrava de ter medo. Muito medo. De perder noites incontáveis em pesadelos onde mortos se levantavam. De perder dias com medo de atravessar a rua.
Um dia perdi o medo e ela chegou. Tinha o toque gélido de bebida on the rocks e a fragrância rascante de uma carreira bem preparada. Ela sabia meu nome. E me disse o seu.
Eu me lembro do frescor fugidio de sua voz, mas não me lembro do seu nome. Eu ainda te procuro, bela dama, que sumiu na carreira de pó que se desfaz na consciência. E sei que, inevitável, voltarás. Eu tenho os sinais.
Revertere ad locum tuum.
boa noite
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
gêmeas
- você vem sempre aqui?
- só quando quero fazer xixi. muita cerveja.
- ahn.
- e você, vem sempre aqui?
- só quando quero reconquisar minha namorada, sempre que briga comigo ela se refugia no banheiro. aliás, a salada de atum dela está uma delícia.
- ahn, é verdade... e pela sua cara frustrada não deu muito certo, né?
- pior que deu. ela saiu pouco antes de você entrar, parecia contente.
- e então, o que você ainda está fazendo aqui?
- estava esperando por você. sabia que você viria atrás de mim.
- eu não vim atrás de você. vim só fazer xixi.
- tem certeza?
- eu não, mas minha bexiga tem. se você me permite (ela aponta para a porta do banheiro).
- não (ele senta-se no chão, de frente para o vaso).
sem titubear, ela levanta o vestido e aboleta-se no vaso sob o olhar atento dele. o som da urina batendo na louça toma conta do ambiente.
- eu não vou fazer isso com minha irmã, esquece.
- ela já me contou que vocês enganaram diversos namorados. e não deve ser difícil, vocês são idênticas.
- nem tanto assim.
- claro que são. até as roupas. tua mãe mesmo confunde.
- você não?
- não.
- tem certeza?
- claro.
ela silência, o xixi termina. veste-se e sai do banheiro, não sem antes dar um beijo no cantinho da boca dele. ele titubeia, demonstrou convicção na afirmativa, mas realmente não sabia quem estava à sua frente. idênticas, cópias perfeias, dos hábitos aos gênios. continuou sentado, esperando voltasse para esclarecer a dúvida. tinha certeza que ela voltaria. mas quem surgiu foi a avó delas, reotrcida com a cólica que adonou-se da coitada após provar a salada de atum de uma das netas, que ela não sabia o nome, pois também confundia. pobre senhora, detestava frutos do mar e comeu achando que fosse frango. entrou porta a dentro insultando seu organismo irregular. ele mal teve tempo de esconder-se dentro da banheira antes do odor desagradável adentrar por suas narinas e o asco tornar-se vômito.
estranhas palavras
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
Você não sabe o que é acompanhar uma vizinha histérica ao pronto-socorro, em crise nervosa, e ela rejeitar um tranqüilizante só porque não confia no hospital [9 de Julho]. Em plena madruga. E ela exigir transferência para o Hospital Albert Einstein, que lá ela aceita o tal comprimido. Você não sabe o que é isso. A partir de hoje eu sei. Você nem queira saber.
¢AtaRrO vE®De
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
Emulator
3
15 de março. anoto na agenda entre minhas merdinhas um retorno à terapia. o médico, le petit guignol, vai ter de me explicar por que esta pontada intra-encefálica todos os dias pela manhã. ele não vai me cozinhar mais. doze trocas de medicação em menos de oito meses de terapia, não é pra desconfiar não? não sou do tipo de paciente que se fulano diz, é porque é. vou enfim pensando essas coisas antes que o verão acabe esta noite. mal consigo enxergar aqui, o globo espelhado gira e seus reflexos iluminam minha mesa vazia em intervalos regulares, na batida. meus amigos estão todos na pista e posso desfrutar uma solidão dupla, com gelo e limão. qual o teu telefone? está na lista, respondo. a piada é datada mas ainda funciona. o bofe, meio bolado, se manda. olha só a bunda do cara, penso alto, quando ele dá as costas. me aparece cada uma. hoje estou sem paciência para éticas, bons modos e consensos. não devia ter saído de casa. as folhas da agenda estão despencando e ainda estamos em fevereiro. meu drinque parece um caldeirão celta. "não sei o que digo, não sei o que sei, não digo mais o que quero". olho para a pista e vejo meus amigos suando, frenéticos. fecho os olhos e imagino danças camponesas, coros de caçadores, cantos folclóricos. gosto destes efeitos sem causa, o que pra mim é a definição perfeita de toda a arte contemporânea: feita para não durar. amanhã a gente esquece tudo. livros, telas, filmes, músicas, peças, fotos. tudo que vejo parece oco, silêncio sem enigmas, tragédia sem mito. mas kulo tresno é eu te amo em javanês, sabia?
Prosa Caotica
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
O videotexto (Post XXVII)
- Desculpa por passar aqui a essa hora, mas eu não podia deixar isso pra depois.
Ele ouviu o pedido em pé, de pijama, à uma da manhã, enquanto eu desligava o carro e conferia pelo retrovisor os estragos que a mãe do locutor havia feito no meu cabelo.
- Oi pra você também...
- Desculpa, de verdade. Eu sei que estou um pouco nervosa, mas...
Suspirei, cansada daquela vida. Eu teria me divertido com a idéia de terminar com aquele noivado, se não julgasse o clone um belo exemplar da espécie dos "bons moços". Adoraria fazer a cena da moça que diz "não" e vai embora no meio da cerimônia - sempre foi um dos meus maiores sonhos de consumo. Mas pensar em fazer isto com aquele rapaz que havia cuidado de mim depois do estrago que o ex havia causado, parecia doentio. Terminar naquelas condições também não era boa idéia, mas eu não suporava mais enganá-lo.
- Você não quer entrar e conversar com calma?
- Não.
- Quer conversar aqui na rua?
- Não, não quero.
- E o que você quer?
- Eu não quero casar.
Ótimo! Na bucha e da pior forma, sua anta!
Olhamos um para o outro em silêncio. Não era para ter saído daquele jeito. A idéia inicial era usar o velho papo de que não era por ele, que na verdade eu estava confusa, que tudo havia acontecido muito rápido, que eu não tinha nada a ver com o vestido de noiva da mãe dele, que eu achava que ainda gostava do ex... Ok, ok, as duas últimas desculpas eram reais, mas eu, naquela época, não era dada à verdade. Precisava de uma boa mentira. Uma desculpa que deixasse toda a culpa para mim, seria o ideal.
- ...Espera. Não é bem assim.
Ele entrou no carro...
- O que está acontecendo?
Decidi explicar direito e largar mão de ser covarde.
- A quanto tempo a gente se conhece?
- Tempo suficiente para namorar, noivar e casar daqui a exatamente dois meses.
Um agiota não faria cobranças melhor do que ele...
- Então estamos combinados. Casamos. Casamos daqui a dois meses. Eu juro que paro de frescura, conto aos meus pais de uma vez por todas o que decidimos, paro de crises e a gente casa. Eu adoro você, sei quem você é e o que posso esperar dessa relação. E acho que você pode dizer o mesmo sobre mim, não é mesmo?
- Agora sim concordamos.
- Pode ou não pode?
- O quê?
- Você pode dizer o mesmo sobre mim? Tem certeza?
- Tenho. Claro, que tenho. Eu amo você.
- E isso basta?
- Basta. Por quê? Pra você não é o suficiente?
- Se você soubesse quem eu sou de verdade, bastaria.
- E eu não sei?
- Não. Você não sabe. E é por isso que há dias eu ando tão nervosa com essa história de casamento. Eu não quero casar com alguém que não saiba quem eu sou.
Poucas foram as vezes que me dei ao trabalho de dizer a verdade a um homem. Aquela era uma tentativa realmente honesta...
- Você está me traindo?
- O quê? Do que você está falando?
- Tem outro cara? É isso? Está me traindo?
Por que em uma hora como esta, tudo cheira a traição?
