14.10.03

Ih, veja só, o dia das crianças passou e eu nem vi.
Acontece que o dia doze de Outubro é infernal, ninguém quer saber por quê.
Enfim, me toquei hoje e fui perguntar pro meu pai porque ele não me desejou um feliz dia e nem me deu nada como ele sempre faz. Recebi a resposta de que agora sou adulta. Adulta uma ova. Eu não quero crescer. Mas crescer é preciso, e se não fosse agora seria mais tarde, me disse o Gustavo no Domingo à noite.
Por que? Quem estipulou esse lance? Houve algum tipo de convenção aí que eu não fiquei sabendo? Não consta, não consta. Eu não acho certo, não acho legal falar da minha infância como se ela já tivesse passado, como se eu já estivesse pronta pra cair no mundo carregando essa coisa - a infância - de bagagem. Sei lá, não pesa muito, não.
Eu sempre fui feliz, do tipo de criança travessa e apoquentada que nunca consegue ficar triste ou chateada por mais de cinco minutos. A garota que não anda com o grupinho das meninas, bate em todos os meninos porque eles não deixam ela brincar com eles e no fim ficava sozinha desenhando amigos coloridos no papel.
Meu avô morreu quando eu tinha quatro anos, mas a maioria das lembranças, as mais nítidas que tenho, são dele. De como ele me levava nas costas, do cheiro das teclas velhas e amareladas do piano quando ele tocava comigo no colo e do cheiro do charuto que me fazia franzir o nariz, da voz rouca, da risada alta, da barba mal feita, dos óculos que turvavam minha visão demais quando eu brincava com eles, de tudo tudo tudo. Um dia ele não tava mais lá e eu não entendi por que ele não queria mais brincar comigo, ou por que se fazia um silêncio estranho quando eu perguntava onde ele estava. Não entendi e senti saudades.
Depois eu descobri que meu avô era mais que isso, só conheci a pessoa maravilhosa que ele era quando ele não estava mais aqui pra eu poder abraçar e dizer as coisas que eu sempre senti. Um cara que morreu por amor, mesmo. Por não querer acordar a esposa no meio da noite mesmo tendo um ataque cardíaco, por saber que a mente parca da minha avó não aguentava mais vê-lo sofrer. Porque ele tinha câncer nas cordas vocais e achava que dava trabalho em excesso. Não posso dizer o quanto eu admiro essa atitude, a maneira como ele lidava com diplomacia com os problemas financeiros, a forma como ele criou os filhos (dois deles são as pessoas mais sensacionais que eu conheço), o jeito como ele aguentou todas as adversidades e transformou tudo em risos e alegria.
Agora eu cresci. Agora eu entendo que ele era mais do que os meus sentidos identificavam quando eu era menor.
Como foi que, ao "crescer", tendo esse e outros tantos exemplos de como um ser humano digno deve ser, eu me tornei o que eu sou? Quando foi que eu deixei de estar satisfeita com o que eu tenho? Será que isso é crescer?
Se for, não vale a pena. Ou talvez valha e eu não saiba apreciar, sei lá. Alguma coisa saiu errada no processo, e não dá pra começar tudo de novo. Consertar? Não sei, não.
Ignorar, Repetir, Abortar.

The real folk blues

Pocko, o boneco de ventríloquo

Fiz um teste vocacional que me indicou uma forte vocação para ventríloquo. Achei que seria uma boa. Fui ao Fnac, no departamento de ventriloquismo (?), e comprei o Grande Livro das Piadas de Bonecos de Ventríloquo. Mas ainda precisava do boneco. Tinha um em promoção, bem barato. Seu nome era Pocko, como me disse o vendedor.

Pronto. Já tinha o boneco e o livro com as mais clássicas piadas de ventríloquos. Faltava uma platéia. Anunciei no jornal e começaram a chover ligações para que eu animasse festinhas infantis, bar mitzvah, casamentos, bodas de prata, bailes de debutantes e inaugurações de lojas de ferragens.

Fomos, Pocko e eu, para nosso primeiro trabalho, a estréia. Era uma festinha de crianças. Não cheguei a ensaiar, já que tudo parecia muito simples com o livro. Comecei com o clássico:

- Pocko! Diga 'Boa tarde, Garotadaaaaa'!

Ao que ele deveria ter respondido:

- Boa tarde, macarronadaaaa!

Mas, em vez disso, sucedeu o seguinte:

- Pocko! Diga 'Boa tarde, Garotadaaaa'!

- De que adianta?

- Que foi, Pocko?

- De que adianta tudo isso?

- Hã?

- É. Nós vamos morrer! Nós vamos todos morrer um dia!!!

As crianças começaram a ficar assustadas. Algumas choravam, outras olhavam assustadas e um garoto que parecia o menino do "Esqueceram de Mim" não parava de rir. Tentei controlar a situação:

- Calma, criançada! Ele só está brincando! Ele quer dizer que... que...

Mas Pocko interrompeu:

- O que eu quero dizer é que o fim é certo! Aqui, ó! - Pocko tirou da sua maleta um pulmão em decomposição - É isso que vocês vão virar um dia!!!

As crianças corriam de um lado para o outro, batiam nos pais e colocavam fogo nos enfeites de papel. Pocko e eu fugimos no meio da confusão.

Agora, temos uma festa de Semana das Crianças em uma locadora de fogões industriais para ir. Espero que corra tudo bem.


vida ou- (parte II)

A bonequinha e o Soldadinho

E por falar em coisas do passado, hoje estava me lembrando do Soldadinho. Soldadinho porque ele estudava na Escola militar do Dendezeiros e tinha aquela farda linda, caque e azul royal, usava aquele quepe azul e um veludinho com seu nome escrito na lapela.

Nunca tinha olhado pra cara dele, mas já ficava vidrada em suas pernas enquanto ele jogava futebol. Um dia vi ele lendo na janela. Lindo. Aquela pele morena, nariz fininho, cicatriz no supercílio (sempre adorei cicatrizes). Acho que foi quando me apaixonei por ele. Dia 23 de março de 1991. Tinha treze anos. A prima dele, que era minha amiga, havia dito que eu gostava de ler e ele estava fazendo isso pra chamar a minha atenção.

No outro dia passamos um pelo outro, trocamos balas Ice Kiss e olhares compridos. No começo achei que era coisa da minha cabeça. Todas as meninas queria namorar com ele e ele gostando de mim?? Não...Eu devia estar louca. Mas ele me mandou um recado por um amigo. 3º andar do bloco 8. Fui!
Mascava um chiclete, minhas mãos suavam e meu coração fazia um verdadeiro carnaval no meu peito. Não conversamos muito, estávamos nervosos, era o primeiro beijo dele, mas não era o meu (infelizmente). Tinha que tomar um providencia. Segurei sua mão, encostei no ombro dele, olhei meio de banda e bem calmamente beijei ele. O tempo parou. Eu sei que é meio clichê falar isso, mas se até hoje para, imagine aos 13 anos com o garoto dos seus sonhos? Me lembro que ele achou minha boca doce! Mal sabia ele que era o chiclete que estava estrategicamente escondido pra ele não perceber. Me recordo que depois comprei um saco desse chiclete e vivia com uns cinco no bolso. Estava sempre com a boca doce. E até hoje me lembro do cheiro da saliva dele que ficou e que ele me abraçava meio de lado pra eu não sentir "pressão". Bobinho...

Quando a gente se encontra é meio estranho. Ficamos procurando aquela bonequinha e aquele soldadinho de 12 anos atrás que não existem mais exceto em nossas lembranças. De todos os diários que já tive, as únicas paginas que me restam são as que contam o começo dessa história. Fim? Bom, essas histórias quase nunca têm fim...

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A história do Guarda-Roupa

E não é que eu esqueci mesmo dessa história? Minha irmã que me deu uma lembrada básica. Na época que namorava o soldadinho eu tinha uns 13 pra 14 anos...Lógico que era escondido, meu pai sempre pegou no meu pé e eu tinha que criar enredos mirabolantes pra poder ser uma adolescente normal. E foi nesse dia que o soldadinho bateu na minha porta. Quase cai pra trás, ele tinha passado duas semanas fora, tinha viajado pra ilha ou coisa parecida e eu estava morrendo de saudades super insegura achando que ele tinha me esquecido por conta de alguma sereiazinha de ponta de praia. Então ele bateu na porta. Eu estava sozinha em casa, bom, sozinha não. Minha irmã e a empregada também estavam mas elas não contam, então não resisti e mandei ele entrar. Fomos pro quarto e antes que todo mundo pense que rolou alguma coisa, não rolou. Era um namoro totalmente inocente. Deitamos no chão e ele ficou me contando tudo que tinha acontecido na viagem. Ficamos deitados até pegarmos no sono, abraçadinhos ali no chão.

De repente eu ouvi a sirene tocar 3 vezes. Mas como?? Ainda eram 3 da tarde e so meu pai tocava assim...MEU PAI????? AI, JESUS! O soldadinho deu um salto e eu não tive outra opção senão esconde-lo dentro do guarda roupa, o temido guarda roupa. Saí do quarto com o coração pulsando em minhas mãos, com os olhos esbugalhados imaginando como eu iria me safar dessa. Foi então que notei que havia algo errado. Meu pai não estava em casa e as duas filhas da p*** estavam rindo no sofá. Era um trote. Voltei pro quarto arrasada. O coitado do menino ficou 5 minutos dentro daquele inferno, buraco negro, caos, que era o meu guarda roupa. Abri a porta e ele estava la sentadinho, como se nada estivesse acontecendo. Ele saiu, eu com a cara arrastando no chão, a gente se despediu e eu prometi que daquele dia em diante, nunca mais deixaria meu guarda roupa bagunçado. É óbvio que não cumpri a promessa.

Palavras achadas por uma Garota Perdida

Deprê.

Eu sei que não sou nenhum exemplo de alimentação saudável, mas um cara
aqui no escritório bateu todo e qualquer recorde de tosquice.

Ao chegar de manhã, de ressaca e com fome e não achar nada melhor na
geladeira do escritório, mandou de colherzinha um potinho de VINAGRETE
abandonado, daqueles que acompanham o frango do Galeto´s, saca?

Eu juro.

surra

Ai que ansiedade!

O resultado do master que mais me interessa (aquele que fiz prova escrita) era para sair hoje, mas já são 5 da tarde na Itália e nada... estou muito confiante que vai dar tudo certo, mas essa expectativa está me matando.

Esse final de semana tive que ficar de molho em casa. Porcausa daquelas manchas na pele estou fazendo um tratamento com ácido glicólico e não sei o que aconteceu dessa vez que fiquei com o rosto todo vermelhão e descascando. Não consegui achar a dermatologista hoje e estou começando a ficar bem preocupada, embora o vermelhão já tenha quase todo ido embora. Até a consulta de amanhã vou melecando a cara de bloqueador solar.

E o cachorro (um dos) do vizinho subiu no telhado, literalmente. Não sei como ele fez isso, mas agora estão todos tentando tirá-lo de lá. Eu confesso que tive uns pensamento maldosos... o que posso fazer se esses cachorros me irritam muito? São vários e eles latem e uivam muito, madrugada a dentro. Festa não se pode fazer porque a atrapalha o sono dos vizinhos, mas cães histéricos são socialmente aceitos. Não entendo isso. Até para ver TV tem que ser com o volume nas alturas, porque senão, justo na hora que o mocinho vai contar o segredo que eu quero tanto saber os cachorros latem e daí não dá para ouvir mais nada. E eu não estou exagerando não!

E os que não latem, mordem. Tem um outro vizinho que tem dois pastores alemães assassinos. E, como sempre, os donos acham que eles são inofensivos. Então saem para passear com os cães apavorando o bairro todo. Saem com coleira, mas isso não quer dizer muita coisa, pois na verdade são os cachorros que levam os cães para passear. O dono não consegue controlá-los. Isso quando eles não saem com os cachorros soltos. Certa vez estava chegamndo em casa, à pé, quando vejo os dois cachorros soltos na quadra de casa. Gelei, e comecei a voltar para o shopping a passos largos. Liguei para casa e tive que ficar lá esperando até que os cachorros voltassem para suas celas, de onde jamé deveriam sair. E na semana retrasada os cães aproveitaram quando alguém saiu da garagem da casa e saíram para a rua. Atacaram a mulher que mora no quinto andar do meu prédio. Teve que dar milhares de pontos e a mãe dela, que estava junto, quase morreu do coração. E os donos ainda acharam que não tiveram culpa porque não viram eles saindo... pra mim tem culpa só pelo fato de ter os cães.