- Se eu me sentisse comprometida com você eu estaria.
- Ah, é?
- É. E isso não significa que eu estou saindo com outra pessoa.
- E significa o quê, então?
- Significa que você não suporta saber sobre o meu passado, ignora o meu presente e acha que terá um futuro encantado comigo. Você não sabe quem eu sou. Não sabe quem são meus amigos, não conhece os lugares que eu freqüento, dorme nos filmes que eu gosto, não sabe que eu ronco, nunca me viu acordar no dia seguinte porque não sabe que eu não durmo. Odeia que eu fale palavrão e não gosta do jeito que eu sou. Não sabe que sempre que você me deixa em casa achando que eu vou dormir eu saio para alguma festa que eu prefiro ir sem você. Você não sabe que eu tomo anfetamina desde os quatorze anos para ficar o menos gorda possível. Não sabe que eu, naquele dia do acidente, estava tentando voltar com o Lucas e que você, fisicamente, apesar de odiar essa história, é mesmo muito parecido com ele. E não sabe que, há duas horas, eu estava sendo arrastada pelos cabelos pela mãe de um garoto de treze anos que eu achei que estava apaixonada só para poder arranjar uma boa desculpa pra me separar de você.
Pronto. Tudo em uma porrada só.
- Treze anos?
Era incrível como ele ouvia só o que lhe interessava. Uma audição quase feminina...
- Não. Eu não sabia que ele tinha treze anos. Ele mentiu pra mim. Eu não o conhecia pessoalmente - só pelo videotexto e pelo telefone, mas nunca aconteceu nada. Olha, não vá pensar bobagem, porque de forma alguma eu...
- Chega. Eu não quero mais ouvir.
- Eu imaginei que não quisesse. Aliás, você nunca quer ouvir.
- Você estava me traindo com um garoto de treze anos... Eu não acredito.
Sempre fiquei impressionada com a capacidade que os homens passionais tem de, em um piscar de olhos, se transformarem em amebas ambulantes.
- Não é possível que eu esteja ouvindo isso. Não. Pára! Pára um minuto. Você ouviu alguma coisa do que eu disse?
- Eu vou matar esse moleque!
Imagine um pesadelo. Um bem grande! Daqueles que não acabam nunca e que são cheios de cenas surreais. Era o que eu estava vivendo. Só queria que o sujeito não casasse enganado, e ele se enganando. Eu ainda tentei explicar melhor a confusão, mas, cinco minutos depois, vendo que ele não parava de tagarelar bobagens, percebi que eu também não sabia quem era aquele cara que estava ao meu lado. Se casássemos, casaríamos vendados - tanto eu quanto ele. Talvez como a maior parte daqueles que se casam e esperam esperançosos que as vendas nos olhos nunca caiam. Mas, definitivamente, aquele era o tipo de susto que eu não queria reservar para o meu futuro.
Certo, chega de consideração por hoje.
- Quer saber? Chega! Não quero e não vou casar! Estou cansada de gente louca. Estou tentando pela primeira vez na vida terminar uma história de um jeito decente e você não entende uma palavra sequer do que eu digo.Toma. Está aqui a aliança que você me deu. Agora, por favor, sai do meu carro e me deixa ir embora.
Ele pegou a aliança, bateu a porta, enfiou-se pelo vidro aberto e...
- É falsa.
Disse isso com ares de cinismo, deixou que ela caísse dentro do carro e foi embora. Eu não sabia se ria ou se chorava. Quem era pior ali? Loucos, bando de homens loucos! Celibatária. Dali pra frente eu viraria celibatária. Como é que alguém pede a mão de uma garota em casamento dizendo que aquela era a aliança de noivado que foi dos bisavós, avós, pais e blá-blá-blá, pra depois dizer que é falsa? E onde estava a merda do amor e da confiança que ele havia me jurado? Aquilo parecia piada de judeu. E de mau gosto! Era como se ele estivesse desconfiando de mim, dos meus interesses...
Indignada, parei o carro em um posto para abastecer e achar o raio da aliança.
Quem esse cretino pensa que eu sou? Quero que ele engula essa porcaria de anel! Ele e a mãe dele. Não, só ele. A mãe dele pode engolir aquele vestido de bozo que ela casou.
Abaixei a cabeça, revirei os tapetinhos de borracha no assoalho do carro e lá estava a aliança. Ela e...
- O que é isso?
.... estrela ninja.
--------------------->> Continuará em Amarula com Sucrilhos
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
Difícil dizer que vasculho as minhas gavetas e só te encontro lá no fundo, embrulhado em papel de seda, vestido antigo. Tu que percorrias todos os espaços da minha casa. Tu que ocupavas cada pedaço do meu território. Depois de tanta luta, depois de tanto almejar a medíocre tranqüilidade do vazio, finalmente enxergo minha liberdade como uma perda, um aborto, um expurgo de parte do que me sabia e temo. Temo pelos dias amorfos sem começo ou fim, pela inutilidade das horas rumo a qualquer lugar alheio a ti, pelo oco de mundo que deixaste em mim.
Não Discuto
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
Cap. MDCMMC
Naquele momento éramos somente eu e o terrível pônei de briga. O pônei resfolegou, raspando o casco contra o azulejo, e investiu furiosamente contra mim, tomando-me por um clitóris. Por instantes, pensei em esmurrar-lhe a cara, mas decidi que seria melhor contra-atacar às dentadas. Quando o maldito pônei, em sua desabalada carreira, passou por mim à toda, fracassando em sua patética tentativa de me chifrar, fui eu que me pus a persegui-lo, correndo o mais que podia. O pônei surpreendeu-se com minha atitude. Aproveitei-me da sua perplexidade momentânea e me atirei sobre seu lombo, segurando firme na crina e apertando as pernas contra seu corpo estreito de pônei. Então passei a mordê-lo ferozmente, que cada mordida que eu dava, um naco de carne saía.
O pônei gritou.
Aquele terrível pônei de briga gritou.
Percebendo que estava em vantagem, passei também a socar a nuca do pônei com toda a força. Se eu tivesse um canivete, uma faquinha de passar manteiga ou mesmo uma pedra, aquilo seria a morte do pônei. Mas, pelas circunstâncias em que me encontrava, ou seja, absolutamente nu, a não ser pela maravilhosa tiara que adornava minha cabeça, recebida diretamente das mãos da Catraca Imóvel do Mundo, por essas circunstâncias eu não tinha nada melhor a fazer que socar a nuca do pônei e continuar a arrancar-lhe postas de carne com meus dentes.
(...)
O pônei tomou o assento do motorista, enquanto eu pulei para o banco do carona, trazendo comigo o Orgone Device.
- Toca pra Brasília – disse eu, em tom de deboche.
- Só se for agora – respondeu o pônei, e meteu o pé no acelerador.
(...)
Radamanto
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
a civilização das bactérias
e trago dentro de meu estômago muito mais de cinco bilhões de bactérias, segundo as contas de stephen j. gould. e fico feliz por ser seu habitat. durmo sonhando com a possibilidade de ter uma civilização inteira, muito mais inteligente que a nossa, aqui mesmo: dentro da minha barriga. e elas estão aqui na Terra desde muito antes de o homem sonhar em ser homem. nem nunca estaríamos aqui não fossem elas.
e isso e outras coisas as tornam muito melhores do que nós, pobres seres civilizados, humanizados e "pensantes".
às vezes, penso mesmo: "queria ser uma bactéria". viver em harmonia com outras bilhões de bactérias. em perfeita simbiose com seu meio ambiente. mas queria ser dessas bactérias que não ficam se degladiando umas às outras, nem destruindo seus habitats. como, fazemos nós, seres racionais, inteligentes e superiores.
é... pensando bem, as bactérias são organismos muito superiores a nós. além de infinitamente mais civilizados.
[boop it]
Postado por
Ratapulgo
às
12.2.04
0
grudados
11.2.04
Festa de formatura de direito.
Grande parte das minhas amigas se formando. Alegria geral misturada com nostalgia.
Daria até pra ficar triste, relembrando de todos os momentos que já passamos, das tardes de conversa, das viagens, e que tudo isso não voltará e nada será como antes. Mas não, eu estava muito feliz!
A festa foi ótima, apesar do frio. Dancei muito, apesar de praticamente só ter tocado música podre. Fiquei embriagada (de alegria), apesar de quase não ter bebido.
Alguns minutos antes eu tinha achado uma máscara no chão. Sei lá qual era o propósito, mas o fato é que havia muitas máscaras e perucas prateadas e douradas nas cabeças daqueles seres jurídicos. Deve ser pela proximidade com o carnaval.
Então, do palco, chamam as formandas para subirem e mostrarem seus dotes, dançando um pagode muito ruim. Olho para o lado e vejo a Michele Rocha com o olhar brilhando, morrendo de vontade de subir também, mas sem companhia.
- Eu vou com você, Mi.
Era brincadeira, mas ela não encarou assim. Pegou a minha mão e me puxou até o palco. Quando dei por mim estava cercada por um bando de advogadas, adequadamente vestidas para o baile e se preparando para o momento de glória.
Eu não fazia idéia de como se executava aquele ritual grotesto. Não tinha o mínimo conhecimento sobre como era a tal coreografia. Parecia uma barata tonta.
- Já que estamos aqui, vamos dançar lá na frente!
E fomos. Se já não bastasse ter subido, ficamos na comissão de fente. Fingimos que dançamos todas as 15 vezes que tocaram a música até que anunciaram a saída do palco (praticamente uma expulsão). Eu e a Mi fomos as últimas a sair porque acabamos nos empolgando nos agradecimentos. Foi uma apologia ao Balé Bolshoi. Devemos ter nos curvado umas 15 vezes, mais ou menos, agradecendo ao apoio do público caloroso.
Já no térreo, o Fernando:
- O que você estava fazendo no palco? Não era só para as formandas?
E eu, no auge de minha inocência infantil:
- Eu estava disfarçada.
Blog de uma Cucaracha
Postado por
Ratapulgo
às
11.2.04
0
grudados
10.2.04
Era levado para a missa todo domingo e o padre disse que tudo o que pedíssemos, se fosse com fé, seria dado.
Rezei por dias para ficar invisível. Com toda minha fé. Não fiquei. Tinha uns 7, 8 anos, foi minha primeira crise de ateísmo.
O ateísmo cedeu, mas descobri um mundo de hipocrisia nas igrejas da minha cidade pequena.
Risível mesmo é aquela história em que me ouviram gritando trancado no banheiro: “Estica! Estica!”
Na verdade eu estava num ataque de hipomania e gritava Stryka, o nome de um transformer. E já tinha uns 26 anos.
saudades do presidente figueiredo
Postado por
Jan
às
10.2.04
0
grudados
Memoria
Preciso gravar as conversas - longas - que tenho com minha mãe.
Nesse fim-de-semana fiquei um tempão perguntando e como era naquele tempo, mãe?, cês viviam de quê?, acordavam que hora?, comiam o quê?, faziam o que pra se divertir?, estudavam onde?
Ah, minha filha, naquele tempo a gente acordava 4 ou 5 da manhã, tomava um café preto e ia varrer o terreiro, botar milho pras galinhas.
E depois?
Depois, lá pelas setimeia, a gente tomava café: cuscuz com leite. Não havia pão. Aí minha mãe (sua avó) ia bordar e eu ia ter aulas com Dona Naninha. Uma mesa grande, comprida, cada aluno com sua lousa. Se errasse tinha a palmatória.
E o almoço?
Carne de criação (carneiro, bode), porco ou galinha. Pirão, arroz, feijão, farinha e ovos. Macarrão, só em dia de festa. Depois minha tia Tentença ia lavar os pratos e panelas, o que tirava a gordura era folha de velame que dava na beira do rio. Não tinha detergente. Pro jantar, gerimum com leite, batata-doce com leite, mugunzá com leite. Se fosse no inverno tinha coalhada, canjica, pamonha. Os gerimuns eram estocados em um quarto, se não se tirasse o cabo, duravam um ano inteiro. Na despensa tinha enormes baús, cheios de farinha, rapadura, feijão.
E de onde tiravam dinheiro, viviam de quê?
Da carnaúba. Da cera da carnaúba. Dois cortes por ano: a palha era posta pra secar e depois levada pro quarto da cera, passada na trincha pra soltar o pó, cozida, coada e depois de sólida, vendida para os exportadores em Fortaleza.
Se divertiam como?
Com brincadeiras e dramas.
Hein?
Brincadeira era quando minha avó chamava um sanfoneiro pra tocar no alpendre. Juntava todos os rapazes e moças da redondeza. Não tinha bebida, nada. Só dança. Drama era o que hoje se chama peça de teatro. O palco eram as portas da casa em cima de cavaletes. Vixe, a gente passava meses costurando o figurino e ensaiando. Cobrava até entrada, cê imagine. Era tão bom. (...) Coisa de menino.
Mas ói, tem que ser com a voz da minha mãe, pra eu guardar de lembrança e ouvir sempre que quiser.
Arroz-de-Leite, agora com cheiro de caju!
Postado por
Ratapulgo
às
10.2.04
0
grudados
Mas como eu ia dizendo, resolvi brincar de pessoa saudável e entrar para a "acadimia", aquela mesmo, a da hipermetropia, lembram? Então. Ontem foi o primeiro dia. Sempre fico nervosa no primeiro dia que eu vou numa acadimia, fico com aquela sensação de que as pessoas vão sair correndo atrás de mim me jogando anilhas e gritando: "Fora, sua gorda! Rua daqui, flácida sedentária!" e coisas do gênero, mas não, nunca aconteceu. Sempre vem um/a instrutor/a todo/a malhado/a e gostoso/a me atender muito gentilmente. O moço que veio me atender ontem era um instrutor sem bunda, mas tudo bem, paciência, não se pode ter tudo, dizem.
Ontem fizemos a primeira parte do treino, hoje é a segunda. O chato é que eu fui bem naquele horário planeta dos macacos, sabe, aquele horário que só tem aqueles caras enormes, que parecem grandes gorilas depilados. Eu olhava com o cantinho do olho para ver se nenhum deles ia de um aparelho ao outro usando as mãos como apoio, mas não, não, a semelhança com o elo perdido é mera coincidência. Sei lá porque aqueles caras resolvem ficar daquele tamanho, vamos combinar: um cara todo gostosinho, malhadinho, é bonito, mas tem limite, quando até a cara da criatura começa a ficar musculosa é porque alguma coisa está errada, não, não, não curto. E aquelas figuras que fazem esteira dando soquinhos o ar?! Por favor...
Mas o panorama, o panorama é bom, não dá para reclamar, tem uns que ainda não chegaram no ponto planeta dos macacos e são uma gracinha. Mas bati o olho e fiquei foi num magrinho de óculos (não, eu não tenho cura!) que, logo descobri, é o professor de wingtsun (e que diabo é isso?!?!?). Aí fiquei lá assistindo o bonitinho dar aula de artes marciais. Tããão gracinha, já tava até vendo o moço na frente de um computador cercado de livros de filosofia e poesia oriental (alguém me salve, por favor!!!).
Hoje volto lá para fazer o treino de membros inferiores. Vou ter que voltar no horário planeta dos macacos, porque é o horário do instrutor-sem-bunda, mas vou ver se descubro o horário dos pelancudos para poder me juntar a eles... mas aí perco a aula do bonitinho... hummm, não sei, vou meditar sobre isso.
* * * * * *
O rei do Planeta dos Macacos, sim, o MAIOR cara da academia, o próprio macho alfa, o cara é enorme, totalmente ASSUSTADOR! Mas, como eu ia dizendo, o rei do planeta dos macacos está que é só sorrisos e gentilezas comigo. Ontem arrumou o aparelho para eu usar; hoje, como eu não conseguia encontrar meu cartão para passar na roleta da entrada, ele, que já estava do lado de dentro, pegou o próprio cartão e passou para liberar a roleta e depois fez uma revêrencia para mim.