Acho que já deu pra notar que eu não sou muito fã dos caninos, né... isso não é uma afirmação politicamente ou socialmente correta mas é isso mesmo. Tenho horror a cachorros e a seus donos que dizem que eles não fazem nada. Já deixei de ir na casa de muitas pessoas que se recusam a prender os cães porque eles "não fazem nada" e ainda ficam rindo do meu desespero (achando que eu tenho que rir junto!). Acho isso uma falta de educação sem tamanho.

OK, meu medo é um tanto irracional, tenho medo que eles chegem perto de mim, independentemente do tamanho ou da possibilidade de levar uma mordida. Mas esse medo é meu e se eu estou na rua tenho o direito de não querer um cão cheirando meus tornozelos. Eu corro, grito, atravesso a rua sem olhar, as pernas tremem, a boca fica seca, o coração dispara. E ainda por cima o dono faz cara de ofendido, porque naturalmente "ele não faz nada".

Pensando bem, meu medo também não é assim tão irracional. Ora, se você tem medo de barata (porque pode transmitir doenças) e eu coloco umas baratas limpinhas, criadas em laboratório, para correr sobre o seu corpo, você acharia engraçadinho? Ainda mais se eu fizesse isso sem a sua expressa permissão? E sem ganhar nada por isso?

Tenho certeza que não. Ué, mas elas não fazem nada...

Por Simone, Lá longe

13.10.03

Eu NÃO Acredito em....

* regimes revolucionários de oito dias
* livros de auto-ajuda
* facas guinzo
* canetas que escrevem no teto
* cabelos encaracolados que ficam lisos (se são reais, me dê a dica)
* pessoas que ficam sorridentes 24 horas por dia
* adolescentes comunistas
* adolescentes góticos e comunistas
* cálculos matemáticos de probabilidade
* teorias de hippies chapados
* bozo
* a história de que o espírito santo engravidou a maria
* geógrafos com habilidade semântica

Eu Acredito em...

* sobrevivência do rock
* sobrevivência do hitler
* sobrevivência dos cremes Claybon de amendoim
* simplificação máxima das regras gramaticais
* argentinos
* deterioração progessiva de esportes viris, como o futebol
* cremes anti-frizz (sim, sou ingênuo e insistente)
* existência de realidades paralelas em quadrinhos infantis (posso jurar que a mônica tem consciência própria)
* larry flint
* vida após a morte
* humanização da elke maravilha
* lesbianismo da xuxa
* fim dos strokes
* qualquer coisa que me falem

adoçante

Caminho distraida pela calçada. Carros, pedestres, confusão de rostos e corpos me esbarrando. Chove e deixo-me estar ali. pingando pelos caminhos, sem guarda-chuvas. Por que decidi que hoje é dia de lavar alma. Logo ela, tão cansada do eterno estar e ser do dia-a-dia. Deixo que descubra a poesia das gotas.

Ando incrivelmente com vontade de abraçar o universo. Sorriso bobo no espelho. Nem mesmo as rugas em torno dos olhos conseguem amenizar a estranha sensação de felicidade que por hora me invade. Sei que é breve. Em mim, há pouco espaço para alegrias, natureza noturna, circunspectamente minha face espreita indagações. Mas hoje, não. Hoje visto-me de certezas e sensações.

E caminho lavada de chuva pelas avenidas cinzas da cidade. Percebo cores no asfalto. Poesias nos bêbados e mendigos do sinal. Busco balês nos passos cabisbaixo do que vão e vem. Música me acompanha. Cantarolando baixinho mantras de boa sorte.Amanheci assim. Não sei se entardeço do mesmo modo. Estranha gangorra de emoções que vive dentro de mim.
a criatura e a moça

12.10.03

Voltas

Passei minha infância inteira com vestidos de saia rodada. Eu adorava rodar em torno de mim mesma pra ver o balão que ela formava. Rodava até ficar tonta, cair, sujar o vestido e chorar porque a brincadeira tinha de acabar. E assim passei a vida, olhando minha saia e achando que aquilo era a única coisa que existia no mundo, rodando no próprio eixo pra ter a falsa ilusão que tudo se movimentava em torno de mim e levei tombos.
Rasguei meus joelhos, levei pontos na testa e torci meu tornozelo. Troquei meu vestido sujo várias vezes, usei curativos que ardiam sem ter ninguém para soprar. Eu estava rodando no escuro sem ver nada o que estava acontecendo, feliz por estar sentindo minha saia florida podia rodar mesmo no escuro. A luz se acendeu, seguraram nas minhas mãos e me pediram para olhar dentro dos olhos, para esquecer o significado da palavra tempo e sentir todos os sentimentos que me rodeavam, me propôs parar de rodar, e sentir que a minha saia está voando apenas no momento que o vento se fizesse presente em um dos lugares que estaríamos vivendo sem provocar tantos tombos, e se eles acontecerem, foi porque o buraco ou a pedra eram maiores que a nossa lucidez.

A luz acendeu na madrugada.
-Traks preciso falar com você agora!
-São duas e meia da madrugada! Temos que acordar às 5h00! Não dá pra ser depois?
-Não, tem que ser agora, olha bem pros meus olhos!
-Eu nem consigo abrir os olhos!
-Por favor! É muito importante!
-Pronto tão abertos! Só te digo que eu não vou lembrar de nada disso de manhã por que sou sonâmbula!
-QUER CASAR COMIGO?
(...)

Em caso de coma - Me coma!

O que é que minha mãe tem

E olha que nem baiana ela é. Mas estava eu dizendo pra ela:

-- Mãe, mãe, Respectivo está vendo apartamentos e tudo mais.
-- Sim, mas ele vai só?
-- Por enquanto, nén? Depois só que eu vou.
-- Sei. Duvido que você agüente ficar em casa e não seguir rapidamente.
-- Ah, oras, digamos que somente não vou porque acho que o papai ia ter um surto, um ataque do coração, bem agora que ele sente a idade chegando, com o aniversário.
-- Mas a gente podia dar aquela geladeirinha que era da sua irmã.
-- E o sofá que era da vovó?
-- Acho que podia também. E tenho uns pratos sobrando. Podia dar pra vocês.
-- Mas o papai, mãe.
E minha mãe estende a palma da mão virada para mim e:
-- Deixa comigo, assossegue-se.
[e eu, internamente: *Noooooossa, quantos progressos!*]

Então eu estou lá no sofá assistindo sei lá a que programa televisivo e chega meu pai e senta-se do meu lado e logo vem minha mãe da cozinha. Isso era já outro dia. E minha mãe:
-- O seu pai queria te perguntar uma coisa.
-- Hm? Coisa?
-- Se você e Respectivo estão pretendo ir morar juntos.
-- Hm, bem... cof-cof-cof -- chega que engasgo. Nesse momeeeeento, agora-agora, não. Depois. Mas pai, você ia ter um surto muito grande?
-- Mas nã, que eu estou bem de olho na movimentação toda.
[e eu, internamente: *Noooooossa, quantos progressos!*]

E seguimos para a cozinha e minha mãe vai lá dizendo como Respectivo é tudo, como ele me traz flores, como ele fez Ciências Sociais e é ateu e admirador do socialimo e da dialética marxista (supostamente atributos que deveriam deixar meu pai babando por Respectivo), como Respectivo é responsável e ajuizado, porque quer comprar um apartamento e como ele só tem 27 anos de idade e fez tudo isso.

E meu pai fica lá, o pobre, sem ter a quem se aliar nessa mini guerra fria. O mundo que gosta de Respectivo versus papai, tentando proteger sua filhinha caçula a quem chama de minhoquinha. Sei que, medeus, estou incrível até agora, como foi que ele aceitou tudo e ainda disse que sim, que a geladeira e o sofá e blablabla a gente podia pegar.

E ainda no outro dia, minha mãe se chega a Respectivo e diz:

-- Dívida eterna, Respectivo.
-- Mas como?
-- Que eu estou fazendo um trabalho sério de convencimento do pai da Ione, pra aceitar a idéia toda de união estável.
Respectivo cora. Respectivo tem medo do meu pai. Meu pai é difícil, mas não é bravo. Mesmo assim.
-- Sim, Respectivo, agora eu vou querer, como pagamento, acarajés para todo o sempre.
-- Tá, tá bom -- Respectivo não sabe onde enfiar a cara.
-- Daquele da Liberdade, todo domingo.
-- Tudo bem, tudo bem. Feito.

DEUS! Minha mãe me vendeu por acarajés!

O primeiro fim-de-semana passou e Respectivo não comprou o acarajé da minha mãe. Vamos torcer para ela não fazer um trabalho de convencimento contrário do meu pai.

a menina do didentro

30 sinais de que você está em um legítimo boteco
Por Dark Jules

1 - Cerveja a menos de R$2,00. Só em um legítimo boteco para a cerveja custar tão pouco (se bem que é "Polar", "Belco", "Schincariol", "Cintra", etc)
2 - Marcas de cigarro alternativas. Nesses lugares vendem-se marcas como "Campeão", "Ritz", "Fúria Mentol","Oscar" e "Amigo".
3 - Bebum de fé (O Landin). Todo o boteco que se preza tem um bebum da casa, que aparece todo santo dia para "bater o ponto".
4 - Potão de conserva atrás do balcão. Quase sempre é de ovo de codorna no vinagre (aquela cebola com sardinha... hehehe).
5 - Nome com apóstrofe e um "S" no final. Sempre cheios de estilo, como: "Revelation's", "Bambu's" e "Ressaca's". Ou então é o nome do campeão, como Bar do João, Bar do Alemão, Bar do Negão, Bar do Zico, Bar do Pelé.
6 - Garrafa velha de refri. Quando se pede Coca, vem Pepsi, naquelas garrafas com logotipo branco, com a tinta já gasta, do tempo do Michael Jackson.
7 - Rádio AM como música ambiente. No fim das contas, faz mais barulho do que propriamente som.
8 - Catchup em diversas tonalidades de vermelho. Um festival para seu paladar.
9 - Cartãozinho de "Não aceito fiado". Outra variação criativa é: "Fiado só para maiores de 90 anos acompanhado dos pais". Ou aquele calendário com um cara com carrão e outro pedindo esmola... com aquela frase: "esse só vendia fiado").
10 - Banheiro à la Trainspotting. "O Pior Banheiro do Mundo" (...ou coisa pior). Se tiver tampa na privada e papel higiênico (o de lixa), não está no espírito.
11 - Cardápio escrito à giz e com vááários erros ortográficos, como "XCorassão", "Concrete" e "Wisk".
12 - Cozinheira gorda e mal humorada, com bigode e chinelo de dedos. Ou garçom de bigode, com camisa pra fora das calças e caneta bic atrás da "orêia".
13 - Balas "de troco" de um só tipo: duras, ruins e guardadas dentro de um pote nebuloso de plástico. Detalhe: a embalagem nunca desgruda da bala.
14 - Toalhas de plástico grudadas com percevejo. Daquelas que o seu cotovelo fica até colado, ou mesas de madeira repletas de furos de cupins.
15 - Um cachorro bem sarnento zanzando na porta. Note que ele nunca entra senão leva pau!
16 - Telhado de amianto ou de folha de zinco. Piso de cimento ou de "Xadrez Vermelhão". E o balcão sempre de pedra ardósia.
17 - Mesa de Sinuca de Madreperola. Com o pano verde encardido e cheio de desenhos de giz azul. Os tacos geralmente são tortos e grudentos, o que obriga a passar o giz azul na mão pro taco escorregar!
18 - Não existe caixa registradora. E sim uma calculadora destas de camelô que emite um "bip" a cada tecla apertada . O dinheiro é guardado numa gaveta com as divisórias feitas de ripa de caixote. As onças (notas de R$50,00) são guardadas embaixo da gaveta.
19 - Ventilador de Teto. Que faz mais barulho do que vento e está cheio de cocô de mosquito.
20 - Relógio de parede chinês com aquela borboletinha no ponteiro de segundos.
21 - Pôsters do time do dono do buteco. Destes que vem no Jornal dos Sports,pregados na parede (já bastante desbotados).
22 - O garçom abre a cerveja com um abridor que é um pedaço de cabo de vassoura com um parafuso na ponta. E joga a tampinha no meio da rua.
23 - Você pede Fanta Uva e o cara tem! Naquela garrafa velha ainda!
24 - Coleção de Garrafas de Conhaque Dreher e Presidente, Velho Barreiro, Becosa Steinhaeger, Caninha 51 (tem a 21 também), Coquetel de Frutas, Jurubeba Leão do Norte, Batida Bahianinha e Vermouth Cortezano numa prateleira na parede atrás do balcão.
25 - Isqueiro Transparente preso com corrente de cachorro.
26 - Estufa com os salgadinhos de sempre: Coxinha, Croquete, Empada, Pastel e Pastel Assado (este último é sempre o mais caro). E quando você pergunta o que é de hoje, o cara sempre responde que tudo "é de hoje", mesmo já tendo mais de uma semana na estufa.
27 - Você pede pimenta e o cara te traz uma garrafa de um litro, tampada com uma rolha e com as pimentas até amarelas.
28 - A "pinga da boa" é guardada embaixo do balcão, num garrafão verde de cinco litros.
29 - Sempre tem um orelhão por perto (pode ser externo do tipo "comunitário" ou interno nos botecos mais chiques).
30 - Além das bebidas e dos tira-gostos triviais, dá pra encontrar também cortadores de unha, barbeadores "bic" (aquele de uma lâmina só e que não vale nada), refil de pedra de isqueiro e canivete "quatro ases".