SO-COR-RO!!!
* * * * * *
- Comi dez bananas, cara, dez!
- Bá, cara, e eu que um dia desses comi doze! Doze bananas, cara!
Diálogo verídico, senhoras e senhores, entre Macho Alfa e outro membro do Planeta dos Macacos.
* * * * * *
- Isso. Assim. Vai. Beleza. Assim, assim. Abre. Assim. Isso. Isso. Aí. Beleza.
O instrutor-sem-bunda me "ajudando" com os exercícios de peitoral.
A Caverna da Ogra
Postado por
Ratapulgo
às
10.2.04
0
grudados
8.2.04
Era pra ser só dengo, mas...
Sabem aquelas caras e bocas que as mocinhas dos filmes fazem quando morrem no final? Pois é, sempre que eu vou parar no hospital me dá uma crise daquelas. Por melhor que seja o quadro médico, sempre que tem alguém por perto eu me faço de "prestes a morrer". Eu acho romântico, oras! Vou fazer o quê? E é romântico. Uma vez cheguei até a fingir que a respiração parou. Interrompi a frase no meio, deixei a cabeça despencar para o lado, fiz uma boca mole, fechei os olhos repentinamente e engoli o ar. O namoradinho da vez quase teve um ataque. Pena que durou pouco. Na primeira sacudida que ele me deu eu descambei de rir. Se eu tivesse conseguido segurar o riso só mais um pouquinho, talvez ele tivesse chorado ou chamado os médicos. Teria sido mais divertido. Não entendo como ele não se separou de mim naquele dia.
Enfim, até ontem achei que fosse gripe, mas eu estava cada vez pior. Tudo bem que qualquer dorzinha me deixa de quarentena, mas dessa vez o babado parecia sério. Como a febre não baixava, dramaticamente, a contra gosto, fui levada ao hospital. E já que estava lá... tchãran! Caras e bocas de prestes a morrer. É incontrolável.
Horas depois, quarto de hospital, maridon segurando minha mão e eu ainda com ares de despedida (ninguém vai levar a sério a minha morte no dia que ela acontecer de verdade). Aproveitei para tratar de assuntos do meu interesse pós morte...
- Se eu morrer você vai casar de novo?
- Vou.
Maridon nunca soube brincar. Está escolado dos meus dramas mexicanos. Sorri, um sorriso de hospital e não desisti de vivenciar a melhor parte de uma internação...
- E você vai gostar mais dela do que gostou de mim?
- Isto é impossível.
Que bonitinho... Está vendo como funciona? Todo mundo se abre como mala velha no leito de morte. Mesmo quando já está esperto. E olha que era pra ser só a gripe da galinha preta, mas aí o médico entrou no quarto e...
- É dona Alessandra, a senhora pode estar com dengue.
Eu deveria ter ficado assustada, mas me acabei de rir. De todos os males que podem levar alguém para um hospital, a dengue é a menos romântica. Não dá pra fazer tipo com dengue. A palavra dengue por si só já é ridícula. Maldito fim de semana na praia. Bah! Devo ter sido picada por um dos trezentos milhões de mosquitos daquele lugar e estou com dengue.
Amarula com Sucrilhos
Postado por
Ratapulgo
às
8.2.04
0
grudados
7.2.04
(SEM TÍTULO)
Há livros cujo título já justificaria sua simples existência. Livros que nem precisariam ser escritos, pois o título é uma obra-prima por si só. Por exemplo, "No Ventre da Besta", que apesar do excelente título, é um livro chatíssimo onde Jack Henry Abbott, um presidiário problemático, desfia sua filosofia capenga em cartas endereçadas a Norman Mailer. Todos ganhariam se o livro jamais fosse escrito, se apenas subsistisse seu título, como mera sugestão para uma obra maior. Na contramão dessa teoria, existem verdadeiras maravilhas da Grande Literatura sob títulos prosaicos ou muitas vezes enigmáticos, como "O Processo". Os english-speakers têm inclusive um ditado - nem sempre aplicado à literatura - que faz alusão a este fenômeno. É "you can´t judge a book by the cover", que pode ser usado, por exemplo, para explicar os verdadeiros motivos que levam um cidadão a casar com uma mulher de minguados atributos físicos, se é que me faço claro. Mas devido à Natureza Humana, sempre julgamos os livros pela capa, e as mulheres pela bunda. Sad, but true.
Pois o fato é que tenho tudo para ser um escritor bem-sucedido: sou culto, ateu, criativo e muito mentiroso. Mas me falta o essencial. Não consigo batizar adequadamente meus textos. Idéias, as tenho às mancheias (mancheias? contenha-se, Levedo!). Mas e os títulos, rapaz? É esse o caroço da questã, como diria o Analista de Bagé.
Você pode não conseguir concatenar uma frase na outra, mas, se tiver um talento excepcional para criar bons títulos, é muito mais que meio caminho andado.
Por exemplo, esses dias fui fulminado por uma idéia brilhante em pleno trânsito. Na verdade, nem era tão brilhante assim, pois o George Simenon já explorou algo vagamente parecido num dos seus romances. Mas também, sobre o quê esse belga safado não escreveu? A idéia era a seguinte: um homem e uma mulher vivem juntos e se amam doidamente, mas não suportam conversar um com o outro. Ambos tem uma personalidade fortíssima, e não admitem ser contrariados. Como são personagens de ficção e, por conseguinte, não precisam ter qualquer semelhança com pessoas do mundo real, se dão conta disso e muito lucidamente decidem não sacrificar o belo amor que sentem um pelo outro. Continuam a viver juntos, mas sem trocar uma palavra sequer. Sabem que a opinião que eles tem sobre o mundo, sobre a culinária japonesa, sobre religião e sobre a pintura expressionista é irrelevante diante do imenso afeto que nutrem um pelo outro. E optam pelo silêncio, como meio mais eficaz de evitar conflitos. E vivem juntos e na mais perfeita harmonia, em completa incomunicabilidade. Até que o homem adquire um saxofone e a mulher, transtornada pelo que ela imagina serem mensagens cifradas nos longos solos de jazz do marido, o mata com uma chave de fenda, e logo em seguida comete suicídio utilizando uma máquina de costura portátil.
Só o que me falta para colocar essa história fabulosa no papel é um título. Meu reino por um título!
Padre Levedo
Postado por
Ratapulgo
às
7.2.04
0
grudados
6.2.04
Dia desses, minha secretária contou, via intra-mail, que havia encontrado um papel na rua. Nele estava escrito em letras garrafais: "ODONTOLOGIA DENTAL". Respondi ao e-mail imediatamente: "Já pensou se estivesse escrito GINECOLOGIA VAGINAL"?
Consegui ouvir as risadas da Caru (minha secretária) da minha sala. A Léo, secretária do meu chefe, que estava acompanhando a troca de mensagens perguntou se eu era louca.
Finalizei respondendo: "Segundo meu psiquiatra mental, sim, eu sou um pouco louca".
Pra vocês verem que o sistema de intra-mail do meu escritório tem funções mui importantes, sendo essencial à manutenção do bom humor em meio ao stress cotidiano.
.tudo vai ser DiFeReNtE.
Postado por
Ratapulgo
às
6.2.04
0
grudados
5.2.04
É curioso notar como as formas de atender ao telefone variam, mesmo que praticamente inexistam variações nas palavras utilizadas. Interessante também é perceber que cada pessoa cria sua identidade-atendicional-telefônica e invariavelmente usa a mesma palavra, sempre com a mesma entonação.
O "alô" tradicional muitas vezes ganha contornos musicais, ou então se alonga além do tempo previsto para uma palavra tão curta. E eis que encontramos também uma prosaica utilização das acentuações tônica, aguda, circunflexa e tílica: "álô", "aló", "àlô", "âlo","ãnlô?", "aaaalô", "alôôô", "alou", e até mesmo "hálo" pipocam lá e cá, soando ou ressoando através de vozes esganiçadas, grossas, sutis, sorumbáticas, rasgantes, sensuais, frágeis, taciturnas ou fanhas.
Tem também o "pronto" e pronto. Curto e grosso. E também "ois" e "hmns" e outros grunhidos esquisitos.
Ao celular então sobram metidos que, com seus identificadores de chamada, não hesitam em alardear um "fala, Genivaldo", mesmo quando o Genivaldo em questão não está do outro lado da linha porque emprestou o aparelho pro amigo gozador responder "não tá vendo que não é o Genivaldo, seu mané?".
De qualquer maneira, mesmo tornando-se automáticas, nossas respostas telefônicas ainda guardam uma certa autenticidade que, nas empresas, já se perdeu por completo, restando apenas uma gravação tosca que muitos ainda acreditam se tratar de uma recepcionista de carne e osso: "Oliveira, Oliveira e Oliva Advogados Associados Bom Dia Um Minuto Por Favor", "Oliveira, Oliveira e Oliva Advogados Associados Bom Dia Um Minuto Por Favor", "Oliveira, Oliveira e Oliva Advogados Associados Bom Dia Um Minuto Por Favor".
Mas o mais incrível de tudo isso é perceber o quanto eu consegui me alongar diante de um assunto tão bobo. Logo eu, que não consigo falar mais do que um minuto e meio ao telefone.
alô? é da megazona
Postado por
Jan
às
5.2.04
0
grudados
Pelas barbas de Netuno! Com mil gigawatts! Cortaram a minha luz. Bom, na verdade, já estava cortada há tempos. Esqueço de pagar. Acontece que religuei o gato algumas vezes, daí os caras vieram com reforços e arrancaram o medidor. Tudo bem, liguei meus cabos nos medidores de dois apartamentos vizinhos. É o terceiro setor, certo? Quem tem energia sobrando reparte com quem não tem nenhuma, no caso eu. O que custa ceder, ainda que involuntariamente, meia dúzia de watts? Rolou tudo muito bem. É igual mulher dos outros, você vai comendo até o marido descobrir, então você pára. Ontem o zelador descobriu. Desligou os fios. Na madruga liguei de novo. Hoje acordei sem luz, já nem estranho mais, fui sonolento verificar e encontrei um cadeado deeesse tamanho na porta de ferro do quadro elétrico! Um troço inarrombável. De maneira que por isso estou aqui vivendo este momento lindo, pagando para blogar na Cyber. Tudo bem. Hoje vou acertar meus débitos, pedir religação de urgência e aguardar o momento da vingança. Depois da luz ligada e tudo bacaninha, injeto Super-bonder naquele cadeado. Não vai ter zelador na face da Terra que abra aquilo. Só fazendo como fizeram no cu da síndica: arrombando.
catarro verde no escuro
Postado por
Jan
às
5.2.04
0
grudados
Folia de Reis. Uma bela manisfestação folclórica nacional, né?
Porra nenhuma.
Dia desses minha mãe avisou que viria uma folia de reis na casa do vizinho. O que ela disse é que ia começar umas 10 da noite e durar umas duas horas. Sem problema, aturar barulho até meia noite é tranqüilo.
Pois bem, a tal folia veio ontem. Eu tava crente que era algo que ia fazer só um pouco de barulho, mas os caras trouxeram uma BANDA MARCIAL completa pra cá. O barulho daquela merda superava fácil o de um Concorde decolando em meio a um desfile de escola de samba. Parecia que aquela maldita banda tava tocando dentro da minha cabeça.
E ainda tinha mais. Uns caras esquisitos começaram a fazer umas rimas meio estilo repentista. Mas eram rimas terrivelmente ruins, daquelas que rimam sorte, morte e forte. E um dos caras tinha um repertório de uns 8 versos, que ele combinava e repetia o tempo todo. Machucava os ouvidos.
Por último, os malditos chegaram às 11 da noite, e foram embora às 5 da manhã. 5 da manhã. E eu tinha que acordar às 7, pra ir fazer a prova da UERJ. Aqueles filhos da puta me deram duas míseras horas de sono.
Da próxima vez que eu ouvi falar em folia de reis, compro uma pistola. Urgentemente.
Pessoal e Intransferivel (sem acento)
Postado por
Ratapulgo
às
5.2.04
0
grudados
4.2.04
Nunca imaginei ter a idade que tenho e ver minha geração freqüentando lugar de adulto, bares da moda, cinemas de filme e fila indianos. Aceitam qualquer um.
Mais da metade dos meus amigos descobriu-se homossexual, depressivo, artista ou esquerdista. Um quarto toma chá de cogumelo. Preferem maconha e videogame a espiar a vizinha tomando banho.
Desagradável encontrar alguém da sua idade que diz “ah, esse autor eu não conheço” e não tem vergonha dessa ignorância.
Existe uma desculpa de tribos, de cada um ter a sua opinião e seus gostos. Gosto e opinião se formam pela experiência, até onde sei. E tribo é coisa de índio.
saudade do presidente figueiredo
Postado por
Jan
às
4.2.04
0
grudados
É impossível ser contra o livre-mercado sem ser abjetamente autoritário.
FDR
Postado por
Jan
às
4.2.04
0
grudados
Certo. Você lava as roupas, as meias, as blusinhas, enfim, as roupas, você as lava todas, mas aí não tem lugar pra estender, porque as roupas que as outras pessoas lavaram há 5 dias continuam molhadas.
Vamos todos praticar o naturismo doméstico.
continua chovendo às quinze prás seis
Postado por
Jan
às
4.2.04
0
grudados
Secos e molhados - ou - o lojinha que tem de um tudo e mais un poco
Dia sim, dia não, vou na quitanda aqui na frente comprar Coca light pro pequeno e vinho para mim. Ha semanas que vou todos os dias, no fim da tarde, la pelas 6 e meia, 7 horas so para ficar papeando com Abdel. Mas as coisas nem sempre foram assim. No inicio, quando mudamos para estas bandas, mal o cumprimentava em virtude do mal que me acomete, e que agora todos vocês têm ciência, a bloqueadora timidez. Fui indo de mansansinho e aos poucos fui arriscando uma conversa. Costumo confiar no meu no meu sexto sentido para fazer amigos e eu sabia que o senhor la da quitanda era uma cara bem legal, e desta feita não custava nada dar um sorriso acompanhado de um bonjour e claro, conforme as condições meteorológicas reclamar do frio ou do calor, como todo mundo faz quando não se tem muito a dizer, mas alguma vontade de estabelcer contato.
E, confirmando minhas suspeitas, descobri que o moço da quitanda é um poço de simpatia com qualquer um que chegue la e nem precisou estudar marketing para saber como cativar a clientela. Fora isso tem o excelente fato de abrir todos os dias, inclusive sabado, domingo e feriado, so fazendo uma breve pausa para a siesta, como é costume aqui nas redondezas.
Sei que daqui a uns tempos vamos ter que nos mudar de novo. Não, não por agora, mas isto ja é questão pacifica e consolidada, pois sabemos que quando tivermos rebentos teremos que deixar nosso amplo quarto e sala e por tabela, Abdel. Nem gosto muito de pensar nisso. Ficar longe do meu anjo da guarda que me vende o vinho baratinha num dia e me da, assim mesmo, de gratis, a aspirina no dia seguinte.
Alto lá, cara pálida!
Postado por
Ratapulgo
às
4.2.04
0
grudados
Num entendo uma palavra do que meu marcineiro diz. Ele é espanhol e desenvolveu um portunhol esquisitíssimo. Parece que ele engoliu o Nelson Gonçalves e virou um Nelson Gonçalves catalão. E tentei falar em espanhol com ele, mas ele se desculpou e me contou que esqueceu o espanhol e não aprendeu português. Coitadinho. Enfim, não entendi nada, para pela cara contente dele e por meio de gestos, acho que a reforma vai ficar legal. Jesus.