Site do Homem-Chavão

11.10.03

ESTE LADO PARA CIMA:

* Não entendo como algumas pessoas podem ser tão agressivas, sem ao menos dar a chance de conhecer quem estão agredindo. Decididas a fechar a sentença, a carta, a pontuação de sua respiração, explicando o que não foi perguntado, respondendo somente ao interesse da visibilidade. Incapazes até de sentir um ódio por inteiro. Fiéis aos seus enganos, defendendo algo que não faz parte do sangue, mais preocupadas em ouvir seus pensamentos do que escutá-los fora. Ranzinzas no trânsito dos talheres, chateadas, de vaidade nervosa, com um medo de perceber que estão irremediavelmente sozinhas, com horror da simplicidade e complicando o que não precisa pedir licença. A literatura não é feita para isolar. Lembro de uma frase de Calderon de la Barca: "que farão pelo que ignoro/ se pelo que sei me enterram".

* O elogio da modéstia é a pior vaidade.

* Os justos são discretos. Eles não dependem do troco para contar o que foram.

* Minha incompetência é ficar sozinho no quarto, com o guarda-roupa aberto. Sou favorável à eutanásia das roupas.

* Tenho dificuldades em decorar telefones e nomes. Meu catálogo é folhear um rosto umedecendo os dedos.

* Minha avó ficava horas a bordar. Levantava o pano e se fazia entre as agulhas. Parecia fechar uma ferida, que só ela via. Daí meu desejo de escrever com as unhas, raspando a terra.

* O pessegueiro é o carvão do vento.

* Duas infelicidades não conseguem dialogar. Uma quer ser maior do que a outra. Na hora em que se conta uma tristeza, aumenta-se a história para evitar a concorrência.

* Abolir o dever e as pessoas que acompanho se transformam. Hoje só vejo o dever. Necessito esquecê-lo. Uma criança que retorna de férias e entra em seu quarto como se tudo fosse novo e impossível de brincar em uma única tarde. Quando não damos conta do mundo, estamos vivos.

* Não escrevo por esporte.

* Basta a verdade conviver comigo e ela aprende a mentir.

.:. Fabricio Carpinejar .:.

10.10.03

A Tabuletra Informa: Projeto “Bandido Legal” já Dominou o Estado.

(do nosso enfiado especial: Chucky, o brinquedo assassino; consultora associada: Malícia Silverstone)

Cidade Capital urgente – A regulamentação das atividades criminosas, novo projeto do Desgoverno do Estado, está fazendo o maior sucesso. O plano agradou tanto aos populares indefesos quanto aos profissionais marginais. Em depoimento à Tabuletra, os cidadãos confirmaram sua satisfação com a novidade.

“Antes desta lei era aquele negócio: um moleque xexelento te agarrava o braço, dava empurrão, ameaçava com caco de vidro, um estresse. Qualquer assalto era a maior roubada! Agora não, ta organizadinho, com senha e tudo” declarou Maria do Socorra-me, auxiliar de enfermagem que trabalha no centro. “Você nem precisa andar com dinheiro porque agora eles aceitam todos cartões de crédito: levam qualquer um que estiver na sua bolsa”. Entre as muitas novidades, a que mais encantou a alegre Maria foi o programa de milhagem: “A gente ganha pontos para cada milha que roubam da nossa conta-corrente. Depois pode trocar por um cordão afanado, um Rolex falso... Mas meu grande sonho é tirar o prêmio principal: um carro zerinho puxado na hora. A gente pode até escolher a cor e o modelo!”.

O êxito do projeto foi tamanho que já começam a surgir problemas decorrentes de sua acelerada expansão. Alguns dos lalaus mais famosos já têm fila de espera para os próximos meses. Um dos meliantes mais célebres declarou à nossa reportagem que só aceita novos clientes através de concurso. Na próxima semana serão disponibilizadas 30 novas vagas em sua carteira de clientes. “É a ultima chance neste ano. Depois disso as vagas só vão surgir nas carteiras da nossa clientela. Especialmente se forem carteiras cheias de dinheiro e cartões de banco”. Além da demanda exagerada, os bandidos ainda precisam enfrentar a burocracia: suas licenças criminosas por enquanto são apenas provisórias e todos têm um prazo de apenas 30 dias para falsificar as definitivas.

O mundo empresarial também já aderiu ao programa e (...)

continua no Letra Morta

(...)

Urologista. Nunca entendi porque alguém iria na vida querer ser urologista. Urologista pra mim era ser médico de pau. Pra que que o cara, sem ser viado, vai querer ser médico de pau? Aí qual não foi a minha surpresa ao ver uma senhora na fila do consultório...

Pensei: “Puta merda, é traveco! Mas como pode, velhinha desse jeito”. A senhora tinha uns bons 60 anos. Não imaginei que traveco chegasse nessa idade. Aí na hora que a velha saiu perguntei pra secretária que me explicou que urologista cuida da uretra. E mulher, seus burros, também tem uretra. Mesmo assim achei meio humilhante praquela pobre senhora ter ficado ali, no meio de um monte de homem.

Aliás, humilhante pra todos eles. Eu pelo menos era garotão. Quem me olhava devia pensar: “Esse aí meteu o pau onde não devia”. Quem olhava pros outros devia pensar: “Esse deve tá com impotência”. Quer dizer, acho que eu era o que tava com melhor perspectiva ali. Pela primeira vez na vida me senti um garanhão.

Fiquei um tempo na sala de espera, lendo as tradicionais revistas de consultório. Aliás tenho uma teoria de que quem sustenta o mercado editorial do Brasil são os consultórios médicos. Ninguém mais compra Quem, Caras, Veja, esse tipo de coisa. Até Época tinha lá.

Quando chegou a minha vez eu, por suposto, entrei. O doutor disse ‘oi’ e esticou a mão pra eu apertar. Apertei, o que foi uma decisão bastante temerária. Ele me fez as perguntas padrão e mandou eu deitar na maca, pelado. Deitei, ele ficou ali mexendo no meu pau e, graças a deus, eu não senti nada. Essa é uma vantagem de se ir no urologista, você tira a prova dos 9 de se é viado ou não.

Então ele fez o pedido macabro: precisaria coletar esperma. Eu fiquei meio nervoso, não sabia como reagir e fiz a pergunta mais estúpida do mundo: “Tá, mas como faz isso?”. Ele abriu um sorriso de meia boca e me deu um potinho. Apontou uma porta nos fundos da sala e disse: “Vai ali dentro, o esperma tem que ficar no potinho, claro. Quando terminar é só sair. Tem uma pia lá também pra lavar a mão”. E eu fui.

E esse deve ser o segredo mais guardado nas faculdade de medicina, porque ali estava a explicação que eu vinha buscando há anos. Que tipo de homem se torna urologista? Os punheteiros! Aquilo era o paraíso da punheta. O Éden de Onan!

Tinha um armário daqueles de arquivo com (...)

mais no Cocadaboa: Jardim do Édem

A única anarquia que funciona - além da sociedade das formigas - é uma boa pelada.
Não a fêmea nua, mas uma boa partida de ludopédio.
Não que fêmeas nuas não sejam interessantes, mas o papo é anarquia.
Enfim. Voltando ao assunto.
Peladas não tem esquema tático, mas é raríssimo um contra-ataque numeroso. Quando ocorrem contra-ataques.
Posição em pelada é um lance muito simples. Quem é bom fica na frente. Quem é ruim, vai pra trás. O pior dos ruins vai pro gol. E todo mundo se conforma numa boa.
Pelada não tem juiz. E mesmo assim, todo mundo se entende. Discussão em pelada só quando rola um bêbado.
A sociedade poderia ser que nem uma pelada. Todo mundo conformado com a função que exerce. E em caso de dúvida, só precisaria saber de duas coisas:

1. Só sai quando passa do meio fio.
2. Estourada é da defesa.

Assim todos seríamos felizes.

KSW 7.0 | One sweet dream came true today

desconstruindo

um de seus dedos caiu, simplesmente. foi enfiá-lo no nariz para que pudesse aliviar a sensação de obstrução pela qual passava - leia-se tirar tatu - e o dedo ficou ali, se desprendendo da mão, sem sangue, sem dor, apenas saiu.

simples, usaria os outros dedos para tirar o indicador dali, e tentaria disfarçar a ausência de um dos dedos com uma salsicha costurada no lugar. simples.

com o indicador da outra mão e seu devido polegar opositor - dá-lhe jorge furtado! - fez o movimento de pinça adequado à operação e sua surpresa foi terrível, assim como será para vocês: os dedos desprenderam-se da mão do mesmo jeito como acontecera antes com seu outro indicador.

tentou mais algumas vezes até que lhe faltassem todos os dedos das mãos - eram só duas mãos.

desesperou-se. como enfrentaria a sociedade assim, com um dedo enfiado no nariz e nenhum nas mãos, nunca mais poderia fazer chifrinhos (lml) para os amigos, nunca mais podendo dedilhar moças e pianos, nunca mais podendo pedir carona, nunca mais tc(!), nunca mais esse monte de coisas que vocês imaginaram?

simples. não enfrentaria. daria um tiro em sua própria cabeça, para encerrar logo o sofrimento.

mas para isso eram necessários dedos. tentou usar os dos pés que também soltaram-se, um a um.

mas ainda tinha seu pênis mediano.

preferiu não arriscar.


=====


ninguém havia-lhe avisado ao longo de sua brevíssima existência física e etílica pelos botecos próximos da faculdade na qual fingia estudar psicologia das relações humanas e onde conhecera a maior parte de seus atuais amigos ainda que não fossem todos amigos de verdade e ainda assim amigos que reconhecia como tais porém não tinha certeza se todos o reconheciam assim reciprocamente e também nem se importava muito com isso contanto que pudesse continuar bebendo sua cervejinha em paz mesmo não sendo avisado e se você ler ali no começo vai perceber que eu já iniciei o assunto de que é possível fazer frases enormes e sem a menor elaboração ou concordãncia ou estrutura gramatical de coerência mínima que seja para um entendimento geral da idéia encerrada na sentença contanto que se mantenha uma certa unidade no encadeamento das idéias que nela devem estar encerradas.

hmmm, perdi o fio da meada... o que ia dizendo mesmo?


como assim dois uísque?

Separação

- Você me ama?
- Pra cacete.
- Eu nunca amei ninguém tanto assim.
- ...
- E agora, o que a gente faz com isso?
- Guarda numa caixinha.
- E depois passa?
- Às vezes demora mais, outras demora menos, mas sempre passa.

A Bêbada e o Equilibrista

9.10.03

Maria Luiza

Há uma casa em um lugar chamado Maria Luiza. Há um pedaço de mar que encomendei e que pode ser visto quando saio e caminho pelas ruas da cidade que desenhei. Passo a mão sobre o dorso de meu cachorro e ele me sorri em lambidas. Eu e ele caminhamos agora sobre os traços de nossos mapas. Há uma garrafa de vinho chileno para as noites de frio na casa que nos espera. Pico o queijo, ajeito a toalha, sinto o cheiro do banho. Preciso de mãos que deslizem hidratante sobre a pele que queimei quando os meus olhos se distraíram com o azul. Deslizamentos sobre Maria Luiza provocam confusões no trânsito. Faço um sinal com o dedo sobre lábios em sorriso. Os vizinhos ainda não sabem de nossa presença e não quero que invejem o amor que planejamos. Há um pedaço verde em um canto qualquer de um papel dentro de minha gaveta. Nele coloquei um nome mas não uma data. Tenho na mochila tudo o que preciso. Sei da fogueira sinalizando um sorriso. Queimo também.