¡Drops da Fal!
Postado por
Ratapulgo
às
4.2.04
0
grudados
3.2.04
Quero falar do que vejo nessa pessoa triste que é você. Do que odeio em você.
Me enoja essa tua imbecilidade, esse teu medo e dificuldade inexplicável que encontra em abrir a boca e se relacionar, crescer, fazer o desconhecido, abrir as asas como sempre quis e nunca conseguiu. Sinto pena desse teu cansaço - que é claro nessas tuas olheiras fundas - de viver em função dos outros e esquecer de si mesma.
Você, essa criança que amadureceu à força, feito um abacate envolto numa folha de jornal atrás da geladeira, deveria ter brincado de Barbie sem se importar com os problemas em casa. Quem sabe, assim, hoje não tivesse tanto medo de sair desse maldito restolho de infância em que vive e pôr de uma vez por todas os dois pés na maturidade.
Sabe o quê? Vai, covarde, continua aí. Fica só na vontade de abrir as asas e voar comigo para os lugares lindos e divertidos que EU conheço - aqueles que vejo no fundo dos teus olhos, onde ficam teus sonhos. Já cansei de te convidar e ver que você sempre está muito ocupada organizando o alheio, planejando o teu e retocando a maquiagem.
...
Me avisa quando estiver pronta pra largar tudo isso, que eu passo aí pra te buscar.
eu diria que...
Postado por
Ratapulgo
às
3.2.04
0
grudados
A família dos outros
(ou Mais uma sobre os vãos do meu edifício)
A mãe, perfeita dona-de-casa, vive um monólogo desbotado que se passa no Brasil dos anos 50. O filho mais velho, engenheiro bem sucedido louro e esguio, é coadjuvante de uma dessas ficções científicas impecáveis em seu artificialismo. A menina, ainda pequena, passa os dias docemente cantarolando um musical estilo A Noviça Rebelde. O pai, por fim, protagoniza um thriller psicológico cheio de amantes, drogas, bebida e personagens desconhecidas do resto da família.
Somando tudo isto não me resta a menor dúvida de que vivem, solitariamente juntos debaixo do teto do 704, um belo, melancólico e interminável filme mudo em preto e branco.
Da Estrangeiridade
Postado por
Ratapulgo
às
3.2.04
0
grudados
A QUEIMA
-- Arnaldo, queima todos os meus escritos.
-- Que escritos, Vanderley?
-- Aqueles, inéditos, ali, do lado do guarda-roupa. Cof.
-- Como assim, aqueles inéditos, Vanderley? Claro que são inéditos. Você nunca publicou nada!
-- Sem detalhismos acadêmicos, Arnaldo. Pega aqueles meus escritos ali. Isso. Escuta. Quero que você jogue todos na lareira. Sem vacilar. Sem pensar no que a história, com agá maiúsculo, vai registrar. Diz que eu pedi veementemente pra que você fizesse isso, diz que...
-- Lareira, Vanderley? Lareira? Desde quando esse teu dois quartos tem lareira?
-- Você pormenoriza demais, Arnaldo. Faz o seguinte. Pega então esses fósforos aqui e queima os escritos lá na varanda. Enquanto o sol da tarde inunda de um soturno vermelho a sala -- guarda bem a cena na memória, pra quando você for contar a história -- , aí você...
-- Tá doido, Vanderley? Na janela? Vai voar papel queimado e entrar fumaça em tudo que é janela do prédio! Quer que os vizinhos chamem o síndico?
-- OK, OK, Arnaldo. Põe no microondas, então! Enfia os escritos no microondas, programa pra cinqüenta minutos e deixa os papéis lá. Uma hora eles pegam fogo! Cof.
--Tá, eu ligo o bendito microondas. E não precisa ficar me pedindo café, a garrafa térmica tá aí do teu lado -- se serve sozinho, pomba! E ainda pedindo em inglês. Que frescura.
-- Como assim, Arnaldo?
-- Essa babaquice de "coffee", "coffee", toda hora. Soa pedante. E chato.
-- Eu não tou pedindo café, Arnaldo. Isso é tosse.
-- Ah... é "cofe", então? Mm. Sei. Pois soou falso, sabe.
-- É tosse de moribundo, Arnaldo.
-- Que moribundo, Vanderley? Você pegou um resfriadozinho.
-- Não seja frívolo, Arnaldo. Tou morrendo. E foi por isso que te chamei aqui. Pra atender a um último pedido: queimar meus escritos inéditos. Espera eu morrer e queima tudo, sem dó nem piedade.
-- Mas você não tá morrendo, Vanderley. Você só...
-- Não adianta tentar me consolar, Arnaldo. E tem mais. Tem mais. Chega aqui. Como você é o meu melhor amigo, eu vou te pedir ainda um outro favor. Um favor especial.
-- Eu não sou teu melhor amigo, Vanderley. Eu sou teu colega de escritório. E que favor especial é esse?
-- Cof. Seguinte, Arnaldo: se na hora de tacar fogo você hesitar, não fica na dúvida: hesita, sim. Se você achar melhor não queimar, não queima. Mantém tudo intacto! Publica! Mas ó: não diz que eu pedi esse favor especial! Na hora de contar a história, vai só até o ponto em que eu te pedi pra queimar. Viu? Diz que você não queimou por decisão sua! E após a publicação, espalha pra todo mundo que por um triz a História ficaria sem conhecer meus escritos!
-- Ah, quer saber, Vanderley? Chega. Eu tava com a Célia e as crianças no clube, tomando minha cervejinha, aí você me liga no celular, diz que tem algo urgente pra dizer, caso de vida ou morte, pá, pá, pá, me faz vir correndo -- pra pedir pra eu queimar... esses escritos aqui?
-- O que você quer dizer com esses escritos aqui?
-- Agora é que eu tou vendo: isso aqui o balanço contábil do escritório, Vanderley! O balanço que você fez! Que história é essa de pedir pra eu fingir que vou queimar e na última hora acabar não queimando? Eles vão ser publicados no jornal, na seção de balanços anuais, de qualquer forma!
-- Você não entende, Arnaldo? Eles vão ser publicados, sim -- mas se você contar que no leito de morte eu pedi pra que você queimasse tudo, e ainda assim você publicou por teimosia, eles vão adquirir uma aura literária! Vamos elevar a escrita contábil a um status nunca sequer sonhado! Vamos fazer história! Vou ficar famoso depois de morto, você vai ser meu Max Brod -- ei, aonde você vai, Arnaldo?
-- Vanderley. Seguinte. Acho que vou deixar você descansar -- esse resfriado deve ter mexido com teus miolos. Vou voltar lá pro clube que eu ganho mais. Ah, e por que você não aproveita?
-- Aproveitar o quê, Arnaldo? Cof.
-- Aproveita que eu liguei o microondas e requenta esse café aí. Ele tá uma bosta.
Praia do Nelson
Postado por
Ratapulgo
às
3.2.04
0
grudados
2.2.04
Ela achava que ia morrer de velha, mas uma noite encontrou um professor de ética numa rua escura.
Alexandre Soares Silva
Postado por
Jan
às
2.2.04
0
grudados
Certidão de Nascimento
É, você vai mesmo morrer. Mas calma. Antes muita coisa vai acontecer com você. Você vai sofrer. Você vai chorar. Vai se sentir só. Muito só. E até esquecido. Você vai ficar perdido, sem saber para onde ir. Vai correr, cair e esfolar o joelho. Vai tentar escalar uma árvore. E não vai conseguir. Vai comer uma fruta estragada. Vai ficar sem fome. Você vai se decepcionar. E vai decepcionar os outros. Vai contar mentiras pequenas, médias e grandes. E vai ser enganado também. Vai amar quem não te ama. Vai ser amado por quem você não ama. Vai errar uma questão. Entrar na rua errada. Conhecer pessoas chatas. Ser demitido. Ter o carro roubado. Deixar o sorvete cair todo no chão. Perder amigos queridos. Ganhar peso. Esquecer o aniversário de alguém. É, você vai ter que passar por muitas situações difíceis. Mas, para cada tristeza, vai encontrar dez alegrias. Para cada dor, vai experimentar dez prazeres. Toda lágrima vai ser seguida de muitos sorrisos. Porque você vai morrer muitas vezes durante sua vida. E vai renascer. E isso não será exclusividade sua. Mais cedo ou mais tarde, acontece com todo mundo. Mas antes essa gente toda vai viver. Vai você também. Vai viver, vai.
Lúcio Lasca o Léxico
Postado por
Ratapulgo
às
2.2.04
0
grudados
Quando eu morrer, já decidi, não vão me enterrar num vão de terra, num vão de ar, não vão me depositar numa caixa grande de pedra fria, não vão me incinerar e me encerrar numa urna, nem me soltar ao vento, nem no mar. Quando eu morrer não vou ter túmulo, jazigo perpétuo, lápide, epitáfio. Nada dessas coisas com nome de remédio para azia. Quando eu morrer não vou ter velório, funeral, missa de corpo presente, lírio e cravos, não vou ter placa de bronze com estrela e cruz, datas para lembrar, foto de moça, vaso de flor. Quando eu morrer, no meu lugar fica uma folha vazia e eu me reduzo enfim à essência do que fui: verbo e vou habitar o céu, das bocas.
Não Discuto
Postado por
Ratapulgo
às
2.2.04
0
grudados
Soníferócito de Sonhol
Como você pode ver eu estou no auge da minha forma física : pernas quebradas, lábios inchados, braço com pinos, tronco remendado. Este é o máximo que eu posso atingir agora. Mas pode ser que não também! Eu posso muito bem dormir com essas pílulas que o doutor está me dando e num sonho mais agitado cair dessa cama e estatelar o pouco que não está estatelado em mim. E esses sonhos agitados que me incomodam, porque desde que estive aqui tenho dormido muito pouco, e o pouco que eu durmo eu tenho um sono irrequieto, onde sonho com livros criando asas e vindo em minha direção cortar minha cabeça. Guidons de bicicleta que giram sozinhos no ar e me impedem a passagem ou até mesmo uma cama que se abre e o buraco me joga na escuridão se fim. Mas ainda bem que é tudo um sonho. Péssimo mas é. E pensar que desde o dia fatídico nunca mais sonhei.
Toda esta história de sono exagerado começou desde que eu me tenho por gente. Na escola eu já passava a maior parte do tempo dormindo, e não raro, me trancavam lá dentro e de deixavam com as pálpebras fechadas. No outro dia quando abriam a porta eu ainda estava ali, na mesma posição, e só a insistência da minha professora fazia me acordar. Meus pais achavam normal, e tão normal que eles me acompanhavam na ida e na volta do colégio, porque eu corria o risco de dormir no meio da rua e ser atropelado. É, eu também dormia em pé. Mas não só em pé como em qualquer outra posição menos honrosa e agradável para dormir. Só que eu passei desta fase do colégio, e veio a pior : a vida adulta.
Foi aí que, como diria o sambista, "O barraco desabou", e eu no caso estava dentro desse barraco... Dormindo como sempre. No trabalho não faltavam risos quando o motoboy vinha me entregar a papelada e se deparava com eu dormindo ali, no sono mais profundo. Até assoviava de prazer por estar dormindo. A maioria dos meus colegas de trabalho diziam que era até engraçado tudo aquilo que acontecia, porque as vezes, eu parecia realmente um morto-vivo, um zumbi; claro que bem menos morto e bem menos fedido. Mas eu ficava ali, imóvel, com os dedos na caneta a posição de assinar um cheque, e aí ele vinha. O maldito, as minhas pálpebras pesavam, e eu sabia que ia dormir ali mesmo, gritava para mim mesmo por um fósforo, um pedaço de madeira, ou qualquer objeto pequeno que quando colocasse entre as pálpebras, as deixasse sempre alertas. Mas não, e eu dormia. O cliente é claro não entendia nada do que acontecia, e os meus colegas começavam a galhofa. Chegavam inclusive a por cartazes em minha mesa do tipo "Gênio pensando" ou "O trabalhador do mês". Eu percebi isso, e então comecei a contra-atacar. Dormia com um olho, e ficava vigiando com o outro, assim esses meus colegas fanfarrões não poderiam me pregar peças. E deu certo, porque nunca mais eles colaram coisas na minha mesa. Mas às bocas pequenas a tiração de sarro de sempre, rolava solta.
Mas o pior fato que aconteceu comigo, devido à esse sono imparcial, foi quando eu estava voltando do trabalho na véspera do Natal. Estava eu no ponto de ônibus meu estado habitual, de sono, e então eu dormi. Isto lá pelas 7 da noite. O motorista, nem o cobrador, devem ter me visto ali atrás do banco mais alto do ônibus, e por isso me deixaram ali. Mas começou a soar uma sirene e acordei. Do nada apareceu um monte de policiais por ali, pensando que havia um ladrão na garagem dos ônibus. Que o quê... era só o pobre eu aqui. E acredita que eles não aceitaram minha explicações? Tive que chamar minha mãe lá do cárcere, e ela veio explicar o meu problema para os policiais. Aí sim fui liberado.
No dia do Natal, dia 25 (porque muitos pensam que Natal é no dia 24 e dão felicidades nesse dia), tivemos uma pequena festinha, e nesta eu encontrei uma moçoila de muito bom grado. Me acariciei com ela e resolvi que deveríamos ir para o apartamento dela. No caminho já dava sinais de cansaço, ia dormir a qualquer momento. E quando cheguei lá, e fomos nos deitando na cama... Eu dormi. No outro dia ela não estava lá, mas deixou um bilhete "Você é muito bom de cama ..." eu sem saber de nada que havia acontecido no dia anterior, fiquei lisonjeado. Mas quando fui por o bilhete no criado mudo, o inverti, e vi que havia alguma outra coisa escrita "... dormiu como um anjinho. E nem ronca". Eu não sabia aonde por a cara, a mulher era chegada dos meus colegas de trabalho. Imagina se a notícia se espalha? Deu calafrios em mim só de pensar. Mas eu me vesti e sai na rua.
Quando estava atravessando uma avenida bem movimentada, ele veio de novo. Meus olhos fecharam e fiquei imóvel ali no meio. Acordei na ambulância, e peso até hoje por minha mãe e meu pai não terem me acompanhado nessa travessia de avenida. Mas nem é a dor física que me incomoda. e sim esta falta de sono. Um sono bom e pesado, como o que eu tinha.
Antropóide Misantrópico
Postado por
Ratapulgo
às
2.2.04
0
grudados
Pra tudo se acabar na quarta-feira!
Já viajamos juntos, já fomos ao parque, 'a praça, ao clube. Já montamos e desmontamos árvore de natal, já viramos o ano. Já fomos 'a capital, ao interior, ao sítio. Deram comida 'as galinhas, pegaram bicho de pé. Já estiveram com os avós, os primos, com os amigos da mãe e os do pai. Abusamos das nossas mães e tias. Já fizeram ARTI, já representaram peças e apresentaram números musicais. Já viram toda a programação infantil da tv, sabem de cor os horários. E quase todos os filmes em cartaz no cinema (ah: a trilha de Rugrats e Thornberrys é ótima). Já se entediaram, brigaram, gritaram. Já foram 'a nova pediatra, já foram 'a dentista. Nina aprendeu a fazer mousse com a tia. E a olhar as horas em relógio analógico, graças ao vô. Ele ensinou também coisas "erradas" e engraçadíssimas, que continuam fazendo a família rir. Gabi aprendeu uns golpes e carinhos novos, para extravazar sua energia de quatro anos. Já separamos todo o material escolar, só falta encapar os cadernos. Tá, foi lindo.
De uns dias pra cá, elas têm perguntado de manhã:
_Hoje tem aula?