Walkwoman

Foi como achar aqueles tênis Rainha Iate vermelhos de novo. Aqueles que eu não sei a razão de eu ser tão obcecado por eles, talvez porque eram como os sapatos de rubi da Dorothy. Aqueles que eu queria desesperadamente quando era pequeno, mas minha mãe comprou um tênis preto qualquer porque preto é mais prático e combina com tudo.

Na época, cheguei a ficar até deprimido, mas bem no fundo, eu sabia que aqueles tênis vermelhos ainda iriam ser meus. E eles foram. 10 anos depois. E quando vc já é um homem feito, eles se tornam ainda menos práticos.

Mas eles eram lindos e mágicos e simplesmente tudo o que eu queria que todos meus tênis fossem. Nada me fazia tirá-los dos pés. Admirar sua singularidade. Desejar que todas as coisas pudessem ser perfeitas. Desejar que todas as coisas pudessem me trazer um pouco do prazer da inocência.

Eles me fizeram esquecer como era andar de pés descalços. Eles me fizeram esquecer que poucas pessoas os acham ou ousam usá-los.

Mas eu ousei. Como se eu tivesse 8 anos de idade de novo, com o mesmo coração bobinho. Como se o tempo não tivesse passado e não tivesse sido tão cruel comigo como eu sempre pensei.

Eu não liguei se eles não combinavam com nada. Eu os levei pra casa. Eles se tornaram uma parte de mim.

E então, uma manhã, os tênis não pareciam felizes. Os tênis não queriam mais caber nos meus pés. Eu tentei inocentemente forçá-los várias vezes, mas nada adiantou. Eu fechei meus olhos e desejei que eles, de alguma forma, voltassem a ser do jeito que eram quando eu os vi pela primeira vez. Eu desejei que aqueles momentos não tivessem passado.

Então eu me conformei. Eu os coloquei na caixa, mas não voltei a loja pra devolvê-los. Eu não poderia colocá-los de volta no mundo dos tênis.

Me comprometi a colocá-los na estante mais alta do meu armário, e a sempre acreditar, com meu coração ainda bobinho, que um dia eles irão caber de novo.

. my own pretty hate machine .

Sem conseguir dormir, decidi virar artista.

Levantei, fui na sala e li rapidinho uma notícia sobre Alex Katz. Falei "uau", uma e meia da manhã nem é tão tarde e decidi virar artista também.
A primeira idéia era pegar um bocado de folha branca, um canetão, sentar lá no quarto e desenhar no escuro. Canetão sem funcionar, desisti.
Lembrei do potinho velho de nanquim e do pincel "duro", daqueles que secaram sem limpar, "irreversíveis". Panhei os dois, cortei metade das cerdas (?) do pincel, abri meia página de jornal em cima da mesa da sala e com o pescoço todo duro comecei o processo.
Pinga pra cá, espirra pra lá, nascia ali um novo Matisse, um Picassinho insone e sem jeito. Lembranças do mar, figuras fantásticas, cenas da infância... nada disso passou pela minha cabeça. Todo travado, medo de sujar tudo, desenhava só rosto, menos chance de dar errado.
Feliz com uma ou outra cabecinha, trombei no potinho que caiu em cima do jornal. Uh, caralho, jornal é fino, busquei um pano, veja multiuso, acordei o papagaio. Passei o pano rapidinho, dei uma lambrecada mas o veja consertou. Só que na vorta, percebi que o potinho agora tinha caído em outro lugar...
Desde pequeno eu lembro daquele paninho de crochê. Mesa de madeira, um vasinho e um paninho daqueles embaixo: maravilha. Nanquim selvagem, pulava de pedacinho em pedacinho, a mancha crescendo... Desespero, sentei a mão no troço pra estancar a sangria, enchi as unhas de tinta, pus no colo que nem um filhote de tatu machucado. Levei pro tanque, abri a torneira, acordei todos os canários e espalhei com maestria o resto do nanquim, mapa de Portugal virou
Rússia.
Barulheira, catei tudo que não prestava (pincel e potinho de ex-nanquim...), lixo. Pus os desenhos que gostei em cima da mesa, esperei dar uma secadinha andando de um lado pro outro, fiz um xixi, voltei, pus tudo dentro dum caderno de jornal pro meu pai não ver espalhado de manhã e fui tentar dormir, duas e meia.

as figurinhas estão no opa

Dentro do umbigo selvagem (as coisas não mudam)

Gostava da outra. Na verdade, era mais, muito mais do que isso. Mas tem coisas que são difíceis de admitir. Melhor fingir que tudo foi um engano e contar para os amigos, cada vez menos solidários, que as lágrimas vertidas faziam parte de um laboratório. Eu não contei? A Globo me convidou para fazer uns testes e.

Gosto dela. Na verdade, é mais, bem mais do que isso. E admito tudo com uma falta de pudor que me assombra. Vontades estranhas tem me acometido. Tenho pensado em adquirir uma canga e me mudar para o litoral no verão. Canelas finas expostas ao sol e ao ridículo. Eu não contei? Sou voluntária em uma pesquisa da NASA sobre os efeitos dos raios UVA e.

Gosto de mamy. As vezes. Toda aquela confusão travestida de misticismo. Tento convencê-la de que no estado em que as coisas estão deus, seja lá qual for o nome que ela invoque, não pode mais ajudar. No entanto, sempre comento com um estudado tom de voz casual, um bom psiquiatra faria misérias. Ela se nega, me renega e até baba quando discutimos. Bacana. Se continuar assim, um dia poderei cobrar ingresso.

Mulherzices

8.10.03

Teatro

Há a peça, há os atores e há você. Você talvez não seja a atriz principal. Em compensação, você é o cenário, o figurino, o roteiro, a direção, a iluminação – Você é luz/É raio, estrela e luar –, você é o público e as poltronas puídas em que ele se senta, é a bilheteira mal humorada, o cara que toca a campainha para anunciar o início da peça.

Quando durmo, e começa a peça surrealista dos meus sonhos, você é a esfinge que cai do céu, espalhando enigmas por todos os lados em forma de esferas com ideogramas chineses. Você sai correndo com minhas roupas enquanto eu fico nu no meio da Avenida Paulista. Eu corro e não saio do lugar; é você me segurando. Eu começo a cair e foi você quem me empurrou. Eu vôo, mas é com as suas asas. Morro e vou para o inferno, julgado por você.

Eu precisava tirar você do meu teatro. Eu era ator principal desse negócio; agora me contento com qualquer figuração: acho que o tempo dos palhaços tristes ficou para trás.

Jesus, me chicoteia!

Neste Brasil imenso,
Quando chega o verão,
Não há um ser humano
Que não fique com tesão

É uma terra danada,
Um paraíso perdido
Onde todo mundo fode
E todo mundo é fodido

Fodem moscas e mosquitos,
Fodem aranhas e escorpiões
Fodem pulgas e carrapatos,
Fodem empregadas com patrões

Os brancos fodem os negros
Com grande consentimento,
Os noivos fodem as noivas
Muito antes do casamento

General fode tenente,
Coronel fode capitão
E o presidente da república
Vive fodendo o povão

Os freis fodem as freiras,
O padre fode o sacristão
Até na igreja de crente
O pastor fode o irmão

Todos fodem neste mundo
Num capricho derradeiro
E o danado do dentista
Fode a mulher do padeiro

Parece que a natureza
Vem a todos nos dizer
Que vivemos neste mundo
Somente para foder

E você, meu nobre amigo
Que agora está a se entreter,
Se não gostou da poesia
Levante e vá se foder

Phanta Uva em ¢AtaRrO vE®De

Desencana, Isa

Quando estive em BH, Raquel ficou impressionada com o fato de que tudo, absolutamente tudo, corria o risco de virar um post.

Ando na rua. Chove. Penso na solidão das noites de chuva. Mentalmente, escrevo um post. Cinco minutos depois, já esqueci.

Leio o email da Patsy. Ela fala de Sampa. Penso em Caetano, meu coração bate mais forte pela esquina da Ipiranga com a São João. Mentalmente, escrevo outro post.

Penso nos relacionamentos on-line. Nas expectativas que as pessoas têm quando se encontram, de fato, na vida real. No desejo - impossível - de corresponder à fantasia do outro. Mentalmente, escrevo mais um post.

Converso com Gabriel sobre Macs e PCs. Penso nas aspas inglesas, na minha fissura por tecnologia, nas origens deste interesse. Lembro o quanto o mundo virtual me encanta, há tanto tempo. Mentalmente, tudo isso vira mais um post.

Passam das onze da noite. Coisas e mais coisas, como flashs, como relâmpagos, passaram na minha cabeça ao longo do dia. O café que eu tomei na esquina, o taxista que ouviu minha conversa, a mulher gorda ao meu lado, a mulher louca com quem conversei horas a fio.

Tem também as frases que disse e, na hora, achei absolutamente geniais, mas já esqueci todas...Ah, vai ver que nem eram tão boas assim. Mas naquele instante, mentalmente, também viraram um post.

Tudo isso se processou numa espécie de liqüidificador e virou este post. Desencana, Isa. E pára de transformar a vida em post....

elasporelas

Mania de grandeza

Às vezes eu me deparo com homens que vivem em delírios intelectuais. São grandes a não mais poder (no sentido de elevado, pelo amor de Deus!), emitem opiniões definitivas, são detentores do Grande Conhecimento e, por último mas não menos importante, sentem pena dos outros a granel.

A diferença entre mim e um maluco com mania de grandeza é que ele sente pena de mim pela minha pequenez que é real, enquanto eu sinto pena dele, por sua grandeza que é ilusória.

À noite, eu rezo pelas almas dos homens que se pensam grandes. Peço para que se tornem microscópios, para que notem que há sapiência no que não se dimensiona a metro. Rezo em especial para os homens que não se permitem sentir, porque se acham grandes. Para eles, não há nada pior do que o momento em que a noiva joga o buquê para trás, enquanto duas primas gordas rolam pelo chão, esperançosas. Os homens pequenos riem; um ou outro chora. O homem grande, não. Ele cita Aristóteles.

Digo o que digo com a autoridade de quem já passou meses de cama, acometido pelo mal da grandeza. Eu era febril na crença da minha superioridade. Perdi a conta de quantas vezes, tremendo, com o termômetro marcando quarenta e um graus, eu era sacolejado na sela de uma montaria que vencia obstáculos na Hípica. Noutras ocasiões, agarrava-me ao preciosismo de um soneto. O mais triste foi quando fiquei 48 horas insones na Biblioteca do Vaticano procurando por apenas uma referência ao brasão de minha família.

Não sei se há na psiquiatria termo adequado para definir o homem que delira na sua ambição aristocrata. Tratamento não há, ao menos não na farmácia alopática. Somente uns poucos curandeiros, dotados de um espírito cheio de galhofa, são capazes de prescrever remédios que curem a grandeza que é ilusória, para não dizer mentirosa, fraudulenta mesmo.

O tratamento inclui, antes de qualquer coisa, trocar o cinza por uma cor mais alegre. A calça social por uma calça de brim. O sapato por um tênis All Star. As meias finas por outras, chamadas soquete, com inscrições em inglês na canela. Raspar a barba também faz bem. Deixar de ler autores clássicos para se entreter com o que há de novo e bom é uma ótima pedida. Telefonar para os amigos, sobretudo para os inferiores, e com eles conversar sobre futebol e a novela das oito. Ir à praia vez por outra, beber Schincariol no lugar do bourbon. Não se ministra música ruim aos ouvidos dos seres que pensam que são grandes, mas doses homeopáticas de boa bossa têm se mostrado eficazes para curar o jazzismo ou classicite em estados já terminais. Em tempo: há doentes que não se furtam à audição de rock, desde que sejam capazes de ver metafísica na canção. Neles, o ideal é mesmo música sertaneja na veia. Um namoro cairia bem ao homem que acha que é grande, mas isso é remédio que depende de fatores externos. Nada melhor para um ser que se julga elevado do que uma noite passada em claro, com saudades da amada.

Os freudianos mais raivosos defendem que a mania de grandeza é a pior das perversões, porque transforma o doente num caricato rei da sarjeta. Ele diz que sabe apreciar bons vinhos e fumar bons charutos; quando a gente conversa com ele, não deixa nunca de escutar uma frase em latim; ele é capaz de discorrer sobre a nobreza da caça; e fica horas tecendo comentários sobre um verso de Alberto da Cunha Melo, por exemplo. Mas é rei num reinado fictício. Certo dia eu vi um documentário sobre o assunto, num desses canais pagos: era triste ver o homem que se dizia elevado em andrajos (cinzas, obviamente) tendo de ir ao banheiro e, assim, deparar-se com o que há de mais natural em sua condição de ser civilizado e grande.