E eu respondo com um sorriso (que é mais pra mim do que pra elas):
_Está perto, meu amor. Só faltam 5 dias : )
Mothern
Postado por
Ratapulgo
às
2.2.04
0
grudados
1.2.04
Top chavões de fim de namoro
1. O problema não é você, sou eu
2. Tenho muito medo de me(te) machucar
3. Você merece alguém melhor do que eu
4. É que eu acabei de sair de um relacionamento sério
5. Você é a pessoa certa na hora errada
6. Quero aproveitar mais a vida antes de me comprometer
7. Gosto muito de você, mas como amigo(a)
8. Sou traumatizada(o) por um(a) ex que me magoou muito
9. Preciso de um tempo para mim
Homem-Chavão
Postado por
Jan
às
1.2.04
0
grudados
Você já foi tratado como débil mental hoje? Então experimenta entrar na lojinha de ferragens da esquina e pedir ao português do balcão aquele negocinho amarelinho sanfonado, sabe?. Melhor ainda se for naquele horário em que o lugar está cheio de homens, encanadores, pedreiros, comprando material de trabalho.
E por que eu fui atrás do bendito amarelinho sanfonado? Puro contra-ataque desesperado, para deter o firme propósito dos felinos de me afastarem dos males da tecnologia. Depois de gastar rios de dinheiro em mouses (sem piadinhas sobre cats e mouses, plis), caixinhas de som, fones de ouvido e periféricos de fio fino (isto é, que possa ser estraçalhado pelos dentes dos bichos), e rios de tempo e paciência esfregando molho de pimenta ao longo de cada um deles, (não riam. Com a Tequila isso sempre funcionou lindamente. Só que a Morgana, que deve ter um pezinho na Bahia, acha que eu estou só temperando o lanche) a única solução que tem funcionado é aumentar o caos atrás da mesa embrulhando a fiação nos tais tubos de plástico duro.
(É claro que meu pai engenheiro já me explicou oitocentas vezes que o nome do treco é conduíte. E é claro que eu só lembrei disso exatamente 1 segundo depois de dar as costas, com cara de tacho e sacolinha na mão, para o seu Manoel da loja de ferragens.)
kaleidoscópio
Postado por
Jan
às
1.2.04
0
grudados
É estranho ter saudade de um alguém que a gente nunca teve. E que talvez nunca mais exista. E que se perde em nós. E que talvez seja apenas uma imagem na multidão.
Não quero estar aqui, e não há nenhum outro lugar do mundo onde eu queira estar.
Mentira. Nos teus braços. Nos teus braços talvez.
A Caverna da Ogra
Postado por
Ratapulgo
às
1.2.04
0
grudados
Eulálio, o bode neurótico
A Fazenda de Dona Bernarda (personagem a ser explorada em momento oportuno), fica ao lado da Praça Aleyn Castro, no centro de Sertanópolis. Chama-se fazenda porque é o nome da pequena chácara, um pouco maior que dois campos de futebol. Lá ela tem um galinheiro, um laguinho com patos, uma junta de vacas de leite, alguns porcos que se procriam como coelhos, e coelhos sujos como porcos (personagens a serem explorados em momento oportuno)
Há também alguns caprinos: um bode, três cabras, um carneiro e duas carneiras (personagens a serem explorados em momento oportuno). O mais velho de todos, caprinos e não caprinos, é Eulálio, o bode neurótico. Ele, pra variar está desconfiado de Bernadete, a cabra nova.
- Bernardéééte, você está me traíííííndo?
- Clááááro que nãããão. De novo com esta neeeeeura?
- Você ééééé quem dá motiiiiiivos.
- Que motiiiiiivos eu te deeeeeeei.
- Eu viiiiii você cheia de convéééérsas com o carneiro Juliãããão?
- Não poso máááááis conversar com ninguéééém?
- Póóóóde!
- Entãããão?
- Mas não éééééé só íííííísto!
- O que ééééé entãããão?
- O ÉÉÉÉlinho, nosso fiiiiiiiilho.
- Ééééé liiiiiiindo nééééé?
- Síííím! Máááás....
- Máááás o quêêêê?
- Têêêm algo estrãããnho com eeeeeele!
- Que naaaaaada! Ele é líííííííndo, e saudááááável
- Isto eu seeeeeei!
- Entããão, o que ééééé?
- Por queeeeee o pêlo deeeele é braaaanco e todo enrolaaaaado?
- Nããão sei! Dééééve ser esta umidáááááde!
- Umidáááááde? Pra cima de moooooááááá?
- Desencaaaana Euláááálio! Desencaaaaaana!
---
Julio é o único carneiro da chácara da Dona Bernarda (personagem a ser explorada em momento oportuno). Exige que todos o chame de Julião, pois, segundo ele, cafajeste que se preze tem de ser conhecido pelo aumentativo. A função de Julião, perante a Dona Bernarda, é cobrir (no sentido de procriar) as duas carneiras com quem divide o terreiro e a ração, e fornecer lã para a manufatura de Dona Bernarda, que faz, cobertores artesanais.
Galanteador incansável, Julião, já deu em cima de tudo que é fêmea na fazenda, exceto a Dona Bernarda, que segundo ele só se safou por que a comunicação ficou difícil. Também há comentários de outros machos, como o galo Alfredo (personagem a ser explorado em momento oportuno), dando a entender que Julião teve um caso com Romildo, o Suíno (personagem a ser explorado em momento oportuno). Julião ao ser perguntado do caso, se faz de desentendido e começa a elogiar a sambiqueira da Soninha, a garnisé (personagem a ser explorada em momento oportuno):
- Olha que penugem! Que plumas! E a crista então? um garbo só! Esta garnisé é baixinha, mas é gostosa! ê- ê- ê- ê Tesão!
Proclames da Alma... (show me how to live!)
Postado por
Ratapulgo
às
1.2.04
0
grudados
É mesmo muito difícil crescer. É difícil sair da barra da saia da mãe, da proteção do pai pra encarar a vida, ganhar dinheiro, pagar contas (com o próprio salário, não com o dos pais), ter que sair pra comprar papel higiênico (porque ninguém fará isso pra mim, e seria lamentável ter que me limpar com jornal, ainda mais porque não tenho jornal).
Já haviam me falado várias vezes que depois que se sai de casa a relação com os pais toma outra proporção. Eu achava que era história. Mas na hora que a situação apertou, quando o desespero bateu, o que eu mais quis foi voltar pra minha casa, pra casa dos meus pais, pro meu quartinho, levar xingo, escutar reclamações, lavar a louça de seis pessoas, e não só de uma.
Por mais que meus pais não leiam meu blog, e nem sequer saibam da existência dele, queria declarar o meu amor a eles. Amor à minha mãe e ao meu pai, que me viram chorar sábado passado e que, apesar de não terem me abraçado, choraram comigo. Amor à minha mãe que viajou com o coração apertado e ao meu pai que me buscou às 10 da noite pra me levar pra casa e não me deixar sozinha.
Agora eu fico aqui me sentindo a pior das criaturas por tê-los julgado tão mal por tanto tempo. Precisei encontrar uma megera em minha vida pra me dar conta, finalmente, de como eu sinto falta de tudo o que tanto desprezei até então.
Agora chego em casa, às vezes triste, às vezes alegre, e não tenho com quem conversar. Daria tudo pra ter meus pais aqui me xingando pela louça sem lavar, pelo quarto desarrumado, enfim, por uma voz conhecida nesse apartamento. Quem sabe eu pararia de falar comigo mesma em voz alta, de considerar o porteiro um amigo íntimo e o apresentador do tele-jornal alguém que faz parte do meu cotidiano.
Quero colo. Estou leiloando uma megera em troca de uma passagem só de ida de volta pra casa.
---
Mauricio, o futuro da humanidade
Veio de Ponta Grossa pra ficar comigo esse final de semana. Imagino como está sendo penoso pra ele, visto que ele está assistindo "Sétimo Céu", a nova novela do SBT.
Devo ser muito chata.
Blog de uma Cucaracha
Postado por
Ratapulgo
às
1.2.04
0
grudados