Minha opinião sobre o assunto diverge da literatura médica e psicanalista ortodoxa. Não acho que seja caso para hospício nem tampouco considero a mania de grandeza uma perversão comparável à prática do sadomasoquismo. Acho que é mau-caratismo mesmo, curável com um ou dois cascudos bem dado no lombo do moço. Em geral - e as mães fazem isso sem se preocupar com teorias estapafúrdias -, uma boa sova com vara de marmelo cura este esnobismo. Na criança os efeitos são sentidos de imediato, mas num adulto que não tenha passado por isso na idade certa o efeito pode demorar a surgir. Logo, são necessárias duas ou três surras muito bem dadas no caboclo para que ele deixe de ser besta.

Mas eu dizia que sentia pena e sinto. Seria, portanto, incapaz de dar um tapa num maluco destes. Por mais que fosse para o seu bem. Como se trata de um caso extremo, talvez fosse aceitável, do ponto de vista cristão, desejar-lhe a morte. Ainda que eu saiba que tal afirmação jamais será compreendida. A morte como redenção, vista pelo outro, ainda é algo muito nebuloso, e se confunde facilmente com desejos homicidas.

Uma ignorância, sem dúvida.

O Polzonoff

7.10.03

Alguém já te disse isso?
Quando algo de muito bom lhe acontece, quando você tem sucesso ou sorte,quando você consegue tirar férias e viaja para um lugar paradisíaco, quando você encontra o amor da sua vida antes de suas amigas......
A sua felicidade é tanta que não cabe dentro de sí e aí você precisa contar para alguém ou para todo mundo, mas você corre direto para o seu melhor amigo, ai ele te responde : "Poxa, que legal! Estou feliz por você! Que inveja! Mas é uma inveja branca, boa!"
Pode soar um pouco estranho, mas está aí uma palavra que falta no nosso vocabulário, ou se existe, eu ainda não conheço. Uma palavra para traduzir um sentimento de felicidade pelo próximo mas ao mesmo tempo uma vontade de que aquilo tivesse acontecido com você também.

A inveja má (ou somente inveja) sempre vem acompanhada de um comentário maldoso ou uma cara de dúvida sobre aquilo que você acabou de contar.

Ontem mesmo eu deixei um comentário para a Claudinha sobre quando ela diz que consegue conversar em holandês, fazer piadas e comprar a passagem para o Brasil, sozinha, sem ajuda, sem apelar para o Inglês. Eu disse que a invejei. Mas é uma inveja de admiração, por ver que ela não tem medo de errar, não tem medo de tentar o "pouco" do holandês que ela sabe (o que já significou muito) e sair da agência vitoriosa.
Isso me fez pensar também no meu desempenho quando aos estudos. Tudo bem, reconheço que não sou assim a esforçada, não tenho muita paciência para estudar em casa e peco falando português com o marido e inglês no trabalho. Mas me considero uma aluna boa. Apesar de eu perder todos os dias 1 hora de aula, por causa do trabalho, sempre tiro notas boas nas provas, entendo a matéria sem muita dificuldade e escrevo melhor do que falo (hehehe). No fundo acho que tudo seria mais fácil se os belgas resolvessem se esforçar também para falarem a língua correta, sem dialeto. Isso me deixaria tão admirada quanto eles ficam vendo o meu esforço em tentar aprender a língua deles.

Mas nesse verão passado eu tive a inveja ruim também. E tive muita! Que horror!! - Tive inveja das pessoas que passavam o dia tomando sorvete, se espremendo nas mesas do restaurante onde eu trabalho, sem ter que pensar no depois, rindo, curtindo aqueles dias de sol maravilhosos enquanto eu passava na rua, vendo todo esse cenário de felicidade-gringa-no-verão, indo para o trabalho. Teve dias que eu sentia vontade de jogar uma bomba neles ou de gritar que eles são todos um bando de falsos simpáticos, hipócritas e babacas. Mas essa raiva era da lembrança dos meus finais de semana nas praias paulista. Do nosso verão. Da nossa felicidade e simpatia natural e depois dessas lembranças, voltar a realidade era difícil. Passado a raiva eu reconhecia o meu egoísmo e me sentia mal.

Será que, quando a gente sente algo ruim (como a inveja) e depois reconhecemos o erro, conseguimos tirar das nossas costas a carga negativa da culpa por ter desejado algo ruim, mesmo que tenha sido somente num momento de estress ou raiva ?

Mas essa tal de inveja branca é algo que vem sendo usado com frequência por todo mundo. Querem exemplos? A Gabriela disse que inveja pelo meu piercing na língua pois ela morre de vontade de ter e nunca teve coragem de fazer. A Andrea uma vez disse que tem inveja de mim e da Sam por morarmos com nossos amores e pertinho do amor dela, e ela está lá longe. Eu e a Sam morremos de inveja de uma cubana, numa festa latina, que dançando maravilhosamente bem, linda, absoluta, o salão parou.
Eu invejo uma amiga bem sucedida profissionalmente e ela me inveja por ter um amor verdadeiro. Torcemos uma pela outra para que consigamos alcançar a outra parte que falta. E vibramos pelas vitórias uma da outra, ajudamos nos momentos de dúvida, cantamos os momentos felizes mesmo que seja só de uma parte.

E no final o que nós queremos é que todos sejam felizes e tenham coragem de fazer aquilo que nos fazem felizes. Seja um piercing, seja encontrar um amor, seja morar em outro país, seja ir no show da banda preferida ou chupar sorvete num domingo de verão sem se preocupar com as contas do próximo mês.

Por Débora Melissa, NoFreezer

Os blogs são legais. Até eles deixarem de ser legais. Até você perceber que as pessoas doudas lêem o seu e gastam energias brabas lhe desejando coisas ruins (como pode, né? mas pode), e eu não sei falar sobre outra coisa que não seja a minha vida, minhas diarices, meus atrapalhos, eu não sei. Não acho isso bom, mas é assim.

Então, meu povo, tô fechando a budega. El bodegón.

Porque não quero mais. Que saibam de mim ou de onde eu tô e deixo de estar ou de como o céu tá hoje e a minha unha encravada dando chunchadinhas, quando você poderia pensar que sua unha encravada em letras ia te trazer problemas? A gente tenta ser humilde nessa vida e o povo num deixa, lhe colocando em lugares que não te merecem. Isso é potencialmente ruim.

Os comentários eu tiro também porque num adianta eu dizer pra vocês que num comentem, que vocês são uns compulsivos, praticamente.

:P

Aí fica aquela coisa "aaah, voooolta!" e eu aposto que tem gente por aí que avalia errado: ela faz isso pro povo pedir que ela volte e lhe fornecer massagens egóicas (?) e... Ó a besteira.

A mensagem do dia que eu passo pras crianças leitoras aqui é uma coisa simples e politicamente correta: se beber, não dirija. Nem fique perto de um telefone. Nem deixe todo o catarro verde do seu coração escapulir. Faça isso não que é anti-higiênico. Especialmente se o catarro do seu coração contiver lixo nuclear. Problemas, meu amigo. Problemas.

Como é possível, meudeus, que o super-ego, tão super assim, seja tão sofrivelmente solúvel em álcool? Como se permite algo dessa natureza?

(como se não tivesse sido eu e sim alguma entidade maligna do além - sigo me enganando)

E assim vamos todos. É verdade que algum dia é capaz que eu apareça de volta, né? Bem capaz.

Eu só quero que seja simples. Não pobre. Simples.

autonauta da cosmopista

Pior que a morte é estar sozinho, agoniado dentro de si mesmo. Como um rato dando voltas e mais voltas dentro de uma gaiola, só esperando a mão em uma luva vir buscá-lo para a próxima experiência. Como um leão enjaulado num zoológico servindo de atração. Pior que a morte é ter vivido sem ter amado de verdade, sem ter se doado, sem ter recebido em troca. Pior que a morte é não ter corrido atrás, não ter feito nada pra mudar a situação. Pior que a morte é só ter prejudicado os outros, por egoísmo, por ciúmes, por orgulho, por burrice. Pior que a morte é viver como se não estivesse vivo. Pior que a morte é não saber porque se está aqui, no hoje, nessa exata hora, nesse dia, nessa vida.

Blue Idol

A noite transcorria como um século. Mesmo neste ambiente de pouca luz e algum silêncio não consegui dormir satisfatoriamente. Sonolenta, percebo o vaivém de homens, mulheres e crianças se alternando em cadeiras sóbrias e frágeis. Para os maiores não é dia de trabalho, para os pequenos não é hora de brincar. A contragosto, todos preenchem o espaço como podem.
Aqueles que chegam por último se orientam pelas grossas paredes que a todos parecem cercar. Eles esticam o pescoço procurando me divisar em meio à pequena multidão que se forma à minha volta.
O ar cheira a mofo, não sei bem se é a sala que cheira assim ou se é pelo tapete que colocaram debaixo de minha mesa. Estou rodeada de gente me encarando sem discrição, afinal vieram de longe só para me ver e cumprimentar. Por que culpá-los do desconforto que sem o saber me trazem? Se ao menos soubessem como fico sem jeito nessas horas. No entanto falar-lhes agora da minha modéstia seria no mínimo hipócrita. Jamais me perdoariam se eu dissesse que não posso oferecer dedicatórias. Não vejo a hora de sair daqui.
Mas ninguém me pede nada. Existe um assédio respeitoso. Ninguém parece ligar para as minhas roupas. Minhas respostas já não contam. Tanto sucesso involuntário deve ser porque hoje o dia é só meu.
Espontaneamente imóvel, volto a sentir sono novamente. Uma das mulheres passa com uma bandeja de salgadinhos. Onde estão as bebidas? Minha garganta está seca. A música ambiente se arrasta. O sono agora é incontrolável. Gostaria que tudo isso tivesse um fim. O burburinho, o mofo, a modéstia, os salgadinhos. Afinal é noite de sábado ou manhã de domingo?
Não sei dizer. Ninguém sabe me dizer. Na verdade não há ninguém aqui comigo para me dizer. Estou sozinha. Estou sozinha e dou por falta de um último convidado. Que senha deve ter recebido para me descobrir no meio de toda essa gente? Eu não saberei reconhecê-lo se ele não se apresentar. De qualquer modo, ou ele não existe ou está atrasado. Minha maquiagem agora começa a se desfazer. Tenho tanto sono.
Procuro adivinhar qual das paredes vai dar no banheiro. Não tenho tempo a perder pois vejo que todos já estão de pé e fica cada vez mais difícil atravessar a sala lotada eu já nem sei mais de quê.
Todos estão me encarando agora. O que será que querem de mim? O que vão me perguntar? Eu não preparei discursos. Seja o que for, eu não saberei responder. E estou derretendo. De sono. Um sono que chegou para ficar. Alguns homens se adiantam e se aproximam de mim. O que querem? Mas não. Eles estão mudos. Eles não me tocam. Eles nem me encaram mais. Só me cobrem e tudo fica escuro. Vou poder dormir afinal. Fico feliz. Ainda é noite de sábado.

Prosa Caotica

Estou em época predatória: enorme dragão de suntuosas tetas, faminta de vida, sangue, presas, garras fortes, cauda potente, devorando o mundo e a mim mesma. Predadora e presa, fome extrema, autofagia, nada me sacia, estou sedenta do infinito, de um grito, de um mar, de mil luas encobertas, faminta de me ser me sabendo em mim, devorando meu rabo, rasgando minha carne para descobri meu gosto, meu suco, meu sangue. Cravar as unhas em minha pele e me escalar pelo avesso, viver meu cio, me cobrir, me emprenhar e depois parir a mim, ressuscitar.

Não Discuto

6.10.03

Aquilo sim era uma dupla de criação. Experientes o suficiente para entregar um grande trabalho na agência, jovens o bastante para encarar todas as baladas fora dela. E juntos, porque quando uma dupla dá certo, continua dupla fora do escritório.
Um tinha carro, o outro andava a pé. Por isso, no fim das baladas, o diretor de arte levava o redator para casa. Um dia, a caminho de casa, o redator contou que decidira se casar. Foi aquela confratenização meio ébria mas emocionada, com o carro em movimento e os postes se esquivando. Logo depois, o redator aponta:
- Vai ser naquela igreja.
Lá estava o templo majestoso, mais pelas duas ou três doses do que pela arquitetura. A partir daí, era todo dia:
- É aquela igreja.
- Eu sei, você já me contou.
- Você vai no meu casamento e vai sentar na frente, hem?
- Claro, claro.
Dias, baladas, semanas, o tempo passa a jato: chegou o dia do casamento. O diretor de arte enfeitou-se todo, terno, gravata, perfume e toca para a igreja.
Avenida, passa o primeiro viaduto, primeira à direita e lá está - não, lá não está a igreja. Caramba, era ali, avenida, viaduto, primeira à direita. Voltas no quarteirão, procura daqui, procura dali, nada. Dez para as sete. Cinco para as sete. Sete. Tudo bem, a noiva sempre atrasa. Sete e cinco. Ele muda o método de busca. Volta sistematicamente para a avenida e tenta começar o caminho do zero. Nada. Sete e dez. Avenida, viaduto, primeira à direita, segunda à direita, terceira à direita, sete e quinze. Suor no colarinho engomado. Cadê a igreja?
Quarta à direita, nada. De repente, o insight: um boteco na esquina. Pára o carro, entra apressado, sete e vinte, dois frentistas no balcão olham estranho para o ser engravatado.
- Conhaque. Duplo.
Vira o copo de uma só vez, franze o rosto todo, devolve o copo vazio, deixa o troco para o belconista e volta para o carro. Sete e vinte e cinco.
Sete e vinte e sete, a igreja. Ele conseguiu chegar antes da noiva e acenar para o parceiro que, nervoso, esperava a doce amada.
Sentou ao lado de uma convidada, parente aparente do amigo, que puxou assunto:
- Já conhecia a igreja?
- Sóbrio, ainda não.
E foram felizes para sempre.

dito assim parece à toa

Constatações de uma nova motorista

Colunas se mexem. Engana-se quem acredita que todo aquele concreto permanece paradinho e imóvel no chão. Eu, na minha santa inocência, concordei em sair com o carro de dentro do Extra na sexta à noite. Que medo! Muitas, muitas, muitas e muitas colunas. Carros me deixam menos stressada do que colunas! Elas parecem que vão pular em cima de você! Elas saem dos seus lugares e desviam para ficar no meio do seu caminho! Mesmo sem carros dirigir em estacionamentos é horrível. A idiota aqui achou que sair de dentro do Extra seria fácil e nunca fiquei tão aliviada na minha vida quando vi a rua e os carros, sem colunas! Sem trick stuff no caminho... aliás, acho que durante um bom tempo dirigir vai ser um tremendo de um treco stressante. Toda vez que o Du me deixa dirigir não dá 10 mins e eu já estou suando. Dá muito medo de bater... as pessoas buzinam... é muito mais difícil do que parece... não o dirigir em si mas sim o dirigir sem se chocar com outras coisas...

oooooooops!

o, cheguei em casa ontem, olho pra minha cama e estava a Lilica (a cachorrinha da vovó) comendo um osso de costela em cima do meu edredon de estimação.
Pego meu travesseiro, olho embaixo tinha um pé de galinha ,mais 5 ossos de costela , 1 lampada quebrada, 2 pedaços de pão e um pedacinho de bolo.A cachorra é esperta, guarda até sobremesa.
O que me deixa putíssima é que eu fecho a porta pra isso não acontecer e sabe o que meu pai faz?
Abre a porta, joga o pé de galinha na minha cama e diz:
- Vai lá, come em cima da cama da Débora.
Ahhhhh posso com isso?
Depois eu o coloco à leilão e me chamam de desnaturada.

Casos e Acasos Virtuais

AAAAAAAAAHHHHHHHHHH EU TE AMO MENINAAAAAAAAAAa TA DOENDO PORRA!

Tá doendo não poder te falar poxa.... ficar falando te adoro, te adoro, te adoro, te adoro, te adoro e repetindo isso quando o que eu queria te falar é TE AMO PORRA!

Pq vc num some daí e vem pra cá?!

Vc não me adora tanto assim....

ah... bosta.... to perdido de novo... viu!? Viu como amar é foda!?

Crianças... não tentem isso em casa, vocês ainda são puras demais pra isso...

(...)

NEW DAYS... NEW SURPRISES.... OH GOD...

Cara! Ela ta gravida! E ela é a mulher cara! Deus.... e agora cara!? Meu Deus... Mãe... Deusa Mãe.... ajuda, por favor, ajuda, deixa que tudo aconteça certo, FAÇA acontecer certo... que isto esteja gravado...

VENTO!!!!!!! Ele não me avisa!!!! Sempre depois... felicidade... um dia feliz... táaaaaaaa mas puta que pariu seu PORRA! Avisa direito seu merda!!!! Caralho...... agora fudeu cara, fudeufudeufudeufudeu... porra... aiiiiiii PORRRAAAAAAAAAAAA...

Pô, seu eu to Feliz... CARALHO! Tô feliz que explode aqui dentro cara! Puta... to feliz demaissss!!!! Mas porra, eu tenho prova amanhã e eu to PREOCUPADO!!!!! CARALHO!!!!! Que HORA pra me avisar ISSO!!! PUTA QUE PARIU!!!!! PORRA DE PROVA!!! EU TO FUDIDO PORRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!! CARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAALHOOOOOOOOOOOOOO!!!!

quer saber.... foda-se!!!!! E que vá tudo pra puta que pariu.... no final tudo da certo... ah, sei lá... aaaaaaaaaahhhhgggggggggghhhhhhhhh

ISSO = DESESPERO!!!!!!!!!
DESPERO => É FODA!!!!!
É FODA PQ EU NÃO SENTIA ISSO A MILHARES DE ANOS!!!!! E AGORA ME EXPLODE DE FELICIDADE E PREOCUPAÇÃO!

ELA É FODA CARA.... ELA É IMPORTANTE PORRA... ELA É UMA L.G.!!!!!!!!! CARALHO COMO É QUE UMA L.G. VAI FICAR GRÁVIDAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!

EI.... PERA.... PORRA.... n..ã...o... a..c..r..e..d..i..t..o vai nascer uma half... GOD... can it be?! pode isso!?

AAAAAAAAGHHHHHHHHHHH! pode ser pior ou melhor....

e ele ainda entra pela janela pra me dizer que isso é normal!!!!!!!!!!!!

PUTA QUE PARIU VENTO!!!!!!!!! PUTA QUE PARIU CARA!!!! CALA A BOCA!!!!!!!!!!

AH.... CHEGA POR HOJE!!!! TENHO QUE DORMIIIIIIIIRRRRRRRR!!!!!!!!

0

DEUS DORME, O DIABO É WORKAHOLIC

O chão sumiu sob meus pés diante da prateleira das mostardas. Simplesmente não havia mostarda escura, só amarela, amarela, amarela e depois catchup, catchup, catchup picante, catchup light e nada de mostarda escura. Eu gostaria de ver quem decide esse tipo de barbárie, no exato momento em que o criminoso fala "OK, RECOLHAM TODA A MOSTARDA ESCURA DESTE MERCADO", batendo a mão na mesa com um risinho de satisfação. Filhodaputa. Não bastasse o fim dos sacos de papel pardo (com o advento da sacola plástica), o confinamento da manteiga Aviador (agora em embalagem de plástico!) a cantos obscuros, a diminuição do espaço para cerveja preta, agora isso. Nessas horas é possível verificar que a civilização ocidental está em franca decadência, não falta mais nada para compôr este quadro dantesco. Se existe um deus, está dormindo, enquanto o diabo move suas peças, no caso, algum gerente cretino se achando muito esperto, dando uma de moderno, chegando em casa e contando para sua jovem esposa "querida, nem te conto, hoje mandei recolher TODA mostarda marrom do mercado" e a vadia "que lindo, querido, eu te amo por isso". Depois o que virá? Que tal exterminar toda a pimenta? E quem precisa de alho?! É assim que o fim avança, nas pequenas coisas, mas quando você vê KA-THOOOON!!! os 4 Cavaleiros do Apocalipse estão dançando na tua sala! Daí não vai mais adiantar olhar para trás e "puxa, eu deveria ter provado aquela beterraba em conserva", "aquela pinga parecia boa mesmo", "esse tal de curry é bom mesmo?", porque estaremos todos na base da sopa de cenoura com água de chuveiro e achando uma maravilha, porque ontem foi batata sem sal com torrões de terra. Começam nosso extermínio pelo paladar, os desgraçados.

ÓDIO

5.10.03

COÇAR OS COLHÕES: UMA ARTE AO ABANDONO

Não sei em que comissão paneleira se decidiu que coçar os colhões é passatempo rústico. Tal ideia não podia estar mais distante da realidade. Coçar os colhões é um prazer contemplativo, próprio de gajos sofisticados e meditabundos. É, aliás, uma actividade que convida à reflexão. Descartes postulou o cogito com o escroto pustulento, tal tinha sido a intensidade com que as unhas haviam friccionado os colhões. Kant teve de aplicar uma cotoveleira de cabedal ao invólucro da colhoada, caso contrário teria chegado ao fim dos seis anos que levou a escrever a Crítica da Razão Pura com um buraco no escroto, e ele sabia que ninguém engoliria a patranha do apriorismo se aparecesse a explicá-la com um colhão fora do saco.

Apesar do inestimável contributo desta prática para a História da Humanidade, o preconceito social continua a pairar, qual afiada picha de Dâmocles, sobre o cu de quem esgatanha a escrotal sacola. Quantas vezes não fomos já apanhados a coçar os colhões por uma gaja apenas para ouvirmos a pergunta sacramental: “Mas tens assim tanta comichão aí?” Indago: é esta a sensibilidade feminina que tanto se apregoa? O raciocínio segundo o qual só se coça os colhões quando há prurido no saco radica no mesmo tipo de tacanhez dos que acreditam que só se deve foder quando se quer procriar, ou beber quando se tem sede. Mas o que mais arrelia todo e qualquer proprietário de um escroto é a hipocrisia que está por trás da pergunta. Como se as bordas da pachacha não suspirassem por unha amiga que lhes arranhe o grelo! Não há no mundo crica – sarnenta ou escorreita – que não arrepele a pintelheira de gozo sempre que sente as conais beiças esgaravatadas por dedo próprio ou alheio, meus amigos. Combatamos, pois, a conspiração destas conas canhestras e maldosas. Cocemos a colhoada com denodo e pundonor, caralho!

O Meu Pipi, oh pois!

4.10.03

- Minha avó detesta a Elza Soares, ela sempre diz que a Elza era destruidora de lares.
- Falam isso sim. Ela é o blog da década de sessenta.

Casos e Acasos Virtuais

Fragmentos sobre o abismo
(d'aprés uma ótima conversa com a Laís)

O abismo é essa distância que existe entre você a realidade. Abismo é a sua diferença em relação ao tempo.

Abismo não é a morte, é a noite. Não é a vida, é o dia que se anuncia quando o seu despertador dispara.

O abismo é a dissolução de tudo - sujeito e objeto, bem e mal, certo e errado, esquerdo e direito, dentro e fora.

O abismo é necessidade imperiosa de racionalidade. O abismo não é o caos, é o pavor ao caos. O abismo não é a loucura, é a percepção de que a loucura está ali, a sua espreita.

O abismo é, sobretudo, fora. Fora de si. Não é a embriaguez, é a lucidez em excesso. Não é a cegueira, é a visão absoluta. Não é o silêncio, é a música que entorpece. O abismo é entorpecedor.

O mais fácil é pensar o abismo como o contrário disso tudo. Mas o contrário disso tudo é só o clichê do abismo. O abismo, mesmo, não te afasta.

Ao contrário, o abismo é algo que te atrai o tempo todo. Para um mergulho profundo, inteiro. Pleno. De solidão e de dor.

elasporelas

(...)

Eu me vejo no incômodo posto de não me definir ideologicamente. Digo, não me definir para mim, porque para cada um dos grupos eu estou mais do que definido. Para os de direita eu sou vira-casaca, neo-esquerdista, coisa e tal; para os de esquerda eu jamais deixarei de ser o nazistófilo que ousou dizer que não votaria no Lula, o direitista-mor que ousa pregar a manutenção da individualidade, etc, etc.

Sou transversal, já disse.

O que eu procuro nestes dois grupos são as nuances de pensamento e o respeito mútuo. Não vejo nem uma coisa nem outra. Claro que aqui talvez eu deva fazer uma mea culpa. Talvez não; definitivamente eu tenho de fazer uma mea culpa. Afinal, já caí na armadilha do patrulhamento ideológico e já ataquei meus “adversários” desmerecendo qualquer tipo de argumento pelo simples fato de ele vir pintado de vermelho. Ou azul.

Mas, como eu dizia, eu procuro nuances nos dois grupos. Não vejo. No primeiro, que se autodenomina “A Corja” (perco o amigo, mas não perco a piada), predomina a adoração a certo filósofo cujo nome não ouso pronunciar, a americanofilia quase patológica, a doutrinação católica, a ojeriza por tudo o que se diz social e a postura reducionista, já exposta, que pressupõe que todos os que não pensam exatamente igual a eles não passam de comunistas comedores de criancinhas.

Aqui, antes de entrar no outro grupo, vale um adendo: é claro que nem todos os integrantes da tal direita festiva, muitos dos quais eu posso considerar meus amigos (ainda), exibem a totalidade das características acima descritas. Mas, em geral, sempre acabam por se enquadrar em algum dos grupos mencionados.

O que importa é que não há nuances de pensamento. Os adoradores de certo filósofo são adores mesmo, com direito a ritos de adoração e tudo. Não se pode tentar contradizer o filósofo que tudo sabe que já surge algum de seus discípulos com a estaca em riste: vampiro comunista! Os americanófilos tampouco permitem uma crítica aos Estados Unidos que seja. Aquilo lá é simplesmente um paraíso. Desde a língua, muito mais rica do que a nossa, até as instituições, passando pelos mitos populares, etc., etc. E se você ousar falar mal, por exemplo, da eleição de Arnold Schwarzneager para governador da Califórnia, vão dizer que é falta de informação, burrice e, em última análise, comunismo em estado terminal. Aqueles que sentem ojeriza por tudo o que é social têm um tilte se você disser que vai fazer trabalho voluntário, mesmo que seja para digitar as obras de Chesterton em braile para os cegos do Benjamin Constant. Perto deles você não pode nem mencionar aquela sigla que começa com “o” e termina com “g”. E os católicos fervorosos não são menos do que isso: católicos fervorosos, que sonham com a volta de inquisidores, fogueiras, castelos cercados por fossos cheios de crocodilos, rainhas, príncipes, bispos gordos se empanturrando de costela de javali, monges copistas, aquela coisa.

O outro grupo, que se diz todo ele “de esquerda”, progressista, esperancista, lulista ou sei lá o quê, tampouco apresenta as nuances que cobro da Corja. São anti-americanistas, lêem, em geral, apenas os mesmos autores marxistas de sempre, sentem um banzo danado do tempo em que havia tortura e tudo era culpa dos militares, são ateus, todos acham que Stálin errou, mas que o sonho não acabou, etc. etc. Acabam por cair no mesmo erro de reducionismo do primeiro grupo, e só não se percebem tão patéticos quanto porque têm suas idéias corroboradas pelo senso-comum, que é tão ou mais poderoso que o filósofo cujo nome não ouso, aquele.

Cadê as nuances? Adaílton Persegonha, uma das pessoas mais inteligentes que conheço na rede (e não me venham desqualificá-lo só porque faz humor; o riso é virtude, ainda que disso discordem os estóicos), dia desses expôs sua incapacidade de se definir politicamente. Ele, com eu, é transversal, ao que tudo indica. Ora, as pessoas capazes de se definirem como direita ou esquerda perdem, a meu ver, a capacidade de serem tão somente elas mesmas. Simples, comum, mas verdadeiro: ao optarem por uma ideologia (o Fukuyama que não nos ouça), acabam por perder sua identidade. Perdem a voz e só fazem ecoar doutrinas alheias.

mais em O Polzonoff

Como eu esperava, a vida de músico de rua não deu muito certo. Ora era alguém que vinha reclamar do barulho, ora era a polícia sem mais o que fazer, ora era algum fiscal da prefeitura querendo mostrar serviço. O dinheiro, que foi muito bom na primeira semana, foi escasseando. Era necessário procurar sempre novos lugares para tocar, o que não é nada fácil: é raro o canto de São Paulo que não conte com seu próprio menestrel. No fim das contas me enchi daquilo, vendi o amplificador e o microfone por um preço até maior do que esperava e fiquei dois meses só no puteiro mesmo. Quando o dinheiro acabou, vendi o computador para pagar mais um mês de aluguel. Ao que tudo parecia minha vida logo se tornaria bem sem graça. E foi aí que surgiu o Baiano, sempre ele:
- Rapaz, você não pode viver assim.
- Sei disso, Baiano. Mas tá difícil. Os poucos bares que ainda contratam músicos querem pagar quase nada. Tocar na rua é suicídio. Eu poderia procurar algo numa praça de alimentação de shopping center, mas isso eu deixo para quando não estiver mais nenhuma alternativa mesmo.
- Então eu tenho uma proposta para te fazer. Bom, eu não: o Deoclécio.
- Deoclécio?
- Meu irmão mais novo. Ele tem uma banda dessas que tocam em formaturas. Acontece que o baixista morreu num acidente e eles precisam de um substituto logo. Você toca baixo, não?
- Claro! Se eu tocar alto o povo vai embora.
- Continue na música, rapaz. Como humorista você tava era lascado...
- Hum. Bom, como eu faço para falar com seu irmão?
- Ah, amanhã tem ensaio da banda. Te dou o endereço e você vai lá.
No dia seguinte eu estava andando pelas ruas da Mooca procurando o endereço que o Baiano me passara. Demorei a encontrar; o bairro é cheio de ruas iguais. Depois de hora e meia andando, suado e já xingando o Baiano, o Deoclécio e toda a população de Monte Santo, finalmente encontrei a casinha acanhada do baterista. Mal toquei a campainha e a porta se abriu. Ao que parecia, estavam me esperando: os membros da banda estavam todos na sala, sentados no sofá esgarçado ou espalhados pelo chão. O que abrira era Gilberto, o dono da casa.
- Você é o Luís, o tal baixista de que o Dionísio falou?
- Sou sim.
- Bom. Aquele ali de óculos é Alexandre, o guitarrista. Do lado dele está Maurício, o tecladista. Os dois no sofá são o guitarrista-solo e o percussionista, Edu e Cabeça. E as duas beldades - apontou para duas gordinhas - são Alice e Shirley, que fazem o backing vocal.
- Prazer em conhecê-los - eu disse timidamente, e todos acenaram de forma vaga. Exceto o Cabeça, um preto de quase dois metros de altura, que teve a gentileza de levantar-se para me cumprimentar. - E o Deoclécio?
- Ah é. DÉO! Ô DÉO!
- Já vou! - uma voz irritada e um tanto aguda.
- Ele já vem.
Ouviu-se uma descarga, barulho de torneira. Então uma porta do corredor se abriu e de dentro do banheiro saiu um homem de cerca de 35 anos, magro demais e enfiado numa calça de couro, sem camisa. Tinha um lenço no pescoço, andava com as pernas muito juntas e os braços colados ao corpo. Uma bicha quase caricata.
- Olá. Eu sou o Deoclécio. O Nísio fala muito bem de você, rapaz. E então, pronto para embarcar em nossa pequena aventura? - ele falava assim mesmo, e olhando por cima do meu ombro, como se estivesse lendo seu texto num teleprompter logo atrás de mim.
- Claro, Claro.
- Excelente! Então vamos ensaiar!
Fomos para um quintal tímido nos fundos da casa. O equipamento dos caras era impressionante, altíssima tecnologia contrastando com a decadência geral do cenário. O instrumento do falecido baixista era um Warwick de 5 cordas lindíssimo.
- Bom, Luís. Essa pasta aí tem as músicas que tocamos. Nada de muito complicado: Queen, Pink Floyd, alguma coisa de Beatles, um axé aqui e ali, um quase nada de MPB, um pouco de samba, enfim, música de formatura. Vamos ver como você se sai.
Tocamos por cerca de duas horas um repertório dos mais ecléticos. Nas três ou quatro primeiras músicas eu ainda estava travado: há muito tempo não pegava num contrabaixo, e nunca havia tocado a sério um de cinco cordas. Mas pelo jeito o Deoclécio gostou do meu trabalho, porque ao fim do ensaio eu estava contratado.
- Muito bem, rapaz. Pode levar o baixo e o amplificador com você. Vai estudando, que temos uma formatura para fazer daqui a dez dias.
- Obrigado, Deocléio.
- De nada. E... Luís?
- Sim?
- Me chame de Déo, ok? Apenas Déo.
- Tudo bem. Déo.
- Melhor assim.
Voltei para casa de táxi com meu novo instrumento de trabalho e já estou ensaiando o repertório da banda há três dias. Tenho que estar afiado para a primeira apresentação. E torcer para que nenhum amigo me veja no palco. É meio constrangedor tocar em formaturas.

Chicote Verbal

A saga do primeiro beijo (Post XIX)

- Interessa sim! Diz logo o que você está pensando.
- Precisamos entrar na sala de recreação.
- Você é louca? Fazer o quê na sala de recreação?
- Pegar umas coisas emprestadas.
- Pegar o quê, Marilu? A sala fica fechada a maior parte do tempo!
- Eu sei. Por isso mesmo que podemos entrar.

Caminhei atrás dela fazendo perguntas, mas de nada adiantou. Fomos parar atrás da escola.

- Pronto! Sabe subir em árvores?
- O que você quer fazer?
- Vai subir ou eu subo sozinha?

Lembrei da minha promessa à diretora e parei de fazer perguntas. Pensei em virar as costas e ir embora, mas sozinha ela acabaria encrencada.

- Ok, eu subo! Mas me diz antes o que você pretende fazer.
- Está vendo aquela janela ali?
- Não, Pedro Bó...
- É a janela da sala de recreação.
- Há quantos anos você acha que eu estudo aqui? Acha que eu nunca vi essa janela antes?
- Pode ter visto antes, mas certamente não sabe que ela não tem tranca.
- Marilu, você é muito trombadinha! Que tipo de gente confere as trancas das janelas da escola?
- Você não imagina a utilidade desta informação. Lá dentro tem tudo o que precisaremos.
- Eu não preciso de nada!
- Como você é chata! Deus do céu! Quer a lista? Uma peruca loira, um pano branco e um pouco de algodão.
- Enlouqueceu de vez... Quer o quê? Sair por aí de mulher loira?
- Isso! Isso mesmo!

Às vezes era difícil conversar com a Marilu sem cair na gargalhada. Ela contava seus planos com as expressões mais insanas. A mulher loira era uma lenda que aterrorizava meio mundo na escola. Aliás, em várias escolas. Uns a chamavam de mulher loira, outros de loira do banheiro ou de loira do algodão, mas todos falavam das supostas aparições da assombração. Várias eram as versões sobre a sua morte. E, durante muitos anos, me perguntei se elas não foram inventadas para assustar alunos indisciplinados.

- Você acredita nessa estória?
- Acredito.

A cara dura respondia absurdos com a maior pinta de séria.

- Acredita em que mais? Mula sem cabeça e sexo só depois do casamento?
- A mulher loira sou eu.

Ela bem que tentou, mas não conseguiu segurar o riso.

- Conta de uma vez...
- Já me vesti de mulher loira várias vezes para assustar os trouxas que tem medo dela. Já entrei até no banheiro dos meninos.

Sentei no chão pra rir melhor, enquanto a destrambelhada escalava o tronco da árvore. Como alguém poderia evitar que aquela louca se metesse em confusão?

- É sério! Uma das minhas expulsões foi por causa disso. Botei uns dez moleques pra correr com as calças na mão. Não teve jeito. Fui expulsa.
- Cara, você é completamente pinel!
- Essa estória da mulher loira é mais velha que a minha mãe. Não entendo como tantos babacas acreditam nela. Vai ficar aí embaixo?

Ela estava prestes a abrir a janela e pular para a sala de recreação. Como o papo estava engraçado, não resisti e fui atrás. Coisa boa que aquilo não daria, mas era impossível ficar de braços cruzados diante de um plano maquiavélico da Marilu.

----------> Continuará em Amarula com Sucrilhos

Entreato

- Eu te amo.
- Eu já sabia, mas não tem como funcionar.
- Você não gosta de mim?
- Gosto, mas eu não quero ficar com você.
- Eu vou estar pra te apoiar, te ajudar. Vou aonde você for, viro tua escrava, tua dona, tua mulher.
- Eu sei do que você é capaz. E por isso mesmo. Você é muito correta, muito nova, muito ingênua. Te falta pecados.
- Viro uma puta hoje mesmo se lhe convém.
- Não é tão simples. Eu sou muito pior do que você vê. E não que seja pequenos defeitos, que isso todo mundo tem. É fraqueza, podridão, é fracasso. E esse tipo e coisa você não vê numa pessoa do dia para noite. Está tão bem escondido aqui dentro que eu vou destilando o meu veneno ao longo dos anos, e isso vai nos deteriorando.
- Eu morro por você se for preciso.
- Taí outro motivo. Esse romantismo puro, essa coisa que vem do coração. Você tem que entender que eu só me dou bem com mulheres fracassadas, com mulheres tristes, que definham ao meu lado, junto comigo. Essa tua paixão pela vida, pelo certo, pelo bom é algo que não quero. Pouco me importa que você esteja no meio leito de morte me dandos as mãos ou morrendo junto. Pra vir ficar comigo você já tem de estar morta.
- Então você acha que só tenho pureza, bondade? Se eu abrir meu coração não vai encontrar nem um pouco de rancor, de gangrena, de pus?
- Pelo menos há um coração no teu peito! Você nunca traiu seu melhor amigo, não quis comer a sua mãe. Tua definição de fracasso é a miha de vitória. Vai embora, vai.
- Se te alegra então, você está diante da melhor mulher que existe do mundo pra você, carregando o maior fracasso de todos: você.
- Eu entendo. Mas se estivermos juntos, não será fracasso teu.
- Ao sair por aquela porta, fique sabendo que não vou voltar. Termino meus dias tão triste e acre como você, remoída de fracasso. E só assim serei a...
- ... mulher perfeita pra mim. Vai de uma vez. Eu sei que eu vou te amar.
- Por toda a minha vida eu vou te amar.

Zazoeira

2.10.03

O LIVRO DE ETIQUETA DE MONSIEUR GOIABÁ

* Séquiço

Eis o primeiro mandamento da elegância goiabal: sua vida sexual é a coisa mais interessante do mundo, mesmo que ela se resuma à mesa-redonda do Roberto Avallone. Quem ousa não se interessar por ela é broxa, frígida, boko-moko ou tudo isso junto. Mencione-a no maior número possível de ocasiões. Por exemplo: seu carro é multado pelo guarda de trânsito. Em vez de pedir que o homem da lei faça vista grossa à sua infração, diga simplesmente: "Ah, que multa chata. Mas não me importo, porque quando eu chegar em casa vou brincar de canguru perneta com a patroa. Ela é uma potranca fogosa, sabia?". Ocasiões descontraídas, como o churrasco da firma, são excelentes oportunidades para você exercitar sua inteligência e seu wit ("Heleninha, eu sabia que você era chegada numa lingüiça"). Blogs confessionais também ajudam.

Mais uma coisa, esta relativa à linguagem. O goiaba elegante sabe que "entre quatro paredes vale tudo", mas, em público, não diz que "faz sexo", "transa", "trepa", "funhanha" ou "furunfa". "Canguru perneta" e outras gírias citadas em peças do Miguel Falabella caem bem, mas melhor mesmo é usar, como Jane e Herondy, a expressão "fazer amor gostosinho". E toda hora é hora de deixar isso bem claro. Eis aqui outro exemplo: uma reunião de amigos. O anfitrião pergunta: "Já vai embora? Fique mais um pouquinho". Se você for casado e estiver com sua mulher, responda: "Ah, bem que eu gostaria, mas hoje não posso. Preciso ir pra casa, onde eu e minha espôusa vamos fazer muito amor gostosinho. Né, bem?".

puragoiaba

PERDOE A MINHA DISTÂNCIA, A DOR É EVIDENTE EM MINHA EXISTÊNCIA

Havia uma esperança. Ela está enterrada. Vamos voltar a viver. É melhor acabar com tudo. Sensação de fim. Medo. Esqueci onde estacionei minha vida. Saí na curva. Perda total sem seguro. Não importa. Viver é correr riscos. Amar é correr riscos -- e sofrer. Amar é sofrer? Se for, prefiro viver. E não morrer. Pelo menos não de angústia. Só quero mesmo sobreviver.

.FAKERFAKIR

mozart do natal passado

Planeta, a Terra; Bairro, Santa Rosa; como todas as crianças deste planeta, fui acometido naquele natal pelo maior inimigo da infância: um brinquedo para induzir-me a uma profissão. E, apesar dos esforços de todos os educadores de rádio, chegará o dia em que os pais, os avós e os tios serão letais para qualquer forma criativa de vida; quem poderá intervir?

Sobrevivi, todavia, ao episódio do kit médico playmobil, embora tenha ficado algum tempo na medicina... um amigo passou com louvor: o pai, que trabalhava na indústria da pesca, deu-lhe uma lancha do playmobil; semanas depois, a lancha esborrachava-se após ser "transformada" num avião...

Na verdade, é bastante inútil tal tipo de intervenção no futuro de outrem; se desse certo, não haveria tanto advogado -- segundo um amigo, não existe jogo de advogado. E haveria muito mais cientistas, haja vista as vendas de Alquimia, Jovem Cientista, Lunetas etc.

De todos os jogos infantis, o que me dava mais desgosto era o Jogo da Vida. Como era chato, e que roleta patética. Era começar o jogo da vida, e eu ia para o meu canto curtir um saudável autismo.

Penso, hoje, em criar o jogo da morte. Ganha quem morrer por último, ou quem chegar ao final, que recebe uma injeção letal e morre de forma indolor. O jogador começaria com uns 500 pontos de sanidade, e lançaria dois d6 (o seis é uma caveirinha) por rodada; cada casa, uma desgraça.

"Parabéns, você teve siameses, eles morreram na separação e tua mulher no parto. Você passou uma semana escutando Dean Martin cantar That's Amoré: menos vinte pontos."

"A árvore que plantaram no dia em que você nasceu secou; jogue mais uma vez."

Não espero fama nem fortuna, mas gostaria de vender mais que o Lango-Lango e o Pula-Pirata.

dies iræ

1.10.03

Evita 

- Dotôra, a senhora me passa um remédio pra ivitá?

"Remédio pra ivitá" é pra evitar menino: pí­lula. Anticoncepcional, desse tipo de pí­lula.

- Passo, passo sim. Pra evitar filho, né isso?
- Não...
- Não?
- Não...
- Pra evitar o quê então?
- Pra ivitá...
- ...
- Pra ivitá hômi, dotôra.
- Oxente, mulher! Como assim?
- Ivitá contato com hômi, dotôra. Quero não! Posso não! Eu sou viúva! Meu marido morreu faz oito meses e de vez em quando, sabe... Me dá umas vontades, uinr negóço.
- Ué. A vida continua, Dona Maria. Mãos à obra! Se tá sentindo uinr negócio é porque o luto já deu o que tinha que dar.
- Quero não, dotôra!
- Taí­. Disso eu nunca tinha visto. Remédio pra evitar homem. Pois num conheço dessa espécie não, viu?

Porque se conhecesse, rarrá. Rarrrá. OD, my friend. Mas num ia dizer isso a ela, né? É preciso que se evite pessoas amarguradas no mundo. All we need is luv.

- Mas dotôra... Eu preciso é muito.
- Precisa nada. E num vai mais namorar não, é? Menina, tu tão nova! Trinta e seis? Tá brincando! E quer ficar viúva enlutada pra sempre, é? Oxe. Que invenção.

Aí­ ela já começou a rir.

- É... Num sei, né?
- Sabe sim, que eu vi por esse seu risinho aí­. Claro que sabe. Namorar! Quer melhor? Voltar ao começo, namorinhos!
- Mas dotôra, a minha religião... Num pode fazer isso, a gente tem que casar. E tem que ser com uma pessoa da religião.
- Humm... Entendo. Qual é a religião da senhora?
- Sou testemunha de jeová.
- Hum...

E nesse momento eu quase começo meu discurso anti-opressão, mas com religião a gente num pode, né? Deixa ela acreditar lá nas coisinhas dela.

- Então o jeito é casar de novo. É o único jeito.
- Mas o meu marido esse que morreu, viu, era tão ruim o hômi, mas tão ruim! Que eu só fiz sofrer esses anos todinhos.
- Mais um motivo pra senhora começar de novo. Né todo homem que é ruim não, Dona Maria. Acredite em mim! - hahahahaha, a pobre! - Tem homem bom no mundo sim! Agora me diga... Esse seu marido que morreu, era também testemunha de jeová?
- Era, e então.
- Olhaí­... Num vou nem dizer nada.
- E com quem? E com quem a senhora acha que eu vou casar? Tem não, dotôra, hômi!

O Consultório Sentimental do Juá.

- Ué, num sei, né? Eu nem conheço a senhora bem, a gente acabou de se encontrar. A senhora é que deve saber quem dava um bom marido, né não? Pra senhora, assim. Mas homem nesse mundo é a tal coisa que num falta. Pode até apoucar, é verdade, vezenquando ataca umas secas de homem, e tem um monte aí jogando no mesmo time da gente, se é que a senhora em entende... Mas cedo ou tarde aparece um, Dona Maria.
- ...
- Espero que pra senhora apareça logo cedo, pra senhora acabar com essa idéia troncha de tomar remédio pra evitar homem. E um assim bem bom, bem bonito, bem cheiroso. E gentil e educado.
- Dotôra... A senhora pensa que é novela, é?

Aí eu morguei. Geral. Miseravelmente.

Vai, Cristiane, apôitilúde, achando que é novela.

autonauta da cosmopista

Baudelaire desnudado

- Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.

- A qualquer pessoa, desde que saiba entreter os outros, é dado o direito de falar de si.

- Gostar de mulheres inteligentes é um prazer de pederasta.

- O que me entedia na França é que todo mundo se parece com Voltaire.

- Não podendo suprimir o amor, a Igreja quis pelo menos desinfetá-lo -- por isso inventou o casamento.

- Quanto mais um indivíduo cultiva as artes, menos trepa.

- A fila de pequenos literatos que se pode ver nos enterros, distribuindo cumprimentos a torto e a direito e procurando fazer-se lembrados dos fazedores de jornais.

- O homem de espírito, aquele que nunca estará de acordo com os outros, deve esforçar-se em apreciar a conversa dos imbecis ou a leitura de livros ruins. Disso extrairá amargas alegrias que compensarão sua fadiga.

- É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século.

- Quando Jesus Cristo disse "Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão saciados", limitava-se a fazer um cálculo de probabilidades.

- O amor pode provir de um sentimento generoso -- o gosto de prostituir-se -- mas é logo corrompido pelo gosto da propriedade.

- Para uma natureza tímida, a portaria de um teatro assemelha-se um pouco ao Juízo Final.

- O que há de atraente no mau gosto é o prazer aristocrático que sentimos em chocar os outros.

- A glória pessoal não é mais do que o resultado da acomodação de um espírito à imbecilidade de um povo.

- Cultivei minha histeria com prazer e terror. Ainda continuo a sentir a vertigem e hoje, 23 de janeiro de 1862, tive um estranho pressentimento: senti a fria asa da imbecilidade passar sobre mim.

Prosa Caotica

Papo de barbearia

- Bom dia!
- Bom dia. Como o senhor quer o corte?
- Hmmm... faz o seguinte: dá uma aparada, mas não tira muito em cima, ok?
- Sim, senhor.
- ...
- ...
- ...
- ...
- E o Botafogo? Será que sobe mesmo este ano?
- ...
- O time vem jogando bem, acho que tem chances...
- ...
- E esse lance da Previdência? Será que vai dar certo?
- ...
- Será que o povo vai tomar na tarraqueta de novo com essa reforma? Não sei, não sei...
- ...
- Com licença: o senhor poderia parar de cortar um minuto?
- Claro, senhor. Algum problema com o corte?
- De forma alguma: o corte está ficando ótimo. Mas é que o senhor não fala enquanto corta.
- Como assim?
- Oras, todo barbeiro que se preza é tagarela.
- Desculpe, mas é que eu me concentro muito no que faço...
- Mas não pode esquecer de tagarelar! Você não sabe como isso é importante durante um corte de cabelo!
- Como assim, senhor?
- Mas será que não te ensinaram nada na escola de barbeiros, rapaz? A barbearia é um local onde os homens se reúnem prá conversar sobre o universo masculino: futebol, economia, política, mulher pelada, carros e afins... essas coisas. É como um botequim, só que sem birita. Entendeu? Um corte de cabelo sem conversa é como... ir ao motel e não transar.
- Entendi, senhor. Conversarei mais com a clientela a partir de hoje!
- É assim que se fala, garoto!
- Pois bem, senhor: como vai a esposa?
- ...
- ...
- Faz 3 meses que ela fugiu com o balconista do açougue.
- ...
- ...
- ...
- ...
- Pronto. Ficou bom?
- Ficou ótimo. Mês que vem eu volto.
- Bom dia, senhor.
- Bom dia, rapaz.

Alea Jacta Est

mais enrolada que jibóia em xaxim

Queimei o feijão, a bancada do escritório não ficou como eu queria, quebrou a cafeteira, o arroz também queimou, a filha tá com virose e febre, tenho o aniversário dela prá organizar, o gato não come a nova ração, a faxineira não veio, a passadeira fugiu, a água acabou e meu trabalho acumulou. Tem certeza que hoje ainda é quarta-feira?

A f r o d i t e